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maio 1, 1998 - Poligrafia    7 Comments

Basta de esmola!

Ia 97 pela altura de setembro, quando o sertanejo começou  a perceber que o ano vindouro, mais uma vez, seria de penúrias. Em volta de si tudo indicava desgraça próxima: não viu florescer o pau d’arco e o canto agoureiro da acauã, quebrando a monotonia silente da caatinga, à boquinha da noite, preludiava mais um ato desse secular drama seu: a seca!

Veio dezembro, e o céu continuava limpo de nuvens, com o sol causticando a terra, qual inclemente fornalha… Mesmo diante dos primeiros sintomas do flagelo, “que conhece através de um sem-número de episódios”, ele resistiu com rara resignação, sempre alimentando esperanças de que as chuvas ainda poderiam voltar. Valendo-se de um velho costume, no dia doze desse mês, ao anoitecer, preparou as pedras de sal, para a experiência de Santa Luzia. Quase não dormiu de ansiedade, e, antes do sol raiar, levantou-se temeroso do que poderiam lhe revelar as pedras… Saiu à porta da choupana e viu, nas pedras intactas, o selo de sua desdita: a estiagem será prolongada… Raia o sol, mira o firmamento, e vê umas poucas asas-brancas se retirando…

O novo ano chegou sem esperanças: janeiro e fevereiro passaram sem um pingo de chuva sequer, mas ele reluta em acreditar nas evidências, e, apegado a uma religiosidade alienante, lembra-se de São José e volta a animar-se. José, ponderou, é santo camarada, costuma mandar chuvas no seu dia, e então conjectura: quem sabe ainda não dá para colher milho?! Deu-lhe crédito, e aguardou o dezenove de março, acreditando que a situação seria remediada… Mas, triste destino o seu, até o santo lhe faltou, a chuva não veio… Ai! quem lhe dera ser volúvel com a asa-branca, não ter apego às suas coisas, que são quase nada… Bateria também em retirada…

Desiludido, fitou a barra vermelha que se desenhava além, no horizonte, ouviu o piar de uma acauã distante, e se convenceu que não teria mais chuva, agora só lhe resta entregar-se à sua própria sorte…

A situação, àquela altura, era crítica: a água de beber minguava nas últimas cacimbas, e até os leitos das ipueiras, onde o gado bebia, solidificaram-se ao rigor da insolação, ficando impressas neles as pegadas das últimas rezes, que, de fome e sede, logo morrerão. As capoeiras e as roças exsicadas compõem uma paisagem de desolação completa. Sem auxílio, deparou-se com o fantasma da fome, conseqüência primária desse trágico quadro de desamparo, da qual decorreram as secundárias: doença, saque, crime, retirada, promiscuidade, exploração etc..

Na corte, isto é: em Brasília, o governo do sociólogo permaneceu, como os que outrora ele criticara, inerte diante do flagelo, não provendo sequer o tempestivo socorro alimentar à população faminta; apesar dos cinco milhões de toneladas de alimentos diversos que seus subordinados mantêm estocados, em armazéns públicos e privados, por esse Brasil a fora. Alimentos que a burocracia oficial retém sob o pretexto de servir de estoque regulador de mercado, e que, não raras vezes, são desviados para fins escusos, quando não perecem sob as más condições em que são armazenados. Que sistema político absurdo é esse que nos governa?! Até a Sociologia se apequena e se abastarda diante dele!

Somente depois do caos em curso, em maio, mobilizado pelos “espetáculos” da mídia e pela ação radical do MST, é que o Sr. Presidente decidiu apressar a distribuição do auxílio; mas seus Ministros, com o pensamento em outubro fito – isto é: nas eleições –, preferiram esperar ocasião mais propícia à esmola, afinal não se pode confiar na memória de nordestinos, e correr o risco de se chegar às eleições sem a lembrança da “benemerência” avivada, afinal a cotação do voto sobe a cada eleição, transformando-o num produto sempre mais caro!

Não há negar que o governo sabia da gravidade desta seca, pois técnicos, de um conceituado Instituto seu, o advertiram, com folgada antecedência, que uma enorme anomalia climática na região semi-árida do Nordeste acarretaria chuvas muito aquém da média histórica, e não identificavam nenhum indício de que esta situação pudesse ser revertida no atual período chuvoso; em suma, diziam eles: “prenuncia-se uma quadro de déficit hídrico de grandes proporções para a maior parte do Nordeste”, que “recomenda a implantação imediata de ações mitigatórias dos efeitos adversos da grande estiagem que já teve início e que progressivamente tornar-se-á mais severa ao longo de 1998”.

O sertanejo – que na vagabundagem não chegam aos pés dos áulicos do poder – jamais se engana com a seca, “advinha-a e prefixa-a graças ao ritmo singular com que se desencadeia o flagelo”, porque, sempre desapetrechado, aprendeu a decifrar o que a natureza lhe quer revelar através de coisas simples, como o agouro da acauã; a partida da asa-branca; o mandacaru que não floresce; a busca das baixadas pelas formigas etc. Enfim, busca na sabedoria popular o prognóstico de sua periódica desgraça, e, diante dela, não lhe resta outra saída senão resistir aos rigores da natureza e à humilhação a que vem sendo submetido desde o berço, pois logo aparece o político para lhe matar a fome e corromper-lhe a consciência. E assim, por década a fio, vai-se a oligarquia brasileira prosperando a “indústria da seca”, sacrificando gerações, e produzindo “uma subumanidade desamparada de Deus e dos homens, desgraça da desgraça”.

Dizem os nossos entendidos, com a sua mania de comparação, que a atual calamidade já atinge 1.200 municípios em nove Estados, causando um prejuízo material estimado em 4,7 bilhões de reais, só superada pela de mil oitocentos e tantos, e outras baboseiras que causticam mais a paciência do nordestino que inclemência do próprio sol, mas não se falam nunca em soluções definitivas, daquelas que obraram, nesse mesmo semi-árido, o “milagre” de oásis particulares, de políticos ou de amigos do poder, construídos com recursos do DNOCS e da SUDENE, onde água em abundância faz vingar virentes lavouras. Paradoxo?!

Paradoxo que vem de longe, sustentado por essa perniciosa “elite” que há muito estiola o Brasil, e mantém os nordestinos à margem da civilização, sem instrução, ao menos primária, para torná-los presa fácil dos engodos eleitorais de sempre; “elite” beneficiaria de uma estrutura agrária medieval, que desafia os mais elementares princípios de justiça social; essa mesma que nunca quis resolvido o anacronismo desta federação absurda, incapaz de implementar uma política de continuidade das ações administrativas e de promover o desenvolvimento social e econômico das regiões menos favorecidas. Enfim, este sistema administrativo que aí está não é compatível com a inteligência, nem propicio ao remédio, por isso o imobilismo do governo diante da calamidade; por isto o paliativo da cesta básica, nada mais… Chega de soluções fragmentárias e fugazes, que se evaporam como a água no ressecado torrão nordestino; que desaparecem como os políticos depois de eleições… Basta de esmola!

Fernando Guedes

Maio de 1998