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set 28, 1999 - Poligrafia    No Comments

Baile de Falenas

Como de costume, fiz a minha matinal viagem, da Érico Veríssimo, onde moro, até ao colégio de Gustavo, no Costa Azul… Há anos esse trajeto é uma rotina, nele nada acontece de inusitado, tudo se repete com uma precisão que parece decorrente de um planejamento meticuloso: as mesma ruas; os mesmos jornaleiros, nas mesmas esquinas; as mesmas sinaleiras, que sempre me param, como se adivinhassem a minha aproximação. Até o mar, que não é dado à repetição, teima em exibir a mesmice de um cinza soturno, para tornar-me o caminho ainda mais monótono. Através do toca-discos do carro ouço música, para disfarçar a minha rotina…

Hoje, porém, foi diferente: quis a natureza fazê-la vária, mandando uma revoada de borboletas bailadoras seguir-me o itinerário. Eram uma infinidade dessas criaturazinhas aladas, multicoloridas, que, em revoada primaveril, vinham, não sei de onde, para encenar um frenético baile… Soltas, livres, voavam sem rumo, tangidas pela brisa marinha, descrevendo curvas, desenhos, formas bizarras que a Dalí invejariam. Nesse imenso salão azul – o firmamento – rodopiavam… Subiam… Desciam… Bailavam…

No toca-disco, Virginia Luque contava:

Primavera de mis veinte años,

relicario de mi juventud,

un cariño ignorado soñaba

y esse sueño ya se que eras tu…

Cuantas veces rogaba al destino

ser esclavo de mi sueño azul.

Huy que se lo que cuesta un cariño

ya no puedo com mi esclavitud…

As falenas, que voavam descompassadamente, ao ouvir a voz da diva, serenaram, e, languidas, valsaram… Eu, assistindo àquela cena rara, passei em revista toda a minha existência, e a valsa que embalava as borboletas eu já não a escutava, porque o pensamento, em viagem de reminiscência, só me deixava ouvir a voz da lembrança declamar:

“Aqui… além… mais longe… por onde eu movo o passo,

Como aves, que espantadas arrojam-se ao espaço,

Saudades e lembranças s’erguendo – bando alado –

Roçam por mim as asas voando p’ra o passado”.

“Ai, quem me dera ter outra vez vinte anos… Ter novamente desenganos…” Ser como a borboleta que é livre, e que livre vive, que ama a rosa, beija a baunilha, acaricia a magnólia, entrega-se à gardênia, vai até aos confins dos Andes consolar a triste amancaia, e, à noite, repousa nos braços da bonina, para, aos primeiros raios da alvorada, sair em busca do amor-perfeito, nessa perfumada infidelidade que a natureza santificou. Poder valsar, como valsam as falenas em manhã de primavera…

Um sinal vermelho fez-me parar, e então vejo que elas voltaram à agitação frenética, trocaram a cadência da valsa pelo frenesi de um tango. Dei-me conta que Virginia, acompanhada por inebriantes acordes de bandoneon cantava:

Uno busca lleno de esperanzas

el camino que los sueños

prometieron a sus ansias…

Sabe que la lucha es cruel y es munha

pero lucha y se desangra…

Assim, como não há quem não tenha um tango dentro d’alma, eu, que tenho muitos, vou-me pela vida buscando, cheio de esperanças, pelo caminho perfumado que meus sonhos prometem às minhas angustias, o perfeito amor…

Fernando Guedes

Salvador, 28/09/99