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fev 8, 2013 - Poligrafia    11 Comments

Santa Maria…

Morro porque não morro.

Santa Tereza de Jesus

 

Um berço tem algo de sepulcro e é a merca  de nossa mortalidade que nos enterra no nascimento.

Bossuet

 

 

Pietà

Nesta sociedade imprevidente, tecnicista, que hospitalizou a morte, para se livrar dos seus transtornos, morrer virou um tabu… Hoje, a iniciativa passou da família, tão alienada quanto o desvivente, ao médico e à equipe hospitalar. São
eles os donos da morte, de seu momento e também de suas circunstâncias (Philippe Ariès). A morte foi transformada num mero fato técnico, deixou de ser um ato, cuja ritualística era presidida pelo desvivente na assembleia de seus parentes e amigos. O desábito cerimonial da morte explica a pasmo que a sua presença causa, mesmo quando se faz anunciar, por indiscretos sinais… Já não se dá conta de que a morte é a meta da vida, que esta se completa quando aquela chega. Não há, aqui, arguir tempo, na dimensão de prolongamento, porque a completude se dá com a morte, inexoravelmente.

A torrente que escorre encosta abaixo, o avião que toma rota errada e cai ou o edifício que o fogo destrói, matando grande número de pessoas, comove, consterna… Se a morte individual, pelo descostume em vivê-la, virou um drama, a coletiva, pelo despreparo emocional, é sempre uma tragédia. Ocasião propicia à eclosão de um espectro sentimental contraditório: da revolta à piedade, tudo… Faz aflorar o contágio por imitação, que induz caráter epidêmico às emoções: quem nada perdeu, por contágio imitativo sente-se perdedor…

Mil pessoas se aglomeram num recinto planejado para seiscentas… Entraram todas pela única porta, que serve, ao mesmo tempo, de entrada e saída. Ali, ao som de acordes dissonantes, bebem e dançam… Não basta! Querem mais, luzes intermitentes, faíscas cintilantes! Tudo isso, enquanto não vira uma tragédia, é normal, coisa da juventude…

Autoridades, empresários, artistas, pais e os próprios jovens, principalmente estes, não veem nada errado nisso… Ah! Os jovens, quem ousa contestá-los! Conselhos? É caduquice de velhotes! A diversão, que seria benéfica à saúde mental, tem, na atualidade, algo de suicida. Mira y López, que os contemporâneos julgam ultrapassado, nesse psicologismo extravagante, foi preciso: Converter a diversão em um frenesi, em uma degradação ou em uma ridícula exibição de insensatez é ainda pior que se entediar. Constato-o, todos os sábados, no meu plantão de emergência!

Uma peça pirotécnica, que lança faíscas à altura do teto, revestido de material combustível, é acesa para incrementar ainda mais a excitação coletiva… As centelhas lançadas, ali presentes as condições da combustão, iniciaram o fogo… Não estavam presentes os meios de combate, todos o sabiam. O fogo gerou o incêndio, que produziu fumo tóxico, em ambiente sem exaustão… A atmosfera venenosamente rarefeita casou a asfixia de muitos, que, por isto, morreram… Outros tantos queimados gravemente… Dão-se, enfim, conta da tragédia! Instala-se o pânico e, no meio deste, sem preparo e equipamentos apropriados, sem nenhuma condição de avaliar risco, improvisam o salvamento de vítimas. Como a imprevidência agrava o risco, morreram tentando salvar…

Mais de duas centenas de mortos são a trágica contabilidade desse episódio, que pode aumentar, à medida que outros, graves, não resistam à injúria respiratória ou às complicações das queimaduras…

Agora, casa caída, a consternação se mistura com a desfaçatez, em busca de explicação para o que já estava explicado desde o início… As tragédias, aqui, se sucedem e nada ensinam, nem às autoridades, nem ao povo, fixado nessa mentalidade de esperar, sempre dependente, pela proteção daquelas…

Agora, ignorado o óbvio, buscam ridículas desculpas para inescusáveis culpas… O Alvará? Vencido! E daí? Agora é tarde… E o extintor de incêndio? Não funcionou! Por que o não verificou antes? Onde as portas de emergência? Não existiam! Que adianta saber disso agora, se todos o sabiam desde sempre? Quantas boates e discotecas há neste país com porta única, para entrar e sair? Quantas!

Agora, chão aberto, prefeito, governador, presidente, ministros se desvelam, como nunca o fazem ordinariamente… Agora, depois da tragédia, falam em estatuto de segurança, em rigor na fiscalização, em código de edificações, em proibição do que nunca devia ser tolerado. Agora… Mont’Alverne diria: É tarde! É muito tarde! Sim, tarde… Como tudo nesta desgraçada nacionalidade, onde nunca se faz coisa senão de má vontade, tarde e mal (Ruy).

Evidente que as circunstâncias desse episódio chocam, revoltam. Evidente que quem perdeu, naquelas condições, o objeto do seu amor, confrontando-se com a realidade dessa dolorosa perda, terá que sofrer o luto, que é somente seu. Espera-se, como é de regra, que esse trabalho lutuoso não venha a comprometer demasiadamente a economia psíquica dos enlutados, levando-os, ao cabo, à reconciliação com seu próprio Eu.

Tenho lido e ouvido avaliações absurdas acerca desse acidente, com os exageros de sempre. A perda familiar, indiscutivelmente, é imensurável, mas essa tragédia é pessoal, dolorosamente individual. Aquela desoladora solidão que Maria, silente, sentiu ao ver o Filho na Cruz pregado… Por ser exorbitante, não é necessária nenhuma hipérbole, para a correta avaliação do sofrimento humano que causou a quem perdeu. Quem ali realmente perdeu certamente não chorou com lágrimas, porque a grande dor enxuga as lágrimas, as congela e as seca. Assim como a luz moderada faz ver e a excessiva faz cegar, a dor, que não é excessiva, rompe em vozes; a excessiva emudece (Vieira).

Analisando os impactos emocionais da tragédia, um psicólogo, pela televisão, afirmou, entre outros juízos, ser antinatural uma mãe ter que sepultar seu filho…  É engano, porque a natureza mesma da morte rejeita a sequencia calendárica!  Exemplo dos exemplos: Maria sepultou Jesus! Aquela espada que Simeão previu transpassando-lhe o peito é a mesma que agora fere o peito das Mães de Santa Maria. Quanta aproximação!… Quem teve a oportunidade de se deter diante do magnífico mármore de Michelangelo, em que Maria toma o filho morto no regaço (Pietà), e observou a serenidade daquele rosto angelical, entenderá o que a psicologia nunca saberá explicar…

O doce Virgílio, disse Unamuno, em página magistral Del sentimiento trágico de la vida,  nos faz ouvir as vozes e os vagidos queixosos das crianças que choram à entrada do inferno (Eneida, Canto VI). Crianças roubadas ao seio materno, para serem mergulhadas na morte cruel… Deixando a essas mães o eternal pranto de sua dor!

Não obstante tudo isso, não é essa tragédia única, nem mais extensa, nem mais dolorosa que outras tantas, que ocorrem na sombra da indiferença, que não viram manchetes, que não despertam o interesse de ninguém… Se os pulmões foram o alvo na tragédia de Santa Maria, eles o são na tragédia diária da tuberculose, que matou, nos últimos 10 anos, cerca de 50.000 brasileiros, numa média de 4.913 mortes por ano. Santa Maria teria que se repetir 20 vezes, para matar o que a tuberculose mata a cada ano, sem despertar nenhuma emoção, sem causar nenhum constrangimento…

Não sou quem busca as aproximações, são elas, caro leitor, que se me apresentam… Assim é inevitável tornar a Unamuno, à conclusão de La agonía del cristianismo: Santa Maria, Mãe de Deus, roga por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Agora, agora, que é a hora de nossa agonia.

 

Fernando Guedes

6/2/2013

 

abr 11, 2011 - Médicos    4 Comments

Reflexão sobre a tragédia de Realengo…

“Em pessoas como Petrov o juízo só impera enquanto não chega uma tentação, pois, quando esta surje, não há obstáculo que interrompa sua força”.

Fiódor Dostoievski

Recordação da Casa dos Mortos


“Existe, por exemplo, um tipo de criminoso que é até freqüentemente: aquele homem que vive em paz com todos, aceitando seu destino com paciência. Mas algo inesperado acontece, algo dentro dele se perturba, e ele, subitamente, mata um inimigo ou opressor. É quando esse homem destrambelha de vez.”

Fiódor Dostoievski

Recordação da Casa dos Mortos

 

Uma perturbação qualquer, dos sentidos ou da inteligência, deve existir na grande maioria dos delinqüentes no momento de cometer o crime.

José Igenieros

 

 

Os brasileiros somos, sem nenhuma dúvida, uma nacionalidade ufanista: nosso céu tem mais estrelas, nossos bosques têm mais flores, nossa vida mais amores e até os nossos loucos  têm mais juízo… Seria de se esperar, como esperam os incautos, que aqui, neste paraíso abençoado por Deus, nada de ruim viesse acontecer. Até que, como o raio que cai em tarde de verão, fulminado o que encontra na sua trajetória errática, abate-se-lhe, de quando em quando, uma tragédia… Colhendo-os na imprevidência do comportamento, no lapso de sua curta memória, deixa-os embasbacados: como pôde isto acontecer? Simplesmente acontecendo, uma após outra, já esquecida a passada…

Nos últimos dias tive que ouvir os mais disparatados juízos sobre a tragédia de Realengo… Nunca vi, reunidas, tantas besteiras, tantas imposturas, tantas opiniões contraditórias, tanta exploração política, tanta hipocrisia, suscitadas por um fato lamentável, que não passa de um sintoma claríssimo de avariose psicossocial.

Não sendo alienista, com que base emitiria a minha opinião? Relendo a introdução que Dr. Augusto Costa Conceição escreveu para a edição de 2008 de Paranóia, de Afrânio Peixoto, encontrei o meu roteiro… Disse o eminente psiquiatra: Talvez, da mesma forma que Ana Maria Machado sugere a leitura em voz alta de Guimarães Rosa, devêssemos propor a leitura de Paranóia em voz alta e em audiência pública. Substituirei essa leitura pela transcrição de segmentos da obra, para que sejam lidos e assimilados pelos que, como eu, imbuídos de bons propósitos, desejam opinar com acerto.

Creio que ao autor da tragédia de Realengo não fizeram, em vida, o correto diagnóstico. Não será possível, na morte, fazê-lo jamais. Tudo o que se disser serão apenas ilações, suposições aproximadas, que não desvendarão a natureza do seu transtorno mental. Ao contrário das patologias orgânicas, cujos sinais sobrevivem à morte, podendo ser revelados pela necropsia com exatidão, as patologias do espírito morrem definitivamente com a morte do corpo. Não há como se fazer o diagnóstico no cadáver, se ele não foi, em vida, feito.

Agora, nesse tumulto induzido pelas luzes da mídia sensacionalista, será “um verdadeiro estado de Babel ou confusão psiquiátrica, em que a gente se arrisca, no fim, a não sair à luz com uma idéia definida”. Esquizofrenia paranóide ou simplesmente Paranóia (Transtorno delirante)? Louco criminoso ou criminoso louco? Que diferença faz agora? Alguns positivistas radicais quererão, inutilmente, saber… Será indiferente.

“A humanidade foi a mesma e a mesma seria, se a vida mesológica – física e civil – nos não viesse deformando, alterando, adaptando ao ambiente do mundo. Cada criança que nasce é socialmente comparável ao primeiro homem; o Eu lhe vem hipertrofiado, e a julgar pela ampliação possível, sem as restrições modificadoras, cada uma seria comparável a um louco ou a um criminoso; é a educação, a disciplina, a cultura, que as submetem, modificam, adaptam, dando-lhes por fim essa identidade ética que é apenas o aspecto moral daquela identidade social, de que fala TARDE”. Neste passo, o mestre baiano foi lapidar, colocando por terra a quimérica presunção de Rousseau: o homem naturalmente bom. Numa entrevista, totalmente transtornado pela emoção, o governador do Rio qualificou o autor de “animal”. Sim, animal como todos nós, inclusive nas animalescas atitudes, quando a civilização e a educação não cumprem o seu dever de corrigir o animal que há em todos nós.

“O altruísmo não é uma aquisição definida e já somática: é apenas uma espécie de contrato a que nos submetemos tacitamente ao partilhar a vida social, que nos impõem; e não serão raras as infrações do pacto”. Como vemos, na atualidade, amiúde, o rompimento unilateral desse contrato…

“No paranóico houve apenas a persistência desse originário modo de ser, por deficiência de educação, de treinamento, de cultura…; o subjetivismo primitivo cresceu com o indivíduo, vive com ele e é a seu través que ele julga o mundo exterior. Nós também o julgamos, mas nós somos como as lentes, corrigidas das aberrações; eles não, não têm correção alguma, e eram, e crescem, e ficam vendo, pois, tudo diferente. O mundo não se adapta a nós, porque nós bem podemos ver que esta adaptação não é possível: conformamo-nos e nos adaptamos a ele; o paranóico não pode ver assim: o mundo não se adapta a ele, porque o mundo está errado, e tenta corrigir, isto é, adaptar tudo à sua vontade, porque jamais pode pensar em si para o mundo, mas no mundo para si”. Se o diagnóstico, do autor da tragédia de Realengo, era ou não Paranóia, aqui não importa; o que importa, aqui, é a perfeição com que o mestre baiano, carioca adotivo como Francisco de Castro, Barata Ribeiro, Bonifácio de Abreu, Monteiro Caminhoá, Pedro Severiano Magalhães, Clementino Fraga etc., fixou o clássico conceito dessa inadaptação às circunstâncias, decorrente da perturbação mental. O homem é o que é e suas circunstâncias (ORTEGA Y GASSET). Circunstâncias: todo o conjunto mesológico que o rodeia, que o influencia, que o determina… Assim, considerar apenas o homem alienado de suas circunstâncias é entendê-lo pela metade, ou mesmo não entendê-lo de forma alguma. Será que indivíduo que delinqüiu em Realengo foi alguma vez, na infância, na adolescência, na vida adulta, observado, considerado em face de suas circunstâncias? Certamente não!

E vai adiante, nas suas lúcidas considerações: “o fato é que, com eles (com esses doentes mentais) nos encontramos freqüentemente, dos casos frustos àqueles ainda equilibrados que são chamados de excêntricos, vaidosos, originais” e eu acrescento estranhos, calados, tímidos etc., que se fossem cuidadosamente observados, tratados tempestivamente, certamente não chegariam a estágios tão degenerados da função mental, que os impulsionam, não raramente, para a completa perda da ração, com que praticam essas tragédias que a mim não me causam surpresa nenhuma.

Alias, não sei por elas tardam tanto em acontecer, dada ignorância e irreposnabilidade com que a saúde mental vem sendo conduzida há muito tempo neste País. Cabe aqui, como uma luva em mão certa, este outro passo: “Roto o equilíbrio, a vida do paranóico é esta eterna luta de ação e reação incessantes, que o transformam no mais incômodo e mais perigoso dos insanos. Numa faina irrequieta, falando, movendo-se, escrevendo, argumentando, ou concentrado, remoendo pensamentos, criando e rebatendo objeções, sempre preso nas malhas de uma oposição a tudo e a todos, porque tudo lhe é hostil, é verdadeiramente surpreendente como atravessam anos e anos sem considerável depauperamento da inteligência”. Talvez aqui, quem sabe, não seja assim apenas ufanismo que os nossos loucos tenham mais juízo…

“De sorte, se a reação não vem imediata, eles procuram um abrigo mais seguro; por isto, não podem ficar parados em lugar nenhum, são andarilhos; quando não podem mudar de terra, mudam de bairro, mudam de casa, mudam de quarto, mudam de hábitos”, até quando “uma motivação explícita, sua idéia contrariada e tornada fixa, promove e instala definitivamente a perseguição com todo o seu cortejo de circunstâncias agravantes, endógenas e exógenas, de alucinações e falsas interpretações, – rebatida na suposta agressão, promovida na desforra correlata, num ciclo vicioso eterno. Nesse caminho nem mesmo carece, mais adiante, de quem lhe sirva de oponente: o Eu paranóico, desequilibrado, se basta; vive numa ruminação continua: é um longo diálogo em que há um interlocutor silencioso, que opõe dúvidas e restrições débeis, e o doente propriamente, que fala às vezes alto, imperativamente, rebatendo com vantagem as dúvidas auto-sugeridas.”

Ignorada, desdenhada, não atalhada, a doença segue seu curso natural até ao fim, com a reação contra o meio (circunstâncias): “Início das perturbações aparentes. Perseguição ativa ou passiva, ou ativa e passiva, mais comumente.” Daqui, penso, não há volta, diga-o Realengo.

Se não foram capazes de observar isto antes (entendo todas as dificuldades) e não são capazes de entender agora, é preciso dizer besteiras ao povo: atentado terrorista; conluio com grupo fundamentalista, obsessão religiosa; comércio legal de armas, tráfico de armas etc. etc. Pequices de políticos irresponsáveis e de irresponsáveis (de todas as classes) “politicamente corretos”. Um doente mental, que devia estar submetido a tratamento, sob observação médica, estava, no seu desvario, sem nenhum controle, ruminando sua atroz vingança. Executou-a disparando a esmo contra aqueles “temíveis adversários” (pobres crianças indefesas) engendrados por sua mente doentia. Cumpria executá-la e a executou, sob meticuloso planejamento próprio. Como as autoridades não têm o que dizer, na ausência de um culpado mais convincente, culpam as armas, pouco importando o estado mental que põe em ação do dedo que puxa o gatilho.

 

Fernando Guedes

11/4/2011