Archive from dezembro, 2002
dez 10, 2002 - Poligrafia    No Comments

Por que será?

Que o que tinha esse corpo de inefável

Cristalizou-se na tuberculose.

Cruz e Souza

Vomitar o pulmão na noite horrível

Em que se deita o sangue pela boca!

Augusto dos Anjos

A febre me queima a fronte

E dos túmulos a aragem

Roçou-me a pálida face.

Casimiro de Abreu

A dor no peito emudecera ao menos

Se eu morresse amanhã.

Álvares de Azevedo

Eu sinto que vou morrer… dentro em meu peito

Um mal terrível me devora a vida.

Castro Alves

Os médicos e as mulheres são, afirmou Afrânio Peixoto, as criaturas mais sujeitas à moda, esse tirânico fenômeno sociológico, que, quando não deturpa, exagera a percepção dos fatos. Tem sido assim em relação a certas problemas de saúde pública, que são divulgados como se possuíssem uma dimensão além do seu real tamanho. Não tenho a intenção de menosprezar a importância de certas doenças, nem sequer de negar o valor das medidas de prevenção e controle de todas elas, exagerado, ou não.

Interessa-me a tuberculose, que parece já não merecer, das autoridades sanitárias e dos médicos, atenção proporcional à sua extensão, enquanto problema de saúde pública. Como o comportamento humano prima-se pela comparação, assim é na vida: compara-se, para optar, de onde eu suponho o equívoco dessa supervalorização atribuída à SIDA (AIDS dos susceptíveis à colonização lingüística), que, não obstante tratar-se de uma doença que reclama atenção responsável, porque iniciou, entre nós, com uma letalidade de 100%, tem sido, até hoje, motivo de uma atenção desproporcional à sua distribuição na população, se compara à tuberculose, por exemplo. A sua conseqüência, já que conseqüência, para mim, é morrer antes de morrer, não pode ser argüida, para justificar o que não devia ocorrer.  Penso que, em relação a esta doença, estão todos abusando da faculdade de opção.

Os números oficiais do Ministério da Saúde não dizem outra coisa: no período que vai de 1980, quando aqui surgiu o primeiro caso de SIDA, a 2000, portanto intervalo de tempo em que ambas co-existem, cantam-se 1.747.531 novos casos de tuberculose e 215.701 de SIDA. Nesse período, as médias de óbitos, de uma e de outra, se aproximam, em torno de 5.697, para a tuberculose, e 5.032, para a SIDA.

Dirão, os que acham que a SIDA merece mais propaganda que a tuberculose, que, para causar 105.679 mortes, ela produziu apenas 215.701 casos novos, enquanto a tuberculose, para matar 119.643 pessoas, adoeceu 1.747.531 indivíduos. E justificam, por dedução, de peito cheio: a SIDA é mais letal! Que o seja, mas isto nada justifica, se ambas, ao cabo, causam o mesmo número de mortes. Em verdade, o que as difere, se oculta, por conveniência, ou hipocrisia: o estrato da sociedade que cada uma delas atinge. A tuberculose, que já não mata notáveis, como no passado, perdeu sua notoriedade, agora grassa, impunemente, nas camadas mais miseráveis da sociedade, enquanto a SIDA apavora os “vips”, que influenciam, que controlam, que agenciam, que impõem sua vontade à sociedade de consumo, que eles mesmos engendraram. A época de “celebridade” da tuberculose já se foi, agora, ela só mata arraia-miúda, que, nesta desgraçada nacionalidade, não tem quem lhe chore a desdita. Para mim, vida é vida, miserável ou “vip”, portanto não posso compreender essa desigualdade de atenção. Se me fosse possível conceber que a importância, com que se leva em conta as medidas de prevenção, ou controle, de uma determinada doença, pudessem ser proporcional à importância do estrato social atingido, a SIDA jamais ombrearia a tuberculose. Antonie Watteau, Carl Maria Von Webwe, Simon Bolívar, Frederic Chopin, Henry David Thoreau, Anton Tchekhov, Amadeu Modigliani, Gauguin, Moliére, Shiller, Mozart, Calvin, Spinoza, Laennec, Franz Kafka, Noel Rosa, Zequinha de Abreu, Gaspar Viana, Manoel Bandeira, Álveres de Azevedo, Cruz e Souza, Augusto dos Anjos, Casimiro de Abreu… paro, porque a lista seria interminável. Ah! Querem mais? Pois bem, eis tudo: a tuberculose matou o Brasil inteiro, matando a Bahia, ao matar Castro Aves! Mas, apesar de achar que a infecção que vitimou o Poeta dos Escravos vale uma pandemia, os meus escrúpulos de médico fazem-me raciocinar de outra forma.

A SIDA é importante problema de saúde pública, sim; mas a tuberculose não é menos do que ela, e, se não o é, merece que se lhe dê a mesma atenção, pelo menos. Estima-se que, no Brasil, do total de sua população, 35.000.000 a 45.000.000 de pessoas estão infectadas pelo M. tuberculosis, com uma média de 100.000 casos novos por ano, mas não se vê nenhuma campanha, nenhuma propaganda alertando sobre essa catástrofe, que grassa no silêncio de sua miséria; nenhuma ONG com isto se importa; nenhuma empresa cogita-se disto, nas suas campanhas internas de prevenção de doenças. Por que será?

Fernando Guedes

10/12/2002