maio 12, 2013 - Poligrafia    3 Comments

O jardim de minha mãe

 
De noite, alta noite, quando eu já dormia
Sonhando esses sonhos dos anjos dos céus,
Quem é que meus lábios dormentes roçava,
Qual anjo da guarda, qual sopro de Deus?
Casimiro de Abreu

 

“Aos oito dias do mês de setembro de mil novecentos e dezesseis nesta Villa do Riacho de Santa Anna, em meu cartório, compareceu o Sr. Major Antônio Pereira de Castro, residente nesta Villa, no lugar chamado São Felix, e declarou que no dia vinte e seis de junho deste corrente ano em casa de sua residência, às duas horas da manhã, nascera uma criança do sexo feminino, branca, que já está batizada e tem o nome de Guiomar, filha natural de Maria de Souza Filgueira,s do que para constar fiz este termo em que assino com o declarante e testemunhas. Eu, Osório Guimarães Silva, escrivão de Paz, o escrevi e assino”.  É o que consta no Livro dos termos do Registro Civil de Riacho de Santana, sob número 3.224, página 25.

Minha Cara amiguinha Rosa. O meu casamento, querendo Deus, se realizará às 2 ½ horas do dia 2 de julho vindouro. Espero que tu não me hás de faltar com a tua amável presença, não só para assistir os atos, religioso e civil, como para passar comigo algumas horas. Por este grande obséquio que estou certa me será dispensado, de já agradece.  A amiguinha sincera Guiomar Celeste de Castro. Riacho de Santa´Ana, 26 de Maio de 1937.” Numa simples folha de papel, a simplicidade do seu convite de casamento!

Casou-se, nessa data, com Manoel Pereira Guedes. Passaram-se os anos: um, dois, três… Mas os filhos não vinham. Tratamento, com a rudimentar medicina de então, e nada de gravidez. A um passo da desilusão, apelou para Santo Antonio, que lhe mandou o primeiro, em 1950: Antonio Fernando (franciscano-agostiniano). Em 1952, o segundo: Fernando Antonio (agostiniano-franciscano).

Daí até sua morte, aos 67 anos, uma vida toda dedicada ao marido, aos filhos e ao lar. A educação austera que lhe dera os pais, e o convívio com seus avós, a quem servira quando moça, resultou numa personalidade estoica, reta, inflexível, sobretudo justa.

Quis homenageá-la neste dia das mães e, ao fazê-lo, só me veio em socorro da inspiração uma valsa… A mais bela, entre tantas que conheço, que me traz gratas recordações: O jardim de minha mãe (El jardín de mi madre), de Hector Domingo Marcolongo, grande compositor portenho, cuja obra poética sempre admirei.

Em um rincão da alma, onde minhas ânsias dormem, ali onde o carinho e a fé não têm fim, formei para minha mãe, com sonhos e lembranças, com flores de outro mundo, um mágico jardim

Nesse jardim cantam seu nome os pássaros em voo e, nas noites quando o céu se torna mais azul, minha mãe, com sua voz amorosa, sorri e me chama para ouvir os mistérios dos sinos…

Os lírios de suas mãos abraçam os meus beijos, e embriaga com o seu conselho a rosa do perdão… E assim o jardim de minha mãe se rega na paz, com as águas do meu coração.

Num rincão de minha alma, com luzes de outro mundo, eu vivo com minha mãe um mundo superior. Seus olhos são estrelas que cintilam no firmamento do meu coração; sua face luminosa é a lua que alumia minhas noites escuras. 

Hoje, enquanto ela me sorria, nesse misterioso jardim, colhi as brancas açucenas que rego com o orvalho do meu carinho, para enfeitar seu jarro de bondade, que o relicário da minha saudade…

 Fernando Guedes
12/5/2013
 


3 Comments

  • Linda homenagem Fernando

  • Que sublime homenagem, parabéns.

  • A bondade e a especialidade do ser que era Guiomar, lhe inspirou essa bela homenagem, tocante e grandiosa, digna da mulher que era ela. Eu, até hoje, nutro uma grande saudade dela, pois além de sogra, foi minha amiga. Vc só pode sentir muito orgulho, por tê-la como mãe. Feliz daquele que tem por mãe, um anjo.

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