fev 2, 2012 - Riacho de Santana    1 Comment

Brás

 

Há, em todas as comunidades, um tipo humano que se caracteriza pelo desprendimento e se conforma, espontaneamente, com sua condição, seja ela qual for… Espirituoso, convive bem, tendo o humor como um traço marcante de personalidade. São emblemáticos dessa categoria vários riachenses: Pedro “Joli”, tio de meu pai, que tinha das suas; Júlio “Frito”, cuja história de namoro com certa moça da Rua Grande, por ele contada, levava-nos às gargalhadas; Deraldo Coutinho, que muito aprontou… Passando, certa feita, por uma lavoura de arroz já cacheando, na Canabrava, viu a sua saída para a falta de dinheiro… Colheu alguns cachos e se dirigiu para a cidade. Foi ao escritório de Augusto Carvalho e o convenceu comprar, à vista, algumas arrobas do produto, que lhe não pertencia… Como tudo neste mundo tem troco, traiu-o o próprio papagaio, que não aprendera mentir: denunciou, a um freguês incauto, que o toucinho que seu dono vendia estava ardido. São muitos… Muitas!

No dia 3 de fevereiro de 1932 nasceu, em Riacho de Santana, no sítio Nazaré, o segundo filho de Deocleciano e Matilde Castro… O menino teria a predestinação de vários nomes: Batizado José, registrado Alírio de Assis, apelidado Brás. Como o apelido, como sempre, é o comandante da identidade, Brás é seu nome. Foi Joaninha, de Júlio, quem o deu.

Aos nove meses foi entregue, por sugestão do Coronel Chiquinho, que ninguém ousava contrariar, ao casal João Castro (irmão de Deocleciano) e Glória (irmã de Matilde), para ser cuidado até um ano de idade. Acontece que o casal se apegou ao menino e não o devolveu mais… Foi mandado a Caetité para estudos, mas não prosseguiu neles, concluindo apenas o primário. Com João e Glória viveu toda uma vida, só deixando a Rocinha com a morte dos seus senhores.

Em 1955, depois da procissão de 15 de agosto, trajando terno branco foi esperar a noiva à porta da Igreja… Quando ela saiu, Celeste que a acompanhava, vendo-os de brando, desafiou: Por que não se casam agora? Casaram-se! Casou-se com Mariá Castro, professora ativa, que se dedica à culinária de bons doces, com quem teve quatro filhos, todos nascidos e criados na Rocinha… Ah! O primeiro filho só apareceu um ano depois, dissipando aqueles maledicentes comentários, que a pressa do casamento fomentara…

Com o Brás armênio, médico, santo auxiliador e protetor da garganta, que lhe emprestou o apelido, só encontrei a aproximação do 3 de fevereiro. Com o Brás francês (Blaise Pascal), filósofo moralista, tampouco… Encontrei semelhança com a personagem picaresca de Alain-René Lesage, Gil Blas de Santillana, que também foi criado e educado por um tio, em Oviedo…  Blas (que é Brás em espanhol) foi mandado a Salamanca para estudar, mas não estuda, iniciando suas peripécias humorísticas aos dezessete anos… Para fechar a aproximação que se me apresentou, comparei Oviedo com a Rocinha, Salamanca com Caetité, Blas com Brás, e conclui que o caráter do nosso, sem dúvida, é melhor que o do espanhol…

Estava com dezesseis anos quando começou acompanhar Álvaro Castro, seu primo, “professor” graduado em brincadeiras de bom e mau gosto, nas farras e festas. Alvinho, que morreu cedo, de uma provável insuficiência cardíaca, o chamava  “meu Brás”.

Foi a dupla a uma festa, em Santa Rita… Chegando à fazenda, no local onde deviam deixar os cavalos arreados, Alvinho, cujo senso de pilhéria perecia estar sempre a postos, lhe disse:

– Vamos aprontar uma, meu Brás!

Voltaram um pouco distante da casa e desarrearam seus cavalos, escondendo ali as selas. Sem serem percebidos, trouxeram os cavalos desarreados, deixando-os juntos aos demais, que foram também desarreados e as selas jogadas numa cisterna próxima. Entraram, para se reunir com os outros convivas; dançaram, beberam rabo-de-galo… Alvinho fumou charutos… Quando a festa terminou, próximo ao raiar do dia, os cavaleiros foram apanhar seus animais para empreenderem a torna-viagem, mas se surpreenderam com os cavalos desarreados. Foi uma celeuma! Quem fez isto? Perguntam-se em uníssono!

– Isto só pode ser coisa de Alvinho e Brás, disse um muito irritado.

– Não, não é… Os cavalos deles também estão sem as selas, interveio outro, em tom de conciliação.

Chegaram Brás e Alvinho e, de manha, para despistar a turma, este foi logo perguntando:

– Alguém viu quem fez essa desgraça?

Procuraram em torno, de mentira, para desfazer o resto de desconfiança, e saíram puxando os cavalos, deixando o grupo metido na confusão. Lá adiante, fora do alcance dos outros, arrearam os animais e foram-se embora.

O tumulto perdurou por mais algum tempo, mas logo se convenceram que não tinham o que fazer. Puxaram seus cavalos e também se foram…

Quando o dia clareou, o anfitrião foi à cisterna apanhar água… Destravou o sarilho, mas a lata não desceu. Removeu a tampa e se deparou com as selas… Não teve mais dúvida: aquilo só podia ser obra de Alvinho e Bás!

Recém-casado, aprontou com Mariá, sua esposa. Fingiu loucura… De revolver na mão, olhava-a estranhamente e repetia, com insistência, a frase ameaçadora:

– A gente mata que ama!

Certo dia, a jovem esposa, acreditando que ele enlouquecera e que podia consumar a ameaça, logo que o viu de revólver na mão, começou a chamar tia Glória, sussurrando, para não irritá-lo:

– Tia… Tia… Tia…

Num almoço, naquela grande mesa do varandado da Rocinha, em torno da qual estavam reunidos muitos convivas, inclusive visitantes ilustres da família e amigos (Érico, Sr. Fábio, Clemente, Bilé, Rosana etc.) aprontou com Virinha. Olhava-a ameacadoramente segurando grande faca, que estava à mesa para cortar a carne… Levantou-se abruptamente em sua direção e ela se pôs a correr, pelo carreiro que levava aos passadiços próximos ao São Félix. Saltou o primeiro, e ele atrás; correu ainda mais, mas não conseguiu saltar o outro, onde se entregou ao relaxamento dos esfíncteres…

São tantas as histórias de Brás, que dariam um livro!

Caminhando pela Rua de Trás, parou para cumprimentar Generaldo, que estava à janela, debruçado…

– Bom dia Generaldo, como vai!

Queixoso, como sempre, com aquela voz mansa e cantada, respondeu Generaldo:

– Não tou bom não Braizin

– Tá doente? Perguntou-lhe Brás.

– São as vistas, disse Generaldo, que não me deixam ver mais nada. Mal divulgo as coisas… Só o conheci pela voz.

Nesse momento passava pela calçada uma balzaquiana trajando um vestido fino, que deixava à mostra certas proeminências daquele corpo em desalinho. Cumprimentou-os e seguiu. Quando ela estava distante, Generaldo, quem mal enxergava Brás, perguntou:

– Você viu Braizin?

– O quê, Generaldo?

– Como ela está singela…

Brás logo percebeu que não era mais de oculista que Generaldo necessitava…

De outra feita, a vítima foi Mário de Zeca Rocha… Foram ao Benedito Cigano, onde Brás devia tirar o leite e trazê-lo para a Rocinha. Sabendo que Mário andava com dificuldade para alimentar uma junta de garrotes, Brás lhe propôs uma troca: Ajuda-me tirar o leite e carregar a lata, que lhe permito deixar os garrotes no pasto. Mário tirou o leite e carregou a lata… No meio do caminho, Brás, fingindo loucura, tirou a roupa, arregalou os olhos, assanhou os cabelos e, com porrete na mão, partiu na direção de Mário, que desatou a correr. Chegou à Rocinha em frangalhos, arfante, sem conseguir articular uma só palavra… Vendo-o naquele estado de choque, tia Glória, com aquela paciência de Jó, preparou o calmante clássico do sertão (água com açúcar) e lhe deu para beber… Alguns minutos depois perguntou:

– E Brás, meu filho, onde está?

Mário, respirando fundo, buscando se acalmar, respondeu:

– Enlouqueceu Dona Glória… Vem aí nu, com um porrete na mão!

Logo depois chegou Brás, calmo, vestido, penteado, preocupado com Mário, que desatou a correr, sem motivo, como que estivesse fugindo de uma assombração…

“O riso é um desabafo, uma revolta, uma vingança de nossa personalidade, constrangida à atenção, à coerência, ao respeito, ao medo, que nos são impostos, por nós mesmos, ou por outrem. Por isso tal libertação é alegre e, às vezes, gloriosa”. Creio que Brás, na simplicidade de sua vida, soube compreender bem essa profunda lição filosófica.

Por em realce esse traço marcante de sua personalidade, que admiro, é a minha homenagem nos seus 80 anos.

 

Fernando Guedes

3/2/2012

 

dez 6, 2011 - Mensagens    5 Comments

Mensagem de Natal

 

Prezado leitor,

Prepara-se para mais uma comemoração do Natal de Jesus… Numa antinomia entre o seu real sentido e a opulência consumista, que caracteriza esta nossa fútil sociedade contemporânea. Assim, refletindo, de outra maneira, deixo-lhe esta mensagem (onde se lê contrate, leia-se contraste):

 

 

 

nov 1, 2011 - Poligrafia    6 Comments

Saberia quanto custa ser herói…

Abundância em medicina é penúria. (Miguel Couto)

Esse segredo ou há de ser formal e absoluto, ou, se não o for, não passará de um embuste grosseiro, de uma arlequinada indecorosa, de uma farsa infamante de um homem de bem. (Francisco de Castro)

 

No sábado, 29, como de costume, cheguei à triagem do hospital público onde trabalho, às sete… Ali não tem lugar a presunção; se algum notável lá chega é por obra do acaso, se o coma, na circunstância de um acidente, lhe rouba a consciência… Por volta das 10 recebi um paciente de 56 anos, pouco mais jovem que o outro, que à mesma hora, sem que eu o soubesse, era assistido por uma equipe de notáveis especialistas do Sírio-Libanês, hospital de excelência, lá na Paulicéia desvairada. A mesma desdita em circunstâncias contrárias…

Quando tornei à minha casa e liguei a televisão, só me deparei com o câncer de ex-presidente da República… No Globo News o apresentador entrevistava um notável cirurgião, especialista em câncer, que lhe respondia perguntas tolas… Ali, naquele ambiente, parecia-me que o que contava, para além da informação, era a audiência, isto é: pontos no IBOBE… Nesse ridículo consultório midiático, apresentador-médico e médico-apresentador, que nunca viram o paciente, revelavam detalhes de sua doença, como se o tivessem examinado com rigor propedêutico… Era a medicina a serviço do desserviço, em busca da notoriedade fugaz…

Um desenho da laringe foi projetado no écran e a voz do especialista, em fundo, discorria sobre a anatomia do órgão e opinava acerca a localização do tumor que acomete o ex-presidente. Pausa! A repórter, em link direto do Sírio-Libanês, precisava comunicar: “O ex-presidente deixará nesse momento o hospital, com diagnóstico confirmado e tratamento definido, que terá início amanhã às nove horas”.

A equação é esta: Prestigio pessoal do paciente + especialistas dedicados ao caso + todos os recursos técnicos arregimentados = eficiência no diagnóstico e tempestividade da terapêutica, que resulta, sempre, quando a doença o permite, em bom prognóstico. Oxalá fosse sempre assim, com os outros doentes…

O paciente retornará ao Sírio-Libanês para colocação de um cateter e iniciar a “quimioterapia de indução”, disse o apresentador, com autoridade de prescribente… Amanhã, quando a primeira dose de quimioterápico lhe correr pela veia, a eficiência terá batido recorde: menos de 72 horas, do diagnóstico à terapêutica, para ventura do paciente! Nesse lapso, a mídia se incumbiu de difundir uma abundância de aulas de anatomia, de patologia, de oncologia e de terapêutica, de fazer inveja a muitos cursos médicos que há por aí. Por outro lado, a penúria da deontologia, cooptada pela imbecilidade do utilitarismo…

Bem diferente, no que se refere à atenção, é o caso do outro paciente… Luta, há meses, para conseguir o tratamento de um câncer de estômago. Magro, espoliado, desidratado, com anemia profunda, causada pela ação cunsumptiva da doença, deparei-me com ele no curso de um acidente vascular cerebral, que lhe causou paralisia do lado esquerdo do corpo. Como se diz no sertão: para cima de queda, coice! Disse-me sua filha, que o acompanhava, que já estava cansada de bater de porta em porta, e ouvir a resposta padrão: “Não é caso para este hospital!

Velho clínico, em caminho da retirada, sem nenhum cabedal de especialidade (com a convicção de que a medicina é, na atualidade, uma profissão eficaz para os bem sucedidos) o admiti e fiz o que me estava ao alcance: prescrever hidratação, sedação da dor (sedare dolorem opus divinum est) e transfusão de sangue; requisitar tomografia computadorizada do crânio e avaliação neurológica. Quando saí do hospital o deixei deitado numa maca metálica, ainda sem o colchonete, entre outras, num espaço que não permitia mais que 15 centímetros de separação entre elas, resistindo estoicamente, sem esboçar nenhum queixume…

Longe de mim a apologia da igualdade entre os homens. Minha ingenuidade não chega a esse dislate, nem acalenta a hipocrisia de tratamento igualitário entre os pacientes que inspiraram estas linhas. A prática, com a qual me defronto diariamente, desmentiria a impostura.

Se os coloco em confronto, a esses dois pacientes, similares apenas na desdita do câncer, não é para reclamar, para o que assisti, o mesmo tratamento dispensado ao ex-presidente da República. Sei que entre ambos há uma distância astronômica, que nunca será transposta, malgrado a letra (morta) da Constituição… Para um, penúria; para o outro, abundância, garantidas pelo Estado, sem nenhum constrangimento moral. Confronto-os para constatar que um deles teve a oportunidade, como Presidente da República por oito anos, de acabar com as humilhações que os outros pacientes passam em face da doença, sem a menor insinuação de que foram diferentes os oitos anos do seu antecessor, o sociólogo. Nem a sociologia de um, nem a experiência de nordestino retirante do outro, em dezesseis anos de governo, resistiram à corrupção do mando… Há muitas décadas a saúde pública, nesta desgraçada nacionalidade, vem decaindo a passos largos, impondo a quem necessita de seus serviços as mais cruéis humilhações, de fazer corar a própria indignidade.

Virá, a seguir, a outra tediosa face da hipocrisia: a construção do herói que luta bravamente para vencer o câncer, fazendo ciclópicos sacrifícios… Não fumará mais Partagas; não beberá mais Romnée-Conti; não tomará mais um trago da Anísio Santiago… Enfrentará o tédio de consultórios luxuosos, sem espera nem fila; onde afáveis médicos e enfermeiras educadíssimas lhe serão sempre solícitos… Não precisará se preocupar com a quitação fatura do convênio para obter autorização dos procedimentos, porque com ou sem autorização eles serão realizados tempestivamente. Ah, a conta… Imaginem… importunar o paciente com essa ninharia: a “dignidade do cargo”, enfim, para que serve? Eis, ai, como esta República engendra seus heróis…

Saindo ontem da visita que fez ao paciente, a Presidente da República não economizou otimismo: “Ele está com um humor excepcional!” Como alguém, mentalmente sadio, pode apresentar humor excepcional sabendo-se portador de um tumor maligno na laringe? Confesso que não alcanço os fundamentos dessa psicologia, que me parece um disfarce, intencionalmente produzido para enganar incautos. Nessa fase inicial de incertezas, de uma doença grave, reclama-se, para o bem do paciente, discrição e prudência…

Fizeram a mesma coisa com o ex-vice-presidente José de Alencar: “herói de ocasião”, cujo heroísmo, no enfrentamento da doença, dependeu seguramente do seu prestígio, de médicos competentes, de bons hospitais, de recursos terapêuticos avançados, da mordomia oficial, tudo à deposição, a tempo e a hora, facilitando-lhe a resistência para vencer as vicissitudes impostas pela gravidade do mal.  Mas, se esse mesmo vencedor tivesse que experimentar a indiferença nos hospitais e ambulatórios do SUS; precisar da tal central de regulação; tentar fazer uma tomografia computadorizada ou ressonância magnética; esperar meses sem conta por uma cirurgia, para tratar o câncer, não teria resistido o quanto resistiu… Saberia quanto custa ser herói!

 

Fernando Guedes
31/10/2011

 

out 14, 2011 - Médicos    29 Comments

Match governamental: CFM x ANVISA

 
 

Abundância, em medicina, é penúria. (Miguel Couto)

Em medicina, verdades de convenção temo-las quase sem conta. (Francisco de Castro)

Desengane-se o médico que jamais conseguirá chegar a providência do remédio onde leva a ambição da cura. (Francisco de Castro)

 

Não foi sem contestação interessada que a Resolução 52, da ANVISA, dispondo sobre a proibição do uso das substâncias anfepramona, femproporex e mazindol, e medidas de controle da prescrição e dispensação de medicamentos que contenham a substância sibutramina, veio a lume. Mal entrou em vigência, logo as reações contrárias de médicos, da indústria farmacêutica, de sociedades de especialistas e até, imaginem, do Conselho Federal de Medicina…

Esta foi a reação inicial da autarquia, em nota de 4/10/2011, publicada no seu portal: “O Conselho Federal de Medicina (CFM) define essa semana quais serão as medidas judiciais que adotará contra a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária de proibir a venda de algumas substâncias usadas no tratamento da obesidade. A entidade defende o uso dessas formulas como auxiliares no tratamento de pacientes e pede o fortalecimento de mecanismos de controle de seu uso”.

Depois, decidiu-se e ajuizou a ação contra a ANVISA, que assim noticiou: “O Conselho Federal de Medicina (CFM) deu entrada na Justiça Federal, na tarde desta quinta-feira (13), com Ação Civil Pública contra a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária de proibir a venda de algumas substâncias usadas no tratamento da obesidade (anfepramona, femproporex e mazindol).

Enfim posto um estranho round: Governo x Governo, isto é: Conselho Federal de Medicina (Autarquia) x Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Agência Reguladora), cujo resultado, seja ele qual for, não interessa à sociedade… Apenas demonstrará, com clareza, a urgente necessidade da instituição, através de lei, do controle externo do exercício da medicina. Os médicos, principalmente os mal apercebidos para o exercício da profissão, outrora e ainda hoje, pretenderam e desejaram uma irresponsabilidade absoluta (AFRÂNIO PEIXOTO). Se hoje se conformam com o princípio da responsabilidade, nunca admitiram a idéia de um controle externo de sua atuação prática, como o atesta a corporação normativa e julgadora da moral profissional, de origem sindical, eleita e dirigida em caráter honorifico pelo eles mesmos. Evidente que isto precisa ser mudado…

Abro os Temas de Medicina, na página 201, e me deparo com um juízo exemplar do eminente professor Carlos da Silva Lacaz: Anarquia Terapêutica! É possível que os contemporâneos não saibam de quem estou falando, por isto saibam agora: Dr. Carlos da Silva Lacaz era aquele a quem Dr. Adib Jatene tomava a benção todos os dias lá na “Casa do Arnaldo”: fora paraninfo da turma de 1953! É preciso dizer mais alguma coisa? Quanto à “Casa do Arnaldo”, se a não conhecem, paciência…

O antigo catedrático de Microbiologia e Imonologia daquela conceituada Faculdade diz, no seu artigo, que o Professor Almeida Prado (1889 – 1965), em 1952, reclamava que “não existia no mundo outro país em que o comércio de medicamentos medre mais viçosamente e mais sem peias do que aqui”. Porém o mestre guaratinguetaense não disse tudo acerca dessa praga, que é de antes. Já Francisco de Castro (1857 – 1901), aquele de quem Rui disse ser o único exemplo de um sábio num artista, combateu, com clareza e consciência, o charlatanismo das drogas da última revista que só curam quando ainda no cartaz dos reclamos.

Dr. Mário Rigatto (1928 – 2000), com aquela primorosa didática que o distinguia, escreveu, em 1976, o atualíssimo artigo Os Quatro Campos da Medicina na Virada do Milênio: Prevenção, Cura, “Calote” e Criação, que devia ser leitura obrigatória para médicos. O terceiro campo, o “calote” (drogas para emagrecer etc.), diz o mestre porto-alegrense, é o mais festejado e vaticinou: é provável que entre o próximo milênio em clima de prosperidade. Como se diz, no calão, “não deu outra”! A prosperidade da indústria farmacêutica é uma festa… Médicos de permeio, a colaborar com esse “calote” contra a saúde pública.

A ANVISA, no exercício de seu dever legal, embora tardiamente, decidiu proibir a fabricação, importação, exportação, distribuição, manipulação, prescrição, dispensação, o aviamento, comércio e uso de medicamentos ou fórmulas medicamentosas que contenham as substâncias anfepramona, femproporex e mazindol, por entender que essas substâncias, para além de não serem eficazes para o tratamento da obesidade, causam danos irreparáveis à saúde de quem as toma.

Não tenho nenhuma pretensão de ministrar, nestas linhas, uma lição de farmacologia e muito menos dissertar sobre a fisiopatologia da obesidade. Interessa-me apenas fazer uma crítica ao comportamento antinômico desses órgãos governamentais que não se entendem em prol da saúde pública, notadamente quando nas suas órbitas gravita interesse cuja natureza o médico prudente desconhece.  O CFM (Autarquia da República) litiga contra a ANVISA (Agência da República), que será defendida pela AGU (Advocacia da República). A República decai, porque seus homens vêem se alheando do princípio das instituições, numa demonstração inequívoca de que o amor próprio estar a serviço da ostentação e não do interesse social.

Sabe-se que o Brasil, no mundo, é o terceiro maior consumidor dessas drogas; que o comércio delas envolve a estupenda cifra de 350 milhões de reais por ano, importando num consumo de 5 toneladas de anorexígenos. Aí está uma pista: o capital. Não sou contra nem a favor dele, apenas acho que o capital deve ser colocado no seu divido lugar, de uma entidade amoral. Li há alguns anos um artigo da revista Circulation, que fazia uma análise sobre a rearrumação dos capitais que eram aplicados no parque industrial da guerra-fria, quando esta entrou em derrocada, com a Perestroika e unificação da Alemanha. Essa dinheirama saiu à procura de usura em outros parques industriais, e viu, no que explora a assistência à saúde (aparelhos, instrumentos, medicamentos etc.), um próspero campo onde plantar suas raízes. Em 33 anos de exercício da medicina, tendo tomado há muito tempo a decisão de não receber os representantes desse capital, recusando-me em prescrever esses tóxicos, sou testemunha da cooptação da medicina pela indústria farmacêutica, que vem sabendo tirar, com máxima eficiência, o proveito disso…

O mercado das drogas novas não dá tréguas…  Acrescenta-se um radilzinho à molécula-base e aí está a nova droga, que faz o mesmo efeito da que lhe originou, a contar com a classe médica para lhe fazer a propaganda, impondo-a ao paciente. Brindes, cartões de descontos, financiamento de congressos, de viagens etc.: eis o estipêndio desse marketing disfarçado!

Não há nisto benevolência, aliás, não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da atenção que eles dão a seus próprios interesses. Nós não nos dirigimos à humanidade deles, mas a seu egoísmo; e não é nunca das nossas necessidades que lhes falamos, é sempre do benefício deles (ADAM SMITH). Se a hipertensão pode ser controlada com um medicamento barato por que prescrever o da moda, sempre mais caro? Se pode a doença ser tratada com um medicamento genérico, por que prescrever um de marca?  A resposta não a encontrará Nas Bases Farmacológicas da Terapêutica (Goodman & Gilman), talvez nA Riqueza das Nações…

Consulto as bulas das substâncias impugnadas (bulas porque é a informação que os pacientes dispõem) e me deparo (ipsis litteris) com os efeitos colaterais que essas elas podem causar ao organismo humano:

Anfepramona: Palpitações, taquicardia, elevação da pressão sanguínea, dor precordial, arritmia; superestimulação, nervosismo, excitação, tontura, insônia, angustia, euforia, depressão, tremor, cefaléia, surtos psicóticos, indução de convulsões em epilépticos, secura na boca, paladar desagradável, náuseas, vomito, desconforto abdominal, diarréia, constipação, alergias, urticária, erupção de pele, equimose, eritema, impotência, distúrbio da libido, irregularidade menstrual, depressão da medula óssea, agranulocitose, leucopenia, queda de cabelos, dispnéia, dor muscular, disúria e polaciúria. Femproporex: Vertigem, tremor, irritabilidade, reflexos hiperativos, fraqueza, tensão, insônia, confusão, ansiedade e dor de cabeça; calafrios, palidez, rubor das faces, palpitações, arritmia cardíaca, angina, hipertensão ou hipotensão e colapso circulatório; boca seca, gosto metálico, náuseas, vômito, diarréia, câimbras abdominais; alteração da libido; dependência psíquica e tolerância. Mazindol: Confusão ou depressão mental; erupções cutâneas ou urticária; secura na boca; nervosismo ou inquietude, insônia; diarréia, náuseas, cãibras abdominais, paladar desagradável; sonolência; cefaléia; visão borrada; alteração da libido, impotência sexual, disúria, polaciúria; cansaço e astenia.

Isto me levou imediatamente àquele rifão sobre os médicos, que não gostamos de ouvir: são figuras estranhas que prescrevem drogas que pouco conhecem, para tratar doenças que conhecem menos ainda, a pessoa que desconhece totalmente (VOLTAIRE).  Parece-me uma imprudência governamental, que beira o limite da prevaricação, a permissão do comércio e da prescrição de tais substâncias. Não há especialista que me seja capaz de convencer do contrário. Mas não é só isto, há mais: a manipulação dessas substâncias em formulas que as associam a outras também nocivas, cujo grau interação prejudicial ninguém poderá dizê-lo. Em matéria de terapêutica parece que desaprendemos aquela clássica lição ministrada por Rober Burns: “os melhores esquemas tanto para os camundongos quanto para os humanos são os mais simples”.

Não cometeria o dislate de transcrever uma dessas fórmulas, que são prescritas por médicos, para serem aviadas nessas farmácias de manipulação que há por aí, para não me constranger a mim mesmo… Sei de uma bela mulher que emagreceu pela intoxicação que lhe causou a fórmula. Já viram, por acaso, um usuário de crack gordo?

Não dissertarei, reitero, sobre a obesidade, mas não vejo nenhuma necessidade de tratá-la agredindo de forma tão estúpida o organismo que já sofre suas conseqüências, porque há outros meios. Meu objetivo é apenas dizer-lhe, caro leitor, que concordo com a decisão da ANVISA, que deve prosseguir com essa desintoxicação da nossa farmacopéia a bem da saúde pública, embora contrariando interesses capitalistas; como concordo com a instituição do controle externo do exercício da medicina. Nenhuma profissão, notadamente as que dizem respeito à saúde, que é o bem mais preciso que o indivíduo possui, para além da própria vida, porque esta sem saúde não vale à pena vivê-la, não deve ser controlada por si mesma, neste mudo onde a deontologia foi assaltada e estuprada pelo utilitarismo sem limites.

 

Fernando Guedes

14/10/2011

set 29, 2011 - Fragmentos    10 Comments

Carta à Ministra Eliana Calmon

Salvador, 29 de setembro de 2011

 

Ilustríssima Ministra Eliana Calmon,

 

Teve o “verde ninho onde cantou Castro Alves”, a Bahia, um notável Calmon eletivo: Afrânio Peixoto. Escrevendo sobre essa nobre família ele disse que o terceiro Miguel teve a predestinação de uma dinastia. O I Miguel fora o Marques de Abrantes, estadista, da junta da Independência na Bahia; o II Miguel, sobrinho do I, que o educou para a administração e a magistratura, foi juiz íntegro; o III Miguel, engenheiro e político, foi o grande amigo do maior polígrafo brasileiro. Não a conhecendo, não posso afirmar que seja descendente desse nobre clã; mas, sendo daqui e uma Calmon, a chance de não ser é pequena. Assim, para mim, está explicada a atitude da magistrada!

A toga negra, como a noite escura, lembra-me a capa do estudante de Coimbra: por dentro é da cor do luar… O negrume de fora é a solenidade; a alvura de dentro é a pureza. Solenidade e pureza são os atributos do magistrado imparcial. V. Exa. referiu-se às togas negras por fora e por dentro, que não simbolizam esses atributos indispensáveis à magistratura imparcial. A Bahia a compreendeu, eu a compreendi e isto me basta.

A reação desproporcional dos seus pares no CNJ e de ministros do STF, em face de sua declaração, que é preciso combater a impunidade dos bandidos que se escondem atrás da toga, é simbólica da irresponsabilidade absoluta, que os maus magistrados sempre defenderam nesta desgraçada nacionalidade. Retratar-se? De quê? Afinal não é a verdade inconsútil, como a túnica de Cristo? Não há remendar o que V. Exa., cingindo toga alva por dentro, como as areias de Abaeté, em noite de lua cheia, disse com propriedade e conhecimento de causa.

Li, nO Globo, que um ministro do STF teria dito: “A nossa corregedora  cometeu um pecadilho, mas também não merece a excomunhão maior”. Não conheço a intimidade da inquisição da magistratura, portanto tomo isto como um deboche, cuja intenção me pareceu a de menosprezar a gravidade de sua declaração.

A sociedade baiana, conhecendo-a, sabe que a Senhora não generalizou, que sua declaração foi dirigida à fração marginal da magistratura, que não pode continuar impune, sob pena de nodoar todo o seu conjunto. Irritados, não se sabe a razão, talvez pelo entorpecido da “fumaça do mau direito”, quiseram obter uma liminar com a sua retratação. Como V. Exa. mostra-se juíza que vai logo ao mérito da causa, a não deferiu. Não confessando a heresia, que não cometera, o auto-de-fé se resumiu numa patética nota, lida pelo ministro presidente em reunião do CNJ.

Não se desanime; vá em frente; não permita o esvaziamento das funções do CNJ, que é a única instância com a qual a sociedade pode contar, para conter os abusas do judiciário. Para terminar, confio-lhe um recado de Rui, dirigido a certos magistrados (que querem lhe patrulhar a consciência de juíza), para que V. Exa., com essa coragem destemida, lhes transmita: ”Medo, venalidade, paixão partidária, respeito pessoal, subserviência, espírito conservador, interpretação restritiva, razão de estado, interesse supremo, como quer te chames, prevaricação judiciária, não escaparás ao ferrete de Pilatos! O bom ladrão salvou-se. Mas não há salvação para o juiz cobarde.”

Atenciosamente.

Fernando Guedes

 

set 27, 2011 - Poligrafia    5 Comments

Encontro do Grupo dos 4

Coimbra p’ra ser Coimbra
Três coisas há de contar:
Guitarras, tricanas lindas
E um estudante a cantar
Popular

Minha capa vos acoite
Que é para vos agasalhar:
Se por fora é cor da noite,
Por dentro é cor do luar…
António Nobre

O Hilário disse um dia:
Ninguém mais será formado
Quando a velha academia
Deixar de cantar o fado
Gabriel de Oliveira

 

Gidi, Paulo, Magnavia e Fernando

Esses quatro são: José Magnavita Menezes, Paulo Barreto Torres, José Florentino Gidi de Oliveira e eu, aqui revelados, por ordem do avanço nos anos… Somos, entretanto, todos iguais, com a mesma idade mental, na busca do estreitamento da convivência social e da coisa mais importante nesta nossa efêmera existência: a amizade sincera. Foi o trabalho, como médicos da Petrobras, que fez a nossa aproximação, e eu acabei, assim, encontrando no trabalho formal, hierarquizado, movido e mantido por contrato, para servir ao lucro de quem o explora, rara característica prazerosa… Criamos a confraria dos 4, com compromisso informal de nos reunirmos com freqüência, para uma refeição e muita conversa. Se as obras-primas de convivência espiritual gregas realizavam-se nos banquetes e a cena central do cristianismo é a ceia estamos no bom caminho da comunhão…

Derinha, Ogvalda, Rita, Conceição, Hilca, Tânia, Edleusa e Uiara

Desta vez, foi um jantar em minha casa, no sábado, 23, preparado todo ele, a exceção da sobremesa, por Hilca, que se está revelando uma Babete com toques luso-baianos! A sobremesa, por implicar uma confecção mais complicada, preparamo-la na sexta-feira, depois que retornamos da festa de premiação do Concurso Literário 2011, promovido pela regional baiana da Sociedade Brasileira de Médico Escritores, que distinguiu, com o segundo lugar, minha crônica Um dia no Rio. Quando a terminamos passava das 3 horas da manhã. Isto, para mim, é satisfação, como a de quem toca, ao violino, uma sonata de Bach; a de quem debuxa, sobre a tela fina, a pintura que o talento inspira; a de quem esculpe, no mármore informe, a escultura imaginada… Satisfação que só se encontra no trabalho livre, diferente da que se procura, por racionalização ou por fuga, no trabalho formal (ou formalizado), que a não pode produzir!

Além dos 4, estiveram presentes: Glauco e Rita, Anderson e Uiara, Calmito e Tânia, Amilton e Edleusa, Rômulo Carrera e as esposas dos três: Derinha, Professora Ogvalda e Conceição, que primeiro chegou, para minha satisfação, porque tinha algo muito particular para lhe mostrar (sobre a minha escrivaninha, o Santo Antonio que ela pintou, para a proteção desta precária pena) e ficamos a conversar sobre a vida, filosofando, enquanto aguardávamos os outros…

Casquinha de siri; arroz de bacalhau à moda de Hilca, bacalhau à moda de Marcília Castro e strogonoff de camarão; sericaia (tradicional receita de D. Mariquinha Castro); vinhos (Douro, Rioja, Bordoux e Porto) e cervejas, compuseram o cardápio da noite.

Rômulo, Gidi, Amilton, Magnavita, Anderson, Paulo, Glauco, Fernando e Calmito

Rolou muita conversa… Glauco, Calmito e Amilton discutiram a política e suas intermitências: a corrupção, a falta de ética, o enriquecimento ilícito etc. etc. Falamos de literatura, de música, de cultura enfim… Dra. Ogvalda leu o Hino a Coimbra, magistral capítulo de Viagens na Minha Terra, de Afrânio Peixoto, e viu a razão porque Dr. Davey, seu pai, amava tanto Portugal… Porque, sem ter conhecido a tricana do Mondego, venerava-a com o mais puro amor, como à sua Universidade: à Biblioteca Joanina, altar mor da cultura… No seu Noturno está confessado esse amor!

Rita, professora de letras, com planos de morar temporariamente em Coimbra, para conclusão de estudos, leu, para Glauco, Anderson e Uiara, Um dia no Rio, tecendo, ao fim, criticas favoráveis ao estilo do autor, que, sendo sinceras, tomei-as por condecoração.

Ouvimos boa música… A guitarra de Joaquín Rodrigo executando os concertos Madrigal e Andaluz; fados com Maira da Fé e Paula Ribas, que cantou Canoas do Tejo, que poderia chamar-se Fado de Hilca…

Canoa de vela erguida,
Que vens do Cais da Ribeira,
Gaivota que anda perdida,
Sem encontrar companheira…

Magnavita ouviu Alcides Gerardes cantar a Cabecinha no ombro, e cantarolou com certa nostalgia fazendo dueto nestes versos…

Quem chora no meu ombro
Eu juro que não vai embora…

Como está bem casado há 54 anos, deduzo que não cantarolou em vão: Houve choro no seu ombro…

A Sericaia ao lume

Enfim chegou a hora da Sericaia… Panela à mesa (vai à mesa na mesma panela do preparo), serviram-na. Degustaram-na… Foi uma unanimidade: Maravilha!  Rômulo, gastrônomo amador, foi à cozinha saber de Hilca detalhes do preparo. Como disse que fará a Sericaia, devo transmitir-lhe, agora, o conselho que não pude dar-lhe naquela noite: Cuidado, Sericaia, quando feita com intenção, arranja casamento… Que o diga D. Emerlinda!

Já recebi estes comentários: “Ainda em estado de graça pelo prazer do banquete de ontem, sublimado pela sericaia…” (Dr. Magnavita); “Quando esses amigos se encontram é sempre muito bom e desta vez com a degustação, ou melhor, comilança (não sobrou nem um pedacinho) da maravilhosa Sericaia” (Dr. Gidi).

Magnavita, Fernando, Glauco, Gidi, Paulo e Anderson

À saída, coloquei a Balada da Despedida, letra e música de Fernando Machado Soares, grande cantor do fado coimbrão, que tive a ventura de conhecer pessoalmente, para Dra Ogvalda ouvir (o fado de Coimbra é diverso do fado de Lisboa, embora haja quem diga, não sei se com razão, que é um derivativo deste. Em Coimbra o fado a vida acadêmica estão intimamente casados, desde que o Hilário, boêmio estudante de medicina, o cantava altas noites no choupal… Sinto-o mais sentido; a guitarra, que se trina com mais solenidade, emite acordes mais plangentes, e as letras são poemas mais elaborados. Cantado, tradicionalmente, apenas por homens, quase sempre estudantes, essas aves de arribação, cujos amores, diz o Vira de Coimbra, não duram mais que uma hora, e terminam, muitas vezes, sob a negra capa que o abrigou…):

 

Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.

Que as lágrimas do meu pranto
São a luz que me dá vida.

Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.

Quem me dera estar contente
Enganar minha dor
Mas a saudade não mente
Se é verdadeiro o amor.

Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.

Não me tentes enganar
Com a tua formosura
Que para além do luar
Há sempre uma noite escura.

 

Não se canta o fado de Coimbra sem a capa; não se canta o fado de Lisboa sem o xaile (se o cantar, sem a capa ou o xaile, não o faz com regra). Ambos, capa e xaile, negros, símbolos de solenidade, não propriamente de tristeza, porque, como disse Fernando Pessoa, “o fado não é alegre nem triste. É um episódio de intervalo”. Assim terminado esse nosso encontro, espero seja breve o intervalo que nos separa do próximo…

Fernando Guedes
25/9/2011

 

 

ago 29, 2011 - Riacho de Santana    4 Comments

Elogio da Sericaia

Crentes, comei as coisas boas, que eu vos destinei, e agradecei ao vosso Deus, em vossas preces.

Alcorão

 

Foi nos conventos femininos que a elaboração doceira atingiu notoriedade, destinada a uma elite consumidora, habituada aos melhores paladares.

Alfredo Saramago, in Doçaria Conventual do Alentejo

 

 

Não pense besteira, porque é doce fino, merecedor de uma página literária… Como a não encontrei entre as dos nossos clássicos, tentarei preencher a lacuna com a precariedade da minha pena.

Família do Cel. Eujácio Castro

É nome feminino, sobre cuja etimologia os dicionaristas divergem. A fonte mais antiga que consultei, Diccionario Critico e Etymologico da Língua Portugueza, de Francisco Solano Constâncio, edição de 1858, diz que talvez venha do grego siraion, que significa vinho fervido com especiarias. O Caldas Aulete, edição de 1980, não opina sobre a origem da palavra, mas a edição eletrônica atual afirma ser proveniente do malaio serikaya, o que está em acordo com o Houaiss: do malaio srikáya, manjar composto de leite, ovos e açúcar, com datação de 1609. Admitamos, pela lógica, que esta seja correta, para resolver o problema da etimologia. Cuidemos agora da origem da receita…

É outro ponto controverso para os gastrônomos portugueses, porque uns afirmam ser indiana, ao passo que outros a reputam brasileira. Na Gastronomia e Vinhos do Alentejo, magistral obra coordenada pelo antropólogo eborense Alfredo Saramago, à página 242, lê-se esta afirmação: “A dúvida nunca mais se resolve. Uns dizem que a receita veio da Índia, outros que ela veio do Brasil. O que é certo é que desde os tempos da nossa Expansão que a sericaia ou sericá era executada, com todo o esmero, por dois conventos alentejanos que se arrogavam de direitos de importação da receita.” Os dois conventos são o das Chagas de Cristo, de Vila Viçosa e o de Santa Clara, de Elvas. Este o chamou, ao doce, Sericaia; aquele o batizou de Sericá. Sou mais pela origem brasileira, porque tenho, para isto, irretorquível razão, que adiante revelarei…

À Rua Portas de Santo Antão, 58, em Lisboa, está a Casa do Alentejo, nesta um bom restaurante oferece, entre as sobremesas regionais, Cericá com Ameixa de Elvas. Em Elvas serve-se a sericaia com suas famosas ameixas, as melhores de Portugal, que provem de ameixeiras “Rainha Cláudia”. Então há: Sericaia, Sericá e Cericá, em Portugal. No Brasil apenas Sericaia.

Compulsei Doçaria Conventual do Alentejo, outra obra maravilhosa de Alfredo Saramago, em busca das receitas alentejanas…

Num litro de leite, desfaça 250 gr. de farinha de trigo, uma pitada de sal e 12 gemas de ovos bem batidas. Ponha 500 gr. de açúcar em ponto de pasta e deite a mistura. Retire do lume, ponha num prato de estanho, golpeie levemente com uma faca, do centro para fora, e ponha no forno a tostar.” (Do livro de receitas do Convento das Chagas de Cristo)

“Bata 12 gemas com 500 gr. De açúcar e misture muito bem 200 gr. De farinha com um litro de leite. Misture tudo e ponha no lume. Assim que começar a tomar a consistência de um creme, retire do lume e deixe arrefecer. Bata as claras em castelo e misture com o creme. Ponha uma pitada de canela e o sumo de um limão.

Deite tudo num prato de estanho, às colheradas grandes, de uma forma desencontrada. Uma é posta no sentido do centro para as bordas e a outra é atravessada. Polvilha-se com canela em pó por cima e vai ao forno.” (Do livro de receitas do Convento de Santa Clara)

Como se pode deduzir, a farinha, em ambas as receitas, implicará uma consistência mais ou menos firme, permitido que o doce seja cortado em fatias, para ser servido à moda de Elvas, com ameixas em calda ou simplesmente só. Assim, sem ameixas, é como costumo comer a sericaia quando freqüento o Da Silva, no Rio de Janeiro. Estranha-me a ausência da canela na receita do Convento das Chagas de Cristo. Por quê? Não o sei! Talvez porque a canela evoca a mulher…

D. Mariquinha

Mas, há outra receita que considero a melhor de todas: A do caderno de Maria Magalhães Castro, Dona Mariquinha, esposa do Coronel Eujácio de Souza Castro. Esta receita foi passada para sua filha Matilde Magalhães Castro (Tia Tide), que a confiou à sua, Nilza Castro, portanto uma tradição familiar. Ei-la:

Ponha dois litros de leite para ferver com a canela em pau, até reduzir o volume a um litro e deixe esfriar. Acrescente-lhe dez gemas de ovos peneiradas, uma xícara de açúcar, uma colher das de café de sal e misture. Peneire a mistura numa panela de alumínio ou esmaltada, para torná-la mais fina e homogênea. Acrescente-lhe duas colheres das de sopa de manteiga e polvilhe com canela toda a superfície. Leve ao banho-maria por uma hora e meia, com um braseiro sobre a panela.

O resultado, acreditem, é o mais fino e saboroso creme que o gosto pode experimentar. Saboreado, com um cálice de Vinho do Porto, ultrapassa o limite do profano, para ser o “manjar dos Deuses”. Com esse manjar esses Castros, em Riacho de Santana, excederam-se na fidalguia de bem receber e agradar… Eu sempre fui distinguido com tal fidalguia e, para continuar a tradição, incentivei Hilca a aprender, com Nilza, o preparo da sericaia.

A razão da minha convicção sobre a nacionalidade da receita está em Bugrinha, romance regional, de Lençóis, o coração diamantino da Bahia, quando o autor a menciona em interessante passo. Dona Ermelinda, mãe de várias moças, dialogando com o senhor Matos Contreiras, que lhe oferecera um livro de receitas de doces, diz:

Olhe, precisa ir lá em casa provar uma especialidade minha… um doce da terra… uma “sericaia”…

D. Ermelinda, diziam, prendia os futuros genros com a sericaia… Provou, casou. Se não quer, não coma da sericaia de D. Ermelinda.

Outra personagem, Pereira Miranda, que conhecia a astúcia de D. Ermelinda e a fama casamenteira de sua iguaria, advertiu Matos Contreiras:

– Se comer da “sericaia”, é tiro e queda…

Isto é, casamento certo!

Que quis dizer o mestre da poligrafia brasileira, conhecedor profundo da cultura portuguesa, pela voz de sua personagem, com as expressões: especialidade minha e um doce da terra? D. Ermelinda, baiana, de Lençóis, estaria corroborando a origem brasileira da receita? Estou convencido disto, e de mais: receita baiana! Como a de D. Mariquinha, em que a farinha não entra, para não corromper a delicadeza do creme, creme capaz de arranjar até casamento…

Matilde Castro

Os “doces” baianos descendem dos portugueses, porque é honra a boa tradição, havendo o elemento autóctone, que, graças a Deus, não é somenos (Afrânio Peixoto). Não sei se convencerei os gastrônomos portugueses de que a dúvida está resolvida: É brasileira, da Bahia, a sericaia, um desses elementos autóctones da nossa doçaria conventual ou patriarcal, que, entretanto, não diminui a Elvas e Vila Viçosa o mérito da propagação da iguaria.

 

Fernando Guedes

29/8/2011

 

ago 10, 2011 - Riacho de Santana    1 Comment

Nada mudou…

A queimada! A queimada é uma fornalha!

A irara – pula; o cascavel – chocalha…

Raiva, espuma o tapir!

… E às vezes sobre o cume de um rochedo

A corça e o tigre – náufragos do medo –

Vão trêmulos se unir!

 

Castro Alves, in A Queimada

 

Tenho dois livros de cabeceira: Breviário da Bahia (1945) e Livro de Horas (1947). Abri este, ao acaso, na página 276, e comecei ler Pragas Nacionais

“Quem considera a civilização, no Brasil, tem um aperto de coração. É tudo tão rápido, tão instável, tão efêmero! Mal começa o presente, é já passado. Acabou-se. Monteiro Lobato escreveu um livro com o título fatídico: Cidades Mortas. Todas jovens, porém, mais 50 anos, taperas, a vida de uma geração.”

Lembrei-me, então, de um comentário que recebi acerca do meu artigo Carvão, publicado neste espaço… O leitor escreveu que concordava com a tese, mas esperava que os órgãos competentes apoiassem os produtores de carvão vegetal, para não acontecer com eles o que aconteceu com os produtores de algodão que, sem apoio oficial, quebram-se todos… Tono a me concentrar na leitura:

Derruba-se a mata; seca, é queimada; coivara, aceiro, plantio, boas colheitas. Depois, ao sol, sem irrigação, sem adubo, desmedra, deixa de dar. Para a frente, fazedores de desertos! E vai-se acabando o Brasil. Assim, o vale do Paraíba, cuja prosperidade fez o reinado de Pedro II, 50 anos, que acabaram na penúria, cujos remédios, Abolição e República, foram mortais. Ao noroeste de São Paulo e ao sul de Minas, que ocorreram, está acontecendo o mesmo, com o auxílio da broca, do Instituto do café, da “política”…”

Pois é: já vimos esse filme outras vezes… Agora, aí em Riacho de Santana, é a produção ilegal de carvão vegetal a tábua de salvação de aproveitadores. Desses que simulam possuir créditos legais de carbono e mandam queimar o que resta da caatinga e do cerrado. Penso nessas siderúrgicas irresponsáveis que compram essa produção ilegal; vejo aqueles caminhões carregados de carvão ilegal estacionados no Posto Bom Jardim, esperando o comando do espia para prosseguir no tráfico…  Essa gente está preocupada com a quebradeira! Mas, a lição continua:

Temos tido lavoura e indústrias que chegara, prosperaram, acabaram. O pau-brasil durou até o começo do século XIX, mas limpou o nordeste de suas matas e, não reflorestado, deu no cataclisma das secas. Tivemos as madeiras duras, de lei, que acabaram pela derrubada, fogo e não replantio. Não é que no século XVIII produzíamos o anil, indústria próspera, que chegou, em 1776, à exportação de 5.000 arrobas? Onde está ela? Depereceu e acabou-se, com concorrência das colônias inglesas. Com Dom João VI veio a sugestão do chá, que foi aqui anterior ao café, e, entretanto, onde está ela, esta lavoura? Não ficaram nem traços.

A minha geração, anos 50 do século XX, ainda alcançou mata ali atrás e aos lados do Xavier Marques! No recreio da escola, saímos ao redor para apanhar bananinhas… Atravessada a ponte do São Félix, mata… Fartura de frutas silvestres: umbu, alcaçuz, maracujá etc., cujo trabalho era apenas o de colhê-las, porque a natureza se incumbia da produção. O rio corria o ano inteiro; a cachoeira era o banheiro da cidade; o “peralzinho” foi palco de muitos piqueniques; os engenhos Recreio, Invernada, Rocinha, Limoeiro, Nazaré, na moagem, eram uma festa… No quintal de suas casas os regos corriam, oferecendo água em abundância para o serviço doméstico. À noite, quando a ambição dormia, as mulheres iam apanhar água, para beber, na passagem de Dr. Venâncio… Volto ao texto:

A nossa bandeira e as nossas armas tiveram fumo e café, a cercá-las. O café começava e o fumo estava na primazia. Simonsen calculou em 12 milhões de libras esterlinas ouro o valor aproximado do tabaco, na era colonial. Todo da Bahia, todo de Cachoeira. No século XVIII ia quatro quintos para a África, para comprar escravos, um quinto para a Europa. Assim, em 1763, de 248 mil arrobas, 185 foram para a África e 56,7 para Portugal. Concorrentes apareceram: desaparecemos. Na Virgínia e nas Antilhas estava a concorrência. Além disso, e por isso, o Estado fizera o monopólio: o parasitismo que ocorre à produção. Morre a galinha dos ovos de ouro. Ou vai morrendo.

Como lá, em Riacho, morreram Recreio, Invernada, Rocinha, Limoeiro e Nazaré; desapareceram as frutas silvestres; secou a cachoeira; as pedras nuas, sem a cobertura hídrica, do peralzinho, são a testemunha muda de um crime ecológico… Agora vou até ao fim:

Estamos arruinando tanto o café, aos olhos de todos, que os americanos já falam de protegê-lo, contra nós mesmos, para que, em nossa instabilidade, não recorramos ao algodão, concorrendo com eles…”

“Para onde foi a nossa borracha, apenas extrativa? Em Ceilão, ou Malaia, fizeram-se plantações, que nos eliminaram do mercado. Nosso Miguel Calmon ficou mal-visto porque preveniu: não queremos nem ser avisados.”

“Tudo é mais ou menos assim. Se os esforçados plantam e fabricam ou extraem, aparece o fisco, os parasitas do Estado, para cobrar, vexar e matar a produção. A Bahia, como as irmãs. Não é que estamos matando o cacau? Em vez de melhorar o nosso mau produto, para vendê-lo mais caro, admitimos “vícios próprios”, escândalo impróprio… Mas, enfim, tínhamos a vantagem da quantidade. Nem mais esta: Acra, na Costa do Ouro, venceu-nos. E, além disto, melhora sua produção, para vendê-la, antes da nossa. Nós fundamos um instituto “comercial”, para acabar com o que ficar. É uma maldição: um trabalha, os outros atrapalham. Um produz, os outros escamoteiam, por vários processos oficiais, o produto.”

“Entretanto, o Correio Brasiliense, de Hipólito da Costa, em Londres, junho de 1808, dizia: “O cacau do Brasil sempre terá bom preço no mercado, assim como o tem agora”. Agora, o cacau do Brasil, apena das Bahia, é o que tem o preço mais baixo, onerado pela praga oficial de um instituto, que concorre com o comércio exportador, suprimindo-o e alimentando uma burocracia inútil, e incompetente, e … nem se fala! Senhor do Bonfim livrai-nos da “proteção” oficial, livrai-nos da “praga” do cacau.”

Pelo resultado a que chegou o cacau, com a “vassoura-de-bruxa” escrevendo-lhe o epitáfio, parece que o Senhor do Bonfim não ouviu a súplica do notável polígrafo. Em Riacho, que chegou a possuir três usinas beneficiadoras de algodão, a mesma incúria, oficial e particular, acabou com a lavoura… Culparam o “bicudo”, como outrora imputaram a responsabilidade da desgraça de outras lavouras à saúva… Falaram em quebradeira… Apelaram para a produção ilegal de carvão vegetal, que faz a “prosperidade” de meia dúzia de espertos, que talam a mata remanescente da caatinga, com irreparáveis conseqüências para o bioma e as fontes hídricas escassas, agravando ainda mais o natural fenômeno da seca, nesse semiárido sofrido. A dedução inescusável é esta: nada mudou…

 

Fernando Guedes

3/8/2011

 

 

ago 9, 2011 - Poligrafia    4 Comments

Comportamento ambivalente

Decidir a agir numa situação concreta é um problema prático-moral; mas investigar o modo pelo qual a responsabilidade moral se relaciona com a liberdade e com o determinismo ao qual nossos atos estão sujeitos é um problema teórico, cujo estudo é competência da ética.

Adolfo Sánchez Velásquez, in Ética

 

 

Em outro artigo, que publiquei neste espaço, intitulado Quando os bons não fazem o bem, opinei sobre a interferência dos conselhos de medicina nos movimentos de reivindicação de interesses dos médicos.

Ora, se “o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Medicina são os órgãos supervisores da ética profissional em toda a República e, ao mesmo tempo, julgadores e disciplinadores da classe médica” (Lei 3.268) não lhes cabe, direta ou indiretamente, reivindicar qualquer interesse dessa mesma classe, ainda que seja o mais alto e honesto deles. Entre as atribuições legais dos conselhos (Art. 5º. e Art. 15) não consta nenhuma referente ao apoio de movimento de classe. Quando a lei diz que lhes cabe, a esses conselhos, “zelar e trabalhar por todos os meios ao seu alcance, pelo perfeito desempenho ético da medicina e pelo prestígio e bom conceito da profissão e dos que a exerçam legalmente”, está se referindo, exclusivamente, ao conceito moral, que é o que importa à Ética.

Questões de outra ordem, que interessam à economia profissional, devem ser tratadas em outras instâncias. Para este fim existem os sindicatos e as associações de classe.

Entre os comunicados que costumo receber do departamento de comunicação dos conselhos, chegou-me uma nota com teor comemorativo, em face de uma liminar favorável à classe, com efeito suspensivo da decisão administrativa da Secretaria de Direito Econômico (SDE). É sábio que esse órgão, do Ministério da Justiça, fez algumas proibições contrárias aos interesses econômicos da classe médica, para “preservar a concorrência e os direitos dos consumidores na área de saúde suplementar”. Malcontentes com tais proibições, as entidades médicas (como se convencionou chamar o conjunto CFM, AMB e FENAM), ingressaram em juízo contra a decisão da SDE, com obtenção de liminar. Contra essa liminar, a AGU ingressou com agravo de instrumento, no Tribunal Regional Federal da 1ª. Região, logrando sua suepensão…

Como liminar é o que é: tentativa de se colocar o carro adiante dos bois, própria de sistemas judiciários ineficazes, sob a desculpa da tal fumaça de bom direito (fumus boni iuris), a que sempre recorrem os que não ousam enfrentar o mérito no nascedouro das causas, criou, no espírito dos autores, apenas expectativa transitória, que outra transitoriedade (agravo de instrumento) dissipou. Assim, aos solavancos, prospera, aqui, a justiça…

Agora, enquanto não cassam os efeitos do tal agravo, os conselhos, inconformados com a frustração de sua pretensão, estão de “LUTO PELA SAÚDE”, como sugere a tarja preta no portal médico.

Afirmam que litigarão até ao fim, para obter a anulação da decisão do Tribunal Regional Federal. Isto é: Estado x Estado, numa contenda mal encaminhada, pela confusão de ordens decorrente desse caos jurídico que há muito tempo se instalou nesta desgraçada nacionalidade.  Ora, não cabe a essa autarquia, que são os conselhos de medicina, fiscalizadora do exercício profissional, com competência para julgar médicos, o papel de órgão de classe, com tais ações reivindicatórias, que deve caber exclusivamente ao sindicato e às associações. É estranhíssimo que o Estado litigue consigo mesmo, o que não seria o caso se tal litígio fosse Sindicato x SDE ou AMB x SDE, que soaria conforme, sem impedimentos. A quem serve a SDE? À sociedade, em nome do Estado. O Sindicato dos Médicos e AMB a quem servem. À classe médica! E o CFM, a quem serve? Não deve ser a uma fração dessa sociedade, à classe médica! Como a SDE, deve servir à sociedade, em nome do Estado. Se a classe médica tem interesses a serem reivindicados, o que é justo e perfeito, que os reivindique através de seus Sindicatos e de suas Associações. Que lutem os médicos pelos seus direitos, com as armas próprias.

O Estado muita vez incide na deformação de excesso de poder… O mando, disse-o Afrânio Peixoto, corrompe. É certo que corrompe, por isto exige-se, numa sociedade civilizada, o controle externo dos poderes. Quem controla os conselhos de medicina? Num sistema arcaico, com um regimento processual à moda dos caducos tribunais correcionais, julga às portas fechadas, numa reserva que não interessa à sociedade. Não será por tal procedimento que a honra da classe será preservada. Nunca pude entender porque um Conselho de Ética fique submetido à burocracia judiciária, com assessoria advocatícia. Isto, penso, é o que Pascal qualificaria de confusão de ordens.

Constato, com o que minha pupila vê da realidade, que cada macaco não está no seu galho (outros, com outros olhos, poderão ver cada macaco no seu galho). A ética é o estudo teórico da moral… Esta é que disciplina os atos do comportamento humano, na sua ação prática, do que decorre a obrigação moral, cuja natureza inescusável é a liberdade de escolha. Eu, cá com a minha consciência, última instância íntima de apelação, sem nenhum fator extrínseco que o obstaculiza a minha ação, decido fazer ou não fazer algo: eis a obrigação moral.

Podemos admitir, para a nossa orientação moral, duas éticas: A ética dos princípios e a ética dos resultados. A primeira se serve de algo que está antes da ação, um princípio, uma norma, geralmente uma proposição prescritiva qualquer, cuja função é a de influir de maneira mais ou menos determinante sobre a realização de uma ação (Norberto Bobbio). Em outras palavras, condiciona o ato moral ao dever, orientado pelo princípio. Não se cogita nunca da conseqüência do ato ao praticá-lo. Faço o que devo, aconteça o que acontecer. Assim agem os que se pautam por princípios. O médico que adota essa orientação moral, raridade hoje em dia, não se pauta por outro princípio senão o de bem assistir o seu paciente. Ética dos princípios: dever: deontologia.

A ética dos resultados é a que condiciona o ato à sua própria conseqüência.  Para dar um juízo positivo ou negativo de uma ação, se serve de algo que vem depois, isto é do resultado (Ibidem) Sob esta ótica, o ato moral deixa de se orientar pelo dever, para obedecer apenas à sua conseqüência. Se, ao juízo de quem o praticará, for bom ou conveniente faz, se não o for, não faz. Por esta ética se orienta, por exemplo, aquele cirurgião que se ausenta do ato cirúrgico, transferindo-o para outro, somente porque o plantão chegou ao fim, por não lhe ser conveniente sair uma ou duas horas mais tarde, embora chegue sempre atrasado ao plantão… Ética dos resultados: teleologia: utilitarismo.

Essa digressão foi apenas para dizer que acho impróprio considerar os atos morais em face de regras de direito, submetê-los a procedimentos judiciais, cercá-los com cacoetes advocatícios. Para expressar a conclusão a que cheguei há muito tempo: a medicina atualmente é uma profissão deturpada pela confusão comportamental de seus próprios profissionais. Comportamento estranho, ambivalente em todos os aspectos: pretende-se deontológico com práticas utilitárias.

Fernando Guedes

8/8/2011

 

ago 9, 2011 - Poligrafia    3 Comments

Rumo ao subsolo…

Sir Willie Arbuthnot Lane, do Hospital Guy´s, em Londres, tornou-se o gênio redentor dos intestinos, como o professor Sigmund Freud, de Viena, foi deliciosamente o redentor do sexo.

Richard Gordon, in A Assustadora História da Medicina

 

 

Acabo de ler, na Revista ABM, na seção Farol das Estrelas, um intrigante relato. Fê-lo Dr. Izio Kowes, notável cirurgião, sob o título “Onde chegamos e para onde iremos?

Fora ele chamado, posto que de sobreaviso, num sábado à noite, para assistir uma doente, em situação de emergência (ao médico apraz fazer a distinção entre urgência e emergência, o que é somenos, porque está obrigado a socorrer sempre). Atendeu-a, executando procedimento para desobstrução do intestino, que durou cerca de três horas. Receberá pela prestação do serviço profissional R$ 42,00.

No dia seguinte, domingo, “por um golpe do destino”, disse ele, foi compelido a procurar um encanador para lhe desobstruir a privada (emergência evidentemente). O profissional não o atendeu no domingo. Nunca aos domingos… Resolveu-lhe o problema, na segunda-feira, em trinta minutos, pelo que recebeu R$ 150,00.

Fez o notável cirurgião, pelo que pude deduzir da leitura, uma comparação, para justificar o título do seu relato: “Onde chegamos e para onde iremos?

Não há negar, os médicos chegamos, pelas nossas próprias pernas, ao mais baixo degrau da dignidade profissional. Chegaremos, com a nossa persistência cínica, ao subsolo dessa dignidade, porque não há como, nesse estado de degradação que nos estiola, deter a descida. Não podemos, com os meios utilizados, alçar a um patamar mais elevado.

Permita-me, preclaro doutor, dizer-lhe, com toda a humildade de um velho clínico, já em retirada, amargando os sentimentos dolorosos de ver tão distante as profissões de fé numa profissão liberal, que as obstruções do seu relato, a do intestino e a da privada, são incomparáveis.  Assim como os casos não se prestam para a argumentação das mazelas de uma classe incapaz. Primeiro porque o cirurgião não é, no caso em tela, um profissional liberal, é prestador de serviço, por isto não recebe honorário. O honorário está na poeira de um passado muito distante, quando o médico cobrava em face da condição econômica do seu paciente, sem se submeter ao absurdo dessas tabelas, que desonram tão sagrado mister. O encanador, no caso, é que é o profissional liberal, que sabe e pode valorizar o seu trabalho. Não precisa implorar por reajuste em ridículas tabelas, decreta, ele mesmo, o aumento dos seus valores. Manda em si mesmo, ao contrário do médico, que se avilta, nos “esquemas” tão corriqueiros (evidentemente não é o caso do cirurgião), para obter, por essa via transversa, a ilusória valorização do seu trabalho.

O aspecto mais significativo desse caso, entretanto, não é o econômico, é o moral. O cirurgião cumpriu uma obrigação moral, o encanador uma obrigação social. Que difere uma da outra? A obrigação moral, contraída em face do dever, é inescusável. Deixar de atender um paciente estando obrigado a fazê-lo, pela condição do sobreaviso, ônus contraído livremente, suscita sanção ética e jurídica. O médico, nessa situação, estará sempre obrigado.

A obrigação social, contraída em face da conveniência, sem nenhuma relação com o dever, é escusável. O encanador não está obrigado a desobstruir nenhuma privada, porque não o  impele nenhuma norma deontológica ou jurídica. Atende se quiser.

O médico, obrigado, veja o paradoxo, na atualidade, não tem a faculdade de cobrar o que julga merecer, porque presta serviço a plano de saúde, que obedece a ridícula tabela aceita pelas chamadas entidades médicas. Foi-se o profissional liberal que era: já não o é! O encanador, desobrigado, cobra o que acha que merece, porque não permite que intermediário nenhum comercialize o seu trabalho. Vende-o ele mesmo. Explora-o. Não é, como o médico, explorado. Eis a diferença! Assim, continuaremos descendo, rumo ao subsolo…

 

Fernando Guedes

8/8/2011

 

 

jul 27, 2011 - Poligrafia    7 Comments

Um dia no Rio…

Eu acho que se trabalha demais no mundo de hoje, que a crença nas virtudes do trabalho produz males sem conta e que nos modernos países industriais é preciso lutar por algo totalmente diferente do que sempre se apregoou.

Bertrand Russell, in O Elogio ao Ócio

 

Estou, novamente, neste Rio de São Sebastião, sentindo a parte que me cabe do largo abraço do Redentor… Contemplo-o, sempre, lá no seu soberbo pedestal, o Corcovado!

Às oito sai da Senador Dantas, ali na Cinelândia, rumo ao trabalho, na Graça Aranha. Passando pela Santa Luzia, detenho um pouco os passos para uma reverência àquele número 54, onde outrora viveram, por três anos, Machado e Carolina… São desse período Histórias da meia-noite, Falenas, Ressurreição e A mão e a luva. Faço a reverência e lá me vou, imaginando o centro do Rio do tempo do Bruxo do Cosme Velho… Passo entre os pilots do Palácio Capanema com atenção redobrada, para admirar aquele ícone da nossa corbuseana arquitetura moderna. Contemplo os azulejos de Portinari, as esculturas de Giorgi, Lipchltz e Menezes, testemunhas de uma época em que havia homens preocupados com educação e cultura…

No trabalho, cumpro a minha obrigação funcional, estoicamente, sem, contudo, me comprometer ao ponto de achar que é a coisa mais importante da vida. Recuso-me em admitir o trabalho como um fim, como um valor. Não é… Não o será! Um valor é o que vale por si só. Como o amor, a generosidade, a justiça, a liberdade… Para amar, quanto você cobra? Já não seria amor, seria prostituição. Para ser generoso, justo, livre, precisam lhe pagar? Já não seria generosidade, mas egoísmo, já não justiça, mas comércio, já não liberdade, mas servidão. Para trabalhar? Você cobra alguma coisa e evidentemente tem razão; aliás, quase sempre acha insuficiente o que lhe dão (sim, não é um dom, é uma troca), o que está registrado no seu holerite, contracheque, recibo ou nota de serviços… Há um mercado de trabalho, submetido, como qualquer mercado, à lei da oferta e da procura. Como trabalho pode ser um valor se está à venda? (André Comte-Sponville). O trabalho é somente um meio, tedioso muitas vezes, mas somente um meio, necessário à sobrevivência. Somente para sobreviver o trabalho é necessário. Para viver e conviver ele é dispensável, porque são necessários outros atributos, onde ele não colabora. Idolatrá-lo, longe de mim, que escuto o Redentor advertir, lá da montanha: – “Mandei que amassem uns aos outros, não que trabalhassem uns e outros”!

Quando saímos para o almoço já passava do meio-dia, como é a praxe aqui, onde se “ama” o trabalho e a ele se apega como um fim… Eu, Sérgio, Maurício, Paulo e Ailton, este numa estica à Zegna, com aquela gravata estreita combinando com o terno talhado à italiana, fomos ao Clube Ginástico Português, ali perto, para um almoço à portuguesa, no Da Silva.

Foi um deleite para o gosto: caçarola de cordeiro, leitão à Bairrada, bacalhau, dobrada a moda do Porto e já não sei o que mais… Pedi uma taça de Vila do Convento que, ao primeiro gole, provocou-me evocações do Alentejo… de sua Princesa: a Sé, mais rica jóia, de cujo zimbório central disse Martim Hume que valia a pena vir de Inglaterra a Portugal só para vê-lo; a praça de Geraldo Sem-Pavor, a Fonte Coroada, a Igreja de Santo Antão, seus Conventos, suas ruínas, o asseio de suas ruas, suas laranjeiras…Évora! Alentejo! Como são lindos seus campos e suas ceifeiras…

Ceifeira que anda à calma

No campo ceifando o trigo

Ceifa as pena da minh´alma

Ceifa-as e eleva-as contigo…

Para completar o deleite gastronômico, os doces: toucinho do céu, sericaia (ou siricaia, feito pelo método tradicional, que tia Tide – Matilde Castro – dominava com esmero, é o que se pode chamar de “Manjar dos Deuses”), encharcada, clara de Évora, travesseiro de Sintra, pudim de Vinho do Porto… Delícias de origem conventual, por várias causas, que vale a pena lembrar. Primeiro, conventos de freiras, mulheres a quem os doces eram familiares. Depois, meter freira em convento era, às vezes, abastado, e além do dote, elas, as filhas de ricos-homens, lá iam com suas escravas, e, estas, quituteiras, se entretinham na fábrica dos doces. Doces a oferecer a prelados e a grandes do mundo, nos oiteiros e saraus, à cerca dos conventos, onde concorriam poetas e mariolas, devoradores de doces (Afrânio Peixoto). O elemento predominante nos doces é o açúcar, que adoçou tantos aspectos da vida brasileira que não se pode separar dele a civilização nacional. Deu-nos as sinhás de engenho. As mulatas dengosas. Os diplomatas maneirosos (…) Os políticos baianos – os mais melífluos e finos do Brasil. A toada dos cambiteiros. Os cantos das almanjarras… (Gilberto Freire). Comi de todos, porque, com tal santa origem, não cometeria o sacrilégio de ignorá-los… Os outros, que andam aliciados por essa cultura da “alimentação saudável”, ficaram com as frutas… Entre quatro sacrílegos, par equilibrar a turma, um baiano devoto! Tomamos café, pagamos a conta e nos retiramos… Descemos pelas escadas, observando a suntuosidade decadente o prédio, mas sem deixar de imaginar o que fora aquele recinto em décadas passadas…

Todo esse deleite cultural-gastronômico foi completado, na volta, com um espetáculo muito carioca, ao vivo, sem cortes, sem edições… Ao atravessar a Almirante Barroso, o clima instável fez bater um pé-de-vento que levantou a saia de uma incógnita apreciável… Não era dessas esquálidas, insossas, que só têm, para mostrar, rotulas e protuberosidades ósseas… Aquela não, tinha com que cobri-las, porque era naturalmente esculpida, esteticamente modelada… A minúscula calcinha estampada deixava-lhe as nádegas livres, que tremulavam impudentes, como um pendão nacional que ao vento tripudia… Ela não se importou com o vento… Não segurou a saia, seguiu impávida, com a certeza de que era admirada!

Aquietou o vento fazendo a saia ocultar aquela natureza viva, como o pintor cobre, na oficina, com um véu, sua natureza morta inacabada… Cruzamos a porta giratória da Torre Almirante, para continuar a rotina do trabalho…

 

Fernando Guedes

Rio de Janeiro, 18/7/2011

 

jul 26, 2011 - Poligrafia    2 Comments

Pó com vento… Pó sem vento…

Quem não vê que pediatria, por seus próprios sucessos, fornece clientes aos geriatras, e não retira nenhum agente funerário? Medicina, onde está a tua vitória?

André Comte-Sponville, in Bom Dia, Angústia!

 

Há alguns dias, no plantão de emergência, trouxeram-me um paciente de dezoito anos… Enquanto o maqueiro o conduzia ao local do atendimento percebi, na imobilidade involuntária do corpo, que o paciente já era pó caído. O exame clínico não me deixou dúvida: parada cardiorrespiratória, ponta do pé desviada para fora, flexão do polegar na palma da mão, descoramento da tegumentar, suor frio, horripilação da pele e a midríase paralítica denunciavam a morte!

Enquanto o examinava, sua mãe permaneceu o tempo todo ao lado. As mães, que nunca desertam, pressentem quando seu filho vai morrer. Aquela, que estava ao meu lado, o pressentiu logo, e só conseguiu sussurrar aquelas duas palavras que sintetizam o sentimento universal:

– Meu filho!

O pai, transtornado, adentrou, com a ficha médica que fora providenciar e me perguntou:

– E aí doutor?

Quando lhe disse o que ocorrera, desabou num descontrole emocional tão profundo que chegou ao ponto das invectivas. Questionou Deus, xingou os médicos, comparou os hospitais a matadouros… gritou e esgoelou, como vocifera os que não se educam para a morte, os que projetam, na finitude da vida, uma eternidade enganadora. Não era possível àquele pai compreender aquela morte…

Havia 15 dias que o paciente estava doente. Nesse período, disseram-me, acometeu-se-lhe forte cansaço, tosse e hemoptise… Estivera em outros hospitais às voltas com exames… Exames, eis tudo no que se resume a medicina da atualidade! Uma radiografia do tórax em péssima técnica, tirada há uma semana, revelava com clareza apenas aumento da área cardíaca. Morrera aquele paciente sem diagnóstico… O diagnóstico, disse Francisco de Castro, clássico da Clínica Propedêutica, é o eixo em volta do qual gira todo o problema clínico, e de tal modo que sem diagnóstico é impossível a medicina. Isto não mudou… Como não mudou, malgrado o aparato técnico hoje existente, negou-lhe a medicina o que lhe poderia adiar a morte: o diagnóstico. “Medicina, onde está tua vitória”?

Os trinta minutos que durou aquela cena pareceu-me uma eternidade… Dois Psicólogos não tiveram êxito em acalmar aquele pai. Os pacientes circunstantes já estavam apreensivos com os seus gritos de revolta. Eu, ao lado da maca, permaneci calado enquanto ele destilava seu inconformismo, suas culpas, suas… Quando me deu uma chance, o convenci ir até ao consultório. Pedi-lhe que se sentasse, mas ele o recusou… Então, comecei assim:

– Saiba que entendo sua dor, que entendo seu desespero, que entendo seu desapontamento… Relevo as suas acusações; reconheço o caos da assistência pública; a indiferença com a qual se trata, não raramente, o problema de outrem. Tudo isto o sei e compreendo. Mas há o imponderável que você precisa entender. Em nenhuma escritura sagrada, em nenhum tratado de filosofia está escrito que você morreria antes que seu filho. Toda vida se completa, cedo ou tarde, quando atinge seu termo, que é a morte. Também é certo que não é preciso morrer para reverter-se ao pó, porque já somos pó. Seu filho, agora, é pó caído (cair é morrer), você, como eu, pó levantado (levantar-se é viver). Portando se prepara para enterrar seu filho, se não com resignação, ao menos com fé. Ele encarou-me longamente, atônito, e disse:

– Obrigado doutor…

Diante daquele fracasso, da vã ciência, voltei a meditar sobre o Sermão da Quarta-Feira de Cinzas, que o Padre Vieira pregou em Roma, na Igreja de S. Antonio dos Portugueses, em 1672… Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem revesteris. Se vivo sou pó e morto serei pó, que difere um pó do outro pó? O pó presente do pó futuro? O mundo, disse o clássico pregador, noutros termos, está repleto de pó, dá um pé-de-vento e o levanta. Levantado, com vento, o pó se agita, caminha, corre, sobe, desce… Não aquieta o pó, já vai adiante, a tudo envolvendo, a tudo penetrando… Acalma o vento: cai o pó. Ali onde caiu fica… O vento é a nossa vida: pó levantado; a ausência do vento é a morte: pó caído. Tudo pó: com veto nós, os vivos; sem vento eles, os mortos. Eis, concluí Vieira, a única diferença!

Esta medicina soberba da atualidade, que se presume invencível com sua sofisticadíssima técnica, mal ensinada, cria na mentalidade dos estudantes, dos residentes, dos próprios médicos, uma falsa concepção científica que prejudica o entendimento moral da finitude da vida. Não ignoro os progressos, nem os maldigo, apenas constato que a técnica sobrepondo-se ao humanismo gera tamanha distorção de entendimento, que corrobora a idéia do afastamento definitivo da morte, como o idealizou Saramago nAs Intermitências da Morte. É necessário, nessa sociedade fútil e arrogante, afastar a morte para bem longe… Já não se morre em casa; já não se enfrenta o processo de morte no seio da família, onde o ente querido era assistido até ao último suspiro… Tudo é frio… Tudo é frívolo… Restarão apenas o remorso e a culpa, que se dissipam em trabalhos de luto ridículos e em reações histéricas… A pergunta que mais se houve é aquela afronta:

– Por que ele (ou ela) meu Deus?

Como se Deus, senhor de tudo, que põe e dispõe, tivesse que dar explicação dos seus planos a um pobre mortal. Não, não dá, simplesmente convoca!  Para o vento e faz cair o pó!

Fernando Guedes

15/7/2011

 

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