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jul 26, 2011 - Poligrafia    2 Comments

Pó com vento… Pó sem vento…

Quem não vê que pediatria, por seus próprios sucessos, fornece clientes aos geriatras, e não retira nenhum agente funerário? Medicina, onde está a tua vitória?

André Comte-Sponville, in Bom Dia, Angústia!

 

Há alguns dias, no plantão de emergência, trouxeram-me um paciente de dezoito anos… Enquanto o maqueiro o conduzia ao local do atendimento percebi, na imobilidade involuntária do corpo, que o paciente já era pó caído. O exame clínico não me deixou dúvida: parada cardiorrespiratória, ponta do pé desviada para fora, flexão do polegar na palma da mão, descoramento da tegumentar, suor frio, horripilação da pele e a midríase paralítica denunciavam a morte!

Enquanto o examinava, sua mãe permaneceu o tempo todo ao lado. As mães, que nunca desertam, pressentem quando seu filho vai morrer. Aquela, que estava ao meu lado, o pressentiu logo, e só conseguiu sussurrar aquelas duas palavras que sintetizam o sentimento universal:

– Meu filho!

O pai, transtornado, adentrou, com a ficha médica que fora providenciar e me perguntou:

– E aí doutor?

Quando lhe disse o que ocorrera, desabou num descontrole emocional tão profundo que chegou ao ponto das invectivas. Questionou Deus, xingou os médicos, comparou os hospitais a matadouros… gritou e esgoelou, como vocifera os que não se educam para a morte, os que projetam, na finitude da vida, uma eternidade enganadora. Não era possível àquele pai compreender aquela morte…

Havia 15 dias que o paciente estava doente. Nesse período, disseram-me, acometeu-se-lhe forte cansaço, tosse e hemoptise… Estivera em outros hospitais às voltas com exames… Exames, eis tudo no que se resume a medicina da atualidade! Uma radiografia do tórax em péssima técnica, tirada há uma semana, revelava com clareza apenas aumento da área cardíaca. Morrera aquele paciente sem diagnóstico… O diagnóstico, disse Francisco de Castro, clássico da Clínica Propedêutica, é o eixo em volta do qual gira todo o problema clínico, e de tal modo que sem diagnóstico é impossível a medicina. Isto não mudou… Como não mudou, malgrado o aparato técnico hoje existente, negou-lhe a medicina o que lhe poderia adiar a morte: o diagnóstico. “Medicina, onde está tua vitória”?

Os trinta minutos que durou aquela cena pareceu-me uma eternidade… Dois Psicólogos não tiveram êxito em acalmar aquele pai. Os pacientes circunstantes já estavam apreensivos com os seus gritos de revolta. Eu, ao lado da maca, permaneci calado enquanto ele destilava seu inconformismo, suas culpas, suas… Quando me deu uma chance, o convenci ir até ao consultório. Pedi-lhe que se sentasse, mas ele o recusou… Então, comecei assim:

– Saiba que entendo sua dor, que entendo seu desespero, que entendo seu desapontamento… Relevo as suas acusações; reconheço o caos da assistência pública; a indiferença com a qual se trata, não raramente, o problema de outrem. Tudo isto o sei e compreendo. Mas há o imponderável que você precisa entender. Em nenhuma escritura sagrada, em nenhum tratado de filosofia está escrito que você morreria antes que seu filho. Toda vida se completa, cedo ou tarde, quando atinge seu termo, que é a morte. Também é certo que não é preciso morrer para reverter-se ao pó, porque já somos pó. Seu filho, agora, é pó caído (cair é morrer), você, como eu, pó levantado (levantar-se é viver). Portando se prepara para enterrar seu filho, se não com resignação, ao menos com fé. Ele encarou-me longamente, atônito, e disse:

– Obrigado doutor…

Diante daquele fracasso, da vã ciência, voltei a meditar sobre o Sermão da Quarta-Feira de Cinzas, que o Padre Vieira pregou em Roma, na Igreja de S. Antonio dos Portugueses, em 1672… Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem revesteris. Se vivo sou pó e morto serei pó, que difere um pó do outro pó? O pó presente do pó futuro? O mundo, disse o clássico pregador, noutros termos, está repleto de pó, dá um pé-de-vento e o levanta. Levantado, com vento, o pó se agita, caminha, corre, sobe, desce… Não aquieta o pó, já vai adiante, a tudo envolvendo, a tudo penetrando… Acalma o vento: cai o pó. Ali onde caiu fica… O vento é a nossa vida: pó levantado; a ausência do vento é a morte: pó caído. Tudo pó: com veto nós, os vivos; sem vento eles, os mortos. Eis, concluí Vieira, a única diferença!

Esta medicina soberba da atualidade, que se presume invencível com sua sofisticadíssima técnica, mal ensinada, cria na mentalidade dos estudantes, dos residentes, dos próprios médicos, uma falsa concepção científica que prejudica o entendimento moral da finitude da vida. Não ignoro os progressos, nem os maldigo, apenas constato que a técnica sobrepondo-se ao humanismo gera tamanha distorção de entendimento, que corrobora a idéia do afastamento definitivo da morte, como o idealizou Saramago nAs Intermitências da Morte. É necessário, nessa sociedade fútil e arrogante, afastar a morte para bem longe… Já não se morre em casa; já não se enfrenta o processo de morte no seio da família, onde o ente querido era assistido até ao último suspiro… Tudo é frio… Tudo é frívolo… Restarão apenas o remorso e a culpa, que se dissipam em trabalhos de luto ridículos e em reações histéricas… A pergunta que mais se houve é aquela afronta:

– Por que ele (ou ela) meu Deus?

Como se Deus, senhor de tudo, que põe e dispõe, tivesse que dar explicação dos seus planos a um pobre mortal. Não, não dá, simplesmente convoca!  Para o vento e faz cair o pó!

Fernando Guedes

15/7/2011

 

nov 24, 2010 - Poligrafia    4 Comments

Como sempre…

Em agosto próximo passado a sociedade soteropolitana tomou conhecimento, pela mídia, de mais um episódio dessa nossa anárquica saúde pública… Uma criança de oitos anos fora levada do hospital São Jorge ao hospital Roberto Santos, pelo SAMU, para submeter-se a uma tomografia computadorizada do crânio. Feito o exame, este apontou grave hemorragia cerebral, fato que teria levado o médico transportador obter que a criança aí fosse atendida, por um neurocirurgião. Como a burocracia, nesses casos, sobrepõe-se ao socorro, quando se trata de pobre, aquela criança, que fora para fazer apenas uma tomografia, deveria tornar à unidade de origem, que não dispõe de neurocirurgião, para não tumultuar a organização da outra emergência, onde era um estorvo. O médico interveio e começou um ridículo episódio de agressões e desrespeito…

Reportagens dos jornais e uma carta publicada pelo médico na internet dão conta de atitudes que fazem corar o mais bárbaro senso de civilidade. Não sou quem busca a culpa sem me importar com o dolo, e sei quem deliberadamente assume, há muitas décadas, esse risco… Não acho que a imputação de culpa às pediatras, citadas nas reportagens, resolveria o caso. Também, não conhecendo a versão da outra parte, não sei até onde, com culpa, se houve o médico transportador. Essas culpas, contudo, seriam apenas culpas e, a meu juízo, subsidiárias, razão pela qual não revelariam os verdadeiros responsáveis.

Às autoridades, que permitem esse caos que se apossou da saúde publica há longas décadas, imputo toda a responsabilidade. Às faculdades, igualmente, por formarem médicos sem nenhuma visão humanística. À própria classe médica, também, por fingir não ver o que está diante dos seus próprios olhos há muito tempo. Estes são os verdadeiros responsáveis, por assumirem o rico deliberadamente da omissão de socorro.

Sabem como tudo isto principia? Ah! Não sabem? Eu posso lhe dizer um resumo… O acadêmico de medicina da atualidade, esse jovem voluntarioso e educado em regime de nenhum controle, com todas as regalias do conforto, que se embriaga até ao coma nas chopadas da turma, chega, por volta do quinto ano, a um pronto-socorro público para um estágio curricular em emergência médica (qualificado de internato), através de acordo entre Secretaria de Saúde (estadual ou municipal) e a Faculdade, que não envia preceptor (professor universitário) para acompanhar e instruir o aluno…  Este, depois de uma conversa com chefe de plantão, é distribuído para um dos setores do hospital, como mão-de-obra barata, e começa a trabalhar orientado por plantonista, que devia aí exercer regularmente a medicina, mas se extrapola para o exercício ilegal do magistério. Como a medicina é uma técnica, malgrado a pedagogia precária, aprende o que lhe ensina, e o toma como doutrina. Decora, na ponta da língua, consensos e protocolos. Aprende manejar aparelhos; absorve as regras do Advanced Trauma Life Support, com invejável proficiência. Instrui-se, com esmero, na arte dos “esquemas”, isto é: a técnica de desfalcar a equipe fingindo completude. Pergunta-lhe, a esse futuro “especialista”, qual é a diferença entre Ética e Moral, que difere uma norma Deontológica de uma Teleológica, qual a diferença entre a obrigação moral e a social, e se deparará com as duas vítimas desse horroroso contexto: vitima o paciente, porque ludibriada na sua confiança; vitima o estudante, porque ludibriado na sua formação. Alienado completamente das humanidades, segue esse presunçoso futuro “especialista” seu conturbado itinerário…

Tudo isto é sabido, de todos… Tudo isto é consentido, por todos! Antes da colação do grau, em que repete, sem nenhuma convicção, apenas para cumprimento de uma formalidade démodé, uma súmula ridícula do juramento hipocrático, a chopada final, uma espécie de confraternização iconoclasta antes de iniciar a vida profissional assentada sobre nenhuma deontologia. Eis o médico da atualidade: sobre uma riqueza de informações técnicas, uma pobreza humanística!

Não tarda muito, inserido num anárquico mercado de trabalho, onde a terceirização é a regra, com salários ordinários, ei-lo plantonista, contratado pelo REDA ou por uma Cooperativa (médicos explorando o trabalho de médicos), na mesma emergência, que o instruiu. Ali mesmo aprendera uma série de pressupostos, e logo, garboso, com o título Dr. bordado na algibeira  do jaleco, estetoscópio ao pescoço, os coloca em prática: “esta emergência é apenas para tiro e facada” (a cultura hegemônica do sangue!); “este hospital é referência  somente para trauma”; “apendicite é urgência e não emergência”, que pode ficar agudando a peritonite se generalizar, enquanto a regulação não opera a transferência para outra unidade; “fratura fechada, nem falar… nunca foi prioridade”; criança de 12 anos e 1 mês não é com a pediatria (o critério é o tamanho do leito); triagem pode ser feita sem o exame do paciente, que não precisa ser registrado no hospital, para facilitar o processo e não tumultuar o plantão; prontuário incompleto, sem as informações necessárias, sempre foi a regra. Tudo isto induzido e deduzido por médico! Mas, culpá-lo, somente a ele, por estado de coisas, seria o mesmo que culpar as árvores pelo incêndio na floresta. As árvores, que alimentam o incêndio, não o casam…

Os verdadeiros responsáveis pela precária assistência dispensada à criança, que fora declarada morta na terceira emergência (de sua trágica peregrinação), que o coma poupou de cenas estúpidas, jamais serão alcançados na sua responsabilidade. Eles não se mostram; não se vestem em branco; não penduram estetoscópio no pescoço. Estão escondidos nos palácios, nos luxuosos gabinetes, nas diretorias, nas gerências, nas reitorias, nas congregações. Com o jarro e a bacia sempre à sua disposição… E nunca se constrangem em lavar as mãos, como reiteradamente têm feito, em face do sofrimento alheio.

Os jornais noticiaram que o Conselho Regional de Medicina e o Ministério Público abriram sindicância para investir o ocorrido. Não sei se já chegaram a uma conclusão, só sei que nenhuma intimação chegará aos verdadeiros responsáveis, como sempre…

Fernando Guedes

24/11/2010