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maio 2, 2013 - Poligrafia    No Comments

Congresso vs. Supremo: hoje como ontem…

 

O judiciário é o mais fraco dos três ramos do poder e, conseguintemente, o menos propenso a usurpar, não tendo influencia alguma sobre a espada ou a bolsa pública. (Alexander Hamilton)

The United States Supreme Court is competent to declare a questioned act of Congress to be unconstitutional and void in certain cases. (Alfred Coxe)

A história é uma galeria de quadros onde há poucos originais e muitas cópias. (Tocqueville)

 

Tomei como uma pilheria a reação de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal contra a aprovação da tramitação, na Câmara dos Deputados, da PEC 33, que  pretende diminuir a competência constitucional daquela corte…

Somente os que ignoram a história não se dão conta dos precedentes… Ao tomar posse da presidência do Instituto dos Advogados, há 99 anos, sobre que versou o discurso do empossado? Abro-lhe aspas: Cada um dos poderes do Estado tem, inevitavelmente, a sua região de irresponsabilidade. É a região em que esse poder é discricionário. Limitando a cada poder as suas funções discricionárias, a lei, dentro nas divisas em que as confina, o deixa entregue a si mesmo, sem outros freios além da idoneidade, que lhe supõe, e do da opinião pública, a que está sujeito. Em falecendo eles, não há, nem pode haver, praticamente, responsabilidade nenhuma, neste particular, contra os culpados. Dentro do seu círculo de ação legal, onde não tem ingresso nem o corpo legislativo nem a justiça, o Governo pode administrar desastrosamente, e causar ao patrimônio público danos irreparáveis (RUI). Vem de longe, pois, nesta esquizofrênica República, o perigo, que os contemporâneos conhecem em forma de obras superfaturadas, inacabadas, desvios de verbas do erário, indústria da seca, desleixo para com a educação, para com a saúde pública, impunidade e seu epílogo mais funesto: a violência em descontrole…

Por sua parte, o Congresso Nacional, sem ultrapassar a órbita da sua autoridade, privativa e discricionária, pode legislar desacertos, loucuras e ruínas. Onde a responsabilidade legal, a responsabilidade executável contra esses excessos? E, se os dois poderes políticos se derem as mãos um ao outro, não intervindo, moral e maritalmente, a soberania da opinião pública, naufragará o Estado, e a nação poderá, talvez, soçobrar (RUI). Evidente que, se houvesse honestidade e a soberania popular existisse na prática, esta nação estaria em outro estágio de desenvolvimento. Desculpa-me, caro leitor, desapontá-lo: é ingenuidade, se não for ignorância, essa pretensão de uma moralidade pública onde a idoneidade e a soberania popular se anularam. Contra tais desacertos bastaria a responsabilidade da conta que todos os órgãos dessa soberania a ela devem.

Ontem, como hoje, sem tirar nem pôr… “Agora o chiste da reforma projetada. O que ela inculca, é que, em exercendo o Supremo Tribunal Federal, quando de tal atribuição faz uso, a sua competência (de declarar a inconstitucionalidade de atos dos outros poderes) o Senado o chama a contas, o julgue, e o reprima… Supondo que esse tribunal, ao declarar inconstitucional um ato do Poder Legislativo, exorbite da sua competência, qual é a competência de que ele exorbitou? A competência de sentenciar que, perpetrando esse ato, o poder Legislativo era incompetente” (RUI).

Indaga e responde: Tem o Supremo Tribunal Federal autoridade semelhante? Ninguém o poderá negar; visto como o art. 59 (hoje art. 102) da nossa Carta republicana obriga esse tribunal a negar validade às leis federais, quando contrárias à Constituição, e as leis federais são contrarias à Constituição, quando o Poder Legislativo, apontando tais leis, não se teve nos limites, em que a Constituição o autoriza a legislar. Como admitir que da competência do Supremo Tribunal Federal, nessa decisão, possa vir a ser árbitro, ulteriormente, o Senado (pretendem que venha a ser o Congresso), isto é, nem mais nem menos, uma das duas Câmaras do Congresso? E arrematou com aquela coragem cívica que o definia: É o superlativo da irrisão, o nec plus ultra do absurdo. Atentai bem. Da competência constitucional da Câmara e do Senado, reunidos em Congresso, o último juiz é o Supremo Tribunal Federal (RUI).

Mais adiante… Um regime, que desse a um tribunal a incumbência de negar validade às leis inconstitucionais, e, ao mesmo tempo, reconhecesse ao corpo legislativo o direito de proceder contra as sentenças desse Tribunal, considerando-as como atentados contra a legislatura, seria a vesânia organizada (RUI). E, com atualidade insofismável, conclui: O que se guarda, pois, no bojo desse tentame, destinado a sumir-se e ressurtir com as reaparições ou os eclipses da legalidade na existência nacional, é a transformação do regime democrático na oligarquia de uma facção, imperante no Congresso e centralizada no Senado (RUI).

Suspeita origem teve o atual destempero… “Nasceu das transcendestes aspirações de uma política decidida a remover todos os tropeços da legalidade no seu caminho para a dominação total do País”, nessa Comissão de Constituição e Justiça, onde parlamentares condenados pelo Supremo Tribunal Federal tramam o absurdo de submeter esse tribunal a um constrangimento sem propósito.

Por outro lado, é um acinte à nação esse velho costume da indicação de amigos do Floriano (com calças ou saia) de plantão no Planalto, como ao cavalo Incitatus cônsul, pela loucura de Calígula; aqui Barata Ribeiro (médico) e Inocência Galvão (general) ministro do STF, pelo despotismo presidencial, que continua a nomear ministros a advogados nem sempre de notável saber jurídico, que o Senado, cúmplice, nunca veta, para não se falar em reputação ilibada. Daí a exorbitância de se interferir no outro poder, antes da materialização do ato que suscita o início de sua competência constitucional. Mandar interromper, por liminar, tramitação de projetos no Congresso é asneira retaliando asneira. Os congressistas têm competência de fazer tramitar o que quiserem, porque são, nisto, discricionários. Depois, lei pronta, a competência do STF pode fulminá-la, por inconstitucional, antes que ela agrida a civilidade jurídica.

Para que o Supremo cair nessa besteira de, por liminar, proibir ao Congresso a tramitação do que quer que seja? Passe! Deixe-o vir… “Declara-o, depois, contrário à Constituição; e será como se tal projeto nunca houvera existido”.

Nós da Bahia tivemos, sempre, culto à Justiça, razão pela qual escrevo, com a precariedade da pena de médico, o meu protesto contra essa classe política nojeta que hoje, como outrora, enxovalha a Nação, conspurca o Estado, estiola o País. Culpa exclusiva da soberania popular que se anulou, sucumbida ao peso de sua própria inidoneidade. Onde não há civilidade e educação não pode haver soberania, que implica submissão à regra constitucional, que é a alma da Justiça.

Uma nação que se organiza mediante uma “república presidencial com onipotência do Congresso; com o arbítrio do Poder Executivo, apoiado na irresponsabilidade das maiorias políticas; na situação autocrática, em que se coloca, neste sistema, o chefe do estado”, é uma nação estúpida. Se a tal regime, que é precisamente o nosso, não se opusesse a “majestade inviolável da Constituição escrita, interpretada, em última alçada, por magistratura independente”, o resultado é que até o Supremo é tribunal político, julga com as conveniências do Governo e julga até conta a Justiça (AFRÂNIO PEIXOTO).

A Águia de Haia, na 5ª. Carta de Inglaterra, respirando oxigênio da civilidade britânica, a liberdade, disse: Se estivesse nas mãos de uma revolução converter a realeza dos Braganças na monarquia parlamentar da casa de Hannover, eu, em 15 de novembro, teria proposto a troca de Pedro II pela Rainha Vitória, a Cadeia Velha pelo Paço de Westmisnter (RUI). Mas, como tal prodígio não nos socorreu, sobraram-nos a reles “realeza-presidencial” de Florianos, do Catete ao Planalto, continuação um do outro (hoje uma do outro), e a melancólica constatação de que “se a Justiça é o supremo índice de civilização de um povo, devemos estar bem por baixo, na escala dessa civilização” (AFRÂNIO PEIXOTO).

 

Fernando Guedes
28/4/2013
abr 6, 2011 - Poligrafia    4 Comments

Quando os bons não fazem o bem

O respeito que sociedade deve à profissão médica só continuará justificado, se, além de a sentir capaz, a souber responsável.

Afrânio Peixoto

 

O título não é original, adaptei-o do IX Ensaio Cético de Bertrand Russell, cujos ensinamentos absorvidos na juventude levaram-me a uma reflexão sobre a convocação que recebi, através de email de 17/3/2011, do Conselho Regional de Medicina da Bahia, para participar e apoiar a paralisação de  7 de abril…

Venho acompanhando, há algum tempo, com certa intranqüilidade, a participação dos Conselhos de Medicina, em movimentos reivindicatórios da classe médica que, por suscitar suspeição, parece-me preocupante.

A sociedade tem visto, com esse olhar cético, em face de erros médicos divulgados pela mídia, o julgamento de médicos pelos Conselhos de Medicina. Não faz muito tempo, um desses apresentadores de TV, argüindo essa desconfiança, disse: “Médico não condena médico”, com aquela malícia de quem dissemina, nos espíritos incautos, a dúvida. Como a dúvida sempre foi o alimento predileto da suspeita, compreende-se porque iguais julgando iguais, no recesso de seções fechadas, cria-se esse ambiente nebuloso, que resulta na descrença da sociedade e na fixação de uma imagem corporativista da classe.

Os Conselhos de Medicina são, na forma da Lei, uma autarquia (“serviço autônomo criado por lei, com personalidade jurídica de direito público, patrimônio e receita próprios, para executar atividades típicas da Administração Pública, que requeiram para seu melhor funcionamento gestão administrativa e financeira descentralizada.”) da República, disciplinadora e julgadora da classe médica, que deve, ipso facto, estar acima de qualquer interesse material dessa mesma classe, para desempenhar, com independência, sua função judicante, que não se confunde com a função de defesa dos seus interesses materiais, que incumbe ao Sindicato e Associações.

“A leitura e a análise destes dois artigos – Art. 5º. e Art. 15, da Lei 3.268, de 30 de setembro de 1957, que definem as atribuições dos Conselhos – deixa claro que os interesses materiais da classe não são protegidos, nem defendidos pelos Conselhos. Outros órgãos devem assumir esta função. Perante a lei e os tribunais, são os Sindicatos, pois a eles compete a defesa e a coordenação dos interesses econômicos ou profissionais das várias categorias de trabalhadores e os médicos constituem, sem dúvida, uma categoria de trabalhadores assalariados” (Jairo Ramos).

Não observar isto “é um grave erro, pelas conseqüências prejudiciais que acarretará de futuro, fazer dos Conselhos de Medicina um prolongamento de Sociedades Médicas, ou um executor das decisões destas, ou colocá-los nas lutas profissionais. Cabendo aos Conselhos disciplinar e julgar, é indispensável que sejam imparciais e, para o serem, é imprescindível que estejam eqüidistantes de grupos médicos a fim de merecerem a confiança de todos; necessitam afastar-se de lutas profissionais, a fim de terem autoridade de dizer quanto essa luta assume caracteres antiéticos. Para julgar com justiça, é indispensável que tenham compreensão exata dos fatos e para tanto é necessário que na sua composição tomem parte representantes de todas as tendências para uma mesma questão seja examinada sob múltiplos aspectos” (Ministro Costa Manso).

Além da “carta aos médicos”, li, na página do Conselho Regional de Medicina, esta mensagem:

“No dia 7 de abril, estão suspensos todas as consultas e procedimentos eletivos de pacientes conveniados a planos e seguros de saúde, com novo agendamento das consultas e dos demais atendimentos, mantida a assistência nos casos de urgência e emergência.”

Para ilustrar o reclamo, figura de um médico de braços cruzados dá o tom: uma legítima reivindicação da classe médica, que devia competir exclusivamente aos seus membros, aos seus sindicatos e às suas associações. Inserir neste contexto teleológico os Conselhos de Medicina, mesmo que seus componentes estejam imbuídos dos mais altos propósitos, que visam ao prestígio dos médicos, afigura-se-me um equívoco, por ser incompatível com o dever legal de instâncias judicantes. Judicantes especialíssimos, exclusivos, de uma classe específica. Poder-se-ia imaginar isento um tribunal que julga a quem defende? É uma dualidade estranhíssima, que não encontra, a meu juízo, paradigma em nenhum sistema deontológico.

Não me compete, nesta simples manifestação de opinião, criticar a divergência, por não duvidar dos propósitos que inspiram os colegas que vêem no Conselho uma espécie de sindicato protetor, e o querem engajado nessa luta reivindicatória. Porém, como ainda me restam cumprir alguns anos de exercício profissional, temo essas bem intencionados interpretações teleológicas de princípios deontológicos.

O STF, não é demais lembrar, enfrentou, com composição par, por duas vezes, o julgamento da “Ficha Limpa”, e amargou o constrangedor empate, que o deixou imobilizado. Isto vem à baila apenas para dizer: o que não está isento de acontecer, pode, no mundo dos fatos, acontecer. Portanto, dessa paralisação poderá emergir algum questionamento sobre o comportamento ético de algum médico, que o Conselho Regional respectivo terá que julgar. E aí? Como será dirimido esse conflito de interesses, já que o próprio Conselho corroborou a paralisação do atendimento?

Penso que as associações e os sindicatos devem lutar tenazmente pela dignidade da classe médica, defender, como todas as armas éticas, melhor instrução para seus membros, melhores condições de trabalho e a economia profissional; precisam lutar pela implantação da Medicatura Pública, sistema no qual o médico trabalharia em regime de tempo integral e dedicação exclusiva, com salário digno, plano de carreira e estabilidade. Neste contexto não há lugar para os Conselhos de Medicinas, que têm outra função, de tribunal, “foco de fomento da moral médica, entidade normativa e consultiva para as dúvidas comportamentais da classe, o Conselho será, sobretudo, o guardião do seu Código de Ética, que é a sua grandeza e a sua força, conceito do qual jamais nos devemos afastar” (Heitor Péres).

Afastar-se desse conceito, colocando os Conselhos, que são uma autarquia estatal, no centro desse conflito de interesses, transformando-os numa extensão dos órgãos da classe médica, não trará nenhum benefício aos médicos. Servirá apenas para se chegar à conclusão de que os bons nem sempre fazem o bem…

 

Fernando Guedes

4/4/2011

 

jun 4, 2010 - Poligrafia    5 Comments

Santo Antonio: Fernando e Antonio…

Casada em 2 de julho de 1937, minha mãe passou treze anos para ter o seu primeiro filho. Fez tratamento, mas a gravidez não vinha. Já desiludida, apegava-se a uma sobrinha, como a uma filha  que não conseguia gerar. Católica, não desistiu e apelou para Santo Antonio, que, parece, ajustou a fisiologia do casal: em 5 de setembro de 1950 nasceu-lhe o filho tão esperado! Que nome lhe daria? O do Santo: Antonio Fernando (Franciscano-Agostiniano), recomendou-lhe a gratidão. Dois anos depois, nasceu-lhe o segundo filho, que tomaria o mesmo nome, invertido: Fernando Antonio (Agostiniano-Franciscano). Nuca fez anticoncepção e jamais voltou a engravidar-se: afinal são apenas dois os nomes de Santo Antonio… Milagre? Não sei… mas sempre quis lhe fazer, ao Santo, uma homenagem, escrevendo algumas linhas em seu louvor. Pensei, pensei… e ocorreu-me, neste junho, no início de sua Trezena, transcrever, neste post, o memorável discurso proferido por Afrânio Peixoto, na Academia Brasileira de Letras, em 13 de junho de 1931, em comemoração do VII centenário do Santo. Ei-lo:

Santo Antonio, Padroeiro dos Homens de Letras.

Aqui mesmo, em 26, celebramos o centenário de um homem de letras, leitor apaixonado de livros de cavalaria, ouvinte enternecido dos ais de amor provençais, autor desse divino poema à Criação, que é o “Cântico do Sol”, um dos fundadores literários da língua italiana, São Francisco de Assis, que teve na terra, e tem no céu outros méritos. Esse de poeta, de homem de letras, era o que particularmente nos tocava.

Basílica de Santo AntonioSemelhantes méritos de santidade e de devoção, tem aquele cujo sétimo centenário ocorre precisamente hoje, 13 de junho, Santo Antonio de Lisboa, que se finou em Pádua, em 1231. Um santo, um grande santo sim, o maior de sua gloriosa Ordem Franciscana depois do Santo Fundador, mas, como ele, grande homem de letras, professor de teologia nomeado por S. Francisco; erudito nas letras sagradas, reconhecido por um papa, Gregório IX, que lhe chamou “Arca do Testamento”; orador popular, “egregius predicator”, disse S. Boaventura, soberano contra déspotas, os poderosos, os extorsionistas, os avarentos, os hereges, pelo que mereceu o nome grave de “Martelo da Heresia”; autor não só de sermões de piedade e de edificação, porém sermões de mestre, modelos de ciência e de devoção, para outros oradores sagrados colherem o fruto da pregação: são in-fólios que o atestam. Esse apóstolo contra a heresia, esse taumaturgo que convencia o coração pelo milagre, mas que tocava antes a razão com a idéia esse grande Santo da Cristandade, o maior da nossa raça, orgulho de nossa gente, devoção de Portugal e do Brasil, esse Santo foi principalmente um homem de letras, e por tudo, glória humana e divina, é justo e devido seja louvado aqui.

Digo logo o endereço dessa homenagem, para protestar contra a nossa descuriosidade e ignorância. Para todo o Portugal e Brasil, mesmo para nós letrados e amigo das letras, Santo Antonio é apenas um santo milagreiro, deles o mais vulgar, apenas ocupado hoje em dia no modesto oficio de deparar coisas perdidas e arranjar casamentos… Achar pequenas coisas humildes e não a honra, o juízo, a virtude… Casamento, amor, a razão da vida, sim, mas o santo é invocado como intermediário, arranjador das felicidades, acomodador, depois da escolha feita. Foi ao que a piedade popular reduziu um glorioso apóstolo.

Basilica de Santo Antonio 3Há que se criar uma defesa dos santos contra os seus devotos. Joana d’Arc, depois de salvar a França e por ela ganhar o céu, está agora servindo à mediocridade francesa nos mais humildes ofícios, promovendo a colheita da cidra na Normandia e combatendo as doenças do vinho na Borgonha. Essa grande santa, menina e moça, de heróicas virtudes, Teresa do Menino Jesus, estará em breve banalizada como santinha piegas e milagreira, a que a ignara piedade e está reduzindo. Triste retorno humano, desse caminho divino do céu. Humanos, conquistaram heroicamente a santidade; santos, degrada-se humanamente na frivolidade. Felizes esses santos, Tomás de Aquino, ou Inácio de Loiola, Teresa de Jesus ou João da Cruz… cujas obras são difíceis de ler, e mais ainda de sentir, e se isolam numa aristocracia de piedade só para os devotos capazes de os compreender.

Sei bem que o povo tem seus soberanos direitos, até no céu; não me esqueço da palavra divina que disse: ele é dos pobres de espírito. Mas é demais. Santo Antonio, que o milagre trouxe à veneração popular, está por isso condenado ao esquecimento e à ignorância do que foi, além e antes do taumaturgo. Minha lástima não é contra o povo, no sentido direto, é contra o clérigo, contra o letrado, o sábio, na sua remissão. Não lastimo a Santo Antonio, lastimo ao Brasil e a Portugal.

Há dois anos fui a Portugal visitá-lo, na sua cidade, na sua basílica, no seu tesouro, nas suas relíquias, nessa língua viva e incorruptível a cuja exumação São Boaventura assistiu, que a morte e a terra pouparam, perene afirmação da glória do orador, do letrado, “Arca do Testamento”, “Martelo da Heresia”…

Ainda depois de setecentos anos, Santo Antonio é, em Pádua, exclusivamente, “Il santo”. Como lhe chamaram vivo, como lhe chama a posteridade, “o Santo”. Naõ há outro para os paduanos. A basílica é do Santo; a praça em que se erige é a “Piazza del Santo”, a avenida que para lá conduz o peregrino é a “Via del Santo”. Os outros santos têm nome determinativo, o que dispensa denominação; “o santo”, como se fora único, somente ele santo, é Santo Antonio… Não é assim em Lisboa, ou no Rio, em Portugal ou no Brasil, como é e, Pádua, na maior parte da Itália, no sul da França.

… por natureza

Ou por constelação de clima

Esta Nação Portuguesa

O nada estrangeiro estima

O muito dos seus despreza.

Foi dito por um dos nossos, o poeta lusitano Simão Machado, em religião Frei Boaventura Machado, que sobre o nosso Santo escreveu, e repetido por outro dos nossos, o poeta brasileiro das “Sextilhas de Frei Antão”, Gonçalves Dias. E está certo.

Santo Antonio_livroPádua tem a sua Universidade, célebre entre as medievais mais célebres, de 1222; porém tem mais, tem o “santo”. A obra-prima de Donatello, esse Gatamellata, com a de Verrochio, o Colleone, de Veneza, as duas mais célebres estátuas eqüestres de mundo, está no adro da Basílica por enfeite. Entrei. Fiz as oblações de minha admiração e minha piedade. Concentrei-me ente as relíquias do Santo. Extasiei-me ante o altar-mor de Donatello, ante o maravilhoso Crucifixo de 1443, diante dos baixos-relevos que narram os milagres do Santo, principalmente lendo esse poema à divina infância, que são os doze anjos que liricamente esculpiu em baixo-relevo o mesmo Donatello, o épico do monumento exterior. No tesouro admirei relíquias e relicários, dádivas de soberanos e poderosos, riquezas de arte, de memória, de preço, que representam a gratidão de imensos benefícios reconhecidos. De um lado e de outro, vi alinhados os confessionários de todas as nações do mundo que Pádua se vão confessar, aos padres de Santo Antonio. Como em São Pedro de Roma, também Pádua não falta povo algum. É um congresso de filologia, uma Babel, que o Espírito Santo não permite confundir… E vou lendo: francês, inglês, alemão, polonês, checo, esloveno, russo, grego moderno, espanhol, italiano, irlandês, catalão, provençal, sueco, holandês… e continuo, e vou até o fim, e torno a voltar, procurando o meu, o nosso confessionário… e não o acho, e não quero crer na ausência. Na Basílica de Santo Antonio de Lisboa em Pádua, havendo confessionários de todas as línguas ocidentais, falta uma, falta a do Santo, falta o português. Necessariamente porque nem portugueses nem brasileiros se vão lá confessar… Não há procura, não há oferta. Vão outros, vão todos os povos cultos da terra venerar Santo Antonio. Nem portugueses nem brasileiros. Em Portugal e no Brasil Santo Antonio arranja casamentos e acha objetos perdidos. Não comento, deponho.

E entretanto vede, nessa sua imagem popularizada pela piedade, desde a Idade Média, há o lírio, o símbolo pessoal da pureza: há o menino Deus que o milagre lhe viu nos braços fugindo do colo da Virgem; mas há o livro, sobre que se assenta o Senhor, livro fechado, “Arca do Tesouro”, ou livro aberto, os sermões orados e escritos, do “Martelo da Heresia”. Na iconografia de Santo Antonio, e faz fé a grande obra de Manadach, pode faltar o lírio ou faltar o pequeno Jesus, o livro está sempre presente. Não há Santo Antonio sem o livro. É a sua, é a nossa insígnia.

Da santidade não é aqui o lugar de dizer; dirão os capazes, justamente, os pregadores, onde é devido, nos templos.

Permiti-me apenas, como humilde devoto, mínimo admirador, que reze minha oração leiga a esse grande orador sagrado, menos a ele que a vós, convidados hoje para celebrarmos o centenário de um grande homem de letras, um daquele de que mais se deve ufanar a nossa raça gloriosa.

Santo Antonio lisboa_2Nasceu Fernando Martins de Bulhões em Lisboa, a 15 de agosto de 1195, de Martim de Bulhões em Tereja ou Teresa Taveira, descendente, segundo a tradição do nome, de um colateral Godofredo de Bouillon, o chefe da Primeira Cruzada, primeiro Rei de Jerusalém. Taveira ou Távoras são também nobres. Lar piedoso, cresceria o menino com a piedade, como ele viria a confessar. Também a tradição, apesar disso, mostraria na Capela de S. Vicente de Fora, nos degraus de pedra da escada que sobe ao coro, cruzes impressas que o jovem traçara no solo, para livrar-se de uma tentação. O milagre teria impresso, em depressão, na pedra, esses sinais de proteção invocada. Aos 15 anos, Fernando estaria recolhido a um mosteiro, da regra de Santo Agostinho, aí mesmo em S. Vicente, perto de Lisboa, de onde passaria ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Aí, à piedade se acrescentaria a ciência, pois os cônegos agostinianos são doutores canônicos e em Santa Cruz além de letras divinas ensinavam-se as humanas, até a história natural, a fisiologia, a medicina.

Foi quando a Portugal chegou a notícia e depois as relíquias de cinco mártires franciscanos que, pela fé, haviam sido trucidados em Marrocos. O fervor de piedade acendeu-se, na corte e no povo, e o douto cônego de Santo Agostinho invejou a glória, de ser também um humilde frade menor, para dar o seu sangue por Deus. Vede bem, nessa humildade e nesse desejo de martírio havia um laivo de orgulho. Deus elege. Fernando oferecia-se. Pedindo-a, ao reitor, tivera este pena de lha conceder, essa transferência de ordem, e, segundo a tradição, um dos cônegos dissera-lhe, vendo-o partir: “Vai, vai, ficarás um santo”. Havia amargor na profecia, a que Fernando respondeu simplesmente: “Quando  souberes que sou santo, louvarás a Deus”.

Nesse mesmo mosteiro de Santa Cruz trocou os seus hábitos, recebeu o burel e o cordão de São Francisco e com os seus novos irmãos recolheu-se à casa deles, de Santo Antonio dos Olivais. Quisera mudar de ordem e, cônego, tornar-se um frade menor, de culto, em humilde, de estudioso tranqüilo, em missionário para o martírio, – mudaria também de nome – e Fernando, tomou o nome do santo que dava invocação a sua nova casa. Antonio, “alte tonans”, o que troveja com fulgor, foi a etimologia que tradição lhe conferiu à troca. Relâmpago e trovão.

Estaria aí a predestinação do Santo, não o humilde mártir que desejava ser, testemunhando da Fé, mas o clarim, o tambor dessa Fé, que os ouvidos moucos ou distraídos haviam de ouvir, para a conversão.

Frei Antonio não poderia parar, e, logo, ei-lo a caminho de Marrocos, em busca do martírio. O sultão, porém, era outro, pacífico, inimigo do sangue e o laivo de orgulho do santo foi assim punido, na decepção. Deus rejeitar-lhe o sacrifício. Tornou a embarcar, para volver a Portugal.

Não o seu, mas o desígnio divino ia realizar-se. Uma tempestade lançou o seu navio nas costas da Sicília. Ai, a tradição lhe marca a presença em Taormina, em Messina, até que, à notícia de um capítulo geral em Assis, a 30 de maio de 1221, Antonio quis conhecer o Padre S. Francisco: a pé, de Calábria a Umbria, o frade humilhado ia, agora, completamente humilde, conquistar a glória, que lhe estaria reservada.

Santo Antonio LisboaO capítulo de 19 reunira cinco mil franciscanos, um milagre; esse de 21 teria ainda três mil frades, mas seria o último a congregar toda a família seráfica, que se pudera reunir em torno da Porciúncula. Viu aí Frei Antonio o padre S. Francisco, resignatário do governo de sua ordem, humilde entre os anônimos. Havia uma missão à Alemanha, que podia trazer a morte, o martírio… Antonio viu escolher os companheiros e silencioso, agora perfeitamente humilde, não se ofereceu. Também não o poderia, não sabia a língua alemã, convalescia de grave enfermidade, e ainda trazia fadiga da viagem. O martírio escapava-lhe ainda, humilhado novamente. Mas agora santamente humilde.

Santo Antonio_PeixesQuando o capítulo terminou, só, silencioso, sem ninguém que o conhecesse, Antonio pediu ao Ministro da província de Ramagna, Frei Gratiano, que o levasse consigo. Sua piedade e sua humildade o recomendavam. Chegando ao pouso, o irmão silencioso quis fugir à multidão, no eremitério de Monte Paulo. Foi-lhe concedido. Ainda a seu pedido, incumbia-se de varrer a casa e de lavar os pratos e as vasilhas da cozinha e do refeitório. Assim, até o seu dia. Foram todos os irmãos a Forli, para se ordenarem os de Monte Paulo. Aí, à refeição, o Ministro pediu aos frades reunidos que, numa oração, exortassem aos novos ordenados. À recusa de todos, voltou-se para Frei Antonio, para não o humilhar, sem também um convite, como a todos: mas, como, o lavador de pratos não conheceria as Escrituras, ainda para o não humilhar, disse-lhe, benignamente, discorresse sobre o que o Espírito Santo lhe inspirasse. Resistiu, mas, à instância dos assistentes, que talvez uma santa malícia curiosa movesse, nessa reiteração, Antonio começou a falar. Um fluxo eloqüente de fé, de fé instruída e sábia, que brilhava tanto mais quanto vinha de um humilde lavador de pratos, que tocava tanto mais, quando o acreditaram incapaz de dizer coisas que valessem ouvir-se. Ouviram, admiravam, embeveciam-se, tocavam-se de comoção, e tanto a eloqüência, como a ciência, como a caridade esplenderam em milagre. Um sábio e um orador apareceram imprevistamente, na ordem: no humilde Frei Antonio, franciscano, se revelara o culto cônego Fernando, agostiniano. A ciência humilde foi exaltada. A luz sob o alqueire, do Evangelho. Foi reconhecida. Seria aproveitada.

Santo Antonio_Peixes_2Antonio foi mandado pregar na Romagna contra a heresia dos Catharos e Patarinos, infestados de maniqueísmo. Era a eloqüência para seduzir e a ciência da Escritura para combater. Daí começou a sua fama de “Martelo da Heresia”. É aí que se situa dois estupendos milagres. Um herege recusa-se a admitir a presença real, na Escritura. O pregador faz uma aposta… Se seu cavalo, privado de alimentos, o reconhecesse, que faria ele? Com dois dias de jejum, diante de um feixe de aveia e de uma hóstia consagrada, o animal prosterna-se, até que o santo lhe dê liberdade. O herege converteu-se, publicamente. O outro, foi, diante de outro herege, em Rimino, que o não queria ouvir; o santo volve-se para o mar e põe-se a orar aos peixes que, em multidão, acorrem, as cabeças de fora, dando sinais de entendimento. A multidão prosterna-se, convertida, diante do milagre, ouvindo então as exortações da piedade. Dessa tocante iluminura viria Vieira a fazer obra-prima da sátira, no púlpito do Maranhão.

Tamanha já era então a fama do santo que a uma estada em Verceil, onde conheceu talvez João Gersen, a quem se atribuiu a Imitação de Cristo, a tradição de biógrafos e os milagres da admiração quiseram que de Santo Antonio fosse a autoria do grande livro. Contestem-no os historiadores; ficará, subsistirá a idéia de que ele seria capaz de fazê-lo, tanta era a conta que o tinham.

Santo Antonio_milagre do cavaloEm conta maior tivera-o S. Francisco, contra suas primeiras e insistentes determinações, em investi-lo das funções de professor dos frades menores, em Bolonha. Com efeito, o Padre Seráfico não quisera a ciência, mas apenas a fé, como apoio do missionário; a vida, as ações, a caridade, antes que a Escritura, a teologia, a ciência. Mas força foi dobrar-se ao fruto que se havia dessa ciência pia, que trazia a conversão e o milagre. Força foi talvez convencer-se que o tempo exigia dos franciscanos as armas da divina ciência, ao lado do amor divino, como entre outras ordens concorrentes. S. Francisco escreveu, pois, um bilhete a Santo Antonio, chamando por ele “meu Bispo”, permitindo-lhe lesse aos irmãos as santas letras e a teologia, contanto que se não extinguisse o espírito da santa oração.

Paul Sabatier, o mais sábios dos historiadores de S. Francisco, acha tão antifranciscana esta permissão, que duvida, por isso, da autenticidade do bilhete. Entretanto, tem tanta força a verdade, que ele mesmo vem à injusta reflexão: “Com Santo Antonio… a queda é imensa (da Ordem Franciscana)… a distância entre este dois homens (São Francisco, de quem vem falando) é tão grande, como a que separa Jesus de S. Paulo”.

Se S. Francisco não houvesse permitido a novidade científica na sua Ordem, Santo Antonio teria sido não um sábio cumpridor da vontade seráfica, mas um revolucionário reformador dela. E ao contrário, é ele que investe contra Elias na presença do Papa, por trair o espírito franciscano. Portanto, o escrito e o mandato são autênticos. Por que Santo Antonio será S. Paulo e S. Francisco, Jesus, como queda, e não prolongação? O Cristianismo sem o apostolado aos gentios, não seria o Catolicismo… S. Paulo trouxe Jesus da Palestina a Roma, ao Império do mundo. Santo Antonio deu a S. Francisco a prolongação do conhecimento à fé, da razão à piedade, da ciência ao amor. O “creio porque sinto” tornou-se o “creio porque sei”.

A razão de um emparelhou-se à piedade do outro.

Santo AntonioA melhor justificativa de Santo Antonio, além da contradição em que cai Sabatier, está na sua mesma história: “Os sucessores de S. Francisco foram quase, sem exceção, discípulos de Bolonha: Pedro de Catania era doutor em leis, assim como João Parenti; Elias foi “scriptor” em Bolonha; Alberto de Pisa aí sido ministro; Aymon fora aí lente; Crescentius escrevera obras de jurisprudência”… Santo Antonio foi apenas um precursor desse movimento e a mando do próprio Padre Seráfico. De todas as ordens sábias e cultas, de todas as universidades e escolas, doutos e sábios ingressavam na Ordem Franciscana e não era lícito a S. Francisco não utilizar toda essa riqueza para a obra de propagação da fé.  O que havia mister era que a oração, a piedade, o amor não fossem sacrificados à lição, à ciência, à propaganda. Tudo teria seu tempo e seu lugar. O sentimento move; só a razão encaminha, Santo Antonio continua S. Francisco.

Santo Antonio_5Como em Bolonha, Santo Antonio ensinou teologia em Monpilhér e Tolosa, instruiu irmãos e combateu hereges. Não só instruiu, mas admoestou. Um escritor leigo, César Cantu, delicia-se em citar as verberações do Santo aos abusos do Clero. Profanos e religiosos, todos deviam estar na regra de Deus. Não fora S. Francisco já um protesto contra a impiedade disfarçada e um retorno ao Evangelho, que até religiosos iam esquecendo? Antonio fê-lo, ainda com mais ímpeto. Da cátedra, o Santo passou à praça pública; o orador popular foi tão grande como professor. As suas multidões eram inumeráveis; acordava-se de madrugada para achar lugar; lojas e oficinas fechavam-se para donos e aprendizes o ouvirem. A conversão e o milagre floriam. Por isso, ainda hoje, a Provença é devota de Santo Antonio e a França paga, como a Itália, o tributo de veneração ao apóstolo. Um dos inúmeros milagres dessa época mostra o Santo a pregar num capítulo de Arles e um frade que vê S. Francisco, em pessoa, que estava na Itália, embevecido, a escutar o “Seu Bispo”. Só quando Antônio traçou no ar, por termo, o sinal da cruz, a visão se dissipou. Tal oração, para produzir tal milagre, não seria alheia ao espírito franciscano.

Santo Antonio_6Tornando a Itália, Santo Antonio terminara o seu grande ministério em Pádua, não sem ter visitado e pregado em numerosas cidades. Ainda lhe ficava tempo para escrever seus sermões, como lhe fora pedido pelo Cardial Hugolino, Bispo de Óstia, protetor da Ordem Franciscana. Em 30 está em Roma, pleiteando junto desse amigo, agora Gregório IX, uma interpretação oficial do testemunho de S. Francisco. Tornando, enfrenta Ezzelino, o tirano Verona. Em Pádua, de novo, ensina teologia compõe sermões, combate a heresia. Em 1231 é ainda o mesmo ministério e a morte, na mesma faina piedosa de lente, de orador, de escritor, até o trânsito, a 13 de junho, em Arcella, perto de Pádua, justamente a sete séculos.

O mundo esqueceu a sua teologia, com que foi professor; esqueceu os seus sermões de grande orador, com que foi “egregius predicator”, diz S. Boaventura; esqueceu o tomo compacto e in-fólio de seu sermonário, testemunho da erudição e da ciência da “Arca do Testamento”. Esqueceu tudo, para se maravilhar com o Taumaturgo. Mas, ainda aí, Santo Antonio manifesta-se o letrado, o poeta, o sábio.

ConventoSantoAntonio_rioOs milagres têm todos um cunho de intelectualidade original, que lhes marca a procedência. Em Ferrara cidadão nobre e respeitado suspeita, ciumentamente, da virtude da esposa, que acaba de ser mãe. A pobre apela para o Santo. Que há de fazer Antônio? A mais imprevista pesquisa de paternidade, antecedendo de séculos à própria ciência. Dirige-se ao recém-nascido: “Eu te conjuro, por virtude de Jesus Cristo, nosso Deus, nascido de Maria Virgem, que me respondas, perante este povo, mostrando teu pai”. E o recém-nascido, em voz clara, de um menino de dez anos, que indica o marido ciumento, dizendo: “Eis meu pai”. “Toma teu filho, diz-lhe o santo, por sua vez, e ama a tua mulher, cuja virtude é digna de ti”. Nós hoje fazemos falar os recém-nascidos voz do sangue, pela identificação dos grupos sangüíneos, que são hereditários e dão pista, dispensadas pelo milagre.

Os seus sermões despertavam universal curiosidade e produziam fruto incomparável; o povo reunia desde madrugada para achar espaço, ainda no descampado, porque, às vezes, falava a dezenas de milhares de devotos e um cronista refere mesmo 30.000 ouvintes. Uma devota do santo tinha marido doente e ímpio, que a impede de ir ao sermão, força é conformar-se, deixando a devoção pelo dever. Não importa, a duas milhas de distancia da praça, abre a mulher a janela e ouve, distintamente, a voz do Santo que lhe chega pelo milagre. O alto-falante e o rádio são os milagres de hoje. Santo Antonio é um precursor da ciência.

Santo Antonio_1Esse transporte a distancia, até do próprio corpo, é de outros milagres do santo. Um dia está Santo Antonio a pregar no Limosino, em França, quando se recorda que, no seu Convento longínquo, àquela mesma hora, prometera uma lição, no ofício das matinas. Aflito desse esquecimento, não querendo faltar, o santo para, cala-se e aparece lá distante aos Irmãos reunidos, surpresos e maravilhados. Lê a sua lição e reaparece no púlpito de Queyroix para continuar o sermão. Esse milagre de bilocação repete-se quando salva o pai da forca, falsamente acusado, fazendo falar o morto, que acusa o verdadeiro culpado, tendo o santo vindo de Pádua a Lisboa e tornado de Lisboa a Pádua. Ainda a ciência não pode pretender imitar a Fé. Não o digo, senão para mostrar o caráter intelectual dos milagres do santo, que precede mesmo a nossa alada razão.

Um dia, em Pádua, um rapaz confessa-lhe que, irritado, dera à própria mãe um pontapé, com tal violência, que a derrubara. Tomado de horror, diz o Santo: “tal pé, que ofendeu a pai ou mãe, deveria ser cortado!” Mas, importando a confissão arrependimento, diz-lhe o confessor que tal crime só lhe será perdoado, se a ofendida perdoar. Corre o pecador a casa, conta à mãe, que lhe diz: “farei como o Santo deseja, mas sempre devia haver uma penitência para filho que bate na mãe”.  O rapaz afasta-se e um grito terrível se lhe ouve. Tinha, com um machado, decepado o membro pecador. A pobre mãe é que, agora, aflita, busca o Santo, e Antonio restituiu, por milagre, o pé mutilado ao rapaz arrependido, punido e perdoado.

Santo ANtonio_2Há na vida de Santo Antonio, assim, muitos milagres, a mães aflitas, porém mães dignificadas, no seu amor, pela fé do homem de Cristo. É que a mãe, diz ele, num dos seus sermões, a mãe é o templo do filho. Imagem do poeta e, a um tempo, imagem de pregador realista, que não recua diante da mais ousada comparação. Como uma hóstia, como o seu sagrado amor, não o guardou no seu seio, o filho, dando-lhe vida? Mas tarde o coração lhe será o refúgio, o abrigo, que não lhe faltará jamais; como uma igreja sempre aberta aos fiéis, um amor de mãe jamais repudiará a sua criatura. Portanto, a conclusão do Santo vai abrasar a Teologia: Maria Santíssima é o templo de Deus.

O culto à Mãe de Deus deve a Santo Antonio quase outro tanto do que deve esse outro santo mariano, a São Bernardo. Foi este grande santo, tão perecido com o nosso, quem inventou e impôs, à Virgem, o apelido universal de “Nossa Senhora”. Tinham todos os corteses e piedosos cavalheiros medievais a sua dama e senhora, a quem votavam coração e vida: a galanteria e a polidez nos faz dizer a todas, extensivamente, “madame” “minha senhora”. Por que à Mãe de Deus, portanto mãe de todos nós, não havemos todos de chamar “nossa dama”? “Nossa Senhora”? Vede bem, esta simples designação, que o uso banalizou, tem um sentido profundo e social. Maria é a dama, é o ideal feminino de todos os cavalheiros, de todos os homens, de todos os crentes, desde a piedosa Idade Média cavalheiresca até sempre. A poesia de São Bernardo emparelha-se à teologia de Santo Antonio e daí “Nossa Senhora”, “templo de Deus”, que se confunde com a sua Igreja.

Há milagre amáveis, como este: Uma mulher piedosa era esmoler dos Frades Menores e isso contrariava o marido ímpio, que lho reprovou, uma vez. Palavra puxa palavra e passam aos atos: o bruto toma a esposa pelos cabelos e arrasta-a, por aí fora, até que lhos arranca completamente. No dia seguinte a dama reclama a Santo Antonio, a quem narra o ocorrido, dizendo-lhe: “Se rezardes por mim a Deus, ele me restituirá os meus cabelos”. – Foi para isso que me chamaste? Adeus”.

Santo Antonio_4Partiu naturalmente contrariado, pois, apesar de santo, era português. E um biógrafo, e lusitano, o meu douto colega Dr. Brás Luís de Abreu, no seu in-fólio de 1725, reconhece-lhe a tara de picar como zangão, ajuntando, graciosamente: “Antonio é português; e não te fies de português picado, ainda que ele seja um Santo Antonio”. O santo partiu, pois, zangado de o invocarem para essa frivolidade, uns cabelos de mulher… No caminho, porém, até o convento, refletiria que, enfim, podem violências ser provas de amor; por que não pedir, de futuro, outras declarações mais brandas, para só pedir a restituição de uns cabelos? Com eles, uma pecadora ganhara a glória: a Madalena enxugara, com os seus, os pés de Jesus, e isto lhe valera a palavra divina de salvação dos pecados: está em S. Lucas, VII, 38-50, e S. João, XII, 3-8.

O Apóstolo das Gentes estatuíra o protocolo da oração. Com efeito, pergunta S. Paulo: “É decente que uma mulher faça oração a Deus, não tendo véu? (I Cor. 11, 13). Para responder, adiante (Id. 11, 15): “É glória para a mulher deixar crescer os cabelos, porque eles lhe foram dados, em lugar de véu… Com a sua memória angélica pudera o santo ver Santa Inês despida ignominiosamente, resguardar-se no seu pudor, pelos cabelos que, milagrosamente, crescem, até envolvê-la no seu nimbo de mártir… Pudera ver, com visão profética, Joana d’Arc, séculos depois, entre os motivos de condenação à fogueira este, explícito: por ter os cabelos cortados. Decente, com eles; sem eles indecente. A pobre mulher tinha razão de invocar Santo Antonio.

Chegando ao convento, referiu o caso aos companheiros e convidou-os a orarem, com ele, pela pobre mulher. E como era sapientíssima sua memória dos textos sagrados, eles lhe viriam acudindo. À Providência nada é desprezível, tanto que disse o Senhor, e está em S. Lucas XII, 7 e S. Mateus X, 30 todos os cabelos de nossa cabeça serão contados. Quem toca num cabelo, ofende uma criatura, tanto que o provérbio: “não se tocará num cabelo de sua cabeça”, esta nos Três Livros dos Reis, está em Daniel no Antigo Testamento, e está em S. Lucas e nos Atos, no Novo Testamento. Nas mulheres, então, os cabelos são um adorno, uma graça divina. Uma só trança da esposa, no “Cântico dos Cânticos”, basta para seduzir a Salomão; no latim da Vulgata, pentear os cabelos, na versão dos Setenta, é “arranjar o ornamento da glória”. Traduzindo um texto semelhante de Ezequiel, S. Jerônimo escreve “coroas”. O penteado, que pressupõe cabelos, é uma insígnia natural de realeza.

Por que não havia a pobre mulher, esquecida das injúrias, de que fora batida e arrastada, pedir apenas os seus cabelos? E os cabelos lhe tornaram, como eram, belos naturalmente, que os não pediria, de outro modo. E maravilhado e arrependido – ou contente? – o marido mudou de sentimento pelos Frades Menores, se não mudou de fé.

Essa delicadeza do nosso santo, que na Idade Média se chamava “cortesia”, hoje havia de merecer aquele mesmo honesto elogio que os ingleses conferem a S. Francisco de Sales – “holly gentleman”, gentleman santo. Santo Antonio era, assim, galante. Vede se este outro milagre não depõe, pela sua beleza e elegância, neste sentido. Um pobre homem ajoelha-se aos pés do Santo, e, de tão comovido, nem se pode confessar; não consegue uma palavra.

Compreende Antônio, compassivo, essa confusão e consola o penitente. “Vá para casa, e, com cuidado, escreve numa carta o rol dos seus pecados”. Assim faz o bom homem e, ao outro dia, traz o papel escrito ao Santo… Ao mostrar-lho, porém, milagre! O escrito desapareceu, o papel está branco, imaculado. O arrependimento. Como uma tinta simpática, apaga a culpa e a memória. Santo Antonio, patrono dos homens de letras, que belo milagre faríeis, se apagásseis o papel borrado de tinta, que atulha bibliotecas do mundo! Não é certamente poder que falta ao patrono, é penitência, que falta aos letrados, endurecidos na reincidência…

Como S. Bernardo, e não como S. Francisco, o nosso santo chegava à violência, bem nosso e bem português, portanto, porem bem santo, porque a violência seria contra os poderosos, os grandes, os ricos, os dominadores. A Frei Elias, num concílio de Franciscanos, invectivou, diante do Papa; a clérigos e arcebispos admoestou, com bravura, e ao próprio sanguinário tirano de Verona, e, depois, de Pádua, Ezzelino, disse-lhe o que quis e devia dizer, de sua crueldade e abominação. Os guardas e domésticos, armas em mão, esperavam um sinal do déspota, para ferirem e despedaçarem o Santo. O tirano, comovido e amedrontado, ouvia aquele fluxo de condenação e anátemas. É que via, confessou ele depois, uma auréola de luz cercar aquela cabeça, e aquele gesto, e aquelas palavras o amoleciam e confundiam. Vencera o Santo cumprindo o seu dever sem temor, pois que Deus estava com ele.

Não insistamos. Esse taumaturgo impôs-se á fama medieval pela sua fé, pela sua razão, pela sua bravura, e deviam ser imensos os méritos do homem que inspirou tal crença, ainda que a nossa incredulidade não a possa compreender, nem explicar. Esse fumo de fama que sobe e enche o céu devia ter um imenso fogo que, aceso, lhe correspondesse, na realidade. Tamanho, que Santo Antonio, falecido e, 13 de junho de 1231, antes de um ano, milagre quase na Igreja, estava canonizado e no altar. Gregório IX teve de curvar-se à universal solicitação dos fiéis que, de Pádua, da Itália, da Europa, lhe pediam a Justiça da Igreja ao homem de Deus. Um santo era feito, como no Cristianismo primitivo, pela unânime devoção dos crentes.

E esse Santo, taumaturgo de mil milagres, é um grande homem de inteligência, de saber, de erudição, “Arca do Testamento”, toda ciência de seu tempo; “Martelo dos Hereges”, toda a política de sua Idade Média; foi lente, foi professor, foi orador sagrado e popular, de dezenas de milhares de ouvintes, comovidos e convertidos; foi escritor de sermões, que pregou, e de sermões para os outros pregarem. Tem mais obras escritas e impressas que muito acadêmico. Esse Santo Antonio que os outros admiram, e veneram, e proclamam, é português, como nós brasileiros, e letrados, como nós acadêmicos; por que não celebrá-lo como nosso, tantas vezes nosso? Santo Antonio é o patrono dos nossos homens de letras. Podemos, pois rezar-lhes as nossas orações, que nos aliviará, com a confrades.

Santo Antonio da BarraComo brasileiros já lhe devemos muito, tanto tem sido sempre proveitosamente invocado. Ele lá está, na barra da Bahia, defendendo o nosso porto, como outrora nos defendeu dos holandeses. Em 1697, após a extinção do quilombo de Palmares, para que foi invocado, foi Santo Antonio promovido a tenente, o que não é pouco, e hoje seria muito. Em 1706, D. João V havia de inscrevê-lo nas suas tropas, no próprio regimento real. Com o dom milagroso da ubiqüidade, em 1710, na invasão francesa de Duclerc, seria promovido a capitão no Rio de Janeiro. Levaria um século para ser promovido, por D. João, o Príncipe Regente, a sargento-mor. Foi esse mesmo D. João VI quem, em 1814, havia de promovê-lo a tenente-coronel de infantaria. Tudo isto com soldo e etapa, pagos ao guardião do Convento do Rio. Em 1890 Deodoro havia de tudo ratificar, isto é, a patente de tenente-general de terra e mar, insígnia de comando, faixas de honras, estipêndio, que lograra, da Independência à República.

Isto, até Ministro da Guerra o nosso Dantas Barreto, que quis lhe retirar a mais invejável das glórias, a da militança. Mandou chamar o guardião do Convento, e declarou-lhe, francamente o desígnio. O bom frade recordou modestamente os serviços prestados. O Ministro indagou:

– Mas está na ativa?

– Santo Antonio não cessa de fazer milagres, sempre ativo, invocado por todo o Brasil…

– Pois compareça no Quartel General…

E porque não compareceu foi demitido, simplesmente. Sem reforma. Ainda bem que não o declararam desertor.

Em 1923, sendo Ministro Calógeras, o guardião do Convento requereu-lhe o soldo de Santo Antonio, e foi ouvido o nosso Rodrigo Otávio, consultor da República que, depois de historiar o caso, nega tudo ao Santo, por ser “pessoa física ou jurídica, que, só estas, têm direito patrimoniais”. Quando os tempos são outros, até a mesma razão muda.

A festa de hoje na Academia é, pois, uma reparação. Felizmente a nossa admiração não mudará, a Santo Antonio militar ou civil. Sem obrigações, ele nos servirá melhor.

Num poema medieval, jóia literária do século XIII, Julião de Spira pergunta: Si quaeris miracula? Quereis milagres?

À invocação de Santo Antonio

A morte, o erro, a calamidade

Os demônios, a lepra, se afugentam,

Os doentes são curados.

Obedece o mar; partem-se as algemas;

Volta a saúde.

Velhos e moços o invocam

E acham objetos perdidos.

Tudo, a todos, glorioso Santo Antonio, podemos nós também rezar; queremos pedir-vos também alguma coisa, pouca coisa… Santo Antonio, restituí-nos, dai-nos, Santo Antonio, dai-nos o juízo que perdemos…

Eis, pois, a minha oração ao Santo cujo nome me honra, patrono dos amigos do livro, este audaz guerreiro que conquista o mundo inteiro, sem nunca ter Waterloo, como disse Castro Alves, nO Livro e a América.

Fernando Guedes

1/6/2010