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maio 27, 2013 - Poligrafia    1 Comment

País sem jeito!

Tempos difíceis os que vivemos, onde não podemos nem falar nem calar com segurança. (Luis Vives, 1534) 

Os que sabem dar a verdade à sua pátria não a adulam, não a iludem, não lhe dizem que é grande, porque tomou Calicute; dizem-lhe que é pequena porque não tem escolas. Gritam-lhe sem cessar a verdade rude e brutal. Gritam-lhe: Tu és pobre, trabalha! Tu és ignorante, estuda! (Eça de Queirós)

 

Os cientistas políticos dizem, teorizando, que temos três poderes: executivo, legislativo e judiciário. Que eles são harmônicos e independentes, como pensaram Kant e Montesquieu… O princípio da divisão dos poderes, entretanto, tanto na teoria de Kant quanto na de Montesquieu, é inútil para se compreender o funcionamento prático do nosso sistema de governo, não passando de mera ficção política; um faz de conta. Não há aqui senão dois poderes: executivo-legislativo, propriamente o governo, estranho híbrido engendrado por nossa malandram republicana, e o judiciário, cuja cúpula é nomeada pelo outro. Somos, verdade seja dita, uma república imperfeita, que vive estagnada no seu interminável mau começo… Obra inacabada a espera do meio e do fim.

Não é propriamente a coalizão característica das repúblicas parlamentarista, é a cooptação do legislativo pelo executivo, em troca da liberação de emendas parlamentares e de nomeações para os escalões da burocracia estatal. O judiciário, não obstante sua cúpula ser nomeada pelo executivo-legislativo, às vezes tenta alçar o voo da independência, mas sempre termina de asas aparadas, por sua própria tesoura…

Uma comunicação de 13/05/2013 dava conta que havia, ao largo do porto de Paranaguá, 94 navios esperando oportunidade de atracação, para descarga e carga de mercadorias. Muitos de âncora ao mar desde 06/03/2013… A China cancelou uma compra de 2 milhões de toneladas de nossa soja em razão de atrasos nos embarques portuários, que estão entre os piores do mundo. Num ranking com 144 países, feito pelo Fórum Econômico Mundial, o Brasil ocupa a 135ª posição no item qualidade de portos. Portos mais caros e mais ineficientes do que os de países concorrentes. Operar no porto de Suape, em Pernambuco, custa cinco vezes mais do que no Cartagena, na Colômbia, é o juízo dos especialistas.

Isto bastaria para que a Medida Provisória dos Portos merecesse o consenso da câmara dos deputados, para tirar o Brasil dessa situação absurdamente humilhante, que o torna incapaz de competir no comércio internacional. Não foi assim… Assistimos a um deprimente espetáculo de agressões mútuas, com denúncias gravíssimas, entre deputados da própria base de sustentação governamental, a ponto de o presidente ter que encerrar a seção, sem concluir a votação, para poupar a nação de outros vexames… No outro dia, quando se esperava que a votação fosse concluída, os deputados se reuniram para homenagear o reggae! A presidente acionou o mecanismo de pressão que tem em mãos, ameaçou, exigiu e, enfim, a MP foi aprovada, depois outras agressões mútuas, já na última hora. Ao senado, que há muito deixou de ser a casa da revisão legislativa, da prudência política, não sobrou tempo senão para homologar o que a outra casa havia produzido. Eis o retrato, de corpo inteiro, do nosso executivo-legislativo.

O presidente do outro poder, trocando a toga judicial pela de cientista político, ousou dizer a acadêmicos uma verdade: “o legislativo é ineficiente e inteiramente dominado pelo executivo”, porque temos “partidos políticos de mentirinha”. Por dizê-la, logo recebeu a contradita de senadores e deputados, que se sentiram ofendidos… Mas, como de prática, a tesoura do próprio STF, que referi atrás, cortou-lhe a asa em pleno voo: “não houve a intenção de criticar ou emitir juízo de valor a respeito da atuação do Legislativo e de seus atuais integrantes”, disse a nota da assessoria de imprensa do STF. Bem, juiz, da primeira à última instância, é especialista em interpretar… Tira da lei, muita vez, conclusão que o espírito dela rejeita… Faça a nação, das frases do ministro, a interpretação teleológica que lhe convier… Afinal, o utilitarismo tem sido seu código de conduta.

O Estadão (de 20/5) publicou, na página Política, a matéria Supremo paga voos para mulheres de ministros e viagens no período de férias. O balanço dessas despesas, segundo os jornalistas que a subscrevem, dá que em 4 anos R$ 2,2 milhões foram gastos com passagens de viagens internacionais, dos quais R$ 608 mil com passagens para esposas dos ministros. Acho que excelentíssimos viajantes deram, hermeneutas que são, ao extravagante gasto, uma interpretação conforme a constituição matrimonial…

Ah! Já ia me esquecendo… Fui cumprir um mandado de Hilca na Rua Alceu Amoroso Lima, tendo que trafegar pela Tancredo Neves… Uma tortura! Estacionei o carro e, ao sair dele, a senhora que administra o estacionamento rotativo, da Transalvador, aproximou-se e me disse: “É seis reais o sinhor qué a cartela ou mi dá pur fora, ai pode ficar o tempo qui quisé.” A senhora é uma ótima negociante, elogiei-a… Fatura muito, por fora? “Da pra tirá um dinerinho”, respondeu-me. Bem, eu prefiro comprar a cartela…

Brasil, gigante que não se levanta do berço esplêndido… De antinomias mil! República presidencial maluca, que concentra na mão do executivo, cujo presidente é um monarca absoluto por oito anos, poderes que nenhuma nação civilizada concentraria. País sem jeito!

Fernando Guedes
22/5/2013
maio 24, 2013 - Poligrafia    No Comments

Se for para servir, sejam bem-vindos!

 
O que mudou é a definição do que constitui um ”bom médico”. (Wiliam Bynum)
 
A medicina não é uma ciência, mas uma profissão que compreende tanto o aprendizado da ciência médica como atributos pessoais, humanísticos e profissionais. (J. Claude Bennett)

 Conheça a fundo a biologia normal e patológica – será um grande médico; apure ao extremo a utilização desses conhecimentos junto ao doente, acertando-lhes com a doença, mitigando-lhe as dores, dando-lhe a cura – será um grande clínico. (Miguel Couto)

 

O governo, isto é: o executivo-legislativo, que sempre faz tarde e mal as coisas, está disposto a importar profissionais para suprir a ausência de médicos em 397 municípios… Não tardou a reação das chamadas entidades médicas, de defesa da classe, que se declaram contrárias ao exercício da medicina por esses profissionais.

A alegação, absurda, é que tais médicos não têm competência, para cuidar da saúde dos brasileiros. É o ufanismo de sempre: nossos bosques têm mais flores, nossas vidas mais amores; nosso céu mais estrelas, nossos médicos mais competência e por aí vai…

Quem escreve estas linhas, caro leitor, é um médico com 35 anos de profissão, ainda dando plantão na emergência do hospital geral do Estado, aos sábados, o que ostento como um título, que outorguei a mim mesmo. Sei, portanto, ex cathedra, o que sofrem os pacientes que necessitam de serviço público! Não cabem, nesta página, as histórias que guardo na memória da lembrança…

Tenho visto, lá no hospital em que trabalho, o passar das turmas de acadêmicos, do quinto e sexto anos, para estágio em emergência. Nunca vi um professor acompanhando-os. São precariamente orientados pelos plantonistas, que ali estão para atender e não para ensinar. O médico não admite que outro profissional exerça a medicina, argüindo o exercício ilegal dela (não é a razão da tão propalada lei do ato médico?). Mas fecham-se os olhos, numa cumplicidade utilitária, ao exercício ilegal do magistério.

Evidente que a importação de médico, para além de ser uma vergonha, é uma medida precária, que não atinge a causa do problema. Será a dipirona para a febre que infecção crônica da incompetência governamental, que exaure o organismo estatal há décadas sem fim… Se houvesse honestidade de propósitos, se houvesse vontade terapêutica para debelar esse mal crônico, governo, entidades médicas e médicos, principalmente estes, lutariam pela terapêutica eficaz: a medicatura pública e a medicatura rural.

Coisa estranha? Explico, o exercício da medicina se daria de dois modos: a) privado, como uma profissão liberal, da forma quer o médico entendesse de praticá-la: em consultório, clínica ou hospital.  b) pública, através da medicatura pública, complementada com a medicatura rural. A exemplo da magistratura, o médico prestaria concurso pra integrar a medicatura e trabalhar em regime de tempo integral e dedicação exclusiva, em troca de salário digno e plano de carreira (como juízes, promotores etc.).

O sistema seria complementado com a medicatura rural, assim definido: o médico formado por Universidade pública seria obrigado a trabalhar na medicatura rural, por 2 anos, onde o Estado necessitar dos seus serviços (não é assim com o serviço militar?), em troca do piso salarial a medicatura pública. Vencido o período, estaria livre para ingressar na atividade privada ou fazer para a medicatura pública.

Evidente que não verei esse sistema implantado, porque, se não bastasse a indiferença que a ele devota o governo, não desperta a simpatia da classe médica, afinal mais conveniente o “esquema”, isto é: valorizar o salário trabalhando menos.

Eis o panorama: o vestibular (ou essa outra coisa que anda envolvida em fraudes) ou quota, depois as disciplinas básicas; já a especialização precoce, a chopada da turma, que aqui e ali termina em coma alcoólico; a opera bufa da formatura (apitos, gaitas, buzinas… ninguém sabe mais dançar valsa!); o registro no CRM (a autorização para exercer a medicina)… Como o curso de seis anos pouco ou nada ensina: a residência médica, para aprender o que faltou. Plantões, cooperativas… atrasa aqui, atrasa ali e, assim, vai-se tocando a vida profissional, na capital ou grandes centros urbanos. Trabalho no interior? Longe disso, afinal “quem faz carreira no mato é veado” (foi o que já ouvi de um recém-formado).

Bem, como o problema é, em princípio, de distribuição, porque nunca houve uma política eficaz de fixação do médico no interior (aliás, a má distribuição, nesta nacionalidade, não é só de médicos), ocorre ao governo importar médicos de Cuba, de Poutugal, de Espanha etc., para servirem no interior do país. Se isso ocorrer, que mal fará ao sofrido povo interiorano? Francamente, nenhum! Mas algo ocorrerá, com certeza: esse povo não quererá perder seu médico! Cubano, espanhol ou português, não importa, porque o que lhe interessa, a esse povo, é ter um médico que lhe dê atenção, ao seu sofrimento. O competente e presunçoso médico brasileiro, que ignora a dimensão humanística da profissão que exerce, para que lhe tem servido? De mim, prefiro o curandeiro atencioso ao médico pretensioso, essa figura presunçosa que prescreve droga que pouco conhece, para tratar doença que conhece menos ainda, a pessoa que desconhece totalmente (Voltaire). Não basta ser um grande médico, há que ser, também, para ser útil, um grande clínico. Que venham, pois, os estrangeiros… Se for para servir, sejam bem-vindos!

Fernando Guedes
23/5/2013
maio 21, 2013 - Poligrafia    1 Comment

Duas Éticas…

Falando sério: os padrões de “bondade” geralmente reconhecidos pela opinião pública não são calculados de modo a tornar o mundo mais feliz. (Bertrand Russell)

 

Os telejornais divulgaram hoje o boato que a bolsa família acabaria, causando, entre os beneficiários da esmola, o pânico, de ter que ganhar o sustento trabalhando. As imagens mostradas pela televisão, nas filas dos bancos, das lotéricas, não eram de pessoas inválidas, descamisadas, subnutridas. Ao contrário, era de uma legião de capazes, bem vestidos, gordos, do assistencialismo viciados…

Logo veio a reação oficial… A Senhora Presidente, em comício (as inaugurações de obras nesta estúpida república é sempre oportunidade de comício), no Recife, antes de apurados os fatos, sentenciou: – É um crime, e colocou a polícia federal no encalço dos responsáveis pelo boato (que poderia ser uma boa notícia: “Brasileiros e brasileiras”, agora é a hora de trabalhar!). Uma ministra de Estado logo identificou a origem: a oposição! Que reagiu indignada, na voz de deputados e senadores, que se apressaram em desmentir sua culpa, mas sem deixar de defender o assistencialismo, para, como se diz na gíria, ficar bem na fotografia

Entrevistada, numa das filas, uma senhora, bem vestida, desenvolta, disse ao repórter: – Estou aqui com alguns cartões, para sacar o dinheiro, porque disseram que ia acabar… – Todos esses cartões são seus? Perguntou o entrevistador. Na reposta: – Não, são de pessoas que me pagam para receber, a definição da primeira ética: Utilitarismo.

As pessoas que pagam para receber, porque estão trabalhando, não devia receber, mas se acham no direito de haver, eis o egoísmo ético, o superlativo do utilitarismo.

Enquanto almoçava, em casa, minha empregada colocou-me a par da saúde de sua tia (paciente que atendi na emergência), que fora visitar no interior, no final de semana. Lá, na comunidade onde fora, estava ocorrendo o cadastramento da bolsa família… Alguém lhe sugeriu que fizesse o cadastramento para receber a bolsa, o que já havia feito alguns familiares seus. Ela, entretanto, repeliu a oferta com indignação: – Tenho meu salário, fruto do meu trabalho, e me recuso receber o que não tenho direito, porque não trabalhei para ganhar esse auxílio. Nesta resposta a definição da segunda ética: Deontologia.

Na primeira, o fim. É bom; é conveniente receber, ainda que não precise, sem trabalhar. Na segunda, o dever. O princípio: ainda que seja bom, que seja conveniente, não o quero, porque minha consciência o repele.

Na primeira, os “bons”, essa classe cujas opiniões e atividades agradam aos que exercem o poder. Na política, os “bons” têm suas utilidades, das quais a principal é formar uma cortina de fumaça atrás da qual os outros podem exercer sem suspeita as suas atividades.

Na segunda, os “maus”, a classe dos que não transigem com os princípios, cujas opiniões desagradam aos que exercem o poder. Esses não prosperam na política, porque sua ação, sendo chama, queima, cauteriza, não produz a fumaça enganadora, para ocultar suas intenções.

Na primeira, o mundo de Sancho, de Tartufo, de Gil Blas, os que vivem de expedientes, simulando, enganando… Crescem porque sabem adaptar-se à hipocrisia social, como as lombrigas ao intestino (Ingenieros).  Na segunda, o mundo de Quixote, de Cyrano, de Stockmann, os que vivem por ideal, dignos, solitários, sem exibir na anca qualquer marca de ferro. São como a rês rebelde que fuça os terrenos trevos da campina virgem, sem aceitar a fácil ração das manjedouras (Ingenieros). Preferem estar sós, enquanto são podem juntar-se com seus pares. Afinal, a flor englobada num ramalhete perde deu próprio perfume…

Nenhum Dante elevaria a Gil Blas, Sancho e Tartufo até ao rincão de seu paraíso onde mora Cyrano, Quixote e Stockmann. São dois mundos morais, duas raças, de temperamentos: sombras e homens. Sempre haverá evidente contraste entre o servilismo e a dignidade, a torpeza e o gênio, a hipocrisia e a virtude. Por isto, duas éticas…

 

Fernando Guedes

20/5/2013

maio 12, 2013 - Poligrafia    3 Comments

O jardim de minha mãe

 
De noite, alta noite, quando eu já dormia
Sonhando esses sonhos dos anjos dos céus,
Quem é que meus lábios dormentes roçava,
Qual anjo da guarda, qual sopro de Deus?
Casimiro de Abreu

 

“Aos oito dias do mês de setembro de mil novecentos e dezesseis nesta Villa do Riacho de Santa Anna, em meu cartório, compareceu o Sr. Major Antônio Pereira de Castro, residente nesta Villa, no lugar chamado São Felix, e declarou que no dia vinte e seis de junho deste corrente ano em casa de sua residência, às duas horas da manhã, nascera uma criança do sexo feminino, branca, que já está batizada e tem o nome de Guiomar, filha natural de Maria de Souza Filgueira,s do que para constar fiz este termo em que assino com o declarante e testemunhas. Eu, Osório Guimarães Silva, escrivão de Paz, o escrevi e assino”.  É o que consta no Livro dos termos do Registro Civil de Riacho de Santana, sob número 3.224, página 25.

Minha Cara amiguinha Rosa. O meu casamento, querendo Deus, se realizará às 2 ½ horas do dia 2 de julho vindouro. Espero que tu não me hás de faltar com a tua amável presença, não só para assistir os atos, religioso e civil, como para passar comigo algumas horas. Por este grande obséquio que estou certa me será dispensado, de já agradece.  A amiguinha sincera Guiomar Celeste de Castro. Riacho de Santa´Ana, 26 de Maio de 1937.” Numa simples folha de papel, a simplicidade do seu convite de casamento!

Casou-se, nessa data, com Manoel Pereira Guedes. Passaram-se os anos: um, dois, três… Mas os filhos não vinham. Tratamento, com a rudimentar medicina de então, e nada de gravidez. A um passo da desilusão, apelou para Santo Antonio, que lhe mandou o primeiro, em 1950: Antonio Fernando (franciscano-agostiniano). Em 1952, o segundo: Fernando Antonio (agostiniano-franciscano).

Daí até sua morte, aos 67 anos, uma vida toda dedicada ao marido, aos filhos e ao lar. A educação austera que lhe dera os pais, e o convívio com seus avós, a quem servira quando moça, resultou numa personalidade estoica, reta, inflexível, sobretudo justa.

Quis homenageá-la neste dia das mães e, ao fazê-lo, só me veio em socorro da inspiração uma valsa… A mais bela, entre tantas que conheço, que me traz gratas recordações: O jardim de minha mãe (El jardín de mi madre), de Hector Domingo Marcolongo, grande compositor portenho, cuja obra poética sempre admirei.

Em um rincão da alma, onde minhas ânsias dormem, ali onde o carinho e a fé não têm fim, formei para minha mãe, com sonhos e lembranças, com flores de outro mundo, um mágico jardim

Nesse jardim cantam seu nome os pássaros em voo e, nas noites quando o céu se torna mais azul, minha mãe, com sua voz amorosa, sorri e me chama para ouvir os mistérios dos sinos…

Os lírios de suas mãos abraçam os meus beijos, e embriaga com o seu conselho a rosa do perdão… E assim o jardim de minha mãe se rega na paz, com as águas do meu coração.

Num rincão de minha alma, com luzes de outro mundo, eu vivo com minha mãe um mundo superior. Seus olhos são estrelas que cintilam no firmamento do meu coração; sua face luminosa é a lua que alumia minhas noites escuras. 

Hoje, enquanto ela me sorria, nesse misterioso jardim, colhi as brancas açucenas que rego com o orvalho do meu carinho, para enfeitar seu jarro de bondade, que o relicário da minha saudade…

 Fernando Guedes
12/5/2013
 


maio 2, 2013 - Poligrafia    No Comments

Congresso vs. Supremo: hoje como ontem…

 

O judiciário é o mais fraco dos três ramos do poder e, conseguintemente, o menos propenso a usurpar, não tendo influencia alguma sobre a espada ou a bolsa pública. (Alexander Hamilton)

The United States Supreme Court is competent to declare a questioned act of Congress to be unconstitutional and void in certain cases. (Alfred Coxe)

A história é uma galeria de quadros onde há poucos originais e muitas cópias. (Tocqueville)

 

Tomei como uma pilheria a reação de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal contra a aprovação da tramitação, na Câmara dos Deputados, da PEC 33, que  pretende diminuir a competência constitucional daquela corte…

Somente os que ignoram a história não se dão conta dos precedentes… Ao tomar posse da presidência do Instituto dos Advogados, há 99 anos, sobre que versou o discurso do empossado? Abro-lhe aspas: Cada um dos poderes do Estado tem, inevitavelmente, a sua região de irresponsabilidade. É a região em que esse poder é discricionário. Limitando a cada poder as suas funções discricionárias, a lei, dentro nas divisas em que as confina, o deixa entregue a si mesmo, sem outros freios além da idoneidade, que lhe supõe, e do da opinião pública, a que está sujeito. Em falecendo eles, não há, nem pode haver, praticamente, responsabilidade nenhuma, neste particular, contra os culpados. Dentro do seu círculo de ação legal, onde não tem ingresso nem o corpo legislativo nem a justiça, o Governo pode administrar desastrosamente, e causar ao patrimônio público danos irreparáveis (RUI). Vem de longe, pois, nesta esquizofrênica República, o perigo, que os contemporâneos conhecem em forma de obras superfaturadas, inacabadas, desvios de verbas do erário, indústria da seca, desleixo para com a educação, para com a saúde pública, impunidade e seu epílogo mais funesto: a violência em descontrole…

Por sua parte, o Congresso Nacional, sem ultrapassar a órbita da sua autoridade, privativa e discricionária, pode legislar desacertos, loucuras e ruínas. Onde a responsabilidade legal, a responsabilidade executável contra esses excessos? E, se os dois poderes políticos se derem as mãos um ao outro, não intervindo, moral e maritalmente, a soberania da opinião pública, naufragará o Estado, e a nação poderá, talvez, soçobrar (RUI). Evidente que, se houvesse honestidade e a soberania popular existisse na prática, esta nação estaria em outro estágio de desenvolvimento. Desculpa-me, caro leitor, desapontá-lo: é ingenuidade, se não for ignorância, essa pretensão de uma moralidade pública onde a idoneidade e a soberania popular se anularam. Contra tais desacertos bastaria a responsabilidade da conta que todos os órgãos dessa soberania a ela devem.

Ontem, como hoje, sem tirar nem pôr… “Agora o chiste da reforma projetada. O que ela inculca, é que, em exercendo o Supremo Tribunal Federal, quando de tal atribuição faz uso, a sua competência (de declarar a inconstitucionalidade de atos dos outros poderes) o Senado o chama a contas, o julgue, e o reprima… Supondo que esse tribunal, ao declarar inconstitucional um ato do Poder Legislativo, exorbite da sua competência, qual é a competência de que ele exorbitou? A competência de sentenciar que, perpetrando esse ato, o poder Legislativo era incompetente” (RUI).

Indaga e responde: Tem o Supremo Tribunal Federal autoridade semelhante? Ninguém o poderá negar; visto como o art. 59 (hoje art. 102) da nossa Carta republicana obriga esse tribunal a negar validade às leis federais, quando contrárias à Constituição, e as leis federais são contrarias à Constituição, quando o Poder Legislativo, apontando tais leis, não se teve nos limites, em que a Constituição o autoriza a legislar. Como admitir que da competência do Supremo Tribunal Federal, nessa decisão, possa vir a ser árbitro, ulteriormente, o Senado (pretendem que venha a ser o Congresso), isto é, nem mais nem menos, uma das duas Câmaras do Congresso? E arrematou com aquela coragem cívica que o definia: É o superlativo da irrisão, o nec plus ultra do absurdo. Atentai bem. Da competência constitucional da Câmara e do Senado, reunidos em Congresso, o último juiz é o Supremo Tribunal Federal (RUI).

Mais adiante… Um regime, que desse a um tribunal a incumbência de negar validade às leis inconstitucionais, e, ao mesmo tempo, reconhecesse ao corpo legislativo o direito de proceder contra as sentenças desse Tribunal, considerando-as como atentados contra a legislatura, seria a vesânia organizada (RUI). E, com atualidade insofismável, conclui: O que se guarda, pois, no bojo desse tentame, destinado a sumir-se e ressurtir com as reaparições ou os eclipses da legalidade na existência nacional, é a transformação do regime democrático na oligarquia de uma facção, imperante no Congresso e centralizada no Senado (RUI).

Suspeita origem teve o atual destempero… “Nasceu das transcendestes aspirações de uma política decidida a remover todos os tropeços da legalidade no seu caminho para a dominação total do País”, nessa Comissão de Constituição e Justiça, onde parlamentares condenados pelo Supremo Tribunal Federal tramam o absurdo de submeter esse tribunal a um constrangimento sem propósito.

Por outro lado, é um acinte à nação esse velho costume da indicação de amigos do Floriano (com calças ou saia) de plantão no Planalto, como ao cavalo Incitatus cônsul, pela loucura de Calígula; aqui Barata Ribeiro (médico) e Inocência Galvão (general) ministro do STF, pelo despotismo presidencial, que continua a nomear ministros a advogados nem sempre de notável saber jurídico, que o Senado, cúmplice, nunca veta, para não se falar em reputação ilibada. Daí a exorbitância de se interferir no outro poder, antes da materialização do ato que suscita o início de sua competência constitucional. Mandar interromper, por liminar, tramitação de projetos no Congresso é asneira retaliando asneira. Os congressistas têm competência de fazer tramitar o que quiserem, porque são, nisto, discricionários. Depois, lei pronta, a competência do STF pode fulminá-la, por inconstitucional, antes que ela agrida a civilidade jurídica.

Para que o Supremo cair nessa besteira de, por liminar, proibir ao Congresso a tramitação do que quer que seja? Passe! Deixe-o vir… “Declara-o, depois, contrário à Constituição; e será como se tal projeto nunca houvera existido”.

Nós da Bahia tivemos, sempre, culto à Justiça, razão pela qual escrevo, com a precariedade da pena de médico, o meu protesto contra essa classe política nojeta que hoje, como outrora, enxovalha a Nação, conspurca o Estado, estiola o País. Culpa exclusiva da soberania popular que se anulou, sucumbida ao peso de sua própria inidoneidade. Onde não há civilidade e educação não pode haver soberania, que implica submissão à regra constitucional, que é a alma da Justiça.

Uma nação que se organiza mediante uma “república presidencial com onipotência do Congresso; com o arbítrio do Poder Executivo, apoiado na irresponsabilidade das maiorias políticas; na situação autocrática, em que se coloca, neste sistema, o chefe do estado”, é uma nação estúpida. Se a tal regime, que é precisamente o nosso, não se opusesse a “majestade inviolável da Constituição escrita, interpretada, em última alçada, por magistratura independente”, o resultado é que até o Supremo é tribunal político, julga com as conveniências do Governo e julga até conta a Justiça (AFRÂNIO PEIXOTO).

A Águia de Haia, na 5ª. Carta de Inglaterra, respirando oxigênio da civilidade britânica, a liberdade, disse: Se estivesse nas mãos de uma revolução converter a realeza dos Braganças na monarquia parlamentar da casa de Hannover, eu, em 15 de novembro, teria proposto a troca de Pedro II pela Rainha Vitória, a Cadeia Velha pelo Paço de Westmisnter (RUI). Mas, como tal prodígio não nos socorreu, sobraram-nos a reles “realeza-presidencial” de Florianos, do Catete ao Planalto, continuação um do outro (hoje uma do outro), e a melancólica constatação de que “se a Justiça é o supremo índice de civilização de um povo, devemos estar bem por baixo, na escala dessa civilização” (AFRÂNIO PEIXOTO).

 

Fernando Guedes
28/4/2013
maio 2, 2013 - Poligrafia    No Comments

Chorei e não procurei esconder…

 
 
Tenho saudades… ai! de ti, São Paulo,
– Rosa de Espanha no hibernal Friul –
Quando o estudante e a serenata acordam
As belas filhas do país do sul. (Castro Alves)
 
Salve nobre Paulicéia!…
Exílio da Mocidade.
Terra de névoas e sonhos
De cinismo e liberdade.(Castro Alves )

 

Tentarei, nesta linhas, dar a Volta por Cima… Anunciou-me o jornal a morte de Paulo Vanzolini, aos 89 anos. O que sei dele dá-lhe uma expressão plural, de cientista e boêmio, que lhe torna a personalidade encantadoramente simples…

Tudo de longe, admirando-o mais pela boemia que pela ciência… Médico, portanto meu colega; Doutor em Zoologia, por Harvard, trabalhou a vida toda no Museu de Zoologia, da Universidade de São Paulo, o que lhe valeu notoriedade científica internacional. Com Aziz Ab´Sáber, outro que sempre admirei, desenvolveu e aprofundou a Teoria dos Refúgios. Trabalhava, como costumava dizer, de dia e rondava de noite pela Paulicéia, para outras observações: as humanas, nos botecos, nas esquinas, nos bares, nos restaurantes… Servindo ao Exército, entre 1944 e 1945, de ronda no baixo meretrício, observou aquele tipo humano atormentado, inspiração da personagem que fez confessar:

De noite eu rondo a cidade
A te procurar sem encontrar
No meio de olhares espio em todos os bares
Você não está.

 Que, assim, sem encontrar o homem predileto, torna à solidão:

 Volto pra casa abatida
Desencantada da vida

 Mas, sem ter quem bem lhe queira, para aconselhar a desistência, insiste, com perfeita paciência, em buscar… Vagado pelos bares, até que o encontrar

 Bebendo com outras mulheres
Rolando um dadinho
Jogando bilhar…

Como ver branco o negro e o negro branco, é próprio de amor… Como todo amor poetiza seu objeto; poetizar significa revestir de gratas mentiras, o amor contrariado

 Vai dar na primeira edição
Cena de sangue num bar
Da avenida São João

Paulo, perguntou-lhe um entrevistador, você considera Ronda uma obra prima? Riu-se, com o desdém de sábio, e respondeu: “Acho piegas. Mulher que mata o amante…”

 A música, segundo seu próprio depoimento, foi gravada por acaso… Fora assistir a Inezita Barroso gravar a Moda da Pinga e se surpreendeu, ali, com o pedido de autorização para gravar a sua no lado B do disco, que não podia ser editado sem esse lado preenchido. “Eu nem sabia que disco tinha lado B…” Observou e autorizou! Disse, noutra entrevista, que a música ficou sepultada, por muito tempo, naquele duro lado B…

Contratado para editar um disco sobre suas músicas, Marcus Pereira, publicitário, incluiu Ronda entre os Onze Sambas e Uma Capoeira, cuja alta qualidade do arranjo a transformou no hino da alma boêmia, essa mesma que não se preocupa nem com colesterol nem com eletrocardiograma, para viver, se não muito, ao menos feliz.

E o Samba Erudito, Paulo, deu-lhe muito trabalho? A resposta, porque sincera, era sempre desconcertante: “Samba a gente faz por que quer, principalmente quando tropeça numa ideia”.  E que tropeço! Céu e mar, altura e profundidade da erudita inteligência:

 Andei sobre as águas
Como São Pedro
Como Santos Dumont
Fui aos ares sem medo
Fui ao fundo do mar
Como o velho Picard
Só pra me exibir
Só pra te impressionar

 Mas, mulher é sempre mulher…

Para tanta proeza
Põe um preço tão alto
Na sua beleza…

Só restando ao desditado…

Ante a força dos fatos
Lavei minhas mãos
Como Pôncio Pilatos.

Costumava tomar a condução para o Ipiranga, onde fica o Museu de Zoologia, na Praça Clóvis, de Clóvis Bevilaqua, notável jurista cearense e autor do projeto do nosso primeiro Código Civil… Ali, enquanto a condução não vinha, o zoólogo deixava o poeta observar, e este novamente tropeçou numa ideia:

Na praça Clóvis
Minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros
E o teu retrato.

Aquele retrato não devolvido, que ainda não foi aos pés de outra rasgado…

Esse retrato cujo olhar
Me maltratava e perseguia
Um dia veio o lanceiro
Naquele aperto da praça
vinte e cinco
Francamente foi de graça.

Sem mais o retrato que o maltratava e perseguia, deu Volta por Cima, afinal

Um homem de moral não fica no chão
Nem quer que mulher
Venha lhe dar a mão
Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima,

no encontro de todas as suas Noites. Uma delas, a humana Ilustrada, leva ao sucesso a composição do poeta-cientista, resultando em muito dinheiro… Em que o aplicou? Em livros, para a biblioteca do Museu e na construção de um novo banheiro nessa biblioteca!

Mas, vencida a dificuldade com grandeza, notadamente se teve a ventura de ser um boêmio num cientista; de uma personalidade plural num homem simples, que pesquisava no laboratório com a mesma simplicidade que frequentava o boteco paulistano, estava pronto para empreender sua Ronda definitiva, até porque já tinha avisado:

Quando eu for, eu vou sem pena
Pena vai ter quem ficar.

Confesso que quando peguei na pena, para escrever, sem pena, esta simples homenagem, deu-me pena de não tê-lo conhecido pessoalmente.

 

Fernando Guedes

29/04/2013

Os versos são de autoria do Dr. Paulo Vanzolini, aqui citados para compor-lhe esta homenagem.

fev 8, 2013 - Poligrafia    11 Comments

Santa Maria…

Morro porque não morro.

Santa Tereza de Jesus

 

Um berço tem algo de sepulcro e é a merca  de nossa mortalidade que nos enterra no nascimento.

Bossuet

 

 

Pietà

Nesta sociedade imprevidente, tecnicista, que hospitalizou a morte, para se livrar dos seus transtornos, morrer virou um tabu… Hoje, a iniciativa passou da família, tão alienada quanto o desvivente, ao médico e à equipe hospitalar. São
eles os donos da morte, de seu momento e também de suas circunstâncias (Philippe Ariès). A morte foi transformada num mero fato técnico, deixou de ser um ato, cuja ritualística era presidida pelo desvivente na assembleia de seus parentes e amigos. O desábito cerimonial da morte explica a pasmo que a sua presença causa, mesmo quando se faz anunciar, por indiscretos sinais… Já não se dá conta de que a morte é a meta da vida, que esta se completa quando aquela chega. Não há, aqui, arguir tempo, na dimensão de prolongamento, porque a completude se dá com a morte, inexoravelmente.

A torrente que escorre encosta abaixo, o avião que toma rota errada e cai ou o edifício que o fogo destrói, matando grande número de pessoas, comove, consterna… Se a morte individual, pelo descostume em vivê-la, virou um drama, a coletiva, pelo despreparo emocional, é sempre uma tragédia. Ocasião propicia à eclosão de um espectro sentimental contraditório: da revolta à piedade, tudo… Faz aflorar o contágio por imitação, que induz caráter epidêmico às emoções: quem nada perdeu, por contágio imitativo sente-se perdedor…

Mil pessoas se aglomeram num recinto planejado para seiscentas… Entraram todas pela única porta, que serve, ao mesmo tempo, de entrada e saída. Ali, ao som de acordes dissonantes, bebem e dançam… Não basta! Querem mais, luzes intermitentes, faíscas cintilantes! Tudo isso, enquanto não vira uma tragédia, é normal, coisa da juventude…

Autoridades, empresários, artistas, pais e os próprios jovens, principalmente estes, não veem nada errado nisso… Ah! Os jovens, quem ousa contestá-los! Conselhos? É caduquice de velhotes! A diversão, que seria benéfica à saúde mental, tem, na atualidade, algo de suicida. Mira y López, que os contemporâneos julgam ultrapassado, nesse psicologismo extravagante, foi preciso: Converter a diversão em um frenesi, em uma degradação ou em uma ridícula exibição de insensatez é ainda pior que se entediar. Constato-o, todos os sábados, no meu plantão de emergência!

Uma peça pirotécnica, que lança faíscas à altura do teto, revestido de material combustível, é acesa para incrementar ainda mais a excitação coletiva… As centelhas lançadas, ali presentes as condições da combustão, iniciaram o fogo… Não estavam presentes os meios de combate, todos o sabiam. O fogo gerou o incêndio, que produziu fumo tóxico, em ambiente sem exaustão… A atmosfera venenosamente rarefeita casou a asfixia de muitos, que, por isto, morreram… Outros tantos queimados gravemente… Dão-se, enfim, conta da tragédia! Instala-se o pânico e, no meio deste, sem preparo e equipamentos apropriados, sem nenhuma condição de avaliar risco, improvisam o salvamento de vítimas. Como a imprevidência agrava o risco, morreram tentando salvar…

Mais de duas centenas de mortos são a trágica contabilidade desse episódio, que pode aumentar, à medida que outros, graves, não resistam à injúria respiratória ou às complicações das queimaduras…

Agora, casa caída, a consternação se mistura com a desfaçatez, em busca de explicação para o que já estava explicado desde o início… As tragédias, aqui, se sucedem e nada ensinam, nem às autoridades, nem ao povo, fixado nessa mentalidade de esperar, sempre dependente, pela proteção daquelas…

Agora, ignorado o óbvio, buscam ridículas desculpas para inescusáveis culpas… O Alvará? Vencido! E daí? Agora é tarde… E o extintor de incêndio? Não funcionou! Por que o não verificou antes? Onde as portas de emergência? Não existiam! Que adianta saber disso agora, se todos o sabiam desde sempre? Quantas boates e discotecas há neste país com porta única, para entrar e sair? Quantas!

Agora, chão aberto, prefeito, governador, presidente, ministros se desvelam, como nunca o fazem ordinariamente… Agora, depois da tragédia, falam em estatuto de segurança, em rigor na fiscalização, em código de edificações, em proibição do que nunca devia ser tolerado. Agora… Mont’Alverne diria: É tarde! É muito tarde! Sim, tarde… Como tudo nesta desgraçada nacionalidade, onde nunca se faz coisa senão de má vontade, tarde e mal (Ruy).

Evidente que as circunstâncias desse episódio chocam, revoltam. Evidente que quem perdeu, naquelas condições, o objeto do seu amor, confrontando-se com a realidade dessa dolorosa perda, terá que sofrer o luto, que é somente seu. Espera-se, como é de regra, que esse trabalho lutuoso não venha a comprometer demasiadamente a economia psíquica dos enlutados, levando-os, ao cabo, à reconciliação com seu próprio Eu.

Tenho lido e ouvido avaliações absurdas acerca desse acidente, com os exageros de sempre. A perda familiar, indiscutivelmente, é imensurável, mas essa tragédia é pessoal, dolorosamente individual. Aquela desoladora solidão que Maria, silente, sentiu ao ver o Filho na Cruz pregado… Por ser exorbitante, não é necessária nenhuma hipérbole, para a correta avaliação do sofrimento humano que causou a quem perdeu. Quem ali realmente perdeu certamente não chorou com lágrimas, porque a grande dor enxuga as lágrimas, as congela e as seca. Assim como a luz moderada faz ver e a excessiva faz cegar, a dor, que não é excessiva, rompe em vozes; a excessiva emudece (Vieira).

Analisando os impactos emocionais da tragédia, um psicólogo, pela televisão, afirmou, entre outros juízos, ser antinatural uma mãe ter que sepultar seu filho…  É engano, porque a natureza mesma da morte rejeita a sequencia calendárica!  Exemplo dos exemplos: Maria sepultou Jesus! Aquela espada que Simeão previu transpassando-lhe o peito é a mesma que agora fere o peito das Mães de Santa Maria. Quanta aproximação!… Quem teve a oportunidade de se deter diante do magnífico mármore de Michelangelo, em que Maria toma o filho morto no regaço (Pietà), e observou a serenidade daquele rosto angelical, entenderá o que a psicologia nunca saberá explicar…

O doce Virgílio, disse Unamuno, em página magistral Del sentimiento trágico de la vida,  nos faz ouvir as vozes e os vagidos queixosos das crianças que choram à entrada do inferno (Eneida, Canto VI). Crianças roubadas ao seio materno, para serem mergulhadas na morte cruel… Deixando a essas mães o eternal pranto de sua dor!

Não obstante tudo isso, não é essa tragédia única, nem mais extensa, nem mais dolorosa que outras tantas, que ocorrem na sombra da indiferença, que não viram manchetes, que não despertam o interesse de ninguém… Se os pulmões foram o alvo na tragédia de Santa Maria, eles o são na tragédia diária da tuberculose, que matou, nos últimos 10 anos, cerca de 50.000 brasileiros, numa média de 4.913 mortes por ano. Santa Maria teria que se repetir 20 vezes, para matar o que a tuberculose mata a cada ano, sem despertar nenhuma emoção, sem causar nenhum constrangimento…

Não sou quem busca as aproximações, são elas, caro leitor, que se me apresentam… Assim é inevitável tornar a Unamuno, à conclusão de La agonía del cristianismo: Santa Maria, Mãe de Deus, roga por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Agora, agora, que é a hora de nossa agonia.

 

Fernando Guedes

6/2/2013

 

jul 16, 2012 - Poligrafia    6 Comments

Cinco, dezenove, cinquenta e seis…

 
Política: é a arte de tomar, manter e utilizar o poder.
André Comte-Sponville

 

Oitenta! Não é, simplesmente, o resultado da votação que cassou o mandato de Demóstenes Torres, no Senado Federal… Não, não é somente isto! Há mais: é o retrato do Brasil político… Quer conhecer o Brasil político? Ei-lo: Cinco, dezenove, cinquenta e seis!

Estranho? Pode ser… Fácil, contudo, de ser explicado. Começo pelo meio. Os dezenove que votaram contra a cassação do mandato de Demóstenes Torres são, nesse estranho teorema estatístico-político-moral, os éticos. Penso, de boa fé, que os dezenove votaram orientados pelo o ensinamento evangélico: Antes de apontar o argueiro no olho de teu irmão, retira, primeiro, a trave que tens nos próprio olho… Por que cassariam o mandato de Demóstenes, se os pecados arguidos eles cometem igualmente? Foram rigorosamente éticos!

Irreverente, franco, tanto que chegava parecer deseducado, o sábio J. J. Calmon de Passos ensinava: Ladrão que rouba e declara o roubo age com ética, porque a ética é o discurso veraz. Se essa ética existe, é porque há uma moral que a justifica. Conviver ou não conviver bem com ela (a sociedade) é outra história.

Os cinco são, a meu juízo, o grande problema em qualquer sociedade… Entre cassar ou não cassar o mandato de Demóstenes esse grupo preferiu não decidir, não mostrar sua convicção. São assim: têm a cara repulsiva da abstenção. Ignoram, de propósito, o mérito das coisas; lavam as mãos em face das aflições humanas; abstêm-se quando seu interesse periclita. Assim os covardes, os pusilânimes, os juízes políticos e comodistas. São, em face das opressões, surdos e cegos. São a parcialidade da imparcialidade, por isto mais perigosos, porque agem à sorrelfa, esquivando-se sempre. Não se comprometem; nunca se mostram de frente, sempre se apresentam em enganador perfil. São, para mim, medíocres hipertrofiados, que, em todos os tempos, nunca foram maioria na humanidade; não o são no Senado… Fazem, contudo, grande mal!

Os cinquenta e seis são os hipócritas! O indivíduo-tipo desse grupo cabe, como a luva em mão certa, no perfil que Igenieros descreveu nO Homem Medíocre. Inclinados menos ao ódio que à hipocrisia, formam uma grei cujo elo de união é a falsidade. Simuladores, julgam sentados no próprio portfólio dos pecados que condenam. Apontam cisco no olho de outros, sem tirarem o argueiro do próprio. Sabidos, agem com meticulosa intenção de confundir. Quem assistiu a Demóstenes acusar Renan, em processo semelhante de cassação de mandato, idealizou Cícero invectivando contra Catilina… Demóstenes será sempre um simulador, e simulou tanto que terminou enredado na própria simulação.  A simulação é assunto para uma tese; em política, para várias…

Entre eles há interesse e não amizade, por isto, como doutrinou Igenieros, a política pode criar cúmplices, mas nunca amigos. Como nos hipócritas as cumplicidades se extinguem com o interesse que as estabelece, sacrificaram o mandato de Demóstenes, para salvarem sua precária imagem de moralidade. Tudo mentira… Tudo falsidade…

Quem pensa que na sociedade é diferente, engana-se. Esse ufanismo doentio que nos faz donos do Cruzeiro do Sul, que nos insufla grandeza tão ridícula: nosso céu tem mais estrelas, nossos bosques têm mais flores, nossas vidas mais amores etc. é sinal patognomônico de uma moral precária, essa mesma que leva o vulgo à conclusão que o deslize moral de Demóstenes é diverso de avançar um sinal de transito vermelho; de consumir produtos piratas; de sonegar imposto de renda, com recibos falsos; de utilizar carteira de estudante, não o sendo, para pagar meia-entrada; de utilizar atestado médico, estando sadio, para se esquivar de uma responsabilidade; de burlar planos de saúde, fazendo uma pessoa passar por outras nas emergências, de receber ou oferecer caramelos como moeda de troco, de simular doença para obter vantagem etc. etc. etc. Há poucos dias eu me encontrava na fila do caixa de um supermercado… À minha frente, com um carro de compras, três senhoras: uma idosa a quem as duas outras chamavam de mãe. Uma dessas adiantou-se, sacou da carteira seu cartão de sócia e o apresentou à funcionária. A irmã mostrou-se interessada em possuir o cartão de sócia. A outra, esbanjando esperteza, aconselhou: não é necessário. Para que pagar mensalidade sem necessidade? Vou lhe passar o meu CPF e uma cópia do meu RG. Quando quiser comprar diga, no balcão de atendimento, que esqueceu o cartão em casa e solicita um provisório.  Simples, não é? Pois bem, que diferença moral tem esse ato do que a Demóstenes custou o mandato de senador? Nenhuma! A diferença está apenas na hipocrisia com que os moralistas da sociedade reclamam a retidão moral dos políticos. Esquecem, entretanto, que os políticos, todos eles, são recrutados nessa mesma sociedade que tolera essas imoralidades.

Não nego que na sociedade há quem devolve dinheiro achado na rua à polícia; dólares encontrados em sanitário de aeroporto ao dono; esferográfica Bic, pelo SEDEX, ao proprietário, de outra cidade.  Seu Chico, Rejaniel e Ioiô são uma minoria de Quixotes, que resistem contra os moinhos da imoralidade, mas esse conjunto, à esquerda dos cinco, não conta. Quando o fato de sua honestidade é divulgado na mídia, ocorre, na sociedade, o abalo do espanto. Ninguém jamais deu atenção ao incógnito maranhense que vive na rua, até ser protagonista de fato inusitado: devolver o que lhe não pertence à polícia! Coisa rara, portanto incomum, portanto manchete de telejornais por semanas… Eu tive a infelicidade de esquecer, no data center de um hotel 5 estrelas, no Rio, meu pen drive, e até agora não mo devolveram… São esses, que não devolvem o bem alheio, que mais clamam pela cassação de políticos desonestos!

A ética tradicional sempre distinguiu os deveres para com os demais dos deveres para consigo próprio. No debate sobre o problema da moral em política, vêm à tona exclusivamente os deveres para com os outros (Norberto Bobio, in Ética e Política). Pois bem, é o notável milanês quem cita Benedetto Croce, num remate esclarecedor: “Outra manifestação da vulgar inteligência acerca das coisas da política é a petulante exigência que se faz de honestidade na vida política”. Não se pode exigir honestidade do político, se a não exigiu, antes, do cidadão que a própria sociedade fez político. Afinal, seguindo o passo de Croce, “a honestidade política nada mais é que a capacidade política”…

Este texto, que é uma opinião, pode despertar concordância ou discordância, não importa… O que não deve, espera o autor, é suscitar dúvida. Por isto insisto com Bobio. “A ética política se torna assim a ética do político e, como ética do político, e, portanto, ética especial, pode ter seus justificados motivos para aprovar uma conduta que o vulgo poderia ver como imoral, mas que o filósofo vê simplesmente como o necessário conformar-se do indivíduo-membro à ética do grupo”. O pecado mortal de Demóstenes não foi a quebra do decoro parlamentar, ao mentir na tribuna do Senado, como o acusaram. Seu grande erro foi sua excessiva arrogância, que o incompatibilizou com os de sua grei, tornando-se inconveniente ao convívio parlamentar. Demóstenes era uma raposa imprudente arvorando-se em rei dos bichos. Suas catilinárias parlamentares, divulgadas pela TV Senado, nada expressavam de Maquiavel ou Orwell, eram apenas a destilaria do seu jacobinismo extemporâneo, razão da sua desgraça política…

Como sei que a habilidade em diagnosticar e a competência em tratar determinam o sucesso da cura, ofereço ao prezado leitor, para reflexão, este lugar de Croce, colhido na citação de Bobio: “Ao passo que, quando se trata de encontrar uma forma de cura ou submeter-se a uma operação cirúrgica, ninguém pede a presença de um homem honesto… mas todos pedem, procuram, desejam médicos e cirurgiões, que sejam honestos ou desonestos, mas tenham habilidade comprovada em medicina ou em cirurgia… nas coisas políticas todos pedem, em vez disso, não homens políticos, mas homens honestos, fornidos ao máximo de atitudes de outra natureza”.

Dizem que a cassação de Demóstenes, com cuja pele nada me importo, atendeu ao clamor da sociedade. É sempre assim… Cassa-o! Cassa-o! Se, com essa cassação, o Senado conseguisse converter os 56 ao credo ético dos 19, a consciência política, quando não tivesse logrado moralidade diversa, ao menos teria a compensação de livrar-se da hipocrisia. Foi-se Demóstenes, vem o suplente, para o Brasil político continuar rigorosamente o mesmo: Cinco, dezenove, cinquenta e seis…

Fernando Guedes
Salvador, 13/7/2012
mar 22, 2012 - Poligrafia    5 Comments

Assim cantou o grande cisne…

A globalização mata a noção de solidariedade, devolve o homem à condição primitiva do cada um por si e, como se voltássemos a ser animais da selva, reduz as noções de moralidade pública e particular a um quase nada. (Milton Santos)

Impossível ser geógrafo sem ter gosto pala paisagem. Enxergo tudo, de cima a baixo, para ver e entender. (Aziz Ab’Sáber)

A maior glória da minha vida foi simplesmente insistir no tombamento da Serra do Mar. (Aziz Ab’Sáber)

 

Neste mundo fútil de dubles, onde a cultura e o conhecimento bóiam na superfície da impostura, a Geografia brasileira – não é exagero dizer a mundial – empobreceu-se…  Primeiro, em 2001, perdeu Milton Santos; agora, em 16 de março, para dilatar ao máximo lacuna impreenchível, perdeu Aziz Nacib Ab’Sáber…

Milton Santos, de Brotas de Macaúbas, do sertão diamantino, é, por isto, mais meu… Sempre o admirei; sempre me encantou aquele sorriso franco que trazia na face negra, deixando transparecer sincera serenidade e grande sabedoria… Seu magnífico estudo sobre o Centro da Cidade do Salvador, apresentado à Universidade de Strasbourg, em 1958, como tese de doutoramento, é pérola de Geografia Urbana. Pierre Monbeig, notável geógrafo francês, que aqui lecionou, escreveu: “Bahia de Todos os Santos e de Todos os Poetas, Bahia, a Afro-Brasileira, teve seus historiadores e sociólogos. O professor Milton Santos quis ser o seu geógrafo, procurando compreender as relações complexas entre os homens e a natureza, entre o passado e o presente. Sem abandono do rigor científico, analisa as aparências para melhor compreender as almas”. Eis a geografia do espírito, de que Por uma outra globalização é o libelo contra essa idiotice que arrebanhou incautos mundo afora. Às perseguições, aos preconceitos, sempre respondeu com a grandeza do saber e da cultura, por isto venceu, por isto foi e continua sendo grande!

Aziz Ab’Sáber é de São Luiz do Paraitinga, interior de São Paulo, portanto conterrâneo de Oswaldo Cruz… Esse, cujo nome denuncia a ascendência árabe, atraiu a minha admiração por sua simplicidade límpida, clara, como as águas brancas do seu domínio natal: Paraitinga… Como a Milton, não tive a ventura de conhecê-lo pessoalmente, mas nunca os deixei de encontr, a ambos, na minha própria casa, na minha estante…

Aziz, professor titular do Departamento de Geografia da USP, pesquisou, através de rigorosos trabalhos de campo, praticamente todo o território brasileiro, porém, não se limitando ao campo estritamente técnico, com primorosa incursão nas humanidades, foi completo. Ouso dizer, adotando o conceito aristotélico de perfeição – tudo que possui início, meio e fim –, que foi perfeito. Suas páginas dOs Domínios de Natureza no Brasil são um primor de estilo e de ciência. O capítulo Caatingas: O Domínio dos Sertões Secos, para além de instruir, comove… É impossível lê-lo sem evocar os Sertões, de Euclídes da Cunha, obra máxima, jóia da literatura pátria. Há, nesse capítulo, sem aquelas dificuldades clássicas, lugares euclidianos. “Há um século, no recesso dos sertões de Canudos, Euclides da Cunha anotou dois termos utilizados pelos “matutos” para denominar “as quadras chuvosas e as secas”: o verde e o magrém. Provavelmente, não existe termo mais significativo do que o magrém para a longa estação seca, quando as árvores perdem folhas, os solos se ressecam e os rios perdem correnteza, enquanto o vento seco vem entranhado de bafos de quentura. O verde designa, com clareza, o rebrotar do mundo orgânico por meio da chegada das água que reativam a participação da luminosidade e da energia solar no domínio dos sertões. Infelizmente a expressão magrém caiu em desuso”. Sim, mestre Aziz, o magrém que hoje estiola a cultura, tirou de uso muitas outras coisas, nesta desgraçada nacionalidade onde se queima criminosamente a caatinga, para prosperar o sujo negócio do carvão. Relembremos, porque também isto está em desuso, Euclides: “As juremas, prediletas dos caboclos – o seu haxixe capitoso, fornecendo-lhe, grátis, inestimável beberagem, que os revigora depois das caminhadas longas, extinguindo-lhes as fadigas em momentos, feito um filtro mágico – derrama-se em sebes, impenetráveis tranqueiras disfarçadas em folhas diminutas; refrondam os marizeiros raros – misteriosas árvores que pressagiam a volta das chuvas e das épocas aneladas do verde e termo do magrém, – quando, em pleno flagelar da secas, lhes porejam na casca ressequida dos troncos algumas gotas d´água; reverdecem os angicos; lourejam os juás em moitas; e as baraúnas de flores em cachos, e os araticuns à ourela dos banhados… mas, destacando-se, esparsos pelas chapadas, ou no bolear dos cerros, os umbuzeiros, estrelando flores alvíssimas, abrolhando em folhas, que passam em fugitivos cambiantes de um verde pálido ao róseo vivo dos rebentos novos, atraem melhor o olhar, são a nota mais feliz do cenário deslumbrante”. Ah! Como deslumbra… Sabe o nordestino, por senti-lo, o significado do verde, que Euclides e Aziz souberam traduzir com maestria literária… Caminhar, ao alvorecer, por carreiros orvalhados, aspirando o perfume de humildes flores – douradas giestas e xaras olentes -, escutando o arrulhar da volúvel asa-branca, que sempre retorna ao primeiro ronco de trovão, é experiência inesquecível.

Sua luta em defesa da natureza, que principiou com a mobilização em prol dos remanescentes da Mata Atlântica, e que depois se expandiu, adquirindo, cada vez mais, caráter universal, não tinha o vezo do radicalismo estéril, ao contrário, era suavemente rigorosa, em face da segurança e retidão com que expunha suas idéias e convicções. Sua opinião contaria ao projeto de transposição do São Francisco, como fora açodadamente proposto, foi exposta, em artigos, com categoria e exemplar estilo. De um deles (A quem interessa a transposição do São Francisco?), eis remate: “O risco final é que, atravessando acidentes geográficos consideráveis, como a elevação da escarpa sul da Chapada do Araripe – com grande gasto de energia! –, a transposição acabe por significar apenas um canal tímido de água, de duvidosa validade econômica e interesse social, de grande custo, e que acabaria, sobretudo, por movimentar o mercado especulativo, da terra e da política. No fim, tudo apareceria como o movimento geral de transformar todo o espaço em mercadoria”.

O meu juízo sobre Aziz é movido pela admiração à distância, por isto quis ouvir a opinião de quem o conheceu de perto… A geógrafa Regina Coutinho, sua aluna na USP, deu-me este depoimento: “Quanto ao meu mestre Aziz, o que posso lhe contar, é que era grande, a começar pela sua altura imponente, e grande, pelo seu conhecimento e sabedoria. Nas aulas, era de uma clareza ímpar, e de uma simplicidade magistral, traduzida também na pronúncia das palavras, trazendo à tona, a sua origem do interior paulista: ” … e agora, crasse, vamos falar do Pranalto Paulista…”, e por aí seguia, nos enchendo de informação, e de orgulho, por sermos seus alunos. Ele era simplesmente Fantástico. Só convivi com ele um ano letivo, mas sempre cruzava com sua figura enorme e desajeitada pelos corredores do meu Instituto de Geografia, na querida e lembrada USP, e aí tinha a oportunidade de lhe perguntar algumas dúvidas, obtendo sempre a resposta, além de uma aula sobre o assunto. Depois, nos anos 90, o IBGE fazia, em comemoração à Semana do Meio Ambiente, lá no auditório da Petrobrás, uma série de palestras, com convidados escolhidos a dedo, e meu professor foi um dos palestrantes, tendo sido aplaudidíssimo pela platéia. Foi a última vez que o encontrei. Sinto imensamente a sua morte, mas sei que ele está no Olimpo, a ocupar, com certeza, uma cadeira dedicada a um deus brilhante, que veio somar ao conhecimento da humanidade, toda a sua bagagem intelectual. Infelizmente, será difícil alguém ocupar o seu lugar, e engrandecer a nossa já tão combalida Geografia”.

Esse deus brilhante, que lançou mil luzes, virou “fazedor” de bibliotecas, e saía a distribuir livros nas comunidades carentes… Certa vez, na penitenciária feminina do Butantã, aonde foi em visita oferecer livros, comoveu às lágrimas aquelas almas empedernidas, que ao próprio mal se habitua… Livros à mão cheia, porque, como ele mesmo disse, “a solidão é perigosa”!

Entre as funções que exerceu, com competência e eficácia, destaca-se a presidência da SBPC, cuja sede em São Paulo visitou recentemente, pouco ante de sua morte, para oferecer um DVD do conjunto de sua vasta obra. Antes de entregá-lo à secretária, escreveu mais que uma dedicatória… Compôs ali mesmo, em poucas linhas, qual cisne que presente a morte próxima, seu canto derradeiro: “Tenho o grande prazer de enviar para os amigos e colegas da Universidade o presente DVD que contém um conjunto de trabalhos geográficos e de planejamento elaborados entre 1946-2010. Tratando-se de estudos predominantemente geográficos, eu gostaria que tal DVD seja levado ao conhecimento dos especialistas em geografia física e humana da universidade”. Assim cantou o grande cisne…

Fernando Guedes

18/3/2012

nov 1, 2011 - Poligrafia    6 Comments

Saberia quanto custa ser herói…

Abundância em medicina é penúria. (Miguel Couto)

Esse segredo ou há de ser formal e absoluto, ou, se não o for, não passará de um embuste grosseiro, de uma arlequinada indecorosa, de uma farsa infamante de um homem de bem. (Francisco de Castro)

 

No sábado, 29, como de costume, cheguei à triagem do hospital público onde trabalho, às sete… Ali não tem lugar a presunção; se algum notável lá chega é por obra do acaso, se o coma, na circunstância de um acidente, lhe rouba a consciência… Por volta das 10 recebi um paciente de 56 anos, pouco mais jovem que o outro, que à mesma hora, sem que eu o soubesse, era assistido por uma equipe de notáveis especialistas do Sírio-Libanês, hospital de excelência, lá na Paulicéia desvairada. A mesma desdita em circunstâncias contrárias…

Quando tornei à minha casa e liguei a televisão, só me deparei com o câncer de ex-presidente da República… No Globo News o apresentador entrevistava um notável cirurgião, especialista em câncer, que lhe respondia perguntas tolas… Ali, naquele ambiente, parecia-me que o que contava, para além da informação, era a audiência, isto é: pontos no IBOBE… Nesse ridículo consultório midiático, apresentador-médico e médico-apresentador, que nunca viram o paciente, revelavam detalhes de sua doença, como se o tivessem examinado com rigor propedêutico… Era a medicina a serviço do desserviço, em busca da notoriedade fugaz…

Um desenho da laringe foi projetado no écran e a voz do especialista, em fundo, discorria sobre a anatomia do órgão e opinava acerca a localização do tumor que acomete o ex-presidente. Pausa! A repórter, em link direto do Sírio-Libanês, precisava comunicar: “O ex-presidente deixará nesse momento o hospital, com diagnóstico confirmado e tratamento definido, que terá início amanhã às nove horas”.

A equação é esta: Prestigio pessoal do paciente + especialistas dedicados ao caso + todos os recursos técnicos arregimentados = eficiência no diagnóstico e tempestividade da terapêutica, que resulta, sempre, quando a doença o permite, em bom prognóstico. Oxalá fosse sempre assim, com os outros doentes…

O paciente retornará ao Sírio-Libanês para colocação de um cateter e iniciar a “quimioterapia de indução”, disse o apresentador, com autoridade de prescribente… Amanhã, quando a primeira dose de quimioterápico lhe correr pela veia, a eficiência terá batido recorde: menos de 72 horas, do diagnóstico à terapêutica, para ventura do paciente! Nesse lapso, a mídia se incumbiu de difundir uma abundância de aulas de anatomia, de patologia, de oncologia e de terapêutica, de fazer inveja a muitos cursos médicos que há por aí. Por outro lado, a penúria da deontologia, cooptada pela imbecilidade do utilitarismo…

Bem diferente, no que se refere à atenção, é o caso do outro paciente… Luta, há meses, para conseguir o tratamento de um câncer de estômago. Magro, espoliado, desidratado, com anemia profunda, causada pela ação cunsumptiva da doença, deparei-me com ele no curso de um acidente vascular cerebral, que lhe causou paralisia do lado esquerdo do corpo. Como se diz no sertão: para cima de queda, coice! Disse-me sua filha, que o acompanhava, que já estava cansada de bater de porta em porta, e ouvir a resposta padrão: “Não é caso para este hospital!

Velho clínico, em caminho da retirada, sem nenhum cabedal de especialidade (com a convicção de que a medicina é, na atualidade, uma profissão eficaz para os bem sucedidos) o admiti e fiz o que me estava ao alcance: prescrever hidratação, sedação da dor (sedare dolorem opus divinum est) e transfusão de sangue; requisitar tomografia computadorizada do crânio e avaliação neurológica. Quando saí do hospital o deixei deitado numa maca metálica, ainda sem o colchonete, entre outras, num espaço que não permitia mais que 15 centímetros de separação entre elas, resistindo estoicamente, sem esboçar nenhum queixume…

Longe de mim a apologia da igualdade entre os homens. Minha ingenuidade não chega a esse dislate, nem acalenta a hipocrisia de tratamento igualitário entre os pacientes que inspiraram estas linhas. A prática, com a qual me defronto diariamente, desmentiria a impostura.

Se os coloco em confronto, a esses dois pacientes, similares apenas na desdita do câncer, não é para reclamar, para o que assisti, o mesmo tratamento dispensado ao ex-presidente da República. Sei que entre ambos há uma distância astronômica, que nunca será transposta, malgrado a letra (morta) da Constituição… Para um, penúria; para o outro, abundância, garantidas pelo Estado, sem nenhum constrangimento moral. Confronto-os para constatar que um deles teve a oportunidade, como Presidente da República por oito anos, de acabar com as humilhações que os outros pacientes passam em face da doença, sem a menor insinuação de que foram diferentes os oitos anos do seu antecessor, o sociólogo. Nem a sociologia de um, nem a experiência de nordestino retirante do outro, em dezesseis anos de governo, resistiram à corrupção do mando… Há muitas décadas a saúde pública, nesta desgraçada nacionalidade, vem decaindo a passos largos, impondo a quem necessita de seus serviços as mais cruéis humilhações, de fazer corar a própria indignidade.

Virá, a seguir, a outra tediosa face da hipocrisia: a construção do herói que luta bravamente para vencer o câncer, fazendo ciclópicos sacrifícios… Não fumará mais Partagas; não beberá mais Romnée-Conti; não tomará mais um trago da Anísio Santiago… Enfrentará o tédio de consultórios luxuosos, sem espera nem fila; onde afáveis médicos e enfermeiras educadíssimas lhe serão sempre solícitos… Não precisará se preocupar com a quitação fatura do convênio para obter autorização dos procedimentos, porque com ou sem autorização eles serão realizados tempestivamente. Ah, a conta… Imaginem… importunar o paciente com essa ninharia: a “dignidade do cargo”, enfim, para que serve? Eis, ai, como esta República engendra seus heróis…

Saindo ontem da visita que fez ao paciente, a Presidente da República não economizou otimismo: “Ele está com um humor excepcional!” Como alguém, mentalmente sadio, pode apresentar humor excepcional sabendo-se portador de um tumor maligno na laringe? Confesso que não alcanço os fundamentos dessa psicologia, que me parece um disfarce, intencionalmente produzido para enganar incautos. Nessa fase inicial de incertezas, de uma doença grave, reclama-se, para o bem do paciente, discrição e prudência…

Fizeram a mesma coisa com o ex-vice-presidente José de Alencar: “herói de ocasião”, cujo heroísmo, no enfrentamento da doença, dependeu seguramente do seu prestígio, de médicos competentes, de bons hospitais, de recursos terapêuticos avançados, da mordomia oficial, tudo à deposição, a tempo e a hora, facilitando-lhe a resistência para vencer as vicissitudes impostas pela gravidade do mal.  Mas, se esse mesmo vencedor tivesse que experimentar a indiferença nos hospitais e ambulatórios do SUS; precisar da tal central de regulação; tentar fazer uma tomografia computadorizada ou ressonância magnética; esperar meses sem conta por uma cirurgia, para tratar o câncer, não teria resistido o quanto resistiu… Saberia quanto custa ser herói!

 

Fernando Guedes
31/10/2011

 

set 27, 2011 - Poligrafia    5 Comments

Encontro do Grupo dos 4

Coimbra p’ra ser Coimbra
Três coisas há de contar:
Guitarras, tricanas lindas
E um estudante a cantar
Popular

Minha capa vos acoite
Que é para vos agasalhar:
Se por fora é cor da noite,
Por dentro é cor do luar…
António Nobre

O Hilário disse um dia:
Ninguém mais será formado
Quando a velha academia
Deixar de cantar o fado
Gabriel de Oliveira

 

Gidi, Paulo, Magnavia e Fernando

Esses quatro são: José Magnavita Menezes, Paulo Barreto Torres, José Florentino Gidi de Oliveira e eu, aqui revelados, por ordem do avanço nos anos… Somos, entretanto, todos iguais, com a mesma idade mental, na busca do estreitamento da convivência social e da coisa mais importante nesta nossa efêmera existência: a amizade sincera. Foi o trabalho, como médicos da Petrobras, que fez a nossa aproximação, e eu acabei, assim, encontrando no trabalho formal, hierarquizado, movido e mantido por contrato, para servir ao lucro de quem o explora, rara característica prazerosa… Criamos a confraria dos 4, com compromisso informal de nos reunirmos com freqüência, para uma refeição e muita conversa. Se as obras-primas de convivência espiritual gregas realizavam-se nos banquetes e a cena central do cristianismo é a ceia estamos no bom caminho da comunhão…

Derinha, Ogvalda, Rita, Conceição, Hilca, Tânia, Edleusa e Uiara

Desta vez, foi um jantar em minha casa, no sábado, 23, preparado todo ele, a exceção da sobremesa, por Hilca, que se está revelando uma Babete com toques luso-baianos! A sobremesa, por implicar uma confecção mais complicada, preparamo-la na sexta-feira, depois que retornamos da festa de premiação do Concurso Literário 2011, promovido pela regional baiana da Sociedade Brasileira de Médico Escritores, que distinguiu, com o segundo lugar, minha crônica Um dia no Rio. Quando a terminamos passava das 3 horas da manhã. Isto, para mim, é satisfação, como a de quem toca, ao violino, uma sonata de Bach; a de quem debuxa, sobre a tela fina, a pintura que o talento inspira; a de quem esculpe, no mármore informe, a escultura imaginada… Satisfação que só se encontra no trabalho livre, diferente da que se procura, por racionalização ou por fuga, no trabalho formal (ou formalizado), que a não pode produzir!

Além dos 4, estiveram presentes: Glauco e Rita, Anderson e Uiara, Calmito e Tânia, Amilton e Edleusa, Rômulo Carrera e as esposas dos três: Derinha, Professora Ogvalda e Conceição, que primeiro chegou, para minha satisfação, porque tinha algo muito particular para lhe mostrar (sobre a minha escrivaninha, o Santo Antonio que ela pintou, para a proteção desta precária pena) e ficamos a conversar sobre a vida, filosofando, enquanto aguardávamos os outros…

Casquinha de siri; arroz de bacalhau à moda de Hilca, bacalhau à moda de Marcília Castro e strogonoff de camarão; sericaia (tradicional receita de D. Mariquinha Castro); vinhos (Douro, Rioja, Bordoux e Porto) e cervejas, compuseram o cardápio da noite.

Rômulo, Gidi, Amilton, Magnavita, Anderson, Paulo, Glauco, Fernando e Calmito

Rolou muita conversa… Glauco, Calmito e Amilton discutiram a política e suas intermitências: a corrupção, a falta de ética, o enriquecimento ilícito etc. etc. Falamos de literatura, de música, de cultura enfim… Dra. Ogvalda leu o Hino a Coimbra, magistral capítulo de Viagens na Minha Terra, de Afrânio Peixoto, e viu a razão porque Dr. Davey, seu pai, amava tanto Portugal… Porque, sem ter conhecido a tricana do Mondego, venerava-a com o mais puro amor, como à sua Universidade: à Biblioteca Joanina, altar mor da cultura… No seu Noturno está confessado esse amor!

Rita, professora de letras, com planos de morar temporariamente em Coimbra, para conclusão de estudos, leu, para Glauco, Anderson e Uiara, Um dia no Rio, tecendo, ao fim, criticas favoráveis ao estilo do autor, que, sendo sinceras, tomei-as por condecoração.

Ouvimos boa música… A guitarra de Joaquín Rodrigo executando os concertos Madrigal e Andaluz; fados com Maira da Fé e Paula Ribas, que cantou Canoas do Tejo, que poderia chamar-se Fado de Hilca…

Canoa de vela erguida,
Que vens do Cais da Ribeira,
Gaivota que anda perdida,
Sem encontrar companheira…

Magnavita ouviu Alcides Gerardes cantar a Cabecinha no ombro, e cantarolou com certa nostalgia fazendo dueto nestes versos…

Quem chora no meu ombro
Eu juro que não vai embora…

Como está bem casado há 54 anos, deduzo que não cantarolou em vão: Houve choro no seu ombro…

A Sericaia ao lume

Enfim chegou a hora da Sericaia… Panela à mesa (vai à mesa na mesma panela do preparo), serviram-na. Degustaram-na… Foi uma unanimidade: Maravilha!  Rômulo, gastrônomo amador, foi à cozinha saber de Hilca detalhes do preparo. Como disse que fará a Sericaia, devo transmitir-lhe, agora, o conselho que não pude dar-lhe naquela noite: Cuidado, Sericaia, quando feita com intenção, arranja casamento… Que o diga D. Emerlinda!

Já recebi estes comentários: “Ainda em estado de graça pelo prazer do banquete de ontem, sublimado pela sericaia…” (Dr. Magnavita); “Quando esses amigos se encontram é sempre muito bom e desta vez com a degustação, ou melhor, comilança (não sobrou nem um pedacinho) da maravilhosa Sericaia” (Dr. Gidi).

Magnavita, Fernando, Glauco, Gidi, Paulo e Anderson

À saída, coloquei a Balada da Despedida, letra e música de Fernando Machado Soares, grande cantor do fado coimbrão, que tive a ventura de conhecer pessoalmente, para Dra Ogvalda ouvir (o fado de Coimbra é diverso do fado de Lisboa, embora haja quem diga, não sei se com razão, que é um derivativo deste. Em Coimbra o fado a vida acadêmica estão intimamente casados, desde que o Hilário, boêmio estudante de medicina, o cantava altas noites no choupal… Sinto-o mais sentido; a guitarra, que se trina com mais solenidade, emite acordes mais plangentes, e as letras são poemas mais elaborados. Cantado, tradicionalmente, apenas por homens, quase sempre estudantes, essas aves de arribação, cujos amores, diz o Vira de Coimbra, não duram mais que uma hora, e terminam, muitas vezes, sob a negra capa que o abrigou…):

 

Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.

Que as lágrimas do meu pranto
São a luz que me dá vida.

Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.

Quem me dera estar contente
Enganar minha dor
Mas a saudade não mente
Se é verdadeiro o amor.

Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.

Não me tentes enganar
Com a tua formosura
Que para além do luar
Há sempre uma noite escura.

 

Não se canta o fado de Coimbra sem a capa; não se canta o fado de Lisboa sem o xaile (se o cantar, sem a capa ou o xaile, não o faz com regra). Ambos, capa e xaile, negros, símbolos de solenidade, não propriamente de tristeza, porque, como disse Fernando Pessoa, “o fado não é alegre nem triste. É um episódio de intervalo”. Assim terminado esse nosso encontro, espero seja breve o intervalo que nos separa do próximo…

Fernando Guedes
25/9/2011

 

 

ago 9, 2011 - Poligrafia    4 Comments

Comportamento ambivalente

Decidir a agir numa situação concreta é um problema prático-moral; mas investigar o modo pelo qual a responsabilidade moral se relaciona com a liberdade e com o determinismo ao qual nossos atos estão sujeitos é um problema teórico, cujo estudo é competência da ética.

Adolfo Sánchez Velásquez, in Ética

 

 

Em outro artigo, que publiquei neste espaço, intitulado Quando os bons não fazem o bem, opinei sobre a interferência dos conselhos de medicina nos movimentos de reivindicação de interesses dos médicos.

Ora, se “o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Medicina são os órgãos supervisores da ética profissional em toda a República e, ao mesmo tempo, julgadores e disciplinadores da classe médica” (Lei 3.268) não lhes cabe, direta ou indiretamente, reivindicar qualquer interesse dessa mesma classe, ainda que seja o mais alto e honesto deles. Entre as atribuições legais dos conselhos (Art. 5º. e Art. 15) não consta nenhuma referente ao apoio de movimento de classe. Quando a lei diz que lhes cabe, a esses conselhos, “zelar e trabalhar por todos os meios ao seu alcance, pelo perfeito desempenho ético da medicina e pelo prestígio e bom conceito da profissão e dos que a exerçam legalmente”, está se referindo, exclusivamente, ao conceito moral, que é o que importa à Ética.

Questões de outra ordem, que interessam à economia profissional, devem ser tratadas em outras instâncias. Para este fim existem os sindicatos e as associações de classe.

Entre os comunicados que costumo receber do departamento de comunicação dos conselhos, chegou-me uma nota com teor comemorativo, em face de uma liminar favorável à classe, com efeito suspensivo da decisão administrativa da Secretaria de Direito Econômico (SDE). É sábio que esse órgão, do Ministério da Justiça, fez algumas proibições contrárias aos interesses econômicos da classe médica, para “preservar a concorrência e os direitos dos consumidores na área de saúde suplementar”. Malcontentes com tais proibições, as entidades médicas (como se convencionou chamar o conjunto CFM, AMB e FENAM), ingressaram em juízo contra a decisão da SDE, com obtenção de liminar. Contra essa liminar, a AGU ingressou com agravo de instrumento, no Tribunal Regional Federal da 1ª. Região, logrando sua suepensão…

Como liminar é o que é: tentativa de se colocar o carro adiante dos bois, própria de sistemas judiciários ineficazes, sob a desculpa da tal fumaça de bom direito (fumus boni iuris), a que sempre recorrem os que não ousam enfrentar o mérito no nascedouro das causas, criou, no espírito dos autores, apenas expectativa transitória, que outra transitoriedade (agravo de instrumento) dissipou. Assim, aos solavancos, prospera, aqui, a justiça…

Agora, enquanto não cassam os efeitos do tal agravo, os conselhos, inconformados com a frustração de sua pretensão, estão de “LUTO PELA SAÚDE”, como sugere a tarja preta no portal médico.

Afirmam que litigarão até ao fim, para obter a anulação da decisão do Tribunal Regional Federal. Isto é: Estado x Estado, numa contenda mal encaminhada, pela confusão de ordens decorrente desse caos jurídico que há muito tempo se instalou nesta desgraçada nacionalidade.  Ora, não cabe a essa autarquia, que são os conselhos de medicina, fiscalizadora do exercício profissional, com competência para julgar médicos, o papel de órgão de classe, com tais ações reivindicatórias, que deve caber exclusivamente ao sindicato e às associações. É estranhíssimo que o Estado litigue consigo mesmo, o que não seria o caso se tal litígio fosse Sindicato x SDE ou AMB x SDE, que soaria conforme, sem impedimentos. A quem serve a SDE? À sociedade, em nome do Estado. O Sindicato dos Médicos e AMB a quem servem. À classe médica! E o CFM, a quem serve? Não deve ser a uma fração dessa sociedade, à classe médica! Como a SDE, deve servir à sociedade, em nome do Estado. Se a classe médica tem interesses a serem reivindicados, o que é justo e perfeito, que os reivindique através de seus Sindicatos e de suas Associações. Que lutem os médicos pelos seus direitos, com as armas próprias.

O Estado muita vez incide na deformação de excesso de poder… O mando, disse-o Afrânio Peixoto, corrompe. É certo que corrompe, por isto exige-se, numa sociedade civilizada, o controle externo dos poderes. Quem controla os conselhos de medicina? Num sistema arcaico, com um regimento processual à moda dos caducos tribunais correcionais, julga às portas fechadas, numa reserva que não interessa à sociedade. Não será por tal procedimento que a honra da classe será preservada. Nunca pude entender porque um Conselho de Ética fique submetido à burocracia judiciária, com assessoria advocatícia. Isto, penso, é o que Pascal qualificaria de confusão de ordens.

Constato, com o que minha pupila vê da realidade, que cada macaco não está no seu galho (outros, com outros olhos, poderão ver cada macaco no seu galho). A ética é o estudo teórico da moral… Esta é que disciplina os atos do comportamento humano, na sua ação prática, do que decorre a obrigação moral, cuja natureza inescusável é a liberdade de escolha. Eu, cá com a minha consciência, última instância íntima de apelação, sem nenhum fator extrínseco que o obstaculiza a minha ação, decido fazer ou não fazer algo: eis a obrigação moral.

Podemos admitir, para a nossa orientação moral, duas éticas: A ética dos princípios e a ética dos resultados. A primeira se serve de algo que está antes da ação, um princípio, uma norma, geralmente uma proposição prescritiva qualquer, cuja função é a de influir de maneira mais ou menos determinante sobre a realização de uma ação (Norberto Bobbio). Em outras palavras, condiciona o ato moral ao dever, orientado pelo princípio. Não se cogita nunca da conseqüência do ato ao praticá-lo. Faço o que devo, aconteça o que acontecer. Assim agem os que se pautam por princípios. O médico que adota essa orientação moral, raridade hoje em dia, não se pauta por outro princípio senão o de bem assistir o seu paciente. Ética dos princípios: dever: deontologia.

A ética dos resultados é a que condiciona o ato à sua própria conseqüência.  Para dar um juízo positivo ou negativo de uma ação, se serve de algo que vem depois, isto é do resultado (Ibidem) Sob esta ótica, o ato moral deixa de se orientar pelo dever, para obedecer apenas à sua conseqüência. Se, ao juízo de quem o praticará, for bom ou conveniente faz, se não o for, não faz. Por esta ética se orienta, por exemplo, aquele cirurgião que se ausenta do ato cirúrgico, transferindo-o para outro, somente porque o plantão chegou ao fim, por não lhe ser conveniente sair uma ou duas horas mais tarde, embora chegue sempre atrasado ao plantão… Ética dos resultados: teleologia: utilitarismo.

Essa digressão foi apenas para dizer que acho impróprio considerar os atos morais em face de regras de direito, submetê-los a procedimentos judiciais, cercá-los com cacoetes advocatícios. Para expressar a conclusão a que cheguei há muito tempo: a medicina atualmente é uma profissão deturpada pela confusão comportamental de seus próprios profissionais. Comportamento estranho, ambivalente em todos os aspectos: pretende-se deontológico com práticas utilitárias.

Fernando Guedes

8/8/2011

 

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