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set 28, 2000 - Poligrafia    No Comments

Não sabem ser justos, e querem ser livres…

O Século XIX, com sua tônica de violência, inspirou a luta das classes trabalhadoras, cujo sindicalismo, dito revolucionário, no limiar do novo Século, encontrou em Sorel a fonte onde saciava sua sede de barbárie. Pretendeu-se derrotar o capitalismo e, para tanto, era necessário inspirar, na classe trabalhadora, uma fé; não uma fé religiosa, mas um objetivo engendrado num mito: a greve geral, cujo objetivo final era o estabelecimento do poder absoluto da classe operária. Nada melhor para propagação dessa fé do que uma bíblia, e não podia haver outra melhor do que as “Reflexões sobre a violência”, onde Sorel, tangido pelas idéias de Blanqui, sistematizou toda a técnica da violência. Eis o livro sagrado dos agitadores das massas…

Embalados pelo coletivismo marxista, cuja finalidade é a anulação do indivíduo, eles, ao contrário do que possa parecer, rejeitam o povo esclarecido, porque preferem cortejar a massa, essa coisa amorfa, plasmável, sem direção, capaz de absorver, em lapso de minuto, a liturgia de sua fé.

Sorel, contudo, era cheio de contradições, o que o levou a exaltar Mussolini, quando este despontava como líder, e, logo depois, Lenin, quando o bolchevismo triunfou na Rússia, o que no fundo não tem lá nenhuma diferença prática. Sendo o leninismo o desenvolvimento teórico e prático do marxismo, encontra-se com o fascismo no campo do totalitarismo.

Dois dias atrás, o Sindicato dos Trabalhadores Químicos e Petroleiros do Estado da Bahia promoveu um movimento de paralisação do Conjunto Pituba, da Petrobras, durante o qual integrantes seus, em atitudes autoritárias, antidemocráticas, violentas física e moralmente, constrangeram e agrediram pessoas que não concordam com a sua linha de pensamento, e não estavam dispostas a participar da paralisação. O que se viu foi um grupo de velhacos reacionários quererem impor, pela violência, a sua idéia, porque já a não conseguem propagar pela palavra doutrinadora. E, em meio à escuridão política que se abate sobre a Nação, se valeu da bruxuleante luz do fogo-fátuo que promana do pântano, onde se decompõe o cadáver das idéias de Sorel, para nada alumiar, e, aos que não se coadunam com a sua fé, o fel do seu violento ódio: impropérios, agressões, cerceamento de direitos individuais, enfim: autoritarismo. Ironicamente, tudo o que eles mesmos condenam nos outros.

Será que ainda não perceberam que já estamos no limiar do Século XXI, que não admite a violência como instrumento de luta? Nada aprenderam com o mais revolucionário dos líderes: o Cristo? Será que ignoram o exemplo que nos chega do médio oriente, em que o mais sanguinário dos terroristas, Arafat, renunciou à violência, convencido de que só a tolerância o levaria à finalidade de sua luta: uma Pátria Palestina? Não foi pregando e praticando a não-violência que Gandhi fez tremer as bases do presunçoso Império Britânico?  Por acaso ainda não se deram conta de que as práticas sorelianas são uma roupa fora de moda que já não se deve vestir?

Não sou idólatra deste governo que aí está, tampouco o sou dessa direita retrógrada que o engendrou. Sou livre, e quero livremente viver, sem constrangimentos de qualquer natureza, ou de qualquer latitude política, por isto não posso aceitar que me venham impor idéias que eu não aceito. Sobre essa caterva antidemocrática há de cair, como um anátema, a sentença de Sieyès: Não sabem ser justos, e querem ser livres…

Fernando Guedes

28/09/2000