Archive from agosto, 2009
ago 31, 2009 - Poligrafia    No Comments

Euclides da Cunha

Não será uma súmula biográfica. Não farei uma crítica literária. Não abordarei sobre sua trágica morte, um século depois dela. Sobre esses aspectos já escreveram os biógrafos, os críticos literários, os jornalistas… Sendo apenas um admirador incondicional dOs Sertões, obra que a meu juízo dispensa qualquer espécie de crítica, busquei, nos meus arquivos, algum episódio que pudesse, neste centenário de sua morte, traçar, de forma inédita, a estatura desse grande brasileiro que é Euclides da Cunha (o verbo foi de propósito no presente). É um episódio amazônico, narrado, com o título de Símbolo do Brasil, assim por Afrânio Peixoto (In Parábolas, tomo XII, da edição W. M. Jackson, 1947):

“No Curanja, Alto Purus, confins do Amazonas, um dia, certa comissão peruana mandada a encontrar-se com outra, brasileira, para demarcação de limites, depois de longas discussões e susceptibilidades, naturais a dois povos vizinhos que desejam o mesmo trato de terra, pôs, finalmente, termo aos seus trabalhos, convidando-nos para uma festa de despedida.

Euclides da Cunha representava o Brasil. Com seus companheiros de missão fora recebido, cercado das deferências devidas, no acampamento dos estrangeiros, que os levaram ao salão do banquete, magnífico salão improvisado na floresta, recinto de verdura e de ramagens, palmas e palmeiras da mata, a que apenas a mesa do festim e as bandeiras, que o enfeitavam, compunham um aspecto civilizado. Olhou em roda Euclides, procurando entre as outras que se ofereciam à vista as cores nacionais e… não as encontrou… Fora omitido o pavilhão brasileiro!

Mal lhe sofreu o ânimo esperar pelo desagravo, mas esperou, vencendo-se, para honrar a missão que lhe confiaram. Quando chegou, porém, a vez dos brindes, das palavras amenas de confraternidade internacional, da evocação dessa Sul América em que somos como irmãos na mesma família, explicaram os estrangeiros, pedindo desculpas, não estar ali, entre tantas amigas, a bandeira nacional, porque não viera nas suas provisões…

Do Peru haviam trazido todos os pavilhões americanos e, vindo para o Brasil, não trouxeram o brasileiro. Não era, pois, ofensa por omissão; talvez fosse ironia, de esquecimento; com descortesia, por descuido. Euclides da Cunha empunha então a taça e, sem alusão às escusas, louva os peruanos que acabara de dar a nossa Pátria a mais formosa expressão de deferência. Não a quiseram representar por um pedaço de pano colorido, retalho de polidez, ou simples agrado à vista, que se adquire nas lojas, por algumas moedas, sem emoção, quando é um estrangeiro que a adquire. Vindos aos Brasil não entenderam trazer-lhe os seus hóspedes mais um trapo comprado; num requinte de cavalheirismo e galhardia buscaram na própria terra brasileira um símbolo nobre e direito que a representasse, na glória, de luz e de esperança, de suas cores nacionais: eram aquelas palmas todas, todas aquelas palmeiras, que os cercavam e onde se desbotavam, por contraste, todos os outros pavilhões americanos. No caule liso e altivo, apontando para o céu, estava bem a lança do nosso pendão, representando os desígnios do Brasil na América do Sul, e no mundo, onde só desejamos expansões para as alturas do nosso ideal. Soerguidas, acima dos interesses rasteiros, no tope que procura o azul, bem estavam as palmas auriverdes, cores da nossa bandeira, onde o esplendor da rica natureza se acrescenta à esperança forte da gente, nas certezas que nos promete o nosso destino, confiança que se vai realizando…

Cada palmeira alta e nobre, lisa e direita, coroada de raios e de palmas, de flâmulas e de bênçãos, é um símbolo do Brasil! Bendito e perfeito, símbolo de minha terra!”

Brasil, símbolo de si mesmo, visto com a majestade selvagem que viu Euclides, no início do século passado, nos confins do Amazonas… Euclides: engenheiro, escritor, sociólogo, antropólogo… cultura, diplomacia… Isto é passado, que subsiste apenas nas páginas que o imortalizaram.

Fernando Guedes

31/8/2009

Não será uma súmula biográfica. Não farei uma crítica literária. Não abordarei sobre sua trágica morte, um século depois dela. Sobre esses aspectos já escreveram os biógrafos, os críticos literários, os jornalistas… Sendo apenas um admirador incondicional dOs Sertões, obra que a meu juízo dispensa qualquer espécie de crítica, busquei, nos meus arquivos, algum episódio que pudesse, neste centenário de sua morte, traçar, de forma inédita, a estatura desse grande brasileiro que é Euclides da Cunha (o verbo foi de propósito no presente). É um episódio amazônico, narrado, com o título de Símbolo do Brasil, assim por Afrânio Peixoto (In Parábolas, tomo XII, da edição W. M. Jackson, 1947):
“No Curanja, Alto Purus, confins do Amazonas, um dia, certa comissão peruana mandada a encontrar-se com outra, brasileira, para demarcação de limites, depois de longas discussões e susceptibilidades, naturais a dois povos vizinhos que desejam o mesmo trato de terra, pôs, finalmente, termo aos seus trabalhos, convidando-nos para uma festa de despedida.
Euclides da Cunha representava o Brasil. Com seus companheiros de missão fora recebido, cercado das deferências devidas, no acampamento dos estrangeiros, que os levaram ao salão do banquete, magnífico salão improvisado na floresta, recinto de verdura e de ramagens, palmas e palmeiras da mata, a que apenas a mesa do festim e as bandeiras, que o enfeitavam, compunham um aspecto civilizado. Olhou em roda Euclides, procurando entre as outras que se ofereciam à vista as cores nacionais e… não as encontrou… Fora omitido o pavilhão brasileiro!
Mal lhe sofreu o ânimo esperar pelo desagravo, mas esperou, vencendo-se, para honrar a missão que lhe confiaram. Quando chegou, porém, a vez dos brindes, das palavras amenas de confraternidade internacional, da evocação dessa Sul América em que somos como irmãos na mesma família, explicaram os estrangeiros, pedindo desculpas, não estar ali, entre tantas amigas, a bandeira nacional, porque não viera nas suas provisões…
Do Peru haviam trazido todos os pavilhões americanos e, vindo para o Brasil, não trouxeram o brasileiro.  Não era, pois, ofensa por omissão; talvez fosse ironia, de esquecimento; com descortesia, por descuido. Euclides da Cunha empunha então a taça e, sem alusão às escusas, louva os peruanos que acabara de dar a nossa Pátria a mais formosa expressão de deferência. Não a quiseram representar por um pedaço de pano colorido, retalho de polidez, ou simples agrado à vista, que se adquire nas lojas, por algumas moedas, sem emoção, quando é um estrangeiro que a adquire. Vindos aos Brasil não entenderam trazer-lhe os seus hóspedes mais um trapo comprado; num requinte de cavalheirismo e galhardia buscaram na própria terra brasileira um símbolo nobre e direito que a representasse, na glória, de luz e de esperança, de suas cores nacionais: eram aquelas palmas todas, todas aquelas palmeiras, que os cercavam e onde se desbotavam, por contraste,  todos os outros pavilhões americanos. No caule liso e altivo, apontando para o céu, estava bem a lança do nosso pendão, representando os desígnios do Brasil na América do Sul, e no mundo, onde só desejamos expansões para as alturas do nosso ideal. Soerguidas, acima dos interesses rasteiros, no tope que procura o azul, bem estavam as palmas auriverdes, cores da nossa bandeira, onde o esplendor da rica natureza se acrescenta à esperança forte da gente, nas certezas que nos promete o nosso destino, confiança que se vai realizando…
Cada palmeira alta e nobre, lisa e direita, coroada de raios e de palmas, de flâmulas e de bênçãos, é um símbolo do Brasil! Bendito e perfeito, símbolo de minha terra!”
Brasil, símbolo de si mesmo, visto com a majestade selvagem que viu Euclides, no início do século passado, nos confins do Amazonas… Euclides: engenheiro, escritor, sociólogo, antropólogo… cultura, diplomacia… Isto é passado, que subsiste apenas nas páginas que o imortalizaram.
Fernando Guedes
31/8/2009
ago 23, 2009 - Poligrafia    3 Comments

Opasch ou a Ética do Princípio…

Escreveu, no ensaio Ética e Política, Norberto Bobbio, que há duas éticas: a dos princípios e a da finalidade. Esta, a da finalidade, é a que remete seu seguidor a perscrutar as conseqüências dos seus atos, antes da ação. A outra, dos princípios, é a que leve o seu seguidor a não se importar com as conseqüências dos atos que pratica, porque só os pratica se estiverem consonantes com os seus princípios morais.

Não há, aqui, argüir qual delas é a mais conveniente, porque não é esta a finalidade da Filosofia Moral. Bobbio nos deixa claro que é besteira ficar-se imaginando o político agir de acordo com a ética dos princípios… Escreveu, o eminente milanês: “O problema das relações entre ética e política é mais grave porque a experiência histórica mostrou, ao menos desde o contraste que contrapôs Antígona a Creonte, e o senso comum parece ter pacificamente aceitado, que o homem político pode se comportar de modo dissonante da moral comum, que um ato ilícito em moral pode ser considerado e apreciado como lícito em política, em suma, que a política obedece a um código de regras, ou sistema normativo, que não se coaduna e em parte é incompatível com o código de regras, ou sistema normativo da conduta moral”, e cita, no mesmo admirável texto, esta impiedade de Croce: “Outra manifestação da vulgar inteligência acerca das coisas da política é a petulante exigência que se faz de honestidade na vida política”. E por aí vai… Para encerrar esta despretensiosa inserção bobbiana, remato assim: “A ética política se torna assim a ética do político e, como ética do político e portanto ética especial, pode ter seus justificados motivos para aprovar uma conduta que o vulgo poderia ver como imoral mas que o filósofo vê simplesmente como o necessário conformar-se de indíviduo-membro à ética do grupo”. Por imediatamente contemporâneo, não autorizo nenhuma inferência, do que aqui escrevo, que possa me ligar a uma justificativa do que ora se passa, por exemplo, no Senado, porque aquilo é fruto de um sistema pernicioso e permissivo, que vem infelicitando esta República desde a sua infância…

Quem acompanha a telenovela Caminho das Índias, da opositora da outra, assistiu a um inusitado comício político: Puja, intocável, disputa com Opasch, homem de casta, uma vaga parlamentar. Da casa de Opasch sumira um objeto de estimação, ligado à sua crença religiosa, a que se atribuiu roubo perpetrado por Hari, neto da oponente de Opasch, com que estava o tal objeto. Em face dos princípios que ditam as condutas morais daquele povo, aí estava a oportunidade de Opasch, denunciando publicamente o roubo, no palanque do comício, reverter, em seu favor, a eleição, que já considerava ameaçada pelo crescimento de sua oponente. Certo do roubo, estava decidido, e faria a denúncia. A oponente, orientada, para não expor, ainda mais, o menino, preferiu retirar a sua candidatura. É neste exato momento que o Brasil, que não lê, que não estuda, ficou sabendo distinguir as éticas. Anusha, neta de Opasch, em que se manifestou o luminoso sentimento do primeiro amor, esse que surge na madrugada da existência, vai ao ouvido do avô e lhe confessa que foi ela que deu aquele objeto ao menino: ele não o roubara! Opasch, então, revela-se não um político, mas um homem que se orienta por princípios morais: não tem porque medir conseqüência, a de colocar em risco a sua eleição, e revela toda a verdade: – esse menino não é um ladrão!
Não sei se essa, de fazer a distinção das éticas, era a intenção da autora, mas, pensando em demonstrar que o político deve agir baseado em princípios morais, o que é um erro, demonstrou, ao cabo, que a sua personagem não será nunca um político.
Escreveu, no ensaio Ética e Política, Norberto Bobbio, que há duas éticas: a dos princípios e a da finalidade. Esta, a da finalidade, é a que remete seu seguidor a perscrutar as conseqüências dos seus atos, antes da ação. A outra, dos princípios, é a que leve o seu seguidor a não se importar com as conseqüências dos atos que pratica, porque só os pratica se estiverem consonantes com os seus princípios morais.
Não há, aqui, argüir qual delas é a mais conveniente, porque não é esta a finalidade da Filosofia Moral. Bobbio nos deixa claro que é besteira ficar-se imaginando o político agir de acordo com a ética dos princípios… Escreveu, o eminente milanês: “O problema das relações entre ética e política é mais grave porque a experiência histórica mostrou, ao menos desde o contraste que contrapôs Antígona a Creonte, e o senso comum parece ter pacificamente aceitado, que o homem político pode se comportar de modo dissonante da moral comum, que um ato ilícito em moral pode ser considerado e apreciado como lícito em política, em suma, que a política obedece a um código de regras, ou sistema normativo, que não se coaduna e em parte é incompatível com o código de regras, ou sistema normativo da conduta moral”, e cita, no mesmo admirável texto, esta impiedade de Croce: “Outra manifestação da vulgar inteligência acerca das coisas da política é a petulante exigência que se faz de honestidade na vida política”. E por aí vai… Para encerrar esta despretensiosa inserção bobbiana, remato assim: “A ética política se torna assim a ética do político e, como ética do político e portanto ética especial, pode ter seus justificados motivos para aprovar uma conduta que o vulgo poderia ver como imoral mas que o filósofo vê simplesmente como o necessário conformar-se de indíviduo-membro à ética do grupo”. Por imediatamente contemporâneo, não autorizo nenhuma inferência, do que aqui escrevo, que possa me ligar a uma justificativa do que ora se passa, por exemplo, no Senado, porque aquilo é fruto de um sistema pernicioso e permissivo, que vem infelicitando esta República desde a sua infância…
Quem acompanha a telenovela Caminho das Índias, da opositora da outra, assistiu a um inusitado comício político: Puja, intocável, disputa com Opasch, homem de casta, uma vaga parlamentar. Da casa de Opasch sumira um objeto de estimação, ligado à sua crença religiosa, a que se atribuiu roubo perpetrado por Hari, neto da oponente de Opasch, com que estava o tal objeto. Em face dos princípios que ditam as condutas morais daquele povo, aí estava a oportunidade de Opasch, denunciando publicamente o roubo, no palanque do comício, reverter, em seu favor, a eleição, que já considerava ameaçada pelo crescimento de sua oponente. Certo do roubo, estava decidido, e faria a denúncia. A oponente, orientada, para não expor, ainda mais, o menino, preferiu retirar a sua candidatura. É neste exato momento que o Brasil, que não lê, que não estuda, ficou sabendo distinguir as éticas.
Anusha, neta de Opasch, em que se manifestou o luminoso sentimento do primeiro amor, esse que surge na madrugada da existência, vai ao ouvido do avô e lhe confessa que foi ela que deu aquele objeto ao menino: ele não o roubara! Opasch, então, revela-se não um político, mas um homem que se orienta por princípios morais: não tem porque medir conseqüência, a de colocar em risco a sua eleição, e revela toda a verdade: – esse menino não é um ladrão!
Não sei se essa, de fazer a distinção das éticas, era a intenção da autora, mas, pensando em demonstrar que o político deve agir baseado em princípios morais, o que é um erro, demonstrou, ao cabo, que a sua personagem não será nunca um político.
Fernando Guedes
23.08.2009