Archive from maio, 2011
maio 24, 2011 - Riacho de Santana    3 Comments

Devolvi; Devolva-me; Devolve…

… A Primavera, que arrebata as asas…

Levou-lhe os passarinhos e os amantes!…

Castro Alves – Aves de Arribação

 

Não será, já o advirto, um serão gramatical, uma lição de conjugação verbal, que deve caber a gramático, que não sou… São três músicas, entre tantas que marcaram a minha juventude, cujas letras e melodias estão aqui, na memória de minha lembrança, guardadas…

Houve em Riacho de Santana, esse querido pedacinho de Pátria, um cidadão por tudo exemplar: Dalcy Fraga! Filho de outro, desse sertão, empreendedor: Virgílio Fraga, de quem falarei oportunamente. Dalcy, que todos conhecíamos pelo apelido afetuoso de Sisí, manteve, à custa de seus próprios recursos, por muitas décadas, um serviço de alto-falante, com o qual educou musicalmente várias gerações. Atento às paradas de sucesso, como se dizia na linguagem do Rádio, adquiria as gravações dos grandes artistas, em discos de 78 rotações por minutos (rpm)… No final da década de 40, do século passado, surgiu a inovação do Long-Playing, mais flexível, com maior capacidade de gravação, 12 ou 14 músicas, em 33 rpm. Sisí, que aprendera eletrônica com o seu autodidatismo, adaptou sua vitrola com dois braços, para executar uns e outros.

Sisí envelheceu… A decadência do homem que envelhece está representada por uma regressão sistemática da intelectualidade. No princípio, a velhice torna medíocre todo homem superior. Depois, a decrepitude inferioriza o velho já medíocre (JOSÉ INGENIEROS).  Emudeceu o alto-falante, num prenúncio dessa decadência humana, com suas conseqüências sociais irreparáveis! A difusão musical em Riacho acabou-se… O poder público municipal, na sua suma incompetência cultural, em todas as épocas, nuca com isso se importou, e Riacho, hoje, é esse “deserto de homens e de idéias” que aí se vê: carvão, “laranjas”, nepotismo, relaxação… incultura!

A casa dos Fragas, que ficou conhecida como a “Casa da Lua”, seja pelo semicírculo da sua platibanda, evocando a lua em crescente, ou ser o ponto de onde se desponta a lua-cheia, para os habitantes da Praça Monsenhor Tobias, é hoje apenas um monumento sem vida. Há muito o alto-falante emudeceu e vivas ali, ao pé da escada que conduz à porta de entrada, na área ajardinada, somente as murtas que ainda teimam em florar… A brisa, que daí soprava, perfumada pelo aroma dessas murtas em flor, trazia aos habitantes da baixa, onde está a minha casa, a voz nítida de Núbia, Anísio e Carlos Galhardo… Como me são cara essas reminiscências!

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida…”

Portanto, falarei agora de saudade… Devolvi, música de Adelino Moreira, gravada em 1961, foi o sucesso inaugural de Núbia Lafayette, pseudônimo da açuense Idenilde Araújo Alves da Costa. O poema é somente saudade, do princípio ao fim:

Devolvi
O cordão e a medalha de ouro
E tudo que ele me presenteou.
Devolvi suas cartas amorosas
E as juras mentirosas,
Com que ele me enganou
.

A desditosa devolução, movida pelas mágoas de um amor que se esfumou, começa assim: pelas coisas, até chegar ao que não se pode devolver: as juras. Essas somente o esquecimento, quando o coração se acalma, poderá recolher…

Devolvi
A aliança e também seu retrato,
Para não ver seu sorriso
No silêncio
Do meu quarto.

Aquela fotografia, antes companheira na solidão de noites insones, é agora um incômodo, que lhe traz a lembrança doida de que ele está, nesse instante, em outros braços; que outros lábios a sua boca beija… Devolver, para esquecer, é ilusão!

Nada quis guardar como lembrança,
Pra não aumentar meu padecer.
Devolvi tudo,
Só não pude devolver
A saudade cruciante,
Que amargura meu viver.

Tudo se devolveu, nada ficou como lembrança… Só a saudade, como seu laivo de remorso, teima em ficar viva, como as murtas, testemunhas de um passado feliz… A saudade, melancólica ou prazerosa, sendo grande, não cabe no envelope da devolução…

Devolva-me, samba-canção de Evaldo Braga e Jair Amorim, de 1959, grande êxito de Anísio Silva, sertanejo de Caculé, também fala de saudade…

Devolva-me

Os dias felizes, que tive na vida

E contigo perdi.

Devolva-me

A grande esperança, suprema aliança

Que eu possuí.

Agora é o infeliz amante que solicita a devolução dos dias felizes, que o fracasso amoroso lhe arrebatou, deixando-o até sem a esperança, que pretende recuperar…

Devolva-me

O tempo exigido

Contigo perdido

Que em vão eu vivi.

A decepção, que o desamor produziu, traz-lhe a dura certeza do tempo perdido, que ela, noutros braços embalada, não lhe pode devolver…

Devolva-me

Os doces beijinhos

E outros carinhos, que te ofereci.

Até os beijos… e outros carinhos, essas íntimas loucuras cometidas na febre da paixão, pede que lhe devolva,  na expectativa de ver recuperada a felicidade perdida. Felicidade que foi apenas ilusão…

Devolveste cartinhas, bilhetes

Que afinal te enviei com prazer,

Porém o que mais me interessa

Isto jamais poderá devolver.

Isto, que já não se pode devolver, são os anelos daqueles dias felizes, vividos quando o amor parecia não ter fim, mas que o tempo e o desamor se incumbiram de deixar na saudade… Sempre na saudade!

Enfim, Devolve… Valsa de Mário Lago, do início da década de 40, que Carlos Galhardo, argentino de nascimento, italiano de ascendência, brasileiro de coração, intitulado O Rei da Valsa, imortalizou…

Mandaste as velhas cartas comovidas,

Que na febre do amor

Te enviei.

As cartas de amor – Love letters straight from your heart – são as primeiras a serem sacrificadas nessa devolução desamorosa…  Teria Mariana Alconforado pedido a devolução das suas (Lettres d’amour d’une religieuse)? Quanto sacrifício, muitas vezes, para enviá-las? Cheguei a enviar a dois remetentes simultaneamente: o primeiro envelope destinava-se a uma intermediária, que fazia a gentileza de entregar o segundo nas mãos da verdadeira destinatária… Poupou-me o amor dessa agonia devolutiva!

Mandaste tudo, porém,

Falta o melhor que te dei.

É o imaterial, que o coração, na ingenuidade do amor, oferece…

Devolve

Toda a tranqüilidade,

Toda a felicidade

Que eu te dei e que perdi.

Do amor ainda descrente, exige a devolução da tranqüilidade e da felicidade… como se esses estados d’alma, íntimos e intransferíveis, pudessem ser remetidos num pacote pelo correio. Se a felicidade é “o gozo contínuo de mil pequeninas comodidades oportunas”, que cada indivíduo deve arbitrar, sem a interferência de outrem, será possível devolver tão íntimas preferências? Há aqui uma confusão, própria do apaixonado, que perde o senso da inteligência do sentimento, a compreensão afetiva, que é o encanto moral do amor, e ama para o seu próprio bem…

Devolve todos os sonhos loucos

Que eu construí aos poucos

E te ofereci.

Devolve,

Eu peço por favor,

Aquele imenso amor

Que nos teus braços esqueci.

Só a paixão, que é alma em tumulto, faz sonhar sonhos loucos… Quando o desamor chega e a depõe, esta, ao ir-se, não se lembra de recolher, daqueles braços, a ilusão do amor…

Devolve,

E eu te devolvo ainda,

Esta saudade infinda

Que tenho de ti.

Essa devolução em mão dupla, em que se quer mandar de volta a saudade, é a suprema ilusão, que agora nutre o apaixonado que o desamor criou… Matar o amor, para vivê-lo noutro plano, nesse inefável mundo onde ele reina soberano, como fizeram os sublimes amantes de Verona, é obra divina. Matar o que restou de um grande amor, com essas devoluções ridículas, é obra bem humana, do egoísmo desamoroso.

Ter saudades é minha vida, disse Castro Alves à sua dileta irmã Adelaide, em 1870, na carta que lhe enviou Aves de Arribação… Assim é a minha, cheia de saudades… Caras saudades que me fizeram desaprender a conjugação do verbo devolver…

Fernando Guedes

16/5/2011

maio 4, 2011 - Poligrafia    6 Comments

Reflexão sobre o assassinado de Osama bin Laden

É uma doença a revolução, como o crime. Não é revolucionário nem criminoso quem quer: é quem assim nasceu e não pode modificar as taras que tem.

Afrânio Peixoto

 

 

No domingo próximo passado, depois de um fraternal encontro, com amigos, que me descontraiu o espírito, fui surpreendido, à meia-noite, com um insólito pronunciamento do presidente dos Estados Unidos da América, anunciando ao mundo o assassinato de Osama bin Laden, e atribuindo a esse ato a consumação da justiça. Disse: “today justice was done”.

Para que me não interpretem mal, digo logo o que penso: Terrorismo é a guerra de poucos; guerra é o terrorismo de muitos. Guerra e terrorismo são, a meu juízo, a mais imbecil das dualidades. Como este não tem nem País nem Estado, penso ser impossível declarar guerra a ele sem ferir de morte o direito internacional.

Adianto, também, a minha opinião sobre o atentado ao World Trade Center, que implicou a morte de 2.819 pessoas (pela informação que disponho): foi uma manifestação terrível dessa imbecilidade.

Assim, esclarecido o que a minha pupila vê dessa realidade absurda, posso, com mais tranqüilidade, dissertar sobre essas manifestações igualmente estúpidas com que a grande mídia explora o pensamento de incautos e atiça os surtos de contágio por imitação, dessa histeria coletiva, que termina sendo, na sua desinteligência, um fundamentalismo ao contrário.

Assistir, pela televisão, à juventude americana, nas ruas, festejar um assassinato como um ato de justiça, pareceu-me que Estados Unidos sepultaram, para sempre, toda a doutrina do seu notável Robert Jackson: “Nosso povo tem aguardado esses julgamentos no espírito de Woodrow Wilson, que esperava dar ao Direito Internacional o tipo de vitalidade que ele somente pode ter se for a real expressão de nosso julgamento moral”. Robert Jackson, em Nuremberg, foi incisivo acusador, formou culpa, demonstrou provas, porém não permitiu a transformação daquele Tribunal numa instância sumária de execuções. Houve mortes, sim, porque a pena capital era legal e muitos foram condenados a ela (Goering, Ribbentrop, Keitel, Kaltenbruner, Rosemberg, Frank, Frick, Streicher, Sanckel, Jodl, Borman, Seyss-Ingurart).

Ao ouvir, igualmente pela televisão, líderes mundiais pronunciarem congratulações aos Estados Unidos, pelo assassinato de Osama bin Laden, percebi que eles reviveram as idéias favoráveis às execuções sumárias dos criminosos nazistas, com as quais os Estados Unidos não concordaram e, malgrado as dificuldades do momento histórico, defenderam o julgamento dos réus. Constatando a que ponto os Estados Unidos chegaram, nesse lamentável episódio, isto me soa como uma trágica ironia. Presumo o que Wilson, se pudesse falar, diria, agora, a Obama…

Dizem que essa caçada se fez em nome da paz… Que paz? A paz! Não a vejo. Não há, como não pode existir, senão uma, é a que assenta na lei, na punição dos crimes, na responsabilidade dos culpados, na guarda rigorosa das instituições livres. Outra espécie de paz não é senão a paz da servidão, a paz indigna e aviltante dos países oprimidos, a paz abjeta que a nossa índole, o nosso regime essencialmente repelem, a paz que humilha todos os homens honestos, a paz que nenhuma criatura humana pode tolerar sem abaixar a cabeça envergonhada (RUI BARBOSA).

Ordenar a um comando especializado invadir o espaço aéreo de outra nação soberana (Republica Islâmica do Paquistão, independente desde 14 de agosto de 1947), sem o seu conhecimento, como se pode deduzir da entrevista que o chefe da CIA, Leon Panetta, deu à revista Time, nesta terça-feira (“it was decided that any effort to work with the Pakistanis could jeopardize the mission. They might alert the targets.”), e aí matar um desafeto criminoso, não pode ser, como realmente não é, uma operação legal. Longe, muito longe, de algo parecido com justiça. A verdade, disse o clássico Vieira, é como a túnica de Cristo, não tem costuras. É a lei de Caim!

A lei de Caim é a do fratricídio. A lei do fratricídio é a lei da guerra. A lei da guerra é a lei da força. A lei da força é a lei da insídia, a lei do assalto, a lei da pilhagem, a lei da bestialidade. Lei que nega a noção de todas as leis, lei de inconsciência, que autoria a perfídia, consagra a brutalidade, agaloa a insolência, eterniza o ódio, premeia o roubo, coroa a matança, organiza a devastação, semeia barbaria, assenta do direito, a sociedade, o Estado no princípio da opressão, na onipotência do mal. Lei de anarquia, que se opõe à essência de toda a legalidade substituindo a regra pelo arbítrio, a ordem pela violência, a autoridade pela tirania, o título jurídico pela extorsão armada. Lei animal, que se insurge contra a existência de toda a humanidade, ensinando o homicídio, propagando a crueza, destruído lares, bombardeando templos, envolvendo na chacina universal velhos, mulheres e crianças. Lei de torpeza, que proscreve o coração, a moral, e a honra, misturando a morte com o estupro, a viuvez com prostituição, a ignomínia com a orfandade. Lei da mentira, na falsa história que escreve, nos falsos pretextos que invoca, na falsa ciência que explora, na falsa dignidade que ostenta, na falsa bravura que assoalha, nas falsas liberdades que reivindica (RUI BARBOSA).

Evidente que soberania dessa nação foi violada, até o seu antigo presidente o admite, ao falar da operação militar que resultou no assassinato de Osama Bin Laden: “politicamente é muito sensível para o Paquistão no que respeita à violação da soberania” (PERVEZ MUSHARRAF). Violação da soberania, ato insólito, imposto pela força, às vezes com o consentimento da fraqueza moral de nações que a penhoram por ajudas materiais.

Osama bin Laden recebeu apoio dos Estados Unidos, para combater as forças soviéticas que invadiram, em 1979, o Afeganistão. Armaram-no, treinaram-no, utilizaram-no, até que a criatura voltou-se contra o seu criador… A Lei de Caim, neste consórcio estúpido, só soube produzir mais ódio. Os Estados Unidos se tornaram no grande satã, que devia ser combatido a todo custo, pela visão fundamentalista de grupos terroristas. De mim, não creio que isto tenha nada a ver com o Islã nem com a Jirad pregada por Maomé, seja na forma individual, em que o crente deve travar uma luta consigo mesmo, pelo o domínio da alma, ou aquela coletiva em ele deve levar a mensagem islâmica aos que a não conhecem. Como crentes de outras religiões, que muitas vezes interpretam mal seus próprios conceitos e dogmas, o fenômeno também incide no Islã, e é a causa dessas desinteligências.

As nações ditas civilizadas, do Ocidente, deviam tem mais juízo nas suas ações, porque o radicalismo e a força não possuindo o gérmen da paz a não pode fecundar. Quando as leis cessam de proteger os nossos adversários, virtualmente cessam de proteger-nos (RUI BARBOSA). Os dias que se seguirão, disse-me um amigo jurista, serão de apreensões e perigos.

Fernando Guedes

3/5/2011