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maio 24, 2013 - Poligrafia    No Comments

Se for para servir, sejam bem-vindos!

 
O que mudou é a definição do que constitui um ”bom médico”. (Wiliam Bynum)
 
A medicina não é uma ciência, mas uma profissão que compreende tanto o aprendizado da ciência médica como atributos pessoais, humanísticos e profissionais. (J. Claude Bennett)

 Conheça a fundo a biologia normal e patológica – será um grande médico; apure ao extremo a utilização desses conhecimentos junto ao doente, acertando-lhes com a doença, mitigando-lhe as dores, dando-lhe a cura – será um grande clínico. (Miguel Couto)

 

O governo, isto é: o executivo-legislativo, que sempre faz tarde e mal as coisas, está disposto a importar profissionais para suprir a ausência de médicos em 397 municípios… Não tardou a reação das chamadas entidades médicas, de defesa da classe, que se declaram contrárias ao exercício da medicina por esses profissionais.

A alegação, absurda, é que tais médicos não têm competência, para cuidar da saúde dos brasileiros. É o ufanismo de sempre: nossos bosques têm mais flores, nossas vidas mais amores; nosso céu mais estrelas, nossos médicos mais competência e por aí vai…

Quem escreve estas linhas, caro leitor, é um médico com 35 anos de profissão, ainda dando plantão na emergência do hospital geral do Estado, aos sábados, o que ostento como um título, que outorguei a mim mesmo. Sei, portanto, ex cathedra, o que sofrem os pacientes que necessitam de serviço público! Não cabem, nesta página, as histórias que guardo na memória da lembrança…

Tenho visto, lá no hospital em que trabalho, o passar das turmas de acadêmicos, do quinto e sexto anos, para estágio em emergência. Nunca vi um professor acompanhando-os. São precariamente orientados pelos plantonistas, que ali estão para atender e não para ensinar. O médico não admite que outro profissional exerça a medicina, argüindo o exercício ilegal dela (não é a razão da tão propalada lei do ato médico?). Mas fecham-se os olhos, numa cumplicidade utilitária, ao exercício ilegal do magistério.

Evidente que a importação de médico, para além de ser uma vergonha, é uma medida precária, que não atinge a causa do problema. Será a dipirona para a febre que infecção crônica da incompetência governamental, que exaure o organismo estatal há décadas sem fim… Se houvesse honestidade de propósitos, se houvesse vontade terapêutica para debelar esse mal crônico, governo, entidades médicas e médicos, principalmente estes, lutariam pela terapêutica eficaz: a medicatura pública e a medicatura rural.

Coisa estranha? Explico, o exercício da medicina se daria de dois modos: a) privado, como uma profissão liberal, da forma quer o médico entendesse de praticá-la: em consultório, clínica ou hospital.  b) pública, através da medicatura pública, complementada com a medicatura rural. A exemplo da magistratura, o médico prestaria concurso pra integrar a medicatura e trabalhar em regime de tempo integral e dedicação exclusiva, em troca de salário digno e plano de carreira (como juízes, promotores etc.).

O sistema seria complementado com a medicatura rural, assim definido: o médico formado por Universidade pública seria obrigado a trabalhar na medicatura rural, por 2 anos, onde o Estado necessitar dos seus serviços (não é assim com o serviço militar?), em troca do piso salarial a medicatura pública. Vencido o período, estaria livre para ingressar na atividade privada ou fazer para a medicatura pública.

Evidente que não verei esse sistema implantado, porque, se não bastasse a indiferença que a ele devota o governo, não desperta a simpatia da classe médica, afinal mais conveniente o “esquema”, isto é: valorizar o salário trabalhando menos.

Eis o panorama: o vestibular (ou essa outra coisa que anda envolvida em fraudes) ou quota, depois as disciplinas básicas; já a especialização precoce, a chopada da turma, que aqui e ali termina em coma alcoólico; a opera bufa da formatura (apitos, gaitas, buzinas… ninguém sabe mais dançar valsa!); o registro no CRM (a autorização para exercer a medicina)… Como o curso de seis anos pouco ou nada ensina: a residência médica, para aprender o que faltou. Plantões, cooperativas… atrasa aqui, atrasa ali e, assim, vai-se tocando a vida profissional, na capital ou grandes centros urbanos. Trabalho no interior? Longe disso, afinal “quem faz carreira no mato é veado” (foi o que já ouvi de um recém-formado).

Bem, como o problema é, em princípio, de distribuição, porque nunca houve uma política eficaz de fixação do médico no interior (aliás, a má distribuição, nesta nacionalidade, não é só de médicos), ocorre ao governo importar médicos de Cuba, de Poutugal, de Espanha etc., para servirem no interior do país. Se isso ocorrer, que mal fará ao sofrido povo interiorano? Francamente, nenhum! Mas algo ocorrerá, com certeza: esse povo não quererá perder seu médico! Cubano, espanhol ou português, não importa, porque o que lhe interessa, a esse povo, é ter um médico que lhe dê atenção, ao seu sofrimento. O competente e presunçoso médico brasileiro, que ignora a dimensão humanística da profissão que exerce, para que lhe tem servido? De mim, prefiro o curandeiro atencioso ao médico pretensioso, essa figura presunçosa que prescreve droga que pouco conhece, para tratar doença que conhece menos ainda, a pessoa que desconhece totalmente (Voltaire). Não basta ser um grande médico, há que ser, também, para ser útil, um grande clínico. Que venham, pois, os estrangeiros… Se for para servir, sejam bem-vindos!

Fernando Guedes
23/5/2013
jul 26, 2011 - Poligrafia    2 Comments

Pó com vento… Pó sem vento…

Quem não vê que pediatria, por seus próprios sucessos, fornece clientes aos geriatras, e não retira nenhum agente funerário? Medicina, onde está a tua vitória?

André Comte-Sponville, in Bom Dia, Angústia!

 

Há alguns dias, no plantão de emergência, trouxeram-me um paciente de dezoito anos… Enquanto o maqueiro o conduzia ao local do atendimento percebi, na imobilidade involuntária do corpo, que o paciente já era pó caído. O exame clínico não me deixou dúvida: parada cardiorrespiratória, ponta do pé desviada para fora, flexão do polegar na palma da mão, descoramento da tegumentar, suor frio, horripilação da pele e a midríase paralítica denunciavam a morte!

Enquanto o examinava, sua mãe permaneceu o tempo todo ao lado. As mães, que nunca desertam, pressentem quando seu filho vai morrer. Aquela, que estava ao meu lado, o pressentiu logo, e só conseguiu sussurrar aquelas duas palavras que sintetizam o sentimento universal:

– Meu filho!

O pai, transtornado, adentrou, com a ficha médica que fora providenciar e me perguntou:

– E aí doutor?

Quando lhe disse o que ocorrera, desabou num descontrole emocional tão profundo que chegou ao ponto das invectivas. Questionou Deus, xingou os médicos, comparou os hospitais a matadouros… gritou e esgoelou, como vocifera os que não se educam para a morte, os que projetam, na finitude da vida, uma eternidade enganadora. Não era possível àquele pai compreender aquela morte…

Havia 15 dias que o paciente estava doente. Nesse período, disseram-me, acometeu-se-lhe forte cansaço, tosse e hemoptise… Estivera em outros hospitais às voltas com exames… Exames, eis tudo no que se resume a medicina da atualidade! Uma radiografia do tórax em péssima técnica, tirada há uma semana, revelava com clareza apenas aumento da área cardíaca. Morrera aquele paciente sem diagnóstico… O diagnóstico, disse Francisco de Castro, clássico da Clínica Propedêutica, é o eixo em volta do qual gira todo o problema clínico, e de tal modo que sem diagnóstico é impossível a medicina. Isto não mudou… Como não mudou, malgrado o aparato técnico hoje existente, negou-lhe a medicina o que lhe poderia adiar a morte: o diagnóstico. “Medicina, onde está tua vitória”?

Os trinta minutos que durou aquela cena pareceu-me uma eternidade… Dois Psicólogos não tiveram êxito em acalmar aquele pai. Os pacientes circunstantes já estavam apreensivos com os seus gritos de revolta. Eu, ao lado da maca, permaneci calado enquanto ele destilava seu inconformismo, suas culpas, suas… Quando me deu uma chance, o convenci ir até ao consultório. Pedi-lhe que se sentasse, mas ele o recusou… Então, comecei assim:

– Saiba que entendo sua dor, que entendo seu desespero, que entendo seu desapontamento… Relevo as suas acusações; reconheço o caos da assistência pública; a indiferença com a qual se trata, não raramente, o problema de outrem. Tudo isto o sei e compreendo. Mas há o imponderável que você precisa entender. Em nenhuma escritura sagrada, em nenhum tratado de filosofia está escrito que você morreria antes que seu filho. Toda vida se completa, cedo ou tarde, quando atinge seu termo, que é a morte. Também é certo que não é preciso morrer para reverter-se ao pó, porque já somos pó. Seu filho, agora, é pó caído (cair é morrer), você, como eu, pó levantado (levantar-se é viver). Portando se prepara para enterrar seu filho, se não com resignação, ao menos com fé. Ele encarou-me longamente, atônito, e disse:

– Obrigado doutor…

Diante daquele fracasso, da vã ciência, voltei a meditar sobre o Sermão da Quarta-Feira de Cinzas, que o Padre Vieira pregou em Roma, na Igreja de S. Antonio dos Portugueses, em 1672… Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem revesteris. Se vivo sou pó e morto serei pó, que difere um pó do outro pó? O pó presente do pó futuro? O mundo, disse o clássico pregador, noutros termos, está repleto de pó, dá um pé-de-vento e o levanta. Levantado, com vento, o pó se agita, caminha, corre, sobe, desce… Não aquieta o pó, já vai adiante, a tudo envolvendo, a tudo penetrando… Acalma o vento: cai o pó. Ali onde caiu fica… O vento é a nossa vida: pó levantado; a ausência do vento é a morte: pó caído. Tudo pó: com veto nós, os vivos; sem vento eles, os mortos. Eis, concluí Vieira, a única diferença!

Esta medicina soberba da atualidade, que se presume invencível com sua sofisticadíssima técnica, mal ensinada, cria na mentalidade dos estudantes, dos residentes, dos próprios médicos, uma falsa concepção científica que prejudica o entendimento moral da finitude da vida. Não ignoro os progressos, nem os maldigo, apenas constato que a técnica sobrepondo-se ao humanismo gera tamanha distorção de entendimento, que corrobora a idéia do afastamento definitivo da morte, como o idealizou Saramago nAs Intermitências da Morte. É necessário, nessa sociedade fútil e arrogante, afastar a morte para bem longe… Já não se morre em casa; já não se enfrenta o processo de morte no seio da família, onde o ente querido era assistido até ao último suspiro… Tudo é frio… Tudo é frívolo… Restarão apenas o remorso e a culpa, que se dissipam em trabalhos de luto ridículos e em reações histéricas… A pergunta que mais se houve é aquela afronta:

– Por que ele (ou ela) meu Deus?

Como se Deus, senhor de tudo, que põe e dispõe, tivesse que dar explicação dos seus planos a um pobre mortal. Não, não dá, simplesmente convoca!  Para o vento e faz cair o pó!

Fernando Guedes

15/7/2011