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dez 15, 1997 - Poligrafia    No Comments

Apendicite de pobre e outras pobrezas

Abundância em medicina é penúria! Este velho prolóquio nasceu para ser eternamente atual, independentemente do contexto que reclame sua citação. Vamos conferir? “Criança com apendicite foi recusada no Roberto Santos”, noticiou o A Tarde há alguns meses, expondo a aflição de um pai cujo filho fora levado, certa manhã, ao hospital Ernesto Simões Filho, com suspeita de apendicite. Confirmado o diagnóstico, e sob a alegação de falta de especialista em cirurgia pediátrica, fora o menor transferido para o hospital Roberto Santos, onde seria operado. Neste hospital o paciente não chegou a ser atendido porque também não havia o referido especialista, e logo devolvido ao primeiro, onde passou o resto do dia. Na manhã seguinte, dizia a matéria, foi novamente levado ao Roberto Santos e, mais uma vez, devolvido ao Ernesto Simões. Tornaria, mais uma vez, àquele hospital, quando a família, aflita, interveio denunciando o caso à imprensa, e só assim a operação se realizou.

Com efeito, é incrível a penúria: um caso de simples apendicite ficar transitando entre dois hospitais de grande porte, e ter que chegar às raias do escândalo para merecer a velha solução – a cirurgia de apendicite foi preconizada em 1792! De que é a culpa afinal?!
Repetem por aí, qual estribilho tedioso, que é dos governos, que não provêem os hospitais públicos de condições mínimas de trabalho, o que é, a meu parecer, uma verdade relativa. Não sou idólatra de governos – e sei que nunca foi pendor dos governos brasileiros cuidar bem da saúde da população pobre – mas, convenhamos, culpá-los pela não realização tempestiva de uma apendicectomia, nos  hospitais citados, é o mesmo que culpar as árvores pelo incêndio na floresta. Por mais precária que seja a situação material deles, sabemos que possuem recursos técnicos e humanos suficientes para tratamento cirúrgico de apendicite. Por isto, o caso, denunciado pela impressa, não é sintoma apenas de falência material; ao contrário, ele indica, também, a avariose de uma classe que, seduzida pelo falso brilho da especialização e do tecnicismo, vem abdicando-se da formação generalista e perdendo os últimos resquícios  do humanismo que a destinguia.
Mais que uma conseqüência da caótica situação dos serviços públicos de saúde, para o que a classe médica muito tem contribuído, o episódio é um sinal do entorpecimento  dessa mesma classe, que, a passo e passo, se degrada no vício da omissão e estiola os fundamentos tradicionais, que fizeram da medicina a mais peregrina expressão do conhecimento humano.
Não estou fazendo a apologia da misericórdia, nem da filantropia, refiro-me ao humanismo entendido como domínio das humanidades, capaz de moldar o caráter das pessoas a ponto de não se conformarem com esse tratamento desrespeitoso que a sociedade vem dispensando à vida humana. Evidente que no tocante à assistência à saúde, sem embargo do descaso governamental, a situação seria bem diferente se a classe médica tivesse a compreensão da dimensão social da sua ação, e reagisse em uníssono contra essa situação criminosa que aí está . Ao contrário, o que se vê é uma corrida desenfreada em busca da especialidade capaz de prover, em menor tempo, retorno financeiro fácil, não importando qualquer outro valor de ordem moral.
Não há negar saudades do passado; naqueles tempos, se não éramos tecnicamente bem servidos, éramos humanistas, por isto sabíamos compreender o valor da vida, e tudo se fazia para preservá-la, com esmero e cuidado. Hoje, somos tecnicamente bem servidos, mas pobres de humanismo, já não sabemos para que serve a vida, notadamente certas vidas… Estamos brincando com a medicina, e, qual crianças desajeitadas, que não conseguem entender bem o mecanismo dos seus brinquedos e os danificam, a estamos avariando, a estamos maltratando…
Sem a exata consciência da gravidade da conjuntura, deixamos o barco vogar sem rumo o mar da omissão. Como somos incapazes de lhe acertar o curso, nos especializamos em culpar os abrolhos pelo soçobro… Antes, seria bem mais sensato culparmos a nós mesmos pela nossa abstenção danosa, pelo nosso silêncio conformista, por lavar as nossas mãos diante das mazelas que acometem os hospitais públicos, pela nossa insensibilidade em face do sofrimento alheio… Culpemos a nós mesmos pelo ridículo das tabelas de honorários que fazemos, pelos salários aviltantes que concordamos em receber; pela repugnante exploração de médicos empregados por médicos empregadores, por consentir a burla de certas cooperativas médica, que só existem para omitir direitos trabalhistas . Culpemo-nos por consentir a utilização imprópria de estudante como mão-de-obra, para suprir as carências de hospitais, etc. Enfim, culpemos a própria classe por tudo de ruim que ela tem feito à medicina, deteriorando as bases que sustentam o seu prestígio social. Depois, quando tivermos purgada toda a nossa culpa, culpemos os maus governos e quem mais o merecer.
Se os contemporâneos, que viveram épocas melhores, não se rebelam contra esse desvario, que se dirá dos vindouros que são formados em meio a esse caos, retendo, durante estágios nesses hospitais, onde não se opera apendicite sem que a imprensa ameace como o seu “bisturi”, tudo o que se não devia aprender!?
Tornando ao caso, incomoda-me é a certeza de que o garoto da notícia não passaria o que passou, se fosse filho de pai rico, ou com algum prestígio social. Lamentavelmente, isto é a mais pura verdade. Quem ainda não se desvairou nos caminhos da fria especialização, e conservou-se médico, sabe que apendicite é uma emergência, que se resolve satisfatoriamente, ou se complica severamente, a depender da agilidade com que é diagnosticada e tratada, seja em rico ou em pobre. Onde, então, a diferença? A diferença se explica na degradação da formação do médico da atualidade, que o afasta das humanidades e o torna um mero operador de aparelhos, uma máquina de diagnósticos para ser mais preciso. Engendrando essa figura que admite ser a  emergência do rico mais urgente que a do pobre. Que apendicite do rico não pode ser submetida à frieza do ridículo procedimento de “esfriar o processo”, que em palavras francas significa protelar a solução, ou transferi-la para outrem. Ao rico se diz, em face de apendicite, que a operação não pode ser protelada, para que se não corra o risco da supuração, da peritonite, que podem levar à morte. Ao pobre, a pobreza da retórica: apendicite “é urgência e não emergência”; que a prioridade nos hospitais de prontos-socorros são as emergências hemorrágicas, para as quais os centos cirúrgicos se destinam, etc…
Pobre Medicina, tão rica de especialidades, tão rica de tecnologia, tão rica de burocratas, e, paradoxalmente, tão balda de humanismo. Felizes eram os tempos que as faculdades produziam médicos, aquelas figuras, hoje raras, que além das ciências básicas, dominavam, também, as humanidades, por isto eram médicos humanistas. Homens que tratavam o que era necessário tratar, no necessário momento. Hoje é este self-service de especialidades e de aparelhos, que sequer não servem para tratar uma pobre apendicite, de pobre gente… Abundância… Penúria!
Fernando Guedes
Dezembro de 1997