Archive from setembro, 2009
set 28, 2009 - Poligrafia    7 Comments

Estresse e Felicidade

O coração tem dois quartos:

Moram ali, sem se ver,

Num a dor, noutro o Prazer.

Quando o prazer no seu quarto

Acorda cheio de ardor,

No seu, adormece a Dor…

Cuidado Prazer! Cautela,

Canta e ri mais devagar…

Não vá s dor acordar…

Friederich Rückert

Poeta e Filósofo Alemão

Não sei bem o tem a ver um com o outro, mas é possível que a infelicidade esteja por perto do estresse, se não é dele causa fatal.

O termo estresse vem do inglês stress, que foi usado inicialmente na física, para traduzir o grau de deformidade sofrido por um material quando submetido a um esforço, ou tensão. Na década de 30, o Endocrinologista austríaco, Hans Selye, utilizou o termo, pela primeira vez, para caracterizar qualquer agente ou estímulo, nocivo ou benéfico, capaz de desencadear, no organismo, mecanismos neuroendócrimos de adaptação. Em 1850 Selye publicou a obra que o consagrou, na qual expôs a síndrome de adaptação, sob o título: Fisiologia e Patologia da Exposição ao Estresse.

Assim, o estresse não é necessariamente uma doença, nem uma condição necessariamente nociva. O indivíduo ao deparar-se com um estímulo estressante, como por exemplo: nova paixão; emprego novo tão desejado; aprovação; promoção; o beijo que tanto se deseja; falta de tempo para o lazer; trânsito caótico; ameaça de um predador; acidente; frio intenso; anestesia; cirurgia; etc. entra na 1a. fase, de Alarme: dilatam-se as pupilas, a noradrenalina, produzida pelas glândulas supra-renais, faz acelerar os batimentos cardíacos, provoca elevação da pressão sanguínea, para melhorar a oxigenação. A respiração altera-se e os brônquios se dilatam, para receberem maior quantidade de oxigênio. Aumenta os fatores da coagulação em circulação, para prevenir possíveis hemorragias. O fígado libera o açúcar armazenado, para suprir os músculos de energia. Redistribui o sangue com maior suprimento para o cérebro e músculos. Inibe o processo digestivo. Se o organismo consegue livrar-se do estímulo estressor, eliminado-o ou adaptando-se a ele, retorna ao equilíbrio interno, que nós chamamos de homeostase, continuando sua vida normal. Porém, se o estímulo continua sendo percebido, pelo organismo, como estressor, ocorre a evolução para a fase 2a. fase, Resistência, Intermediária ou Estresse contínuo. Nessa fase, a mobilização de energias acarreta algumas conseqüências: redução da resistência a infecções; sensação de desgaste, provocando cansaço e lapsos de memória; supressão de várias funções corporais relacionadas com o comportamento sexual, etc. Se o estímulo persiste, instala-se a 3a. fase, Exaustão ou Esgotamento, na qual se observa: queda da imunidade e surgimento de numerosas doenças: alergias, hipertensão, diabetes, herpes, distúrbios gastrintestinais, alterações de peso, depressão, ansiedade, alterações do sono, alterações cognitivas, etc.

Há uma variante do estresse ocupacional, denominada Síndrome de Burnout (termo composto, do inglês, burn = queima e out = exterior), que pode ser entendido como autoconsumo físico-psiquíco, que se caracteriza por: exaustão emocional grave, avaliação negativa de si mesmo, depressão e instabilidade com relação a quase tudo. Nesse contexto se inserem casos de DORT que não se resolvem nunca, de dores que nunca remitem. Enfim, a negação da técnica médica, que não é capaz de penetrar nos recônditos das individualidades.

A felicidade não surge ao acaso nem é um presente do destino. Não é a ausência de infelicidade, sua simples negação… A infelicidade é um fato; a felicidade não. A infelicidade é um estado, a felicidade não. A felicidade não é uma coisa; é um pensamento. Não é um fato, é uma invenção. É uma ação. É muito mais que uma alegria passageira, é um contentamento interior duradouro, um estado estável, permanente. “Um momento de felicidade” é, portanto, uma expressão imprópria, que faz confundir felicidade com momento de alegria, de contentamento, de gozo. Felicidade é permanente, ou não é.

Como se chega então a esse estado permanente? Pela Filosofia! Somente a sabedoria nos conduz à felicidade. Na verdade, disse Simone Weil, o prazer e dor são um par inseparável. Portanto a sabedoria está em não buscar não sofrer ou sofre menos, mas buscar não ser alterado pelo sofrimento. O primeiro passo é desfazer-se da esperança. A esperança e o conhecimento nunca se encontram: nunca esperamos o que sabemos; nunca conhecemos o que esperamos. A sabedoria budista assegura que “só é feliz”quem perdeu a esperança; porque a esperança é a maior tortura que há, e o desespero, a maior felicidade”.

Pode até parecer contraditório, mas não é. A esperança remete para o futuro a realização das nossas expectativas, e o futuro é o mais autêntico dos enganos, porque deixa de existir quando começa a existir, para subsistir apenas o presente. É no presente que tudo nos acontece, de bom ou mau. O outro passo é o desapego. Quem se aferra ao apego afasta-se da felicidade. Outro a equidade, que precisa ser praticada em todas as oportunidades, porque a equidade é a destra da justiça. Esses passos nos conduzem a um estado de paz interior, que é lar predileto da felicidade.  Busque-a, pois, dentro de ti mesmo, porque não a encontrarás no outro…

Fernando Guedes

28/09/2009

set 25, 2009 - Poligrafia    8 Comments

Profunduras…

Quando os espanhóis, no século XVI, chegaram a certo rincão, da América Central, tiveram imensa dificuldade para ancorar seus navios, em face das profunduras daquelas costas. Daí, uma versão para o topônimo: Honduras…

Não sou quem busca a aproximação, ela é se me apresenta: o Brasil, metendo-se, desnecessariamente, na atual crise política Honduras, está com grande dificuldade para ancorar, nas honduras dessa mesma crise, o insensato batel de sua diplomacia…

Na sua genial História da Educação Afrânio Peixoto escreveu: “Se for citar a lista de tiranos, ditadores, caudilhos da América Latina seriam páginas e páginas. As “constituições” se sucedem, os “pronunciamentos” também. São todas essas nações, por ineducação, democracias nominais, anárquicas, rebeldes, turbulentas, que mal sabem aproveitar as riquezas naturais, por isso pobres, oneradas de dívidas, vergadas ao fisco para sustentar exércitos e marinhas ineficientes, já empenhada a independência de muitas aos empréstimos externos, que outras não pagarão jamais…” A atualidade dessas palavras bastaria para orientar a minha argumentação, mas, há mais: “A história da América Latina é uma ladainha de caudilhos, tiranos, bandidos, em que os Rosas, Frâncias, Melgarejos, Porfírios Dias… se sucedem trágicos e ridículos, sanguinários e vorazes, às vezes místicos.” Desnecessário atualizar esse rol, não nos esqueçamos, porém, que a Pátria amada faz parte da América Latina…

A profundeza dessa crise convive com uma antinomia insólita: a superficialidade das análises que se lhe fazem jornalista e cientistas políticos, que insistem em divulgar a versão de golpe de Estado. Tenho para mim que não leram a Constituição de Honduras e, muito menos, os documentos do Processo, disponíveis do sítio eletrônico da Corte Suprema de Justiça (www.poderjudicial.gob.hn), ou agem deliberadamente de má fé.

Mas, afinal, que reza essa Constituição, que eles nunca citam? Ipsis litteris, isto:

1) Obrigatoriedade de alternância no exercício da Presidência da República (Artigo 4: La alternabilidad en el ejercicio de la Presidencia de la República es obligatoria. La infracción de esta norma constituye delito de traición a la Patria);

2) A Presidência só pode ser exercida por um quatriênio (Artigo 237: El período presidencial será de cuatro años y empezará el veintisiete de enero siguiente a la fecha en que se realizó la elección);

3) Só é permito ser Presidente uma vez na vida e perde o cargo quem tentar alterar essa disposição (Artigo 239: El ciudadano que haya desempeñado la titularidad del Poder Ejecutivo no podrá ser Presidente o Designado. El que quebrante esta disposición o proponga su reforma, así como aquellos que lo apoyen directa o indirectamente, cesarán de inmediato en el desempeño de sus respectivos cargos, y quedarán inhabilitados por diez años para el ejercicio de toda función pública);

4) Na falta do Presidente de Presidente da República, assume o Presidente do Congresso e, na falta deste, o Presidente da Suprema Corte (Artigo 242: Si la falta del Presidente fuere absoluta, el Designado que elija al efecto el Congreso Nacional ejercerá el Poder Ejecutivo por el tiempo que falte para terminar el período constitucional. Pero si también faltaren de modo absoluto los tres designados, el Poder Ejecutivo será ejercido por el Presidente del Congreso Nacional, y a falta de este último, por el Presidente de la Corte Suprema de Justicia por el tiempo que faltare para terminar el período constitucional);

5) Somente o Congresso Nacional pode propor reforma à Constituição (Artigo 373: La reforma de esta Constitución podrá decretarse por el Congreso Nacional, en sesiones ordinarias, con dos tercios de votos de la totalidad de sus miembros. El decreto señalará al efecto el artículo o artículos que hayan de reformarse, debiendo ratificarse por la subsiguiente legislatura ordinaria, por igual número de votos, para que entre en vigencia);

6) É vedada a reformada da disposição que veda a reeleição (Artigo 374: No podrán reformarse, en ningún caso, el artículo anterior, el presente artículo, los artículos constitucionales que se refieren a la forma de gobierno, al territorio nacional, al período presidencial, a la prohibición para ser nuevamente Presidente de la República, el ciudadano que lo haya desempeñado bajo cualquier título y el referente a quienes no pueden ser Presidentes de la República por el período subsiguiente.);

7) O Chefe das Forças Armadas não é nomeado pelo Poder Executivo (Artigo 279: El Jefe de las Fuerzas Armadas deberá ser un oficial General o Superior con el grado de Coronel de la Armas o su equivalente, en servicio activo, hondureño de nacimiento y será elegido por el Congreso Nacional de una terna propuesta por el Consejo Superior de las Fuerzas Armadas. Durará en sus funciones cinc años y sólo podrá ser removido de su cargo por el Congreso Nacional, cuando hubiere sido declarado con lugar a formación de causa por dos tercios de votos de sus miembros; y en los demás casos previstos por la ley Constitutiva de las fuerzas Armadas.).

Ora, se el ciudadano que haya desempeñado la titularidad del Poder Ejecutivo no podrá ser Presidente o Designado, se La infracción de esta norma constituye delito de traición a la Patria , se El que quebrante esta disposición o proponga su reforma, así como aquellos que lo apoyen directa o indirectamente, cesarán de inmediato en el desempeño de sus respectivos cargos, y quedarán inhabilitados por diez años para el ejercicio de toda función pública, não há como o Presidente da República, em Honduras, voltar ao posto, em outro mandato, na vigência do Estado de Direito.

Era mister alterá-lo, com o disfarce da legalidade, através de uma reforma constitucional, e foi exatamente isto que o Sr. Zelaya intentou: criar as condições de um segundo mandato à revelia da Constituição.  A isto, que a diplomacia brasileira não considera, o Congresso e a Suprema Corte de Honduras consideraram delito de traición a la Pátria. Veja, prezado leitor, neste compêndio, a seqüência dos fatos:

23/3/2009 Sr. Manuel Zelaya emite Decreto Executivo (PCM-05-2009) estabelecendo uma consulta popular, para convocação de Assembléia Constituinte, para elaborar uma nova Constituição.
08/5/2009 O Ministério Público ajuizou, perante o Juzgado de Letras del Contencioso Administrativo, ação pleiteando a nulidade do Decreto Executivo (PCM-05-2009). Requereu, como tutela antecipada, a nulidade dos sues efeitos.
27/5/2009 O Juzgado de Letras del Contencioso Administrativo ditou sentença interlocutória ordenado a suspensão do Decreto Executivo (PCM-05-2009).
29/5/2009 Por requerimento do Ministério Público, o Juzgado de Letras del Contencioso Administrativo aclarou e reiterou a sentença proibitória.
03/6/2009 O Juzgado de Letras del Contencioso Administrativo emitiu a 1ª. Comunicação Judicial ao Presidente da República, por meio do Secretário de Estado, cobrando o cumprimento da sentença interlocutória de 27/5/2009, com sua respectiva aclaração de 29/5/2009.
16/6/2009 A Corte de Apelações do Contencioso Administrativo, por unanimidade de votos, em nome do Estado de Honduras, declarou inadmissível a Ação de Amparo interposta pelo Advogado René Velásquez Diaz, a favor de Manuel Zelaya.
18/6/2009 O Juzgado de Letras del Contencioso Administrativo emitiu a 2ª. Comunicação Judicial ao Presidente da República cobrando o cumprimento da sentença interlocutória de 27/5/2009, com sua respectiva aclaração de 29/5/2009.
18/6/2009 O Juzgado de Letras del Contencioso Administrativo emitiu a 3ª. Comunicação Judicial ao Presidente da República cobrando o cumprimento da sentença interlocutória de 27/5/2009, com sua respectiva aclaração de 29/5/2009.
24/6/2009 O Presidente da República destituiu ilegalmente, do cargo de Chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas, o Sr. Romero Orlando Vásquez Velásquez.
25/6/2009 A Sala Constitucional da Corte Suprema de Justiça, por unanimidade de votos, emitiu resolução, em Ação de Amparo, anulando o ato ilegal do Presidente da República.
26/6/2009 A Suprema Corte de Justiça acatou denúncia do Ministério Público contra Manuel Zelaya, a quem acusa de autoria dos delitos contra a Forma de Governo, Traição da Pátria, Abuso de Autoridade e Usurpação de Funções, e nomeou o Magistrado instrutor.
26/6/2009 A requerimento do Ministério Público, o Juzgado de Letras del Contencioso Administrativo emitiu ordem às Forças Armadas, em face da desobediência do Presidente da República, para suspender qualquer atividade relacionada com a consulta que ele insistia em realizar a 28/6/2009.
26/6/2009 Pelo Ofício PCSJ-451-2009, o Presidente do Conselho Judicial Centroamericano e da Corte Suprema de Honduras comunicou aos Presidente das Supremas Cortes de Justiça membros desse Conselho (Guatemala, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Belice, República Dominicana, as atuações da Corte Suprema de Honduras.
29/6/2009 A Corte Suprema de Justiça transferiu o processo para o Juzgado de Letras Penal Unificado, que expediu o Mandado de Captura do réu.

Está claro que as Forças Armadas não depuseram o presidente, como aqui ocorreu, por exemplo, com o Sr. João Goulart. Aqui, as Forças Armadas interromperam a ordem constitucional e implantaram uma ditadura. Lá, o Sr. Zelaya foi deposto, pelo Congresso e pela Suprema Corte, em socorro à Ordem Constitucional. Mas, parece, desobediência à Constituição, nestas bandas, é somenos… Aqui já são 8 as da nossa desvairada coleção, sendo que a última, com apenas 21 anos de vigência, ainda não totalmente regulamentada, já sofreu mais de 50 emendas! Honduras devia ser exaltada por depor, dentro do processo legal, um agressor da Constituição. Não o substituiu um chefe ou uma junta militar. Assumiu o seu substituto constitucional, o Presidente do Congresso, que por sinal pertence ao mesmo partido do Sr. Zelaya.

Na há negar, contudo, a imagem, que não desconsiderarei: prender, de pijamas, um presidente civil, parece, somente, um golpe militar. Isto, que acho decorrer do atavismo caudilhesco, que os Panchos Villas da atualidade ainda não souberam superar, foi o que preponderou, disseminado a idéia de violência contra um “benfeitor da democracia”. Talvez, não fosse necessário. Mas, deixo aqui uma pergunta: que teria acontecido se ele tivesse tempo para articular uma “bolivariana” reação armada… Imaginem!  Honduras conflagrada numa guerra civil… que, agora, parece cada vez mais próxima.

Sem aviso, sem acerto, o Sr. Zelaya materializou-se, como disse um funcionário do Itamaraty, na embaixada do Brasil, em Tegucigalpa… Adentrou-a, sem nenhuma dificuldade, como esperado, com um séquito de seguidores… As imagens, insólitas, falam por si: deitado num sofá, pés calcados com botas de vaqueiro, sobre uma mesinha de canto e chapéu de caubói sobre a face, parecia roncar… Pelo chão, espalhados, outros dormiam… Num banheiro, nus, dois banhavam-se: um jogando água no outro… Depois, a recusa de dividir a comida com os funcionários brasileiros… Era a perfeita imagem de uma casa de fazenda invadida…

Não pediu asilo: preferiu, de alcatéia, o ambíguo status de abrigado, afinal não fora ali em busca de proteção. Com a ajuda da Venezuela, isto já foi declarado pelo seu próprio presidente, em operação clandestina, tornou ao território hondurenho, para resistir. Como não estava obrigado, pelo status de hóspede, a renunciar à atividade política, logo, tomando a Embaixada como escritório, se pôs a articular e a fazer proselitismo, abertamente. Não pedirá asilo, não deixará o território hondurenho, não aceitará outra alternativa, que não seja a de retornar à presidência da República, para terminar seu mandato.

Os “escrúpulos democráticos” deste Brasil soberbo não o permitem negociar com “governo golpista”: portanto não conferenciará com o Presidente Constitucional, Sr. Micheleti, em busca de uma solução diplomática. Exige, com arrogância imperialista, a recondução do presidente legalmente deposto ao poder: “o Zelaya é o presidente eleito democraticamente e tem o direito de terminar seu mandato”, sentenciou o Sr. Lula, como se fora o juiz da causa. Mutatis mutandis, de novo a aproximação: o Sr. Collor, aqui, também o foi e não teve preservado o mesmo direito, porque o Congresso Nacional, investido na função de Tribunal, como determina o nosso ordenamento jurídico, não obstante ele ter renunciado antes, o cassou (pouco importou a advertência de Josaphat Marinho, em contrário). Há, contudo, uma diferença: o nosso não intentou contra a ordem constitucional; não cometera o mesmo delito de traição da Pátria. Argüiram-no de utilização indevida de recursos sobrados da campanha eleitoral, de sonegação fiscal, de peculato, de corrupção passiva e de falsidade ideológica.  Processado, julgado, foi absolvido dessas imputações, pelo Supremo Tribunal Federal, mas teve que ficar, por oito anos, inelegível. Justiça se lhe faça: não utilizou o seu poder para obstaculizar as investigações e obedeceu a ordem judicial (do Congresso) pacificamente.

É isso aí, no sul como no centro desta infeliz banda da América: republicas nominais que nunca chegarão a ser Repúblicas… Tinham razão Pablo Rojas (Venezuela) e Bartolomeu Mitre, (Argentina): acabaram com a única república que havia na América Latina, disseram, em 1889, ao saberem do golpe que aqui implantou o atual regime.

Aí está o Brasil mergulhado nas profunduras de uma crise diplomática, só compara às honduras daquelas costas centrais… Oxalá consiga emergir honrado dela!

Fernando Guedes

25/9/2009

set 12, 2009 - Poligrafia    No Comments

Influenza… outra vez.

Já não é a mesma coisa… as notícias já não causam o mesmo impacto do início; as manchetes já não estão nas primeiras páginas dos jornais, nas chamada iniciais das televisões… Frustração, para o bem da humanidade. Restaram as conseqüências da inconseqüência, mas nenhum porco (de quatro patas) apresentou defluxo, assegura a FAO. O México foi a nocaute, com considerável prejuízo, de todo ainda não calculado, na sua economia, sem falar na humilhação das restrições de acesso, que seu povo ainda está sofrendo. A suinocultura teve seu negócio abalado, com restrição de consumo, de exportação, e as empresas que o exploram tiveram suas ações desvalorizadas. A imbecilidade, parece, tomou conta do mundo…

Eis a contabilidade (OMS – Update 65 – 11/9/2009): 277.607 casos, que resultaram em 3.205 mortes. Comparada com outra, a da tuberculose, é ridícula… mas o ridículo, contudo, não está em matar menos, está justamente em não se importar, com quem mata mais. Mas, nisto, também, não há novidade nenhuma! É assim; será assim, sempre…

Nos surtos sazonais, ou estacionais, de gripe morrem muita gente, todos os anos, mas ninguém se dá conta disso. Outras, muito mais letais, por ai estão impunemente à solta…

O dia 24 de março, por exemplo, não mereceu, da mídia e dos especialistas midiáticos, a mesma importância que devotaram à influenza H1N1. Nesse dia, em 1882, Robert Koch, descobriu o Mycobacterium tuberculosis, agente causador da tuberculose, por isto considerado, pela OMS, Dia Mundial da Tuberculose. Enganam-se os pensam que é uma doença do passado! Está em estado de emergência global, decretado pela OMS, como enfermidade reemergente, desde 1993.

Sua contabilidade arrepia: 2.000.000.000 de pessoas, ou 1/3 da população mundial, está infectada pelo Mycobacterium tuberculosis. Destas, 9.000.000 desenvolverão a doença e, destas, 2.000.000 morrerão a cada ano! No Brasil, 72.800 novos casos são notificados por ano, causando 4.500 mortes. Vide a taxa de abando de tratamento… Saiba que cerca de 20% dos doentes não são diagnosticados… Tantos outros só o são pela ocasião da internação, naquele estado deplorável, que Augusto dos Anjos, poeta, vítima dela mesma, assim definiu:

Vomitar o pulmão na noite horrível

Em que se deita sangue pela boca!

ou na fria maca do necrotério, durante a autópsia…

A Influenza H1N1 veio, fez e fará o que sabe fazer: acometer, maltratar, matar… como as outras influenzas, ditas comuns, que nos seus andaços sazonais matam, segundo a OMS, de 250.000 a 500.000 pessoas, todos os anos. Saibamos disto!

As gestantes e os mais jovens estão pagando maior tributo a esta, pelo o que indicam, até agora, as estatísticas. Como explicação, para isso, algumas teorias foram aventadas, mas tudo parece resumir-se ao grau de imunocompetência. As gestantes por sofrerem, como é sabido, uma imunodepressão natural, para preservação do concepto, e os mais jovens, por não terem sido contemporâneos da circulação de ancestrais do vírus, não guardam nenhuma memória imunológica dos seus antígenos.

Outras pandemias de influenza, ainda neste século, virão certamente. O que não sei é se as autoridades saberão o que fazer, com eficiência, sem emoções desnecessárias, para contê-las nos limites do razoável.

Fernando Guedes

12/9/2009

set 12, 2009 - Poligrafia    No Comments

Terrorismo ou Guerra?

wtc_005Há oito ano, precisamente, este artigo foi escrito, no dia seguinte ao atentado, em 11 de setembro de 2001, ao World Trade Center… O Iraque foi arrasado, Sadan Hussein foi enforcado, milhares de soldados americanos foram mortos, Osama Bin Laden alapardou-se … O mundo continua o mesmo…

Em um dos seus patéticos pronunciamentos à nação Americana, o Sr. George W. Bush disse que o ataque terrorista contra o World Trade Center e o Pentágono será tratado como ato de guerra. Há pouco, fizeram-lhe uma análise do QI e não encontraram coisa auspiciosa. Portanto, não vamos exigir-lhe, no calor da tragédia, melhor atitude. Mas, sendo ele quem é, chefe da hegemonia imperialista dos tempos modernos, sua sentença dá direito a quem analisa o fato, com o pensamento fito na história, admitir que os milhares de camponeses vietnamitas queimados com napalm (gasolina gelatinizada e espessada por sais do ácido naftênico e palmítico) americano, nas suas pacatas aldeias, foram vítimas de ato terrorista e não de guerra. Que os milhares de idosos, mulheres e crianças iraquianos massacrados, no recesso de suas residências, pelos mísseis ianques também o foram.

dresden100Que dizer da noite de 13 de fevereiro de 1945, uma inesquecível terça-feira de carnaval, quando a Florença do Elba, Dresden, cidade cultural, sem qualquer importância bélico-estratégica, foi devastada em 56 minutos, por milhões de toneladas de bombas explosivas e incendiárias? Em 56 minutos, cerca de 250 mil vítimas! Guerra ou terrorismo?

Será precisa dizer alguma coisa sobre os dias 6 e 9 de agosto de 1945, quando Hiroshima e Nagasáqui foram desnecessariamente arrasadas por explosões atômicas?  Terrorismo ou guerra?

A diferença é pouca, porque as filigranas sociológicas e políticas que separam o terrorismo da guerra acabam no efeito que moralmente os unem: a violência. O terrorismo, para mim, é a guerra de poucos; a guerra é o terrorismo de muitos. O terrorismo é guerra solitária; a guerra é terrorismo coletivo. Nada mais…

O Chanceler alemão disse: “O atentado terrorista aos Estados Unidos é uma declaração de guerra ao mundo civilizado.” Desconheço qual seja o conceito de civilização desse tedesco, mas certamente não lhe serve para qualificar a orgulhosa Alemanha da década de 1940. Ou será que a Alemanha só civilizou-se depois de 1945? Não o creio, e, no entanto, ela produziu o holocausto de milhões de judeus, em nome da civilização. Guerra e terrorismo?

O Primeiro Ministro inglês, interrogado por jornalista, retrucou: “Esse atentado é uma agressão à democracia mundial”. Será que ele pensa o mesmo acerca do massacre que Israel, armado e financiado por sua ex-colônia da América, perpetra contra seu antigo Protetorado, no Oriente Médio? Terrorismo e guerra?

Ouço, pela televisão, a Sadan Hussein, sobre o mesmo ataque terrorista, e me coloco diante de um terrível paradoxo: sua opinião se me afigura a mais sensata: “Quem não quer colher o mal, não o deve plantar”.

Não é outra coisa senão o mal que as nações hegemônicas têm plantado, pelo mundo afora, engendrando a guerra (terrorismo coletivo), ou o terrorismo (guerra solitária), quando isso lhes interessa. Quando o interesse dos Estados Unidos era combater tropas russas, no Afeganistão, Osama Bin Laden era conveniente aliado: apoiaram-no.  Quando, igualmente, seu interesse era combater o Aiatolá Khomeiny, armaram e apoiaram a Sadan Hussein. Essas tétricas figuras eram, outrora, bons instrumentos de guerra. São, hoje, detestáveis instrumentos de terrorismo. Não obstante, Hussein e Bin Laden continuam sendo o que são, ou, aliás, o que sempre foram…

É oportuno relembrar o que Pancho Villa respondeu a um americano, contrabandista de armas, que lhe quis dar lição de moral: “Gringo, você é uma pessoa estranha… Condena-me por matar a quem odeio, mas vende armas para matar a quem nunca odiou”.

Desde que as formidáveis imagens desse atentado contra os ícones do capitalismo estúpido e do militarismo imperialista foram divulgadas, tenho ouvido as mais ridículas análises sobre ele. E o que mais se afirma é a dureza da retaliação que virá. Eu, de mim, estou certo que não será mais dura do que sempre foi, porque Dresden, Hiroshima e Nagasáqui não terão, na catástrofe, rivais. Será, sim, mais tecnológica, mas igualmente cruel, contra quem não se odeia. Milhares de pessoas comuns, que nada têm a ver com essa estupidez, perecerão, no solo do rival elegido, como igualmente pereceram as que se encontravam no World Trade Center. A diferença é simplesmente tecnológica. A estupidez, contudo, será a mesma.

A OTAN declarou que um ataque contra um dos seus membros é um ataque contra todos os seus membros. Isto para mim é apenas saudade de guerra, sua especialidade. É o salvo-conduto que elas, as nações dessa prepotente aliança, precisam, para eliminar os que atentam contra essa coisa absurda, que elas denominam de “democracia” mundial, isto é: dar à violência aparência de ato legal.

Fernando Guedes

12/09/2001

set 12, 2009 - Poligrafia    No Comments

Ricos e pobres, como sempre…

Nosso céu tem mais estrelas… Nossos bosques têm mais flores… Nossa vida tem mais amores… Achamos-nos donos do cruzeiro do sul! É o velho ufanismo, já explícito no documento no. 1, a Carta de Pero Vaz de Caminha: “a terra em tal maneira he graciosa que querendo a aproveitar, darseá nela tudo…” Más, há o novo: o pré-sal salvará a Pátria: educará a massa ignara; empregará os desempregados; acabará com as filas nos hospitais; redimirá os pobres; edificará moradia para quem a não possui. Reinventará, enfim, a nacionalidade… Fará surgir, na vida de um sem numero de brasileiros, a cidadania, que nunca passou, para eles, da letra morta do preceito constitucional.

Há 300 quilômetros da costa, numa profundidade abissal, estendendo-se do Espírito Santo a Santa Catarina, jaz a riqueza redentora: o petróleo do pré-sal! Descoberta, feitas as primeiras sondagens, logo atiçou as visões desmedidas da vanglória, dessa classe especializada em desperdiçar recursos e oportunidades. Assim na Colônia, ultrapassou o Império, para se agravar na República. Foram-se, debalde, pau-brasil, a madeira de lei, a cana-de-açúcar, café, borracha, cacau; o ouro, o diamante, e… tantas outras que já nem sei. As riquezas minerais (de Carajás etc.) e os recursos por elas gerados não sabemos a que serviram.  Mas, continuamos fieis ao velho bordão: somos o país do futuro: essa ficção temporal que nunca chega, porque deixa de ser quando começa a existir. E não nos preocupamos com o que realmente conta: o presente, onde tudo ocorre. Neste é que se enfrentam as conseqüências da pobreza, da deseducação, do não acesso aos meios básicos de uma vida digna; que se padece; que se estiolam as gerações. Porém, a elite ufanista que nos governa só fala do futuro… porque já assegurou a tranqüilidade do seu próprio presente.

Um projeto de lei foi encaminhado, pelo governo, ao Congresso Nacional, em regime de urgência, para criar novas regras ao chamado “marco regulatório do petróleo”: em vez do regime de concessão vigente, a riqueza, acha o governo, deve ser explorada sob regime de partilha, controlada por uma nova estatal, que será criada.  Têm os senhores congressistas noventa dias para o apreciarem e decidirem. Senadores e deputados, contudo, consumidos em estafante trabalho parlamentar, coitados, acham pouco o tempo que lhes foi concedido: afinal eles se preocupam muito com o futuro, o próximo: 2010… Ontem um deles, em face da confusão que se estabeleceu na votação de destaques, no projeto de reforma eleitoral, sem saber que o estávamos ouvindo, pela TV, disse: faz tanto tempo que aqui não se vota nada, que desaprendemos a votar.

Mal começou a apreciação no novo regulamento do petróleo, uma sucessão bombástica de argumentos e contra-argumentos, de ataques e contra-ataques, de tediosas dissertações “técnicas”, veio, sob medida, para desviar a atenção da crise de Senado, do que já não se fala mais… Recolheram-se os quixotescos cartões vermelhos; já não se pronunciam mais sarneynárias, já não se pede mais a sua renúncia… Tudo está dominado: comportem-se, porque aqui não há santo, disse um deles, ameaçando divulgar o subterrâneo onde se forjam atos secretos… Outro, em crise aguda de permanente ufanismo, não se cansa de dizer que este é o melhor Senado de toda a história; que eles, Senadores, são os pais da Pátria. Não declinou quem são as mães, que não é difícil deduzir, pela prole…

Brava senadora acriana, que propaganda eleitoral a qualifica como uma das pessoas capazes de salvar o planeta, sufocada no exíguo espaço político governista, deixa o partido onde se notabilizou, para ir-se juntar aos “verdes”, onde florescem Zequinha e Gabeira, antípodas dessa política esquizofrênica… Outros, três, vivem em guerra declarada com o seu partido, mas não o deixa… Chegam a dizer que são do velho MDB, de Ulisses e Teotônio, num ufanismo contrário: do passado superado, há muito, pelo presente.

Os governadores, dos ditos Estados produtores, logo entraram em cena, para garantir o seu quinhão: foram ao Planalto, pressionaram, e conseguiram retirar do texto o que lhes não interessavam. Isto aguçou a cobiça dos outros, dos Estados não produtores, que logo justificaram: a riqueza jaz a mais de 300 quilômetros da costa, portanto não é deles, é da nação e, por isto, deve ser repartida com todos, igualmente. Como é a maioria, um deles advertiu: é bom negociar, porque no cabo de aço (deve ser um regionalismo pernambucano) nós venceremos!

É isso aí: essa gente preocupadíssima com o futuro do Brasil traçará, com toda a certeza, destino da presumida riqueza: os ricos continuarão ricos e os pobres continuarão pobres, como sempre…

Fernando Guedes

11/9/2009