Archive from maio, 2005
maio 30, 2005 - Poligrafia    2 Comments

Tabaco: réu de morte ou vítima da hipocrisia humana?

“Fumar es un placer genial,  sensual…

Dame el humo de tu boca,

dame que en mí passión provoca…”

Do tango Fumando Espero, de J. Viladomat Masanas

“Pobre moreno
Que de tarde no sereno
Espera a lua no terreiro
Tendo o cigarro por companheiro.”

Do samba-canção No rancho Fundo, poema de Lamartine Babo e música de Ary Barroso.

No dia em que o homem tiver juízo se interessará mais em escrever a história das coisas, do que a sua própria história, que é menos interessante. Se o humano, mesmo criminoso, merece defesa, por que não há de merecer a coisa perigosa? Eu acho que merece, e aqui faço a defesa do tabaco, para que ele possa ser condenado justamente.

“A história da medicina tem sido uma constante substituição de mentiras por falácias”, e uma das falácias comum nestes tempos atuais é a execração de certos hábitos, sem ao menos considerar as suas virtudes. Que o tabaco faz mal à saúde, não é novidade. Está relacionado com o câncer de pulmão, com a bronquite crônica, com infarto do coração, do cérebro, etc., em muitas pessoas. Se a Veja o ensina, não será preciso mais nada, neste mundo de nulidades… Mas, o que não se ensina, e acho até que não há necessidade de se ensinar, é que o tabaco não causa nada disso em muitas outras pessoas. O complicado mecanismo fisiopatológico de câncer, falo do câncer porque, não fora ele, a situação seria diversa, não está de todo esclarecido; portanto o tabaco surge, neste canário, através de deduções aproximadas, de relação de causa e efeito. A natureza histológica do carcinoma de pulmão do fumante é a mesma do carcinoma de pulmão do não fumante, penso. São exatamente a mesma coisa! Mas os estatísticos demonstram, contudo, que quem fuma tem maior chance de desenvolver o câncer de pulmão. Não vamos, por precaução, duvidar deles, e se esqueçam, por favor, que, segundo eles mesmos, todos os brasileiros comem, em média, um frango por semana… O produto da combustão do tabaco, aspirado, faz mal, não há dúvida!

Afirmar, contudo, que o hábito de fumar o tabaco não traz nenhum benefício, é o outro exagero da questão. Ninguém meteria fumaça no peito se isto não lhe causasse algum bem-estar, algum prazer, que é o benefício perseguido pelo fumante; é, em suma, o que lhe basta. Mas isto já não se respeita, porque a sociedade autocraticamente decidiu que ninguém deve fumar, transformando o fumante numa espécie de pária, para o qual olhares desabonadores e resmungos dissimulados são o vale de isolamento e de segregação. É o anátema das minorias…

Se o tabaco é um problema mundial de saúde pública, como demonstraram os representantes de numerosas nações, em recente assembléia da ONU, que aprovaram uma resolução condenando a incauta solanácea, o Brasil tem muito a ver com isto, porque o tabaco difundiu-se pelo mundo a partir  daqui. Antes de 1556, relata Damião de Góis, fora a planta levada do Brasil a Portugal, por Luís de Góis. André Thevet, em 1556, diz que, do Brasil, a levara a Paris, a Catarina de Médicis, antes mesmo de Jean Nicot, que, só em 1559, de Lisboa levara também a Paris, cultivando-a no jardim real, razão porque Lineu lhe daria o nome de Nicotiana tabacum, donde nicotina, etc. Já, em 1556, Hans Staden, em seu livro Viagem ao Brasil, publicou gravuras de índios fumando, em conselho, enormes trabucos de folha de palma, cheias de folhas secas de tabaco, precursão dos nossos modernos charutos, foi o que, no Breviário da Bahia, escreveu Afrânio Peixoto.

“Os nossos antepassados chamavam-lhe pitum, donde pitar, pito, pitada, que é a prise francesa, de tabaco torrado, “tabaco pisado”, tabaco em pó (rapé ou torrado), que se acondiciona em tabaqueira, boceta ou cornimboque, para ser aspirado, pelo nariz. Esse hábito resultou nos lindos lenços chitados, de Alcobaça, em Portugal, próprios para limpar os dedos e o nariz, do tabaco”.

“Os nossos antigos diziam “beber o fumo” por “tragar” a fumaça, como se diz hoje, como ainda também se diz “mascar” fumo, isto é, pô-lo em fragmentos na boca, deglutindo a saliva, que o dissolve. Ainda havia, e há, os que esfregam os dentes com um troço de fumo de corda, para os assear, não sem engolir o que resulta dessa operação, nem sempre limpa”.

É, também, brasileira a acepção pudenda de tabaco, que, por contido na boceta, de inspiração erótica, que, pela troca da primeira vogal, já emprestara nome à genitália feminina, fixando, depois, a significação chula do próprio conteúdo: “tabaco” é essa mesma genitália.  Em Bangüê, de José Lins do Rego, lê-se: “Francelino tinha passado nos peitos a menina de Zé Gonçalo. Ela dera o tabaco.” Daí, “tabaco da Bahia”, que não é o bom fumo do recôncavo, senão a boa genitália das baianas. Somos espirituosos até nessas coisas, que fazer!?

O tabaco sempre dividiu opiniões: defensores e detratores, desde muito, se debateram acerca de benefício e de malefício. Desde logo a Igreja o considerou o único dos modernos pecados mortais, que devia ser ajuntado à lista dos tradicionais. O Padre Manoel da Nóbrega, já em 1550, se abstinha, como os outros jesuítas, “por não se conformarem com os infiéis que muito o apreciam”. O nosso primeiro Bispo, Dom Pero Fernandes Sardinha excomungou ao donatário do Espírito Santo, Vasco Fernandes Coutinho, por fumar. O papa Urbano VIII estenderia a excomunhão aos religiosos que o fizessem, em 1624, e assim por diante… mais uma vez Afrânio.

O tabaco, queiramos ou não, tem a sua história, que não é somenos, portanto tenham cuidado com essas campanhas, que são mais difamatórias, que educativas. Apontem o crime, sem denegrir o criminoso, porque até o criminoso tem o seu direito protetor.

Num cartaz, reclamo da atual campanha contra o tabaco, a fabricante do cigarro é uma bruxa. Isso não só é de um mau gosto terrível, como um insulto. Já que não se fabricam mais cigarros manualmente, senão em modernas máquinas, que produzem milhares por minuto. De manual restaram os charutos, que são fabricados, via de regra, por mulheres, que com a sua delicadeza manipulam as folhas do tabaco, esticando-as nas suas próprias coxas, para o deleite dos apreciadores do seu produto (Havana, Montecristo, Dona Flor, etc.). Baianas ou cubanas, belas sempre, elas nada têm de bruxa. Aliás, essas campanhas, por não respeitarem as individualidades, por ignorarem a sociologia do tabaco, a sua história, já estão exorbitando do razoável: estão cada vez mais insuportáveis…

Fernando Guedes

30/05/2003

maio 7, 2005 - Poligrafia    No Comments

Tanatoética, ou a Ética da meta

“Minha vida começou pela extinção. É estranho, mas é assim. Desde os primeiros mminutos em que tive consciência de mim, senti que me apagava.”

Ivan Gontcharov

A verdadeira Filosofia é meditar sobre a morte

Dos azulejos do Convento de São Francisco – Salvador – Bahia (1743 – 1746)

Não hei de lhes apresentar um ensaio filosófico ou, muito menos, um texto de exegese ontológica. Muito longe de ser uma tese. Escrevi, com a precariedade da minha pena, linhas despretensiosas sobre o que penso acerca da Ética, para atender não à minha vaidade de aprendiz de filósofo, mas à gentil provocação de uma amiga, que insiste em compreender-me, e, assim, encontra, nas minhas idéias, alguma utilidade intelectual. A sugestão foi para que eu falasse de filosofia, ética e medicina, o que, de certa forma, soa-me como uma excitante provocação. Ora, partidário do time de Bernard Shaw, Voltaire, Molière e Gordon, como bem o sabe minha amiga, acho que a medicina é um culto a reformar, mas não me acho à altura de ser-lhe o reformador, nem sinto que eu tenha necessidade de fazê-lo. Como, por outro lado, não tenho a pretensão de laçar diatribes sobre a crença de ninguém, falarei dela apenas o suficiente para construir o elo que a liga aos demais temas. Falar de ética é filosofar; portanto, filosofo falando de ética.

Com o modelito em moda, a bioética, – convém lembrar Afrânio Peixoto: os médicos e as mulheres são as criaturas mais sujeitas à moda, esse tirânico fenômeno sociológico – que já foi argüida de “ponte para o futuro”, que eu não alimento a quimera de cruzar, posto que, na minha inexorável sucessão de agoras, não me hei de importar, porque me bastam as preocupações do presente.

Tudo o que sei sobre ela só me fez agravar a certeza de que o melhor que possa fazer, neste mundo em que os “Crítons” vivem a imolar galos em honra de Esculápio, em total contradição com os ensinamentos de Sócrates, é mergulhar nas reconfortantes águas de uma fonte chamada Monteigne, e especular sobre a ética da meta, educando-me a morrer. Portanto, já que o Dr. Van Potter engendrou o termo bioética, pensando que estava sendo original, eu, rejeitando o senso comum, e totalmente despojado do complexo de inferioridade, fico com a ilusão que cunhei tanatoética, que, se não é mais importante, é, pelo menos, por consernir à morte, mais definitivo.

À guisa de conceito

Nunca se falou tanto de ética, como nos tempos atuais, e nunca se deturpou tanto o conceito de ética, a ponto de ter proliferado, principalmente no mundo empresarial, essa contradição insólita: os redatores de “códigos de ética”. Não tenho conhecimento de nenhum filósofo que se desse ao despautério de escrever “código de ética”, até porque o filósofo, ainda que estravagante, pensa… Ética é disciplina teórica, capítulo da filosofia, que, em compêndio, trata do estudo da moral. Deduzimos daí que “os problemas éticos caracterizam-se pela sua generalidade e isto os distingue dos problemas morais da vida cotidiana, que são os que se nos apresentam nas situações concretas”. Não há dúvida de que a ética pode colaborar para fundamentar ou justificar certo padrão de comportamento moral, revelando certo caráter prático, o que explica porque se tentou ver nela uma disciplina normativa, cuja função primordial seria indicar o comportamento melhor do ponto de vista moral. Eis a origem do esquecimento do caráter propriamente teórico da ética, que aqui, nestas parcas linhas, se pretende relembrar: “a função fundamental da ética é a mesma de toda teoria: explicar, esclarecer ou investigar uma determinada realidade, elaborando os conceitos correspondentes”.  Ninguém ignora que a realidade moral varia com o curso da história, com a evolução da sociedade, e, com ela, variam os seus princípios e as suas normas. Pode-se negar, por acaso, que em determinada época histórica a escravatura foi moralmente aceita entre nós? Que a economia desta nação sustentava-se nela? Dominava uma moral servil, em que até os próprios escravos, se deixando influenciar por ela, consideravam a si próprios como peças. Assim, quem haveria de dizer que manter uma senzala era antiético? Fluiu o tempo, pelo seu inexorável declive das épocas, e, pouco a pouco, foi-se formando, na consciência dos escravos, a idéia de liberdade, e chegaram, em muitos casos, a deflagrar memoráveis lutas contra seus agressores, contribuindo para a transformação da consciência  social, que passou a ver, na escravidão, uma ignomínia, com a qual já não se podia mais conviver, desembocando na moral dos homens livres. É que, com a história, mudou a realidade moral, que, por sua vez, implicou o ajustamento das normas éticas correspondentes. A ética da escravatura já não explicava a moral da abolição. Que a abolição foi equivocada nos seus desdobramentos, deixando os escravos ao abandono, com cartas de alforria nas mãos, quando já não tinham sequer força para prover o próprio sustento, é outra coisa, que suscita sua específica especulação.

Não confundamos ética com moral, e que fique claro que a ética não cria a moral. “O valor da ética como teoria está naquilo que explica, e não no fato de prescrever ou recomendar com vista à ação em situações concretas”. É certo que toda moral supõe princípios, normas ou regras de comportamento, mas não é a ética que os estabelece, senão procurar determinar-lhes a essência, investigar-lhes a origem, desvendar a natureza dos juízos morais, teorizar sobre as circunstâncias da moral vigente numa determinada sociedade. A moral, por seu turno, não é ciência, mas objeto da ciência, que a estuda e investiga, que, em última análise, é a ética. Portanto, não sendo a ética a moral, ela não pode ser reduzida, como muitos o pretendem, com ridículos códigos, a um conjunto de normas e prescrições. Somente quero dizer que a relação da ética com a moral se esclarece no relacionamento de uma ciência específica e seu objeto. Não há aqui se apelar para a similitude etimologia dos termos: moral e ética – do latim mos e do grego ethos – , porque o esquecimento etimológico, fenômeno comuníssimo em todas os idiomas,  já cuidou de separá-los, há muito.

Exercitando a ética

Qual a natureza da obrigação moral? De onde ela provém?  Responder a estas questões é exercitar a ética. Marcel Conche, nesse passo, assim escreveu: por que me sinto obrigado a fazer o que contraria minha propensão natural a viver para mim e se choca com meu desejo de compor as ocupações de meus dias de acordo com meu gosto ou meu prazer? De alguns anos para cá, diz ele, estou sujeito a viver constantemente ao lado de minha esposa doente. Estou sujeito, ou melhor: eu me sujeitei e me sujeito, responde o filósofo, pois não poderia aceitar que ela vá para uma clínica ou um asilo para pessoas doentes ou idosas. Se aceitasse isso, justifica, eu me sentiria em falta com ela. Sinto-me obrigado a fazer que ela fique o melhor possível acompanhada e ajudada. No entanto, vários desejos e projetos que eu teria são contrariados com isso. De onde vem, pois, esse sentimento de obrigação, tão forte que arrasta até mesmo as propensões pessoais e egoístas?

Dirão que amo minha mulher ou que seu estado de fraqueza, de dependência, de impotência, me inspira compaixão. Ele não contesta nenhuma dessas afirmações e admite que, nesse exemplo de devoção, é difícil isolar o sentimento de obrigação dos sentimentos conexos de amor e piedade.

Eis a obrigação de fazer, a obrigação moral, que os estóicos a entenderam exemplarmente: “podemos fazer aquilo a que nos estimamos obrigados com total indiferença afetiva e até sem desejo”.

O médico dispensa cuidados a seu paciente é esperando que tais cuidados vão ajudá-lo, senão na cura, pelo menos a ter uma razoável qualidade de vida durante a sua doença. Nenhum médico, ainda que não desejasse que o paciente vivesse, deixaria de fazer o que deve ser feito, sem amor e sem piedade. A moral é indiferente ao amor, à piedade e ao desejo do bem. Ela, nesse sentido, é auto-suficiente, prescinde de qualquer sentimento, que não seja a sua própria obrigação.

Acabei de dizer, ut retro, que a obrigação moral brota do recesso do ser, por causa de uma convicção interior e não por uma simples conformidade exterior, impessoal e forçada, como ocorre com o comportamento jurídico e no contrato social. A liberdade de escolha é condição da obrigação moral. Não é por me sentir obrigado a fazer isto ou aquilo, que vou fazê-lo, nem por sentir a obrigação de não fazer o que me tenta que não vou fazer. A obrigação não acarreta o ato dela mesma e sem que eu tenha de querê-lo. Para que aquilo a que me sinto obrigado se consume, é preciso que a minha vontade admita a obrigação.

Deparamo-nos, neste mundo de superficialidades, com a constante confusão conceitual entre obrigação moral e obrigação social. A pressão da sociedade sobre o indivíduo não suscita senão uma obrigação social: “como respeitar superiores, observar os usos, como responder a uma carta, agradecer por um serviço prestado, felicitar por ocasião de acontecimento feliz, presentear, acompanhar enterro de um próximo, expressar condolências, cumprimentar, estender a mão em cortesia etc.,” que nada tem a ver com a obrigação moral. Este exemplo de Marcel Conche esclarece a diferença: Quando os prussianos invadiram a cidade de Orléans, em dezembro de 1870, soldados inimigos bateram à porta de uma francesa e lhe confiaram um dos seus feridos. Ao despir o ferido, para lhe fazer o necessário curativo, viu uma corrente de relógio presa a uma das botoeiras da túnica. Retirou o relógio e se deparou com a lembrança que dera a seu filho, que combatia entre os franco-atiradores, e, tomada por horror e desespero, desmaiou. Ela cuidava do assassino do seu filho! Recobrada a consciência, irrompeu em soluços e, corajosamente, termina o curativo começado. Quem há de dizer que o curativo que aquela mãe fez no assassino do seu próprio filho foi motivado por uma obrigação social? É insofismável que aquele curativo foi terminado em decorrência de uma exigência de outra ordem, que, em última análise, é a obrigação moral, que àquela francesa se apresentou como um comportamento livre e obrigatório.

Espero ter deixado claro, até aqui, que a obrigação moral pressupõe necessariamente uma livre escolha, logo, quando o agente se vê privado da livre escolha, não há que exigir-se dele uma obrigação moral. Convém refletir, contudo, que nem toda possibilidade de se escolher livremente encerra, em si mesma, uma significação moral. Escolher eu entre assistir a um filme ou ir à praia evidencia simplesmente a minha liberdade de escolher, que não se relaciona com uma obrigação moral, porque nenhuma sanção moral me pode ser imposta pelo fato de ter preferido o cinema à praia; a praia ao cinema. Porém, se minha escolha recai entre ir ao cinema ou visitar um paciente ao qual prometi assistir na mesma hora, a minha escolha é condição necessária inescusável para o cumprimento da obrigação moral assumida.

Estar-se obrigado moralmente a cumprir uma promessa que se pode cumprir, dado que nenhuma causa exterior impeditiva obstaculize a ação do agente, suscita a obrigação moral. A aparente limitação da liberdade, em ter que escolher cumprir a promessa que fiz a meu paciente é somente aparência, por que sou eu quem escolhe decidir limitá-la, para afirmar a liberdade indispensável que se possa imputar-me uma obrigação moral, que estaria excluída se a limitação fosse imposta à minha revelia, de fora.

Sobre as teorias da obrigação moral

Sou tentado a não fugir à monomania de classificar as coisas, mas, se o faço, é apenas para tornar a idéia mais fácil de ser assimilada, e não para colocar limite ao pensamento.

Classificam-se essas teorias em dois grupos: deontológicas e teleológicas. Entende-se por deontológica (de deón = dever) aquela teoria que não condiciona a obrigatoriedade de uma ação às suas próprias conseqüências. Ao contrário, é teleológica (de télos = fim) aquela cuja obrigatoriedade de uma ação deflui exclusivamente de suas conseqüências. Para melhor demonstrar a diferença entre ambas, valho-me de um sugestivo exemplo do mexicano Adolfo Vázquez, a quem abro aspas: “suponhamos que um doente grave, confiando na minha amizade, pergunta-me sobre o seu real estado, dado que, segundo perece, os médicos e os familiares lhe ocultam a verdade: o que devo fazer neste caso? Enganá-lo ou dizer-lhe a verdade? De acordo com a doutrina deontológica da obrigação moral, devo dizer-lhe a verdade, sejam quais forem as conseqüências: mas, se me atenho à teoria teleológica, devo enganá-lo tendo em vista as conseqüências negativas que podem resultar, para o doente, do conhecimento do seu verdadeiro estado”.

Sem embargo de não submeter a deontologia a obrigatoriedade do ato moral às suas conseqüências, como já o disse, é possível identificar, neste postulado, certo relativismo, que se pode deduzir da visão sartreana do ato moral. Partindo-se do princípio de que a liberdade é a fonte de valores por excelência, admite essa filosofia que a conseqüência do ato pode adquirir caráter deontológico. Assim, exemplificando, entre duas possibilidades de ação que se nos oferecem, o fundamental é comprometer-se com uma delas. Ora, comprometer-se é, em suma, escolher, e o ato de escolher deveria estar condicionado a uma norma geral orientadora, o que nos levaria a um paradoxo, que o existencialismo justifica com o postulado da importância do grau de liberdade, com que se faz a escolha. Assim, admite a teoria deontológica do ato.

As teorias deontológicas da norma, onde se insere a “ética” profissional – que é normativa -, determinam que os atos morais são orientados por normas que devem ser cumpridas independentemente das suas conseqüências. Sem contar os filósofos contemporâneos que se dedicaram ao estudo dessas teorias, é na Crítica da razão prática, de Kant, que encontramos a expressão clássica dessa filosofia.

As teorias teleológicas dividem-se em: utilitarismo e egoísmo ético; ambas têm em comum o princípio de relacionar a obrigação moral a que estamos sujeitos às conseqüências de nossas ação. Se ao praticar um ato o fazemos levando em consideração o nosso benefício pessoal, estamos diante da teoria do egoísmo ético; ao contrário, se consideramos o benefício dos outros, nos deparamos com o utilitarismo, em sua forma vária.

Tomo o exemplo da aplicação do Art. 120, do Código de Ética Médica, que eu mesmo levantei no passado, quando éramos, os médicos do trabalho, constrangidos a realizar perícias para conceder ou negar benefícios previdenciários aos empregados da companhia onde trabalhávamos. Não há dúvida que se trata de uma norma deontológica, portanto, o seu cumprimento independe das conseqüências do ato a que ela se ajusta. Mas, o que esta norma realmente proíbe ao médico? “Ser perito de paciente seu, de pessoas de sua família ou de qualquer pessoa com a qual tenha relações capazes de influir em seu trabalho”. Como é sabido, a despeito da clareza desta redação, foi preciso uma resolução do Conselho Federal, para confirmá-la, o que causou grande alvoroço no meio dos médicos do trabalho que reputam a medicina do trabalho uma especialidade sem pacientes. Ainda que a medicina do trabalho fosse essa estranha especialidade sem pacientes, mesmo assim a proibição os alcançaria, a esses médicos do trabalho, pois não há negar que o empregado da empresa onde trabalham, se não é paciente, certamente está entre: “qualquer pessoa com a qual tenham relações capazes de influir…” Negar isto implica renegar o próprio conceito de generalização.

Como se pode deduzir, estamos diante de um problema prático-moral e não de uma questão teórico-ética; portanto, será inútil recorrer à Ética para resolvê-lo. A Ética não cria a Moral, estuda-a com os seus postulados teóricos, somente isto. Por outro lado, não se pode ignorar que a Moral mantém com a sociedade uma certa “promiscuidade” evolutiva, que a torna mutável, o que não foi considerado quando se discutiu a aplicação do Art. 120.

A celeuma que então se criou em torno dessa questão se deveu exclusivamente ao fato de se dar a uma norma deontológica interpretação teleológica, na tentativa de ajustá-la a uma situação concreta, não se cogitando de buscar, na evolução da moral, a correta solução ao problema. Ora, a moral sempre reflete a sociedade que lhe é contemporânea, não se cristalizando, imutável, no tempo.

Se é certo que a moral evoluí, também é correto que a ética a ela se deva ajustar. O exercício da medicina na atualidade não pode ser orientado por normas deontológicas que refletem uma moral que já não existe, atropelada pela evolução das relações sociais e pelo desenvolvimento das ciências que a apoiam.

Ética da meta

Trago para o princípio desta reflexão as palavras com as quais Françoise Dastur finalizou o seu interessante ensaio sobre a finitude: ‘‘É essa irresponsabilidade e essa amoralidade do jogo cósmico do qual não há expiação nem desejável nem possível, e essa realeza da finitude que são totalmente ignoradas ali onde, como nas sociedades industrializadas, isto é, hoje em dia numa parte cada vez maior do planeta terra, a morte caiu no esquecimento”. A morte, senhores, é, na visão de Schoprnhauer, propiamente o gênio inspirador, ou a musa da filosofia, portanto, meditemos sobre ela com este exemplo: um empregado vivendo circustâncias aflitivas cometera falta grave, ao transferir, para a sua conta bancária, parte dos salários de outros empregados, tendo, para isto, conseguido, por meio escuso, a senha de sistema de pagamento… Estava sendo submetido a uma comissão de inquérito administrativo, e, dizia-se, seria certamente demitido. Isto é: a desgraça atarindo, para si, uma desgraça ainda maior. Quando fora ouvido numa sexta-feira, era um mau empregado, que devia pagar pelo seu erro. Na segunda-feira seguinte, com a comoção do seu suicídio, já era um coitado, covarde, que não agüentou a pressão das circunstâncias que o envolviam. Providências, assistente social para apoiar a família e providenciar o funeral, e uma nota lacônica convidando para assistir ao enterro… Não resisti à provocação e fui, em pensamento, direto a Novalis, o poeta-filósofo que soube bem compreender a relação do idealismo com a morte, e o demonstrou neste arrebatador fragmento: “O ato filosófico autêntico é o suicídio; reside aí o começo real de toda a filosofia; é para isso que tendem todas as necessidades do futuro filósofo; e só esse ato está em conformidade com as condições e as características de uma ação transcendental.” Por que este exemplo? Que me sugere ele além da compreensão de que é bom guardar na cabeça a sída sempre possível que nos oferece?  Nenhuma outra razão senão a de sugestiva oportunidade que se me apresenta para penetar na fenomenologia da morte. Em primeiro lugar, revela-me que a vida é a morte em processo: a existência propriamente humana é então uma morte voluntária continuadamente assumida.

Hengel afirmou, na Fenomenologia do espírito, que morte é a única obra e realização da liberdade universal: “o homem não é simplesmente mortal; é a encarnação da morte; é a sua própria morte. Os médicos, acostumamos com essa idéia enganosa de que é sempre possível prolongar a vida, a ponto de incorrer, com freqüência, na inútil presunção de poder garanti-la com técnicas sofisticadas, e, cada vez mais, nos afastamos da inexorável certeza da morte. Montaigne, com sua peculiar genialidade, resultado de uma educação perfeita, em sua enciclopédia de humanismo literário, Os Ensaios, afirmou ser “a morte o objeto necessário de nosso alvo, se ela nos assusta, como será possível dar um passo à frente sem febre? O remédio do vulgo é não pensar nela…” A medicina,  advertiu André Comte-Sponville, pode ser útil a isto, por que isso nunca foi mais verdadeiro do que hoje: o hospital põe a morte à distância, para os outros, para os saudáveis, a tal ponto que eles acabam, por vezes, esquecendo-a. “Morrer? Nem pense nisso! Parei de fumar e tenho um médico ótimo…” “Meu colesterol não chega a 200, meu teste de esforço foi negativo…” “Pobres crianças que somos!” “Outros, contra a angustia, se entopem de ansiolíticos, outros se atordoam no trabalho ou no prazer…” “Fingem não morrer, e é a isto que chamam sua saúde.”  E o mais trágico de tudo é que essas presunçosas figuras que “prescrevem  substâncias que pouco conhecem para curar doença que conhecem menos ainda,  a pessoas das quais nada sabem”, os médicos, afirmam e garantem isso…

Tendo perdido a bússola da metafísica, porque abdicarm-se, há muito, do estudo das humanidades, os médicos, a despeito dos seus prodígios científicos, se perderam pelos descaminhos da biologia, e já não podem compreender que toda vida, independentemente da sua duração, seja um dia, sejam oitenta anos, é completa, se se atinge a sua meta, que é a morte!

A medicina não é uma ciência, é uma técnica. Não há negar que é uma técnica que se apóia em numerosas ciências, daí o seu caráter científico, que não é tão remoto, como se presume. Somente no século XIX, em França, com Magendie e Claude Bernard, é que a medicina opera sua revolução epistemológica, até chegar ao surpreendente desenvolvimento dos dias atuais. Até meados do século XIX o remédio que mais se vendia nas farmácias de Paris era sanguessuga!

“De todos os progressos científicos e técnicos que nosso século conheceu, e eles são consideráveis, nenhum nos toca mais de perto que os da medicina: eis nossa própria vida, em sua intimidade biológica e psicológica, tornada objeto de ciência!” Esses mesmos progressos, que, por um lado, produziram maravilhas notáveis, como é o caso das vacinas, hipertrofiaram tanto, por outro, a soberba científica do médico, que às vezes parece confundir-se com o próprio Criador, a ponto de apequenar, na mesma proporção, o humanismo sem o qual a medicina não passa de uma sofisticada técnica a serviço do mercantilismo que a cerca.

Com a lucidez que o distinguia, Mário Rigatto foi direto ao âmago da questão: “No último século, a medicina registrou a quase totalidade de suas vitórias científicas ao longo dos tempos. Suas conquistas abrangeram três campos básicos: 1º.) o mais importante, o menos dramático e o menos comentado: a preservação do organismo sadio (vacinas, antibióticos);  2º.) o menos importante, o mais dramático e o mais comentado: substituição de partes do organismo doente (próteses, transplantes); 3º.) o mais festejado: o “calote” (drogas para emagrecer, “hormônios”, a “pílula”, “fortificantes”). “Do ponto de vista científico, os três campos são igualmente respeitáveis. Do ponto de vista socioeconômico, o primeiro é tão mais importante que reduz os dois últimos a muito pouco. Não obstante a disparidade de valores, o maior esforço do homem se concentra nos dois últimos campos”.

Eis aí a sentença: o médico, fascinado pelos anúncios luminosos de questionáveis progressos, que são a ciência a enganar, não só combate a doença, mas a agrava ou a produz. Em memorável discurso de ocasião, aos formandos de medicina, em 1968, o grande professor aconselhou: “lembrem-se que mais importante do que “ser normal” é “sentir-se normal”. Não criem “doentes” atribuindo a esta ou àquela “doença” sintomas vagos, inespecíficos e, o mais das vezes, transitórios. Não criem “inválidos” a partir de anormalidades bioquímicas cujo real significado desconhecemos”. Esse conselho, entretanto, pelo que me é dado observar, não tem sido seguido. O sedare dolorem divinum opus est e o primum nom noscere são, hoje em dia, fósseis retóricos conhecidos apenas dos que se dão à pena de praticar a arqueologia médica, tamanha a dissociação entre o tecnicismo, que só considera a condição “paciente” do indivíduo, e a atenta e inteligente observação clínica, que considera o indivíduo e suas circunstâncias. “Yo soy yo y mis circunstancias”, e, das minhas circunstâncias, a mais certa, a mais inexorável é a minha morte. Opinam e interferm na minha vida sem nada dela conheceram, porque “a realidade da vida consiste, pois, não no que é para quem de fora a vê, mas no que é para quem desde dentro dela é, para o que a vai vivendo enquanto e na medida em que a vive.” “Daí que conhecer outra vida que não é a nossa obriga a intentar vê-la não apartir de nós mas a partir dela mesma, a partir do sujeito que a vive.” Heidegger, existencialista notório, penetrou o cerne da ontologia do existir, e nos adverte que habitualmente imerso na inautenticidade, que lhe oculta a realidade da própria condição, o homem, no entanto é capaz de verdade, quer dizer, de desvelar ou revelar a si mesmo a temporalidade essessial de sua existênncia, de ser-para-a-morte. Sempre incompleto, ou inacabado, procurando realizar projetos que jamais se cumprirão integralmente, o ser-aí não é afetado pela morte como por um acontecimento exterior, mas é, essensial e constitutivamente, um ser-para-a-morte. A angústia e a mortalidade do ser-aí, permite, assim, o acesso à existência autêntica. A presunção científica do médico, que se exorbita nessa figura questionável que é o “especialista”, o leva ao erro fatal de não considerar a vida a partir do sujeito qua a vive, mas como ele a entende a partir dos seus pressupostos biológicos e técnicos. Se a vida não é levada em conta de uma necessidade num sentido subjetivo, simplesmente porque o homem decide autocraticamente viver, não se há de supor que se dê à morte a importância metafísica de estar contida na própria vida. Freud, nos Ensaios de Psicanálise, escreveu: “Lembremo-nos do velho adágio: si vis pacem, para bellum. Se queres manter a paz, arma-te para a guerra. Já é hora de modificá-lo: si vis vitam, para mortem. Se queres ser capaz de suportar a vida, esteja pronto para aceitar a morte.” Suportar a vida, foi o que disse o inventor da psicanálise! Mas, podemos dizer, sem corromper o sentido original, se pretendemos gozar a vida; amar a vida; vivê-la intesamente, que estejamos prontos para a sua meta, que é a morte.

Enquanto não nos damos conta disto, vamos, com a nossa presunçosa e vã “ciência”, dosnado o colestrol, caluniando o óleo de dendê, difamando o açucar, esconjurando o tabaco, baixando a taxa de mortalidade… e nos iludindo que se morre cada vez menos. Quem morre é o indivíduo, e todos os indivíduos morrem. Podemos até morrer mais tarde, mas que morremos menos, não. A taxa de mortalidade, para quelquer indivíduo, não foge à constância de ser igual a um. É com esta inexorável  e costante taxa que me defroto todos os meus insignificantes dias, e do seu nunerador jamais me esquivarei. Se preferem a ilusão das taxas dos demógrafos, que projetam um prolongamento indefinido da vida, que oçam, para finalizar, o demônio:

Não és mais, meu senhor, do que és: um mortal!

Perucas podes ter, com louros aos milhões,

Alçar-se com teus pés nos mais altos tacões,

Serás sempre o que és: um pobre ser mortal!

(Mefistófeles – Fausto, Goethe)

Fernando Guedes

7/5/2005

Proferido no II Encontro de Profissionais de Saúde da Petrobrás