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maio 27, 2013 - Poligrafia    1 Comment

País sem jeito!

Tempos difíceis os que vivemos, onde não podemos nem falar nem calar com segurança. (Luis Vives, 1534) 

Os que sabem dar a verdade à sua pátria não a adulam, não a iludem, não lhe dizem que é grande, porque tomou Calicute; dizem-lhe que é pequena porque não tem escolas. Gritam-lhe sem cessar a verdade rude e brutal. Gritam-lhe: Tu és pobre, trabalha! Tu és ignorante, estuda! (Eça de Queirós)

 

Os cientistas políticos dizem, teorizando, que temos três poderes: executivo, legislativo e judiciário. Que eles são harmônicos e independentes, como pensaram Kant e Montesquieu… O princípio da divisão dos poderes, entretanto, tanto na teoria de Kant quanto na de Montesquieu, é inútil para se compreender o funcionamento prático do nosso sistema de governo, não passando de mera ficção política; um faz de conta. Não há aqui senão dois poderes: executivo-legislativo, propriamente o governo, estranho híbrido engendrado por nossa malandram republicana, e o judiciário, cuja cúpula é nomeada pelo outro. Somos, verdade seja dita, uma república imperfeita, que vive estagnada no seu interminável mau começo… Obra inacabada a espera do meio e do fim.

Não é propriamente a coalizão característica das repúblicas parlamentarista, é a cooptação do legislativo pelo executivo, em troca da liberação de emendas parlamentares e de nomeações para os escalões da burocracia estatal. O judiciário, não obstante sua cúpula ser nomeada pelo executivo-legislativo, às vezes tenta alçar o voo da independência, mas sempre termina de asas aparadas, por sua própria tesoura…

Uma comunicação de 13/05/2013 dava conta que havia, ao largo do porto de Paranaguá, 94 navios esperando oportunidade de atracação, para descarga e carga de mercadorias. Muitos de âncora ao mar desde 06/03/2013… A China cancelou uma compra de 2 milhões de toneladas de nossa soja em razão de atrasos nos embarques portuários, que estão entre os piores do mundo. Num ranking com 144 países, feito pelo Fórum Econômico Mundial, o Brasil ocupa a 135ª posição no item qualidade de portos. Portos mais caros e mais ineficientes do que os de países concorrentes. Operar no porto de Suape, em Pernambuco, custa cinco vezes mais do que no Cartagena, na Colômbia, é o juízo dos especialistas.

Isto bastaria para que a Medida Provisória dos Portos merecesse o consenso da câmara dos deputados, para tirar o Brasil dessa situação absurdamente humilhante, que o torna incapaz de competir no comércio internacional. Não foi assim… Assistimos a um deprimente espetáculo de agressões mútuas, com denúncias gravíssimas, entre deputados da própria base de sustentação governamental, a ponto de o presidente ter que encerrar a seção, sem concluir a votação, para poupar a nação de outros vexames… No outro dia, quando se esperava que a votação fosse concluída, os deputados se reuniram para homenagear o reggae! A presidente acionou o mecanismo de pressão que tem em mãos, ameaçou, exigiu e, enfim, a MP foi aprovada, depois outras agressões mútuas, já na última hora. Ao senado, que há muito deixou de ser a casa da revisão legislativa, da prudência política, não sobrou tempo senão para homologar o que a outra casa havia produzido. Eis o retrato, de corpo inteiro, do nosso executivo-legislativo.

O presidente do outro poder, trocando a toga judicial pela de cientista político, ousou dizer a acadêmicos uma verdade: “o legislativo é ineficiente e inteiramente dominado pelo executivo”, porque temos “partidos políticos de mentirinha”. Por dizê-la, logo recebeu a contradita de senadores e deputados, que se sentiram ofendidos… Mas, como de prática, a tesoura do próprio STF, que referi atrás, cortou-lhe a asa em pleno voo: “não houve a intenção de criticar ou emitir juízo de valor a respeito da atuação do Legislativo e de seus atuais integrantes”, disse a nota da assessoria de imprensa do STF. Bem, juiz, da primeira à última instância, é especialista em interpretar… Tira da lei, muita vez, conclusão que o espírito dela rejeita… Faça a nação, das frases do ministro, a interpretação teleológica que lhe convier… Afinal, o utilitarismo tem sido seu código de conduta.

O Estadão (de 20/5) publicou, na página Política, a matéria Supremo paga voos para mulheres de ministros e viagens no período de férias. O balanço dessas despesas, segundo os jornalistas que a subscrevem, dá que em 4 anos R$ 2,2 milhões foram gastos com passagens de viagens internacionais, dos quais R$ 608 mil com passagens para esposas dos ministros. Acho que excelentíssimos viajantes deram, hermeneutas que são, ao extravagante gasto, uma interpretação conforme a constituição matrimonial…

Ah! Já ia me esquecendo… Fui cumprir um mandado de Hilca na Rua Alceu Amoroso Lima, tendo que trafegar pela Tancredo Neves… Uma tortura! Estacionei o carro e, ao sair dele, a senhora que administra o estacionamento rotativo, da Transalvador, aproximou-se e me disse: “É seis reais o sinhor qué a cartela ou mi dá pur fora, ai pode ficar o tempo qui quisé.” A senhora é uma ótima negociante, elogiei-a… Fatura muito, por fora? “Da pra tirá um dinerinho”, respondeu-me. Bem, eu prefiro comprar a cartela…

Brasil, gigante que não se levanta do berço esplêndido… De antinomias mil! República presidencial maluca, que concentra na mão do executivo, cujo presidente é um monarca absoluto por oito anos, poderes que nenhuma nação civilizada concentraria. País sem jeito!

Fernando Guedes
22/5/2013
fev 8, 2013 - Poesia    No Comments

Congresso

Mote:

Como pode um político ficha suja,

É a pergunta que não quer calar,

Ser eleito para presidir o Congresso,

A casa do Poder Parlamentar?

                                                                                    (Darlan Fagundes)

 

Glosa: 

Casa da qual a honestidade não se espera,

Onde, descaradamente, triunfa a nulidade,

E a desonra impunemente prospera,

Renan a ela se iguala, na integridade…

-x-

Dizem, sem razão, que ali há honesto…

Não o creio, porque lá não permanece,

Sem se hipotecar a interesse funesto.

Sem se sujar na corrupção que lá floresce…

-x-

Ontem – Pinheiro Machado por o dono…

Hoje – Sarney e seus Maribondos:

Peçonha que impõe à nação letárgico sono!

-x-

Enquanto não se chega ao poder: Oposição,

Crítica e denúncia… Mas se arruma e cala,

É o poder próximo, a realidade da Situação!

                                               (Fernando Guedes)

                                                     8/2/2013

                                                                                                                                                                                                                                                                               

jul 16, 2012 - Poligrafia    6 Comments

Cinco, dezenove, cinquenta e seis…

 
Política: é a arte de tomar, manter e utilizar o poder.
André Comte-Sponville

 

Oitenta! Não é, simplesmente, o resultado da votação que cassou o mandato de Demóstenes Torres, no Senado Federal… Não, não é somente isto! Há mais: é o retrato do Brasil político… Quer conhecer o Brasil político? Ei-lo: Cinco, dezenove, cinquenta e seis!

Estranho? Pode ser… Fácil, contudo, de ser explicado. Começo pelo meio. Os dezenove que votaram contra a cassação do mandato de Demóstenes Torres são, nesse estranho teorema estatístico-político-moral, os éticos. Penso, de boa fé, que os dezenove votaram orientados pelo o ensinamento evangélico: Antes de apontar o argueiro no olho de teu irmão, retira, primeiro, a trave que tens nos próprio olho… Por que cassariam o mandato de Demóstenes, se os pecados arguidos eles cometem igualmente? Foram rigorosamente éticos!

Irreverente, franco, tanto que chegava parecer deseducado, o sábio J. J. Calmon de Passos ensinava: Ladrão que rouba e declara o roubo age com ética, porque a ética é o discurso veraz. Se essa ética existe, é porque há uma moral que a justifica. Conviver ou não conviver bem com ela (a sociedade) é outra história.

Os cinco são, a meu juízo, o grande problema em qualquer sociedade… Entre cassar ou não cassar o mandato de Demóstenes esse grupo preferiu não decidir, não mostrar sua convicção. São assim: têm a cara repulsiva da abstenção. Ignoram, de propósito, o mérito das coisas; lavam as mãos em face das aflições humanas; abstêm-se quando seu interesse periclita. Assim os covardes, os pusilânimes, os juízes políticos e comodistas. São, em face das opressões, surdos e cegos. São a parcialidade da imparcialidade, por isto mais perigosos, porque agem à sorrelfa, esquivando-se sempre. Não se comprometem; nunca se mostram de frente, sempre se apresentam em enganador perfil. São, para mim, medíocres hipertrofiados, que, em todos os tempos, nunca foram maioria na humanidade; não o são no Senado… Fazem, contudo, grande mal!

Os cinquenta e seis são os hipócritas! O indivíduo-tipo desse grupo cabe, como a luva em mão certa, no perfil que Igenieros descreveu nO Homem Medíocre. Inclinados menos ao ódio que à hipocrisia, formam uma grei cujo elo de união é a falsidade. Simuladores, julgam sentados no próprio portfólio dos pecados que condenam. Apontam cisco no olho de outros, sem tirarem o argueiro do próprio. Sabidos, agem com meticulosa intenção de confundir. Quem assistiu a Demóstenes acusar Renan, em processo semelhante de cassação de mandato, idealizou Cícero invectivando contra Catilina… Demóstenes será sempre um simulador, e simulou tanto que terminou enredado na própria simulação.  A simulação é assunto para uma tese; em política, para várias…

Entre eles há interesse e não amizade, por isto, como doutrinou Igenieros, a política pode criar cúmplices, mas nunca amigos. Como nos hipócritas as cumplicidades se extinguem com o interesse que as estabelece, sacrificaram o mandato de Demóstenes, para salvarem sua precária imagem de moralidade. Tudo mentira… Tudo falsidade…

Quem pensa que na sociedade é diferente, engana-se. Esse ufanismo doentio que nos faz donos do Cruzeiro do Sul, que nos insufla grandeza tão ridícula: nosso céu tem mais estrelas, nossos bosques têm mais flores, nossas vidas mais amores etc. é sinal patognomônico de uma moral precária, essa mesma que leva o vulgo à conclusão que o deslize moral de Demóstenes é diverso de avançar um sinal de transito vermelho; de consumir produtos piratas; de sonegar imposto de renda, com recibos falsos; de utilizar carteira de estudante, não o sendo, para pagar meia-entrada; de utilizar atestado médico, estando sadio, para se esquivar de uma responsabilidade; de burlar planos de saúde, fazendo uma pessoa passar por outras nas emergências, de receber ou oferecer caramelos como moeda de troco, de simular doença para obter vantagem etc. etc. etc. Há poucos dias eu me encontrava na fila do caixa de um supermercado… À minha frente, com um carro de compras, três senhoras: uma idosa a quem as duas outras chamavam de mãe. Uma dessas adiantou-se, sacou da carteira seu cartão de sócia e o apresentou à funcionária. A irmã mostrou-se interessada em possuir o cartão de sócia. A outra, esbanjando esperteza, aconselhou: não é necessário. Para que pagar mensalidade sem necessidade? Vou lhe passar o meu CPF e uma cópia do meu RG. Quando quiser comprar diga, no balcão de atendimento, que esqueceu o cartão em casa e solicita um provisório.  Simples, não é? Pois bem, que diferença moral tem esse ato do que a Demóstenes custou o mandato de senador? Nenhuma! A diferença está apenas na hipocrisia com que os moralistas da sociedade reclamam a retidão moral dos políticos. Esquecem, entretanto, que os políticos, todos eles, são recrutados nessa mesma sociedade que tolera essas imoralidades.

Não nego que na sociedade há quem devolve dinheiro achado na rua à polícia; dólares encontrados em sanitário de aeroporto ao dono; esferográfica Bic, pelo SEDEX, ao proprietário, de outra cidade.  Seu Chico, Rejaniel e Ioiô são uma minoria de Quixotes, que resistem contra os moinhos da imoralidade, mas esse conjunto, à esquerda dos cinco, não conta. Quando o fato de sua honestidade é divulgado na mídia, ocorre, na sociedade, o abalo do espanto. Ninguém jamais deu atenção ao incógnito maranhense que vive na rua, até ser protagonista de fato inusitado: devolver o que lhe não pertence à polícia! Coisa rara, portanto incomum, portanto manchete de telejornais por semanas… Eu tive a infelicidade de esquecer, no data center de um hotel 5 estrelas, no Rio, meu pen drive, e até agora não mo devolveram… São esses, que não devolvem o bem alheio, que mais clamam pela cassação de políticos desonestos!

A ética tradicional sempre distinguiu os deveres para com os demais dos deveres para consigo próprio. No debate sobre o problema da moral em política, vêm à tona exclusivamente os deveres para com os outros (Norberto Bobio, in Ética e Política). Pois bem, é o notável milanês quem cita Benedetto Croce, num remate esclarecedor: “Outra manifestação da vulgar inteligência acerca das coisas da política é a petulante exigência que se faz de honestidade na vida política”. Não se pode exigir honestidade do político, se a não exigiu, antes, do cidadão que a própria sociedade fez político. Afinal, seguindo o passo de Croce, “a honestidade política nada mais é que a capacidade política”…

Este texto, que é uma opinião, pode despertar concordância ou discordância, não importa… O que não deve, espera o autor, é suscitar dúvida. Por isto insisto com Bobio. “A ética política se torna assim a ética do político e, como ética do político, e, portanto, ética especial, pode ter seus justificados motivos para aprovar uma conduta que o vulgo poderia ver como imoral, mas que o filósofo vê simplesmente como o necessário conformar-se do indivíduo-membro à ética do grupo”. O pecado mortal de Demóstenes não foi a quebra do decoro parlamentar, ao mentir na tribuna do Senado, como o acusaram. Seu grande erro foi sua excessiva arrogância, que o incompatibilizou com os de sua grei, tornando-se inconveniente ao convívio parlamentar. Demóstenes era uma raposa imprudente arvorando-se em rei dos bichos. Suas catilinárias parlamentares, divulgadas pela TV Senado, nada expressavam de Maquiavel ou Orwell, eram apenas a destilaria do seu jacobinismo extemporâneo, razão da sua desgraça política…

Como sei que a habilidade em diagnosticar e a competência em tratar determinam o sucesso da cura, ofereço ao prezado leitor, para reflexão, este lugar de Croce, colhido na citação de Bobio: “Ao passo que, quando se trata de encontrar uma forma de cura ou submeter-se a uma operação cirúrgica, ninguém pede a presença de um homem honesto… mas todos pedem, procuram, desejam médicos e cirurgiões, que sejam honestos ou desonestos, mas tenham habilidade comprovada em medicina ou em cirurgia… nas coisas políticas todos pedem, em vez disso, não homens políticos, mas homens honestos, fornidos ao máximo de atitudes de outra natureza”.

Dizem que a cassação de Demóstenes, com cuja pele nada me importo, atendeu ao clamor da sociedade. É sempre assim… Cassa-o! Cassa-o! Se, com essa cassação, o Senado conseguisse converter os 56 ao credo ético dos 19, a consciência política, quando não tivesse logrado moralidade diversa, ao menos teria a compensação de livrar-se da hipocrisia. Foi-se Demóstenes, vem o suplente, para o Brasil político continuar rigorosamente o mesmo: Cinco, dezenove, cinquenta e seis…

Fernando Guedes
Salvador, 13/7/2012
fev 24, 2011 - Poligrafia    4 Comments

Mínimas e máximas, do Mínimo…

Si no se tiene clara noción de los problemas, mal se puede proceder a resolverlos.

Ortega y Gasset

Encontro-me, atualmente, num estranhíssimo processo de adaptação em face do Senado Federal… Não é fácil, depois de acostumado, por longuíssimos anos, às figuras de Mão Santa, Heráclito Fortes, César Borges, Efraim Moraes, Marco Maciel, me deparar com outras novas, mais estranhas ainda, na estréia do mínimo…

Sarney, que anda a tirar sarro pelo twitter, como um velho camaleão, que se adapta com aquele mimetismo singular, às hostilidades do meio, conseguiu logo manter-se, sem muita discussão, na presidência. E, sorrateiramente, elegeu Marta Suplicy, com a sua coleção de botox, a Mão Santa desta legislatura…

Passando com toda a facilidade pela Câmara dos Deputados, como queria o governo, o projeto que fixa o valor do salário mínimo e estabelece sua política de recuperação monetária em médio prazo foi ontem debatido e votado no Senado. O Governo sustentava que o valor de R$ 545,00 era compatível com os controles das contas públicas e do déficit da Previdência. Justificou-se, como sempre alega quando não quer fazer, com a “responsabilidade fiscal”…

Essa coisa que aqui se chama de “oposição”, poucos gatos pingados insatisfeitos por não estarem no poder, apresentaram duas propostas: uma de R$ 600,00 e outra e R$ 560,00, que foram, como aconteceu na Câmara, rejeitadas sumariamente. O interessante foram as abstenções, que dizem o suficiente dessas personalidades omissoras.

Houve de um tudo… Os costumeiros, reiterados e abusivos descumprimentos do Regimento Interno. Favorecimentos de uns em detrimento de outros. Tolerância para com uns e intolerância para com outros. Desrespeitos mútuos, conversas paralelas, até insultos… Nas galerias, interessados em ganharem R$ 15,00 ou R$ 55,00 a mais, eram contidos pela campaninha e pela voz dissonante da Mão Santa desta legislatura: – É proibida a manifestação!

Como a moral que os orientam, governistas e “oposicionistas”, é utilitária, compreende-se, com sensível clareza, que a sua ética jamais será a dos princípios. Se ex-presidentes da “república” (adrede, como diria Euclides da Cunha, entre aspas e com erre minúsculo) decidem ir para o Senado não é, aqui, por desprendimento, nem para servirem à Pátria. É, simplesmente, para atanazar o governo, se for “oposicionista”, ou para manipular segmento de poder, se governista.

Por isto essa antinomia de, no governo, defender, com veemência, a responsabilidade fiscal, para não conceder R$ 15,00 ou R$ 55,00 de aumento; na “oposição”, utilizar os mesmos números, os mesmos dados, a mesma desfaçatez, para propor o reles aumento… Os petistas de ontem são os peessedebistas de hoje. O fel, que essa gente destilava, em passado próximo, para defender o que hoje condena, é o mesmo que hoje os outros destilam, em sentido inverso. Coisas da política? Não, coisas de uma civilização incapaz, capaz atirar pérolas aos porcos.

Essa mesma que se gaba de seu chefe ignorante, que se refere ao outro como “doutor” por escárnio à cultura… Essa que acha que o Brasil é criação desse petismo sectário. Que não é capaz de compreender, minimamente, o desastre dessa política assistencialista, que aprofunda ainda mais a vagabundagem que estiola, nos grotões somente visitados em campanhas eleitorais, o sentido sociológico do trabalho.

Essa a quem tudo o que é de cultura, de pensamento, de raciocínio, de visão positiva, de análise de realidades, não passa, para sua medíocre política, de literatura inútil. Essa que confunde cultura com erudição; pensamento com literatura; política com politicagem; governo com administração; estadista com técnico especializado; inteligência com esperteza; coerência doutrinária com coerência partidária; fidelidade de princípios com fidelidade de pessoas; e nenhuma atitude é compreendida sem que se origine de algum interesse pessoal.

Não sendo diferentes os outros, os dessa “oposição” igualmente incapaz, é inútil insistir na crítica… Torno ao mínimo.

Eu, que o pago como fruto do meu honesto e sacrificante trabalho, a dois empregados, sei que pesa pagá-lo, por isto é-me fácil entender a hipocrisia daquelas figuras que ontem defenderam, da tribuna do Senado, tese contrária à do governo. Assistir aos governistas de hoje defenderem a responsabilidade fiscal, visando à aprovação de sua tese, é mais coerente obras dessa estranha arquitetura política: hoje eu, amanhã você, ou o utilitarismo elevado ao egoísmo ético.

Fernando Guedes

24/2/2011

out 5, 2010 - Poligrafia    No Comments

Retalhos

À urna sem o título.

Domingo passado fui à seção eleitoral, logo cedo, para que esse tedioso dever, que me empurram como direito de cidadania, não atrapalhasse de todo o meu dia…

De caso pensado, sem o título eleitoral – afinal o Supremo Tribunal Federal, com aquela eficiência de fazer inveja à Corte inglesa, havia decretado o fim de sua utilidade – fui à urna!

Depois de muitos anos, desde que tirei o meu primeiro título eleitoral, descobri que ele é hoje um documento que não serve para a finalidade para a qual foi instituído. Para votar, é inútil!

Na seção, ao apresentar a carteira de identidade à mesária, esta me solicitou o título ao que lhe respondi: – Depois da suprema, do Supremo, recolhi-o ao envelope onde guardo, somente para recordação, coisas inúteis. Não o trouxe!

Ela riu-se e buscou o meu número de inscrição numa relação que tinha sobre a mesa. Fui à urna sem título e votei…

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O circo.

Lugar onde se concentram, em espetáculo, trapezistas, malabaristas, ilusionistas, quiromantes e animais exóticos é o circo… São Paulo fez, a meu juízo, a mais correta escolha nas últimas eleições, elegendo, para completar a trupe do o nosso grande circo, com o louvor de mais 1.300.000 votos, o palhaço Tiririca…

Oh raio, oh sol, suspende a lua, olha Tiririca em Brasília!

Será divertido, de agora em diante, o anuncio do espetáculo:

Hoje tem deliberativa?

Não tem, não senhor.

Às quintas-feiras já não se trabalha,

Neste circo que do Brasil gargalha…

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É mito.

Nossos bosques têm mais flores, nossa vida tem mais amores, nosso céu tem mais estrelas… Já Marina “é a cara”. De chofre, sem tempo para uma análise aprofundada, seu desempenho nas eleições foi o responsável pelo segundo turno. Não se levou em conta, por exemplo, a expressiva abstenção nas regiões onde a candidata do PT era favorita.

Eu que não me deixo seduzir pelos lavores do ouro, sem antes lhe tocar o quilate, não divisei, no discurso da candidata do PV, nada que a distinguisse dos outros, Serra e Dilma.

Agora, a mídia imediatista a eleva à qualidade de peso da vitória. Os votos de Marina irão para quem? Seja lá quem ele apoiar, Dilma ou Serra, não receberá aqueles 19.33% de votos. Foram votos aleatórios, de primeira impressão, sem conteúdo ideológico ou programático.

Temas do moralismo político, como defesa da descriminalização do aborto, do casamento gay, do ateísmo, do homossexualismo (divulga-se na internet que um dos candidatos é homossexual), que apavoram cabos eleitorais cristãos e católicos, é que causará estragos eleitorais. Marina decidindo eleição, no segundo turno, é mito.

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Até o próximo episódio!

Vídeo publicado no You Tube mostra um advogado negociando com uma cobra-criada da política planaltina… Seria apenas um advogado acertando com um possível cliente o patrocínio de uma causa? Se fosse somente isto, não haveria nada errado. Mas, sendo esse advogado genro de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), que compromete na negociata, o caso seria grave, se não tivesse acontecido em Brasília…

Em qualquer sociedade civilizada, onde as coisas são levadas a sério, onde juízes se recolhem à discrição do cargo e não falam senão nos autos dos processos, não se omitem em face de decisões graves, caso que tal teria sérias conseqüências. Não é o caso desta desgraçada nacionalidade.

No Senado, dizendo-se amigo do ministro, por quem seria capaz de botar as mãos no fogo, um senador o defendeu, com veemência, sem deixar de alfinetar o presidente do STF, que argüiu a inconstitucionalidade formal da “ficha limpa”.

Como já não tenho nenhuma razão para crer nos altos propósitos dessas instituições, não me surpreendo com mais nada. O ministro seguirá ministrando, o advogado continuará advogando e o senado defendendo. Uma pausa apenas, para carregar a máquina… de filmar. Até o próximo episódio!

Fernando Guedes

5/10/2020