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nov 1, 2011 - Poligrafia    6 Comments

Saberia quanto custa ser herói…

Abundância em medicina é penúria. (Miguel Couto)

Esse segredo ou há de ser formal e absoluto, ou, se não o for, não passará de um embuste grosseiro, de uma arlequinada indecorosa, de uma farsa infamante de um homem de bem. (Francisco de Castro)

 

No sábado, 29, como de costume, cheguei à triagem do hospital público onde trabalho, às sete… Ali não tem lugar a presunção; se algum notável lá chega é por obra do acaso, se o coma, na circunstância de um acidente, lhe rouba a consciência… Por volta das 10 recebi um paciente de 56 anos, pouco mais jovem que o outro, que à mesma hora, sem que eu o soubesse, era assistido por uma equipe de notáveis especialistas do Sírio-Libanês, hospital de excelência, lá na Paulicéia desvairada. A mesma desdita em circunstâncias contrárias…

Quando tornei à minha casa e liguei a televisão, só me deparei com o câncer de ex-presidente da República… No Globo News o apresentador entrevistava um notável cirurgião, especialista em câncer, que lhe respondia perguntas tolas… Ali, naquele ambiente, parecia-me que o que contava, para além da informação, era a audiência, isto é: pontos no IBOBE… Nesse ridículo consultório midiático, apresentador-médico e médico-apresentador, que nunca viram o paciente, revelavam detalhes de sua doença, como se o tivessem examinado com rigor propedêutico… Era a medicina a serviço do desserviço, em busca da notoriedade fugaz…

Um desenho da laringe foi projetado no écran e a voz do especialista, em fundo, discorria sobre a anatomia do órgão e opinava acerca a localização do tumor que acomete o ex-presidente. Pausa! A repórter, em link direto do Sírio-Libanês, precisava comunicar: “O ex-presidente deixará nesse momento o hospital, com diagnóstico confirmado e tratamento definido, que terá início amanhã às nove horas”.

A equação é esta: Prestigio pessoal do paciente + especialistas dedicados ao caso + todos os recursos técnicos arregimentados = eficiência no diagnóstico e tempestividade da terapêutica, que resulta, sempre, quando a doença o permite, em bom prognóstico. Oxalá fosse sempre assim, com os outros doentes…

O paciente retornará ao Sírio-Libanês para colocação de um cateter e iniciar a “quimioterapia de indução”, disse o apresentador, com autoridade de prescribente… Amanhã, quando a primeira dose de quimioterápico lhe correr pela veia, a eficiência terá batido recorde: menos de 72 horas, do diagnóstico à terapêutica, para ventura do paciente! Nesse lapso, a mídia se incumbiu de difundir uma abundância de aulas de anatomia, de patologia, de oncologia e de terapêutica, de fazer inveja a muitos cursos médicos que há por aí. Por outro lado, a penúria da deontologia, cooptada pela imbecilidade do utilitarismo…

Bem diferente, no que se refere à atenção, é o caso do outro paciente… Luta, há meses, para conseguir o tratamento de um câncer de estômago. Magro, espoliado, desidratado, com anemia profunda, causada pela ação cunsumptiva da doença, deparei-me com ele no curso de um acidente vascular cerebral, que lhe causou paralisia do lado esquerdo do corpo. Como se diz no sertão: para cima de queda, coice! Disse-me sua filha, que o acompanhava, que já estava cansada de bater de porta em porta, e ouvir a resposta padrão: “Não é caso para este hospital!

Velho clínico, em caminho da retirada, sem nenhum cabedal de especialidade (com a convicção de que a medicina é, na atualidade, uma profissão eficaz para os bem sucedidos) o admiti e fiz o que me estava ao alcance: prescrever hidratação, sedação da dor (sedare dolorem opus divinum est) e transfusão de sangue; requisitar tomografia computadorizada do crânio e avaliação neurológica. Quando saí do hospital o deixei deitado numa maca metálica, ainda sem o colchonete, entre outras, num espaço que não permitia mais que 15 centímetros de separação entre elas, resistindo estoicamente, sem esboçar nenhum queixume…

Longe de mim a apologia da igualdade entre os homens. Minha ingenuidade não chega a esse dislate, nem acalenta a hipocrisia de tratamento igualitário entre os pacientes que inspiraram estas linhas. A prática, com a qual me defronto diariamente, desmentiria a impostura.

Se os coloco em confronto, a esses dois pacientes, similares apenas na desdita do câncer, não é para reclamar, para o que assisti, o mesmo tratamento dispensado ao ex-presidente da República. Sei que entre ambos há uma distância astronômica, que nunca será transposta, malgrado a letra (morta) da Constituição… Para um, penúria; para o outro, abundância, garantidas pelo Estado, sem nenhum constrangimento moral. Confronto-os para constatar que um deles teve a oportunidade, como Presidente da República por oito anos, de acabar com as humilhações que os outros pacientes passam em face da doença, sem a menor insinuação de que foram diferentes os oitos anos do seu antecessor, o sociólogo. Nem a sociologia de um, nem a experiência de nordestino retirante do outro, em dezesseis anos de governo, resistiram à corrupção do mando… Há muitas décadas a saúde pública, nesta desgraçada nacionalidade, vem decaindo a passos largos, impondo a quem necessita de seus serviços as mais cruéis humilhações, de fazer corar a própria indignidade.

Virá, a seguir, a outra tediosa face da hipocrisia: a construção do herói que luta bravamente para vencer o câncer, fazendo ciclópicos sacrifícios… Não fumará mais Partagas; não beberá mais Romnée-Conti; não tomará mais um trago da Anísio Santiago… Enfrentará o tédio de consultórios luxuosos, sem espera nem fila; onde afáveis médicos e enfermeiras educadíssimas lhe serão sempre solícitos… Não precisará se preocupar com a quitação fatura do convênio para obter autorização dos procedimentos, porque com ou sem autorização eles serão realizados tempestivamente. Ah, a conta… Imaginem… importunar o paciente com essa ninharia: a “dignidade do cargo”, enfim, para que serve? Eis, ai, como esta República engendra seus heróis…

Saindo ontem da visita que fez ao paciente, a Presidente da República não economizou otimismo: “Ele está com um humor excepcional!” Como alguém, mentalmente sadio, pode apresentar humor excepcional sabendo-se portador de um tumor maligno na laringe? Confesso que não alcanço os fundamentos dessa psicologia, que me parece um disfarce, intencionalmente produzido para enganar incautos. Nessa fase inicial de incertezas, de uma doença grave, reclama-se, para o bem do paciente, discrição e prudência…

Fizeram a mesma coisa com o ex-vice-presidente José de Alencar: “herói de ocasião”, cujo heroísmo, no enfrentamento da doença, dependeu seguramente do seu prestígio, de médicos competentes, de bons hospitais, de recursos terapêuticos avançados, da mordomia oficial, tudo à deposição, a tempo e a hora, facilitando-lhe a resistência para vencer as vicissitudes impostas pela gravidade do mal.  Mas, se esse mesmo vencedor tivesse que experimentar a indiferença nos hospitais e ambulatórios do SUS; precisar da tal central de regulação; tentar fazer uma tomografia computadorizada ou ressonância magnética; esperar meses sem conta por uma cirurgia, para tratar o câncer, não teria resistido o quanto resistiu… Saberia quanto custa ser herói!

 

Fernando Guedes
31/10/2011

 

set 3, 2010 - Poligrafia    No Comments

Ruy e Octávio Mangabeira riem de mim…

otavio_mangabeiraQuando uma convicção me entra no espírito, resultante de exame profundo ou longa observação, é difícil que dela me libere. Não creio, não há jeito de acreditar que se tire este país do labirinto em as circunstâncias o meteram, senão depois que ele por alguma, não direi transformação porque a palavra pode prestar-se a equívocos, mas reforma, atingindo os espíritos, e que tenha o poder ou o condão de inspirar e torná-las exeqüíveis. (Octávio Mangabeira)

rui_barbosaOs debates, na representação nacional, não servem para deixar ver a verdade sobre o Governo da Nação. Para o que servem, é para a encobrir. Se papel dissimulativo os rebaixa. Sua baixeza os entrega à mediocridade. Sua mediocridade os inutiliza. Sua inutilidade os separa do povo, que os aborrece, os evita, os ignora, e se habitua a não os escutar. (Ruy Barbosa)


Sentei-me ao computador para ler os jornais e me deparei, nas primeiras páginas, com o resultado de uma pesquisa que dá, para a primeira candidata da situação, a vitória logo no primeiro turno. A avaliação favorável do atual governo, patrocinador dessa candidatura, diz a pesquisa, é recorde na história da República: 80%.

Assisto à propaganda eleitoral e percebo, com clareza, o caráter plebiscitário que situação e situação imprimem à eleição. A repetição não é erro: é constatação. Não temos oposição!

Assaltado por um desalento, olho o entorno e me deparo, numa estante, com Ruy Barbosa e Otavio Mangabeira: outra constatação. Homens verdadeiros (não sombras) e idéias só nas estantes.

A televisão, ao lado, anuncia o início do programa eleitoral. Interrompo a escrita e volto-me para a televisão. A primeira candidata da situação, a boa-moça política, inicia sua propaganda exaltando os feitos e as obras do governo a que serve e conclama o povo, notadamente os 80% que estão felizes com tais “conquistas”, que reelejam, para o terceiro mandato, o “governo da felicidade”. Lula aparece no vídeo, com aquela modéstia de quem se acha dono do Cruzeiro do Sul, e pergunta: “Como é que um torneiro mecânico conseguiu fazer mais Universidades que os letrados?” A platéia, em aplausos, delirou… É coisa do Brasil, que nunca teve apreço pela cultura (o Brasil preferiu Hermes da Fonseca a Ruy). O segundo candidato da situação, o hipocondríaco político, que tem medo de aparecer ao lado do ex-presidente a que serviu, porque acha mais proveitosa propaganda com Lula, de quem promete manter os programas, se compromete com a retomada dos mutirões de catarata e próstata, mais genéricos e clínicas de especialidades. A terceira, a extrativista política, prega a sustentabilidade e o retorno ao naturalismo, para trocar o Brasil que temos pelo Brasil que queremos; isto é, que ela idealiza e imagina. Lá, no governo, esteve ministra e se limitou ao Brasil possível… Os três, situação que são, tudo fazem para colher, nessa maldita seara política, a sobra que se derrama da bruaca política de Lula. Este, certamente, se tornará Doutor Honoris Causa de uma dessas Universidades que criou, se não o for da USP…

Entre os outros, que não pontuaram na pesquisa, não há quem lidere um contingente eleitoral suficiente para tornar-se oposição viável. Para ser oposição viável não basta não estar no governo, não servi-lo, é necessário, além de não estar no governo, se opor a ele, com condição política e moral de enfrentá-lo no Congresso. Não se deixar seduzir por migalhas embutidas, de alcatéia, em medidas provisórias; não transigir em nenhuma hipótese. Todos eles são uma oposição nominal consentida por esse anacrônico sistema eleitoral. O valor dessa oposição, em termos de transformações legislativas, é mesmo valor do zero à esquerda, que é o atual valor da esquerda no Brasil. Imagine, neste maluco sistema político, um governo com a pretensão de limitar a propriedade rural em 1.000 hectares, de suspender o pagamento de juros da dívida pública, de reestatizar a Vale, de fazer da Petrobras uma empresa pública, de substituir o liberalismo econômico pelo socialismo, de promover uma radical reforma tributária, de implantar outro sistema eleitoral… Com que Congresso? Com que Judiciário? Revolução, como sabe, aqui só produz ditaduras…

Um amigo do PSOL argumenta que tudo isto é possível com a mobilização popular. Será isto possível? Desde que o sufrágio foi transformado é moeda e as eleições em negócio somente os ingênuos acreditam na mobilização popular. Quando Getúlio, esse ditador elevado, pelo inusitado da morte, a estadista, entrou em desgraça, abandonado por todos, pretendeu-se, aqui em Salvador, mobilizar o povo em seu favor. Quando se reuniram, em praça pública, para o comício, contavam-se nos dedos das mãos os presentes… Otávio Mangabeira teria dito: “Onde está o povo?” Fito a cena política atual; assisto às seções do Senado, hoje uma caricatura de casa legislativa, que só delibera sobre requerimentos de voto de elogio ou de pesar; vejo a pantomima das CPIs; observo os discursos hipócritas contra as medidas provisórias; constado o ridículo de acusadores apanhados nos mesmos erros das acusações; já cansado da bolorenta oratória de Simon, de Mão Santa, de Cristovam Buarque, pergunto a mim mesmo: onde está a oposição? Volto os olhos para a mesma estante e tenho a impressão de que Ruy e Otavio Mangabeira riem de mim…

Fernando Guedes

3/9/2010