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jul 26, 2011 - Riacho de Santana    3 Comments

Carvão…

 

Pois é exatamente disso que trata essa última versão da ecologia, em que se presume que o antigo “contrato social” dos pensadores políticos dê lugar a um “contrato natural” no qual o universo inteiro se tornaria sujeito de direito: não mais o homem, considerado o centro do mundo e precisando antes de mais nada ser protegido de si mesmo, mas o cosmos em si é que deve ser defendido dos homens.

Luc Ferry, in A Nova Ordem Ecológica

 

Em julho de 2000, portanto há mais de uma década, no artigo Carvão: Prosperidade ou Inconsciência Ecológica, que está publicado aqui mesmo, neste Blog, denunciei produção ilegal de carvão vegetal no município de Riacho de Santana. Nenhuma providência visando à proibição desse nefasto negócio, com a conseqüente punição dos envolvidos, foi tomada, deixando prosperar o crime com eficácia…

Permita-me, prezado leitor, um parêntese de ordem técnica: para se produzir o aço, para as diversas utilidades industriais, o minério de ferro, estado que esse metal é extraído da natureza, deve ser convertido em ferro-gusa, pela oxirredução com carbono. A fonte de carbono é, no caso que estou tratando, o carvão vegetal. Em última análise, o produto final é uma liga de ferro e carbono, onde este elemento colabora apenas 4% a 4,5%. Essa pequena proporção é a responsável, nesse processo industrial arcaico, pelo negócio do carvão ilegal, que vem talando, há décadas, a caatinga e o cerrado.

É fácil perceber, em Riacho, que são os responsáveis por esquema que garante a siderúrgicas irresponsáveis a cota de carbono, com a qual faz a prosperidade dos industriais. Desse rol não escapam as autoridades locais. Todos, de cabo a rabo, envolvidos, direta ou indiretamente, neste crime contra o meio ambiente, portanto contra a sociedade. Para minha tristeza até parentes e amigos meus pelo meio…

O argumento é o mais sínico que existe: “se parar com o negócio do carvão muita gente passará fome!” Aí, seguindo essa lógica ridícula, “prospera” meia dúzia de espertos, gente sem nenhum escrúpulo moral, acostumada com o erro e com corrupção, que facilmente recruta, na camada social mais carente, a sua mão-de-obra, para derrubar a mata subsistente, queimá-la e ensacar seu produto…

Entrementes, no escritório da cabeça, manipula-se a ATPF (cotada, segundo matéria  dA Tarde, a R$ 1.000,00), num processo intricado pelo envolvimento de numerosos segmentos de interesse: prepostos das siderúrgicas, agentes do IBAMA, da Secretaria de Meio Ambiente, Policia Rodoviária, espias e gerentes de desvios etc. Uma frota de caminhões, de diversos proprietários, está à disposição do negócio, por fretamento. O sistema criminoso se conclui com a sonegação fiscal.

Há, em Riacho, toda a sociedade o sabe, vários fornecedores dessas ATPF falsificadas. Pessoas há, sem possuir um metro quadrado de mata, que as fornecem, como se fornece qualquer artigo de fácil produção.

Na sexta-feira, 22, uma grande operação policial, denominada Corcel Negro II, por alusão ao negrume do carvão, chegou a Riacho de Santana e executou alguns mandados de prisão e de busca e apreensão. Numa ação conjunta entre IBAMA, Ministério Público, Secretaria de Fazenda, Polícia Rodoviária Federal, Polícias Militar e Civil, e Secretaria de Meio Ambiente a cadeia produtiva do carvão ilegal oriundo dos biomas caatinga e cerrado, na Bahia e Minas Gerais, sofreu um golpe certeiro, que poderá colocá-la por terra, se as autoridades não afrouxarem a vigilância. Em Riacho, parte dos implicados nesse negócio não foi atingida e continua traficando o produto na calada da noite.

Segundo as investigações realizadas pelos agentes da operação, a produção ilegal de carvão no norte de Minas Gerais e oeste da Bahia é sustentada pelo comércio de créditos fictícios de carbono gerados em outros estados e destinados a fabricação de parte do ferro-gusa produzido por siderúrgicas em Minas Gerais. Essas siderúrgicas participam ativamente desse processo, recebendo carvão retirado da natureza com documentação fraudada por empresas fantasmas e transportados por caminhoneiros cúmplices.

O esquema criminoso, revelou a operação, é constituído de várias células, espalhados por vários estados, que simulam, no papel, a produção de carvão vegetal com resíduos de serrarias. Em vez disto, o produz queimando criminosamente a mata subsistente do cerrado e da caatinga. A quadrilha completa sua ação criminosa com a comercialização de créditos fictícios de carbono, a partir de planos de manejo autorizados de forma fraudulenta pelos órgãos estaduais de meio ambiente, contando com a interferência política de deputados que ajudaram eleger.

Impressionam os números desse nojento esquema… O monitoramento do sistema de controle de Documento de Origem Florestal (DOF) mostrou, diz o IBAMA, “cerca de 8 mil viagens de caminhões transportando carvão extraídos ilegalmente da caatinga e do cerrado, o que representa pouco mais de meio milhão de metros de carvão, ou seja, cerca de 19 mil hectares de vegetação nativa desmatados sem autorização”! O resultado disso, além da devastação de biomas sensíveis, são os sinais exteriores da riqueza fácil, dos integrantes dessa gangue, cujo patrimônio não encontra, no Imposto de Renda, nenhuma justificativa. Isto será facilmente verificado!

Os integrantes e o mecanismo de ação da quadrilha foram revelados… O que resta será esclarecido com a perícia do material criminoso apreendido e com o depoimento de testemunhas. A quebra dos sigilos bancário e fiscal revelará o tamanho da sonegação fiscal cometida pelos criminosos…

Isto nada tem a ver com produção legal e sustentável de carvão vegetal, a partir de áreas de reflorestamento, para a indústria siderúrgica. Nada! O que acontece é que o negócio legal implica investimentos e o lucro não é imediato, como o do negócio ilegal, que não reclama grandes investimentos, porque da matéria prima cuidou a natureza. Espera-se, agora, que essa atividade ilegal seja definitivamente interrompida.

 

 

Fernando Guedes

25/7/2011

 

abr 11, 2011 - Médicos    4 Comments

Reflexão sobre a tragédia de Realengo…

“Em pessoas como Petrov o juízo só impera enquanto não chega uma tentação, pois, quando esta surje, não há obstáculo que interrompa sua força”.

Fiódor Dostoievski

Recordação da Casa dos Mortos


“Existe, por exemplo, um tipo de criminoso que é até freqüentemente: aquele homem que vive em paz com todos, aceitando seu destino com paciência. Mas algo inesperado acontece, algo dentro dele se perturba, e ele, subitamente, mata um inimigo ou opressor. É quando esse homem destrambelha de vez.”

Fiódor Dostoievski

Recordação da Casa dos Mortos

 

Uma perturbação qualquer, dos sentidos ou da inteligência, deve existir na grande maioria dos delinqüentes no momento de cometer o crime.

José Igenieros

 

 

Os brasileiros somos, sem nenhuma dúvida, uma nacionalidade ufanista: nosso céu tem mais estrelas, nossos bosques têm mais flores, nossa vida mais amores e até os nossos loucos  têm mais juízo… Seria de se esperar, como esperam os incautos, que aqui, neste paraíso abençoado por Deus, nada de ruim viesse acontecer. Até que, como o raio que cai em tarde de verão, fulminado o que encontra na sua trajetória errática, abate-se-lhe, de quando em quando, uma tragédia… Colhendo-os na imprevidência do comportamento, no lapso de sua curta memória, deixa-os embasbacados: como pôde isto acontecer? Simplesmente acontecendo, uma após outra, já esquecida a passada…

Nos últimos dias tive que ouvir os mais disparatados juízos sobre a tragédia de Realengo… Nunca vi, reunidas, tantas besteiras, tantas imposturas, tantas opiniões contraditórias, tanta exploração política, tanta hipocrisia, suscitadas por um fato lamentável, que não passa de um sintoma claríssimo de avariose psicossocial.

Não sendo alienista, com que base emitiria a minha opinião? Relendo a introdução que Dr. Augusto Costa Conceição escreveu para a edição de 2008 de Paranóia, de Afrânio Peixoto, encontrei o meu roteiro… Disse o eminente psiquiatra: Talvez, da mesma forma que Ana Maria Machado sugere a leitura em voz alta de Guimarães Rosa, devêssemos propor a leitura de Paranóia em voz alta e em audiência pública. Substituirei essa leitura pela transcrição de segmentos da obra, para que sejam lidos e assimilados pelos que, como eu, imbuídos de bons propósitos, desejam opinar com acerto.

Creio que ao autor da tragédia de Realengo não fizeram, em vida, o correto diagnóstico. Não será possível, na morte, fazê-lo jamais. Tudo o que se disser serão apenas ilações, suposições aproximadas, que não desvendarão a natureza do seu transtorno mental. Ao contrário das patologias orgânicas, cujos sinais sobrevivem à morte, podendo ser revelados pela necropsia com exatidão, as patologias do espírito morrem definitivamente com a morte do corpo. Não há como se fazer o diagnóstico no cadáver, se ele não foi, em vida, feito.

Agora, nesse tumulto induzido pelas luzes da mídia sensacionalista, será “um verdadeiro estado de Babel ou confusão psiquiátrica, em que a gente se arrisca, no fim, a não sair à luz com uma idéia definida”. Esquizofrenia paranóide ou simplesmente Paranóia (Transtorno delirante)? Louco criminoso ou criminoso louco? Que diferença faz agora? Alguns positivistas radicais quererão, inutilmente, saber… Será indiferente.

“A humanidade foi a mesma e a mesma seria, se a vida mesológica – física e civil – nos não viesse deformando, alterando, adaptando ao ambiente do mundo. Cada criança que nasce é socialmente comparável ao primeiro homem; o Eu lhe vem hipertrofiado, e a julgar pela ampliação possível, sem as restrições modificadoras, cada uma seria comparável a um louco ou a um criminoso; é a educação, a disciplina, a cultura, que as submetem, modificam, adaptam, dando-lhes por fim essa identidade ética que é apenas o aspecto moral daquela identidade social, de que fala TARDE”. Neste passo, o mestre baiano foi lapidar, colocando por terra a quimérica presunção de Rousseau: o homem naturalmente bom. Numa entrevista, totalmente transtornado pela emoção, o governador do Rio qualificou o autor de “animal”. Sim, animal como todos nós, inclusive nas animalescas atitudes, quando a civilização e a educação não cumprem o seu dever de corrigir o animal que há em todos nós.

“O altruísmo não é uma aquisição definida e já somática: é apenas uma espécie de contrato a que nos submetemos tacitamente ao partilhar a vida social, que nos impõem; e não serão raras as infrações do pacto”. Como vemos, na atualidade, amiúde, o rompimento unilateral desse contrato…

“No paranóico houve apenas a persistência desse originário modo de ser, por deficiência de educação, de treinamento, de cultura…; o subjetivismo primitivo cresceu com o indivíduo, vive com ele e é a seu través que ele julga o mundo exterior. Nós também o julgamos, mas nós somos como as lentes, corrigidas das aberrações; eles não, não têm correção alguma, e eram, e crescem, e ficam vendo, pois, tudo diferente. O mundo não se adapta a nós, porque nós bem podemos ver que esta adaptação não é possível: conformamo-nos e nos adaptamos a ele; o paranóico não pode ver assim: o mundo não se adapta a ele, porque o mundo está errado, e tenta corrigir, isto é, adaptar tudo à sua vontade, porque jamais pode pensar em si para o mundo, mas no mundo para si”. Se o diagnóstico, do autor da tragédia de Realengo, era ou não Paranóia, aqui não importa; o que importa, aqui, é a perfeição com que o mestre baiano, carioca adotivo como Francisco de Castro, Barata Ribeiro, Bonifácio de Abreu, Monteiro Caminhoá, Pedro Severiano Magalhães, Clementino Fraga etc., fixou o clássico conceito dessa inadaptação às circunstâncias, decorrente da perturbação mental. O homem é o que é e suas circunstâncias (ORTEGA Y GASSET). Circunstâncias: todo o conjunto mesológico que o rodeia, que o influencia, que o determina… Assim, considerar apenas o homem alienado de suas circunstâncias é entendê-lo pela metade, ou mesmo não entendê-lo de forma alguma. Será que indivíduo que delinqüiu em Realengo foi alguma vez, na infância, na adolescência, na vida adulta, observado, considerado em face de suas circunstâncias? Certamente não!

E vai adiante, nas suas lúcidas considerações: “o fato é que, com eles (com esses doentes mentais) nos encontramos freqüentemente, dos casos frustos àqueles ainda equilibrados que são chamados de excêntricos, vaidosos, originais” e eu acrescento estranhos, calados, tímidos etc., que se fossem cuidadosamente observados, tratados tempestivamente, certamente não chegariam a estágios tão degenerados da função mental, que os impulsionam, não raramente, para a completa perda da ração, com que praticam essas tragédias que a mim não me causam surpresa nenhuma.

Alias, não sei por elas tardam tanto em acontecer, dada ignorância e irreposnabilidade com que a saúde mental vem sendo conduzida há muito tempo neste País. Cabe aqui, como uma luva em mão certa, este outro passo: “Roto o equilíbrio, a vida do paranóico é esta eterna luta de ação e reação incessantes, que o transformam no mais incômodo e mais perigoso dos insanos. Numa faina irrequieta, falando, movendo-se, escrevendo, argumentando, ou concentrado, remoendo pensamentos, criando e rebatendo objeções, sempre preso nas malhas de uma oposição a tudo e a todos, porque tudo lhe é hostil, é verdadeiramente surpreendente como atravessam anos e anos sem considerável depauperamento da inteligência”. Talvez aqui, quem sabe, não seja assim apenas ufanismo que os nossos loucos tenham mais juízo…

“De sorte, se a reação não vem imediata, eles procuram um abrigo mais seguro; por isto, não podem ficar parados em lugar nenhum, são andarilhos; quando não podem mudar de terra, mudam de bairro, mudam de casa, mudam de quarto, mudam de hábitos”, até quando “uma motivação explícita, sua idéia contrariada e tornada fixa, promove e instala definitivamente a perseguição com todo o seu cortejo de circunstâncias agravantes, endógenas e exógenas, de alucinações e falsas interpretações, – rebatida na suposta agressão, promovida na desforra correlata, num ciclo vicioso eterno. Nesse caminho nem mesmo carece, mais adiante, de quem lhe sirva de oponente: o Eu paranóico, desequilibrado, se basta; vive numa ruminação continua: é um longo diálogo em que há um interlocutor silencioso, que opõe dúvidas e restrições débeis, e o doente propriamente, que fala às vezes alto, imperativamente, rebatendo com vantagem as dúvidas auto-sugeridas.”

Ignorada, desdenhada, não atalhada, a doença segue seu curso natural até ao fim, com a reação contra o meio (circunstâncias): “Início das perturbações aparentes. Perseguição ativa ou passiva, ou ativa e passiva, mais comumente.” Daqui, penso, não há volta, diga-o Realengo.

Se não foram capazes de observar isto antes (entendo todas as dificuldades) e não são capazes de entender agora, é preciso dizer besteiras ao povo: atentado terrorista; conluio com grupo fundamentalista, obsessão religiosa; comércio legal de armas, tráfico de armas etc. etc. Pequices de políticos irresponsáveis e de irresponsáveis (de todas as classes) “politicamente corretos”. Um doente mental, que devia estar submetido a tratamento, sob observação médica, estava, no seu desvario, sem nenhum controle, ruminando sua atroz vingança. Executou-a disparando a esmo contra aqueles “temíveis adversários” (pobres crianças indefesas) engendrados por sua mente doentia. Cumpria executá-la e a executou, sob meticuloso planejamento próprio. Como as autoridades não têm o que dizer, na ausência de um culpado mais convincente, culpam as armas, pouco importando o estado mental que põe em ação do dedo que puxa o gatilho.

 

Fernando Guedes

11/4/2011

 

mar 30, 2010 - Poligrafia    No Comments

Isabellas…

Falemos de Justiça – em frente à Mortandade!

Falemos do Direito – ao gládio que reluz!

Se eles dizem – Rancor, dizei – Fraternidade!

Se erguem a meia lua, erguemos nós a Cruz!

Castro Alves

Assisti, pela televisão, de canal em canal, ao final do julgamento dos réus pronunciados como assassinos de Isabella Nardoni… Antes, interessei-me em acompanhar o que era publicado sobre o processo, notadamente as perícias médico-legal e criminalística, que não foram, a meu desinteressado juízo, categóricas em apontar a autoria. Apontou-a, de forma circunstancial.

Depois, do julgamento, o que se publicou sobre o seu final. Quando o juiz leu a sentença condenatória, ouvida através de alto-falante, a massa, que se postava em frente ao Fórum, delirou, numa manifestação tão insólita, que mais parecia um clamor por vingança. Não era a manifestação de quem, civilizadamente, clama por justiça. Não sou quem busca a aproximação, a quadra é que a ela me conduz: refletir sobre outro julgamento ocorrido há mais de dois mil anos e, sem nenhuma intenção de comparar os réus, que não cabe, lembrei-me da atitude da massa que se postava em frente ao Pretório de Pilatos… O “crucifica-o” de outrora, embora inocente o réu, é a mesma coisa do “apodreçam na prisão”, malgrado a culpa os réus!

Um crime bárbaro fora cometido… O pai e a madrasta da vítima foram pronunciados, portanto autores do homicídio. Sem testemunhas, que são os olhos e os ouvidos da justiça humana (BENTHAM), valeu-se o juiz das chamadas provas técnicas evidenciadas pelas perícias, para mandá-los ao Tribunal do Júri, onde o que se julga é o homem, muito mais do que o crime (LINS E SILVA).

Evidente, por todas as circunstâncias, não propriamente as do crime, mas as engendradas pela mídia, que os réus seriam condenados, como o foram. Cumprirão, agora, suas penas, dentro do regime penal que a lei determina…

A sociedade, essa mesma que agrediu o advogado de defesa dos réus, continuará a mesma, na sua estupidez, na sua incivilidade, e não tardará em esquecer a infeliz vítima. Tem sido assim, em face do seu crônico distúrbio de memória cívica, próprio da estupidez. Ficará, para as mentes civilizadas, o símbolo no qual se transformou Isabella Nardoni, de tantas outras Isabelas, vítimas de tantas outras formas de violências, igualmente cruéis.

Como a aproximação me persegue! Enquanto escrevo estas linhas a televisão noticia que Maiara, 8 anos, de Imperatriz, no Maranhão, onde, segundo o Padre Vieira, até o céu mente, morreu numa maca, no corredor do hospital, por falta de vaga na UTI que poderia lhe salvar a vida. Onde a sociedade vingadora, que não protestou? É que Maiara era uma dessas pobres Isabelas que não atraem, para o seu drama, os holofotes da hipócrita “opinião pública”. Em favor de Isabela dessa categoria não se mobilizarão autores globais, repórteres sensacionalistas, programas deseducativos, a mídia… Certa vez, no Hospital Geral do Estado, em Salvador, no plantão de sábado, uma mãe aflita trazia sua filha de 4 anos, que sangrava muito pela vagina. O pediatra, que a examinou, constatou uma grave laceração, cuja causa viria a ser esclarecida: a menina fora estuprada pelo seu padrasto. O caso não mereceu nenhuma divulgação, o estupro de uma criança de quatro anos não excitou a opinião pública, não a comoveu. Foi apenas o estupro de mais uma pobre Isabella…

O que causa espécie, em torno do caso Isabella Nardoni, é a opinião de pessoas esclarecidas, clamando pela prisão perpétua ou pela pena de morte, como remédio para a grave doença moral que acomete essa nossa estúpida sociedade atual. Deixar apodrecer na prisão ou matar quem matou, imaginem, é tudo o que alcança o raciocínio dos nossos esclarecidos! Não… De onde a civilidade ainda não se ausentou, trata-se essa doença com outros os remédios, porque não se elimina o mal com o ódio ou com a crueldade ou com o sentimento de vingança (LINS E SILVA).

Ainda não ouvi, entre todos os pareceres verbalizados na mídia, pelos especialistas de ocasião, uma análise, simples que fosse, sobre aquele núcleo familiar: Um pai, uma mãe, uma madrasta e três filhos menores. Conviviam sob quais regras morais? Como era essa relação? Onde, nela, entravam o ciúme, a paixão e a intemperança? Como, nas suas interações humanas, se praticavam a tolerância, o humor, a doçura, a humildade, a gratidão, a misericórdia, a generosidade e a prudência? Que literatura despertou-os para a leitura? A que programas e filmes assistiam? Ninguém o sabe; ninguém o quis saber…

Se aquele pai assistiu, sem reagir, à madrasta estrangular sua filha e, depois, arquitetou a dissimulação dessa crueldade, defenestrando a menina, ainda viva, certamente não estamos diante de criminoso de ocasião. Não, mil vezes não! Digam o que quiserem os psiquiatras, opinem como quiserem os psicólogos, será, para mim, irrelevante, porque tenho a inabalável convicção que o que dessa realidade a minha pupila vê é um doente mental, ou sócio-mental, desventurado, que somente compaixão pode lhe estender a mão.

Tenho, para mim, que as últimas palavras de Isabella, na sua cruz pregada, se seu pai foi o algoz, foram aquelas que Lucas nos transmitiu: Pai, perdoa-lhe, porque não sabe o que faz!

Fernando Guedes

29/03/2010