Archive from dezembro, 2010
dez 9, 2010 - Fragmentos    4 Comments

“O que querem as mulheres?”

Em 2000, pelo dia da Mulher, pediram-me, na Petrobrás, para escrever uma mensagem, tomando como tema a pergunta: “O que querem as mulheres?”, que Freud teria feito deixando-a sem resposta. Como vejo na mulher, ao contrário do senso comum, um ser previsível, escrevi o meu parecer…

Como, agora, a TV Globo, está anunciando uma série com esse título, achei que devia publicar o que escrevi em 8/3/2000:

Dizem que Freud fez essa pergunta a si mesmo, e nunca a respondeu. Ignoro o contexto dessa pergunta e as razões que o levaram a deixá-la sem resposta…

Certamente não foi por lhe faltar imaginação, mas acredito que não o faria sem penetrar no seu estranho mundo dos complexos.

De mim, acho que não é difícil acudir a esta indagação, se entender a mulher como uma criatura comum, que pensa como pensam os homens. Não será, portanto, necessário recorrer ao nebuloso mundo da psicanálise, para lhe destrinçar os complexos; nem à fisiologia, para lhe apontar diferenças orgânicas. A mulher pensa, e é o bastante para se saber o que ela quer.

De um modo geral, acho que a mulher busca, consciente ou não, a afirmação de sua individualidade, isto é: ser tratada e entendida como indivíduo, porque o resto são acessórios culturais, que, no fluir das civilizações, se ajuntam ao processo da existência. Aí varia, de lugar para lugar, de época para época, das circunstâncias, do momento histórico, porque essas condicionantes suscitam, nos indivíduos, desejos vários.

Que queria Maria ao assistir a seu filho marchar sob o peso do próprio cadafalso? Apenas poder para diminuir-lhe o sofrimento. Bem diferente de Cleópatra, tomada pelo desejo de conquistas mil, inclusive amorosas.  Que queria Agar, para dar a Ismael? Apenas o leite do pranto, para matar-lhe a fome. Que quer Xuxa, para dar a Sasha? O ouro do mundo, quem sabe… Que queria Salomé, na sua louca luxúria? Na bandeja, a cabeça do Batista. Que queria Florence Nightingale, sendo rica, ao ir servir espontaneamente na Criméia? Com a lâmpada da sua extrema bondade, salvar vidas. Que queria Pompéia Paulina diante da sentença de morte de Sêneca? Apenas não lhe negar, na hora extrema, a sua companhia, e morrer com ele, como prova de um extremo amor. E Imelda Marcos, que queria? Milhares de pares de sapatos, para calçarem os pés de sua extrema vaidade. E a pobre Angolana, que deseja? Apenas liberdade, para poder pisar, descalça, o seu amado solo, sem que minas lhe ceifem a vida. Como vêem, os desejos são diversos, porque as mulheres são indivíduos, e o que elas querem é apenas QUERER.

Fernando Guedes

Homenagem à Mulher, no seu dia.

8/3/2000

dez 1, 2010 - Fragmentos    15 Comments

Mensagem de Natal

Registra a tradição que três magos, do Oriente, seguiram uma estrela, até Belém, na Judéia, para a adoração do Messias… A lenda, que é a história imaginária, os tornou “reis magos”. Eram apenas astrólogos. Depois, quiseram fossem eles representantes das raças: Melchior descendente de Cham, africano, negro. Baltazar de Sem, asiático, amarelo, e Gaspar descendente Jafet, europeu, branco. E a América? Porque desconhecida dos homens de então, não adorou o menino-Deus… É assim, são os homens que fazem a história, ou criam as lendas…

Para a reverência, cada um levou o seu presente: Gaspar, o branco, deu-lhe incenso, reconhecimento à sua divindade. Baltazar, o amarelo, ofertou-lhe ouro, a realeza, a soberania, o interesse do mundo, Melchior, o preto, trouxe-lhe mirra, o atributo humano, que embalsama, na morte…

Depois, já temendo represália de Herodes, partiram… A humanidade seguiria o seu itinerário, rejeitando a simbologia daquele acontecimento, para encontrar-se com a cruz… Com as suas cruzes… O incenso e a mirra não suplantariam o ouro, pelo o qual o homem se perdeu…

Neste Natal, espero que comemoremos – posto que comemorar é trazer novamente à memória – o verdadeiro espírito daquele nascimento e as circunstâncias que o envolveram. Que nas nossas “adorações” tenhamos a exata dimensão dos atributos, para que o ouro não continue suplantando o incenso e a mirra, porque só assim a humanidade conseguirá aliviar o peso das cruzes, que tanto a oprimem.

Feliz Natal!

Dezembro, 2010

Fernando Guedes

dez 1, 2010 - Poligrafia    2 Comments

Rescaldo soturno…

Finalmente, compreenderam que não subiriam o morro sem o apoio de força militar… Depois de longas décadas, em que a política e o crime se uniram num consócio nefasto, para subjugar o Rio, e que essa subjugação levou a uma decadência moral devastadora, de uma elite fútil que disfarça, na orgia do samba e no vício da droga, sua própria indiferença, como numa crise aguda de abstinência, parece ter acordado de seu sono maldito de escravidão!

Depois do horror dos atentados terroristas, perpetrados nas barbas das autoridades, com cenas somente vistas em terra conflagrada, autoridades pusilânimes não tiveram outra saída: aceitou a força militar! Sempre tergiversaram, com a desculpa de que as forças armadas não foram treinadas senão para a guerra e, por isto, não teriam aplicação na conflagração do Rio. Como Haiti desmente fragorosamente essa absurda tese, porque são nossos soldados militares que patrulham favelas dominadas pelo crime organizado naquela desgraçada nação, mandaram vir os blindados… Estes, equipados com recursos para vencer as barricadas, essas mesmas construídas pelos marginais nas vias públicas, conduziram as tropas ao núcleo do conflito, na Vila Cruzeiro, com grande facilidade…

Como sempre negligenciam na estratégia, a retaguarda dos bandidos estava livre, para a fuga. Fugiram, sem dificuldade, para o Complexo do Alemão (conjunto de favelas cujo núcleo inicial existe há mais de 90 anos!). Um helicóptero de rede de TV, em vôo rasante, mostrou a horda fugindo apressadamente. É elementar: se fugiu é porque não houve interceptação eficaz, para deter-lhe a marcha. Deram um ultimato aos bandidos para a rendição, que não foi atendido. Decidiram avançar, no dia seguinte, para ocupar o Complexo do Alemão, e deu-se inicio à operação de captura: 33 toneladas de maconha; 235 quilos de cocaína; 27 quilos de crack; 1 metralhadora .50; 10 metralhadoras .30; 38 fuzis; 178 granadas e 55 bandidos presos, é o balanço até agora publicado.

Não tardaram as acusações de abuso de poder e agressões à população daquele caos urbano, por parte de policiais: casas saqueadas; utensílios domésticos destruídos; humilhação etc. As autoridades prometeram apuração e expulsão dos agressores…

A operação de ocupação das favelas Vila Cruzeiro e Morro do Alemão foi considerada pelas autoridades e pela mídia um sucesso, e há até quem ouse a extravagância de reputá-la a restauração da hegemonia do Estado. Pelo que estão dizendo, parece que os traficantes que não foram mortos ou presos se regeneraram com os estampidos das metralhadoras. O suprimento de armas pesadas sufocado, pelo controle rigoroso das fronteiras, com repressão eficaz do contrabando. Todos os usuários de drogas, esses que habitam o asfalto, no luxo da Vieira Souto e toda a badalada zona sul, num piscar de olhos, recuperados e abstêmios. Não colaborarão mais com tráfico, não comprando drogas…

Para além do ufanismo e da hipocrisia, há, dessa enganosa operação, um rescaldo soturno… Movida pelo sensacionalismo inconseqüente, a mídia publicou manchetes reveladoras, como aquela que diz: “As crianças voltaram a brincar na rua, e a policia continuou as buscas.” A ilustração dessa manchete é a fotografia de um menino descalço, no meio da rua, empinando uma raia e, ao lado, um policial de arma em punho. Que argumentação estúpida! Essa criança, que devia estar na escola, convenientemente vestida, e sendo instruída, estava sendo exibida, na rua, como um troféu da tranqüilidade conquistada pela favela. Seu futuro é discernível, pela sibila da cruel realidade que a rodeia…

Noutra página: “Alegria, Alegria – No tríplex do traficante Polegar a criançada aproveitou mais um dia de sol. E com um segurança particular de respeito desta vez”. A fotografia ilustrativa desta é da piscina do traficante, onde duas moças e um menino tomam banho, com efusiva satisfação, sendo observados por um policial armado de fuzil.

Outra: “Moradores fazem a festa com pertences dos traficantes”, noticia o saque de eletrodomésticos e outras utilidades. A iconografia mostra duas mulheres disputando a posse de uma TV Plasma de 50 polegadas. Aparelho de ar condicionado, geladeira, fogão e sofás também foram disputados, numa incivilizada vingança, por “honestos” favelados.

O imóvel em questão pertence, segundo afirmação da imprensa, a um chefe do tráfico, portanto devia, mediante ordem judicial, ter seu recheio inventariado e lacrado, para o confisco na forma da lei. Permitir sua invasão e o saque dos seus pertences, com o apoio policial, é moralmente tão grave quanto a ação com a qual os bandidos os amealhou, mas isto é exibido como se fosse a lícita vingança de uma população que ao próprio mal se habituou.

Eis o troféu dessa insólita conquista… Um rescaldo soturno sobrou dessa operação enganosa: sobre os escombros da miséria e da desorganização urbana medra uma moral utilitarista e uma honestidade relativa. Dominado por essa violência subliminar, que não dispara tiros, com ou sem bandidos, o Rio, para a minha tristeza, não tem mais solução.

Fernando Guedes

30/11/2010