Archive from novembro, 2010
nov 24, 2010 - Poligrafia    4 Comments

Como sempre…

Em agosto próximo passado a sociedade soteropolitana tomou conhecimento, pela mídia, de mais um episódio dessa nossa anárquica saúde pública… Uma criança de oitos anos fora levada do hospital São Jorge ao hospital Roberto Santos, pelo SAMU, para submeter-se a uma tomografia computadorizada do crânio. Feito o exame, este apontou grave hemorragia cerebral, fato que teria levado o médico transportador obter que a criança aí fosse atendida, por um neurocirurgião. Como a burocracia, nesses casos, sobrepõe-se ao socorro, quando se trata de pobre, aquela criança, que fora para fazer apenas uma tomografia, deveria tornar à unidade de origem, que não dispõe de neurocirurgião, para não tumultuar a organização da outra emergência, onde era um estorvo. O médico interveio e começou um ridículo episódio de agressões e desrespeito…

Reportagens dos jornais e uma carta publicada pelo médico na internet dão conta de atitudes que fazem corar o mais bárbaro senso de civilidade. Não sou quem busca a culpa sem me importar com o dolo, e sei quem deliberadamente assume, há muitas décadas, esse risco… Não acho que a imputação de culpa às pediatras, citadas nas reportagens, resolveria o caso. Também, não conhecendo a versão da outra parte, não sei até onde, com culpa, se houve o médico transportador. Essas culpas, contudo, seriam apenas culpas e, a meu juízo, subsidiárias, razão pela qual não revelariam os verdadeiros responsáveis.

Às autoridades, que permitem esse caos que se apossou da saúde publica há longas décadas, imputo toda a responsabilidade. Às faculdades, igualmente, por formarem médicos sem nenhuma visão humanística. À própria classe médica, também, por fingir não ver o que está diante dos seus próprios olhos há muito tempo. Estes são os verdadeiros responsáveis, por assumirem o rico deliberadamente da omissão de socorro.

Sabem como tudo isto principia? Ah! Não sabem? Eu posso lhe dizer um resumo… O acadêmico de medicina da atualidade, esse jovem voluntarioso e educado em regime de nenhum controle, com todas as regalias do conforto, que se embriaga até ao coma nas chopadas da turma, chega, por volta do quinto ano, a um pronto-socorro público para um estágio curricular em emergência médica (qualificado de internato), através de acordo entre Secretaria de Saúde (estadual ou municipal) e a Faculdade, que não envia preceptor (professor universitário) para acompanhar e instruir o aluno…  Este, depois de uma conversa com chefe de plantão, é distribuído para um dos setores do hospital, como mão-de-obra barata, e começa a trabalhar orientado por plantonista, que devia aí exercer regularmente a medicina, mas se extrapola para o exercício ilegal do magistério. Como a medicina é uma técnica, malgrado a pedagogia precária, aprende o que lhe ensina, e o toma como doutrina. Decora, na ponta da língua, consensos e protocolos. Aprende manejar aparelhos; absorve as regras do Advanced Trauma Life Support, com invejável proficiência. Instrui-se, com esmero, na arte dos “esquemas”, isto é: a técnica de desfalcar a equipe fingindo completude. Pergunta-lhe, a esse futuro “especialista”, qual é a diferença entre Ética e Moral, que difere uma norma Deontológica de uma Teleológica, qual a diferença entre a obrigação moral e a social, e se deparará com as duas vítimas desse horroroso contexto: vitima o paciente, porque ludibriada na sua confiança; vitima o estudante, porque ludibriado na sua formação. Alienado completamente das humanidades, segue esse presunçoso futuro “especialista” seu conturbado itinerário…

Tudo isto é sabido, de todos… Tudo isto é consentido, por todos! Antes da colação do grau, em que repete, sem nenhuma convicção, apenas para cumprimento de uma formalidade démodé, uma súmula ridícula do juramento hipocrático, a chopada final, uma espécie de confraternização iconoclasta antes de iniciar a vida profissional assentada sobre nenhuma deontologia. Eis o médico da atualidade: sobre uma riqueza de informações técnicas, uma pobreza humanística!

Não tarda muito, inserido num anárquico mercado de trabalho, onde a terceirização é a regra, com salários ordinários, ei-lo plantonista, contratado pelo REDA ou por uma Cooperativa (médicos explorando o trabalho de médicos), na mesma emergência, que o instruiu. Ali mesmo aprendera uma série de pressupostos, e logo, garboso, com o título Dr. bordado na algibeira  do jaleco, estetoscópio ao pescoço, os coloca em prática: “esta emergência é apenas para tiro e facada” (a cultura hegemônica do sangue!); “este hospital é referência  somente para trauma”; “apendicite é urgência e não emergência”, que pode ficar agudando a peritonite se generalizar, enquanto a regulação não opera a transferência para outra unidade; “fratura fechada, nem falar… nunca foi prioridade”; criança de 12 anos e 1 mês não é com a pediatria (o critério é o tamanho do leito); triagem pode ser feita sem o exame do paciente, que não precisa ser registrado no hospital, para facilitar o processo e não tumultuar o plantão; prontuário incompleto, sem as informações necessárias, sempre foi a regra. Tudo isto induzido e deduzido por médico! Mas, culpá-lo, somente a ele, por estado de coisas, seria o mesmo que culpar as árvores pelo incêndio na floresta. As árvores, que alimentam o incêndio, não o casam…

Os verdadeiros responsáveis pela precária assistência dispensada à criança, que fora declarada morta na terceira emergência (de sua trágica peregrinação), que o coma poupou de cenas estúpidas, jamais serão alcançados na sua responsabilidade. Eles não se mostram; não se vestem em branco; não penduram estetoscópio no pescoço. Estão escondidos nos palácios, nos luxuosos gabinetes, nas diretorias, nas gerências, nas reitorias, nas congregações. Com o jarro e a bacia sempre à sua disposição… E nunca se constrangem em lavar as mãos, como reiteradamente têm feito, em face do sofrimento alheio.

Os jornais noticiaram que o Conselho Regional de Medicina e o Ministério Público abriram sindicância para investir o ocorrido. Não sei se já chegaram a uma conclusão, só sei que nenhuma intimação chegará aos verdadeiros responsáveis, como sempre…

Fernando Guedes

24/11/2010

nov 12, 2010 - Poligrafia    1 Comment

Retalhos

A diferença

Aqui, a prática institucionalizada, com a República, é a dos governantes não assumirem a responsabilidade por seus fracassos… Loteados os cargos, que nem sempre são assumidos pelos melhores, para atender a interesses subalternos da tal governabilidade… Emperram-se os programas, sempre feitos de afogadilho, sem visão de longo prazo, no lamaçal da burocracia e da corrupção. Daí o analfabetismo, a desestruturação da saúde pública, a criminalidade sem controle, a precariedade da infra-estrutura… Pasto virente para o populismo, de que decorrem medidas assistencialistas, para corromper ainda mais e manter o ciclo vicioso ajuda-voto. A culpa será sempre das crises externas, da oposição raivosa, da herança maldita, enfim dos outros. Vão-se os quatriênios, conquistam-se outros, com as mesmas práticas, e ninguém se culpa por nada…

Lá, no norte, a diferença… O Presidente, depois de uma constrangedora derrota nas eleições parlamentares, que lhe causará imensas dificuldades com o Congresso, foi a público e se culpou, a si mesmo, por não ter sido capaz de cumprir, com eficácia, os planos e as reformas anunciadas na campanha eleitoral. Agindo como estadista, embora neófito, o Presidente americano teve a exata compreensão do seu papel, da gravidade da sua responsabilidade, que não transfere, quando fracassa, para a oposição!

A morte santifica

É impressionante o efeito da morte sobre o inconsciente coletivo brasileiro… Cria ela tamanha reviravolta nos sentimentos que, em fração de minutos, se opera a transmutação radical dos contrários. Na política brasileira, o fenômeno, que antropólogos, sociólogos e psicólogos ainda estão por desvendar, é tão acintoso que chega à beira do ridículo. Lembra-se de Getúlio? Recolheu-se, naquela fatídica noite, totalmente fracassado, sem nenhum apoio, atolado, como ele mesmo disse, num mar de lama. Bastou um tiro no peito para se transformar no pai da pátria! O povo, aquele mesmo que não fora capaz de mover uma palha, em seu socorro, agora movia montanha, para vingar-lhe.

A indiferença, que paralisava o povo, transformou-se, em minutos, na violência do quebra-quebra, na expulsão dos “responsáveis”, no clamor diante da serenidade do cadáver…

Em seção do Senado, assistimos à exaltação póstuma de Romeo Tuma, movida por esse sentimento estranho, capaz de transmutar os contrários. Houve quem o comparasse a São Francisco de Assis e, logo, num processo sumaríssimo, pulando o estágio da beatificação, o santificou. A sua família, de tão virtuosa, faria inveja à Sagrada. Fico a imaginar como será o necrológio de Sarney… Deus que se cuide!

Dois juízos…

Uma Dilma, a da campanha, insegura, irritada, gaguejante, sem plano concreto, com idéias vagas, se esquivando de perguntas comprometedoras. Como podia não ser eleita: juízo desfavorável, o primeiro.

Outra Dilma, a eleita, segura, tranqüila, fluente, com plano concreto, focada… A tudo respondendo, sem se esquivar. Agora, presidenta eleita: juízo favorável, o segundo.

Em capa de revista semanal, ela em pose de presidenta empossada… Deturpam-se os fatos, pela impostura: já Dilma, malgrado a Princesa Isabel, a primeira mulher a governar o Brasil…

Para Mayara, baianos…

Tenho acompanhado, pela mídia, a polêmica que causou a declaração depreciativa da estudante de Direito Mayara aos nordestinos, e, sendo nordestino sertanejo, não me senti, de modo nenhum, ofendido pelo impropério. O que deduzi da declaração dessa moça foi a sua precária educação doméstica aliada à sua rudimentar formação humanística. Não sei em que faculdade de Direito ela estuda, mas dá para perceber que não deve ser lá boa coisa… É claro, também, que os ensinamentos de humanidades passaram batidos pelos neurônios dessa senhorita. Ela, antes de ser uma preconceituosa presunçosa, é uma vítima dessa deseducação que grassa no país há muitas e muitas décadas.

Fazer a apologia do Nordeste, para contrapor a visão tacanha dessa doidivanas, diminuindo o Sul, seria também um preconceito estúpido. Acho mesmo que estão dando atenção demasiada a quem jamais compulsou páginas de Ruy Barbosa, de Joaquim Nabuco, de Clovis Beviláqua, de Pontes de Miranda, de Evandro Lins e Silva, de Sílvio Romero, de Tobias Barreto, de Teixeira de Freitas etc., só para ficar no campo do Direito.

O nordestino sabe o papel que lhe coube na formação e no desenvolvimento da nação. Essa senhorita o saberia se fosse boa estudante de história. Aliás, se o fosse, saberia mais: que o melhor do nordeste foi generosamente oferecido aos outros Estados, para o bem, de todos.

Certa feita, numa reunião social no Rio, uma presunçosa carioca inquiriu certo baiano:

– O senhor fala tão bem dessa Bahia, elogia-a tanto, então, por que a deixou e veio para o Rio?

A resposta do baiano foi mordaz:

– Porque lá todos somos baianos, é mais difícil de vencer!

Doutra feita, a dona de uma casa de pensão nas Laranjeiras, onde estava hospedado outro notável baiano, Dr. Antônio Ferreira França, filósofo, matemático e médico, na presença dele, pergunta a uma escrava se limpara o “baiano”, no rio… Referia-se ao urinol ou pinico. Fingindo atentar no Dr. França, pediu-lhe desculpas:

– Perdoe, Senhor doutor, aqui chamamos a estes vasos “baianos”…

Doutor França, percebendo a hipocrisia da carioca, respondeu-lhe, baianamente:

– Está certo, senhora… Quando os tais “baianos” estão cheios, vaza-se o conteúdo deles no Rio…

Fernando Guedes