fev 24, 2011 - Poligrafia    4 Comments

Mínimas e máximas, do Mínimo…

Si no se tiene clara noción de los problemas, mal se puede proceder a resolverlos.

Ortega y Gasset

Encontro-me, atualmente, num estranhíssimo processo de adaptação em face do Senado Federal… Não é fácil, depois de acostumado, por longuíssimos anos, às figuras de Mão Santa, Heráclito Fortes, César Borges, Efraim Moraes, Marco Maciel, me deparar com outras novas, mais estranhas ainda, na estréia do mínimo…

Sarney, que anda a tirar sarro pelo twitter, como um velho camaleão, que se adapta com aquele mimetismo singular, às hostilidades do meio, conseguiu logo manter-se, sem muita discussão, na presidência. E, sorrateiramente, elegeu Marta Suplicy, com a sua coleção de botox, a Mão Santa desta legislatura…

Passando com toda a facilidade pela Câmara dos Deputados, como queria o governo, o projeto que fixa o valor do salário mínimo e estabelece sua política de recuperação monetária em médio prazo foi ontem debatido e votado no Senado. O Governo sustentava que o valor de R$ 545,00 era compatível com os controles das contas públicas e do déficit da Previdência. Justificou-se, como sempre alega quando não quer fazer, com a “responsabilidade fiscal”…

Essa coisa que aqui se chama de “oposição”, poucos gatos pingados insatisfeitos por não estarem no poder, apresentaram duas propostas: uma de R$ 600,00 e outra e R$ 560,00, que foram, como aconteceu na Câmara, rejeitadas sumariamente. O interessante foram as abstenções, que dizem o suficiente dessas personalidades omissoras.

Houve de um tudo… Os costumeiros, reiterados e abusivos descumprimentos do Regimento Interno. Favorecimentos de uns em detrimento de outros. Tolerância para com uns e intolerância para com outros. Desrespeitos mútuos, conversas paralelas, até insultos… Nas galerias, interessados em ganharem R$ 15,00 ou R$ 55,00 a mais, eram contidos pela campaninha e pela voz dissonante da Mão Santa desta legislatura: – É proibida a manifestação!

Como a moral que os orientam, governistas e “oposicionistas”, é utilitária, compreende-se, com sensível clareza, que a sua ética jamais será a dos princípios. Se ex-presidentes da “república” (adrede, como diria Euclides da Cunha, entre aspas e com erre minúsculo) decidem ir para o Senado não é, aqui, por desprendimento, nem para servirem à Pátria. É, simplesmente, para atanazar o governo, se for “oposicionista”, ou para manipular segmento de poder, se governista.

Por isto essa antinomia de, no governo, defender, com veemência, a responsabilidade fiscal, para não conceder R$ 15,00 ou R$ 55,00 de aumento; na “oposição”, utilizar os mesmos números, os mesmos dados, a mesma desfaçatez, para propor o reles aumento… Os petistas de ontem são os peessedebistas de hoje. O fel, que essa gente destilava, em passado próximo, para defender o que hoje condena, é o mesmo que hoje os outros destilam, em sentido inverso. Coisas da política? Não, coisas de uma civilização incapaz, capaz atirar pérolas aos porcos.

Essa mesma que se gaba de seu chefe ignorante, que se refere ao outro como “doutor” por escárnio à cultura… Essa que acha que o Brasil é criação desse petismo sectário. Que não é capaz de compreender, minimamente, o desastre dessa política assistencialista, que aprofunda ainda mais a vagabundagem que estiola, nos grotões somente visitados em campanhas eleitorais, o sentido sociológico do trabalho.

Essa a quem tudo o que é de cultura, de pensamento, de raciocínio, de visão positiva, de análise de realidades, não passa, para sua medíocre política, de literatura inútil. Essa que confunde cultura com erudição; pensamento com literatura; política com politicagem; governo com administração; estadista com técnico especializado; inteligência com esperteza; coerência doutrinária com coerência partidária; fidelidade de princípios com fidelidade de pessoas; e nenhuma atitude é compreendida sem que se origine de algum interesse pessoal.

Não sendo diferentes os outros, os dessa “oposição” igualmente incapaz, é inútil insistir na crítica… Torno ao mínimo.

Eu, que o pago como fruto do meu honesto e sacrificante trabalho, a dois empregados, sei que pesa pagá-lo, por isto é-me fácil entender a hipocrisia daquelas figuras que ontem defenderam, da tribuna do Senado, tese contrária à do governo. Assistir aos governistas de hoje defenderem a responsabilidade fiscal, visando à aprovação de sua tese, é mais coerente obras dessa estranha arquitetura política: hoje eu, amanhã você, ou o utilitarismo elevado ao egoísmo ético.

Fernando Guedes

24/2/2011

4 Comments

  • Primo,no contexto de uma sociedade de classes conflituosa e contraditória como a nossa, todas as atitudes são eminentemente politica.A nossa falta de sorte consiste nos analfabetos politicos, que se distanciam cada vez mais da constução de uma sociedade livre, justa e solidaria.
    Necessário se faz ,que o homem deixe de comercializar as suas ações,e, que busque os valores éticos e morais que se perderam no tempo.

    Muito bom o seu artigo.

  • você como sempre analisa as questões politícas com muita clareza e insenção politica partidária, o que não acnontece na Câmara e Senado Federal onde os interesses de grupos soprepõe aos da coletividade. Também pudera, o que podemos esperar de um “camaleão” como o Sarney na presidencia do Senado?

  • Bom Dia Fernando,

    Gostei de seus comentários, é sempre bom interagir propositivamente. Doravante posso te mandar algumas sugestões?

    Um abraço,

    Hélio Ortega.

  • Caro Fernando, bom dia.

    Tenho em mente o quanto seria positivo para a sociedade e para o País, a ocupação do espaço, justo e merecido, por pessoas com quem tenho o privilégio de conviver e logicamente conhecer.

    Você é uma dessas pessoas. Tem uma contribuição positiva extraordinária.

    Parabéns pelo conteúdo do seu comentário e pela construção do texto.

    Sobre o mérito, depois de batalhas desiguais enfrentadas durante 25 anos, no cenário que você tão bem descreve, por convicção que o tempo nunca abalará, não encontro, ainda, motivação para comentários a altura.

    Um abraço,

    Glauco

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