Archive from junho, 2009
jun 23, 2009 - Poligrafia    No Comments

Gardênia

Não é a gardenia grandiflora,  alva flor, aromática e solitária; o jasmim-do-cabo. Sendo mulher, foi a flor humana que perfumou nossas fantasias juvenis, de um idílio platônico…

Foi na aurora da juventude, lá pela década de 70, que a conhecemos. Ela morava no Barris, numa casa da avenida General Labatut, próxima do hotel onde morávamos eu e Carlinhos, que também caiu de amores por ela. Sua beleza física não era invulgar, o que a tornava uma mulher comum, como tantas que conhecemos, mas irradiava tamanha simpatia que era impossível vê-la apenas com os olhos…

“Formosa, qual pintor em tela fina

Debuxar jamais pode ou nunca ousara;

Formosa, qual jamais desabrochara

Na primavera a rosa purpurina…”

A primeira confissão a se fazer é que nos apaixonamos por ela sem jamais tê-la namorado, e nem temos uma explicação para isso. A mim me parece que nos bastava o amor ideal, e inconscientemente não queríamos correr os riscos do amor real, aquele que impele o amante a não compreender o outro senão como ele gostaria que fosse. Por isso a admirávamos de longe, como se admiram as montanhas, que são sempre azuis.

De seu nome apenas sabíamos o homônimo da flor, e isso nos bastava. De onde era, desconhecíamos. Sabíamos que além dos estudos trabalhava numa companhia de aviação, por onde às vezes passávamos para admirá-la trajando aquela farda azul marinho, que realçava a alvura de sua pele. Era expansiva, alegre, espirituosa, risonha… Nunca a vi mal humorada; sempre sorrindo aquele sorriso franco, que deixava entrever os nitentes dentes, que semelhavam um colar de pérolas finas…

“Teu nome foi um sonho do passado;

Foi um murmúrio eterno em meus ouvidos;

Foi som de uma harpa que embalou-me a vida

Foi um sorriso d’alma entre gemidos!

Carlinhos sempre foi homem de muitos amores, e sua fidelidade a eles sempre me pereceu um tanto quanto infiel, o que não era sem razão, porque a razão de que muito ama é amar sem compromisso de posse, dar ao amor a liberdade voar de coração em coração sem ter a obrigação de aninhar-se em nenhum. Os grandes amantes só são fieis aos amores ideais, aqueles projetados na volúpia do espírito, por isso posso afirmar que o meu primo adotivo, sendo o que é, deve continuar fiel ao amor por Gardênia, como eu continuo, no plano da reminiscência, prisioneiro desse amor…

“Sonho de amor, estrela peregrina

Por céus onde se azula a primavera,

Rosa ideal de um Éden, que imagina

Quem se refoge na mais alta esfera…”

A vida nos rolou pelo inexorável declive do tempo, cada um seguiu o seu destino e a perdemos de vista. Que aconteceu a ela? Não o sabemos… Guardamos dela apenas a lembrança das horas de efêmera convivência, onde só tínhamos a preocupação de admirá-la, de nos deixar contaminar com a sua irradiante alegria, e nos embriagar com o perfume dessa flor-mulher que não nos sai da memória…

“O que é da minha gardênia,

Que é da minha branca flor?

Agora quem terá pena

Deste amor órfão de amor?

Dá-me a minha flor, morena,

Aquela branca gardênia…”

Fernando Guedes

Janeiro, 1999

jun 12, 2009 - Poligrafia    No Comments

12 de Junho: dia dos namorados e da vingança do beijo…

Viram que autoridades insensatas proibiram, em alguns países, o beijo, como medida preventiva da influenza H1N1… Tenho certeza que o mestre Estácio de Lima, onde estiver, protestou contra essa pequice… Mas, não foi somente isto, exorbitaram em tudo: nas providências, nos comunicados, na nomenclatura, na classificação, nas proibições, na quimioprofilaxia, no confisco de medicamento, na matança criminosa de suínos… Viram especialista (ditos infectologistas) lançarem opiniões ridículas, para garantir o seu “minuto global”. O mundo estava em risco, porque a “peste” ameaçava dizimar alguns milhões da sua população. O negócio (velho nome ressuscitado para a  atividade econômica) paralisaria, porque seus agentes (os que trabalham)  morreriam ou estariam hospitalizados. Escolas, restaurantes, casas de diversão, shoppings etc. cerrariam suas portas… Planos de contingência foram acionados… Somados os milhões gastos desnecessariamente ao lucro cessante de muitos setores econômicos, que tiveram suas atividades atingidas pela irresponsabilidade das ações, o prejuízo é incalculável!

Vejam, agora, depois do nocaute à cidade do México, o que estão fazendo com Buenos Aires! Lamento por ela já não possui, vivo, a Enrique Santos Discépolo, para dizer-lhe, a essas autoridades insensatas, isto:

¡Hoy resulta que es lo mismo

ser derecho que traidor!…

¡Ignorante, sabio o chorro,

generoso o estafador!

¡Todo es igual!

¡Nada es mejor!

¡Lo mismo un burro

que un gran profesor!

No hay aplazaos

ni escalafón,

los inmorales

nos han igualao.

Si uno vive en la impostura

y otro roba en su ambición,

¡da lo mismo que sea cura,

colchonero, rey de bastos,

caradura o polizón!…

Tudo é igual, vivemos lambuzados num merengue de imposturas; num reinado de dublês e de farsantes onde a confusão de ordens é a ordem… Não há solução, porque o mundo se imbecilizou e os costumes se deturparam. Invertem-se os valores, para valer a superficialidade do conhecimento: qualquer um serve para assumir posição importante, desde que seja um comandado do sistema dominante, e a ele dedique fidelidade perpétua. Desprezam o saber, para valer a incultura e aceitar a colonização intelectual…

12 de junho, dia dos namorados, passa a ser um dia ainda maior, porque será, de agora em diante, também conhecido como o dia da vingança do beijo, cuja idéia já encaminhei, por falta de melhor pauta, ao Senado Federal, para decretação oficial… Foi em 12 de junho que a taxa de letalidade de influenza H1N1 se desmoralizou, inferiorizando-se à da influenza sazonal: 0,49%.

A influenza H1N1, como vê, não supera, em termos de letalidade, a influenza sazonal: beijem, pois, à vontade, como diz, na canção, a inesquecível Maria Grever:

Bésame con un beso enamorado

Como nadie me ha besado, desde el dia en que nací…

Porque nunca fez, nem fará mal algum… Quanto a Buenos Aires, um dos meu s amores, com ou sem gripe, deixo que Ferrer fale por mim:

¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!

Cuando anochezca en tu porteña soledad,

por la ribera de tu sábana vendré

con un poema y un trombón

a desvelarte el corazón.

Fernando Guedes

Riacho de Santana, 12/6/2009

12 de Junho: dia dos namorados e da vingança do beijo…
Viram que autoridades insensatas proibiram, em alguns países, o beijo, como medida preventiva da influenza H1N1… Tenho certeza que o mestre Estácio de Lima, onde estiver, protestou contra essa pequice… Mas, não foi somente isto, exorbitaram em tudo: nas providências, nos comunicados, na nomenclatura, na classificação, nas proibições, na quimioprofilaxia, no confisco de medicamento, na matança criminosa de suínos… Viram especialista (ditos infectologistas) lançarem opiniões ridículas, para garantir o seu “minuto global”. O mundo estava em risco, porque a “peste” ameaçava dizimar alguns milhões da sua população. O negócio (velho nome ressuscitado para a  atividade econômica) paralisaria, porque seus agentes (os que trabalham)  morreriam ou estariam hospitalizados. Escolas, restaurantes, casas de diversão, shoppings etc. cerrariam suas portas… Planos de contingência foram acionados… Somados os milhões gastos desnecessariamente ao lucro cessante de muitos setores econômicos, que tiveram suas atividades atingidas pela irresponsabilidade das ações, o prejuízo é incalculável!
Vejam, agora, depois do nocaute à cidade do México, o que estão fazendo com Buenos Aires! Lamento por ela já não possui, vivo, a Enrique Santos Discépolo, para dizer-lhe, a essas autoridades insensatas, isto:
¡Hoy resulta que es lo mismo
ser derecho que traidor!…
¡Ignorante, sabio o chorro,
generoso o estafador!
¡Todo es igual!
¡Nada es mejor!
¡Lo mismo un burro
que un gran profesor!
No hay aplazaos
ni escalafón,
los inmorales
nos han igualao.
Si uno vive en la impostura
y otro roba en su ambición,
¡da lo mismo que sea cura,
colchonero, rey de bastos,
caradura o polizón!…
Tudo é igual, vivemos lambuzados num merengue de imposturas; num reinado de dublês e de farsantes onde a confusão de ordens é a ordem… Não há solução, porque o mundo se imbecilizou e os costumes se deturparam. Invertem-se os valores, para valer a superficialidade do conhecimento: qualquer um serve para assumir posição importante, desde que seja um comandado do sistema dominante, e a ele dedique fidelidade perpétua. Desprezam o saber, para valer a incultura e aceitar a colonização intelectual…
12 de junho, dia dos namorados, passa a ser um dia ainda maior, porque será, de agora em diante, também conhecido como o dia da vingança do beijo, cuja idéia já encaminhei, por falta de melhor pauta, ao Senado Federal, para decretação oficial… Foi em 12 de junho que a taxa de letalidade de influenza H1N1 se desmoralizou, inferiorizando-se à da influenza sazonal: 0,49%.
A influenza H1N1, como vê, não supera, em termos de letalidade, a influenza sazonal: beijem, pois, à vontade, como diz, na canção, a inesquecível Maria Grever:
Bésame con un beso enamorado
Como nadie me ha besado, desde el dia en que nací…
Porque nunca fez, nem fará mal algum… Quanto a Buenos Aires, um dos meu s amores, com ou sem gripe, deixo que Ferrer fale por mim:
¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Cuando anochezca en tu porteña soledad,
por la ribera de tu sábana vendré
con un poema y un trombón
a desvelarte el corazón.
Fernando Guedes
Riacho de Santana, 12/6/2009