jul 26, 2011 - Riacho de Santana    3 Comments

Carvão…

 

Pois é exatamente disso que trata essa última versão da ecologia, em que se presume que o antigo “contrato social” dos pensadores políticos dê lugar a um “contrato natural” no qual o universo inteiro se tornaria sujeito de direito: não mais o homem, considerado o centro do mundo e precisando antes de mais nada ser protegido de si mesmo, mas o cosmos em si é que deve ser defendido dos homens.

Luc Ferry, in A Nova Ordem Ecológica

 

Em julho de 2000, portanto há mais de uma década, no artigo Carvão: Prosperidade ou Inconsciência Ecológica, que está publicado aqui mesmo, neste Blog, denunciei produção ilegal de carvão vegetal no município de Riacho de Santana. Nenhuma providência visando à proibição desse nefasto negócio, com a conseqüente punição dos envolvidos, foi tomada, deixando prosperar o crime com eficácia…

Permita-me, prezado leitor, um parêntese de ordem técnica: para se produzir o aço, para as diversas utilidades industriais, o minério de ferro, estado que esse metal é extraído da natureza, deve ser convertido em ferro-gusa, pela oxirredução com carbono. A fonte de carbono é, no caso que estou tratando, o carvão vegetal. Em última análise, o produto final é uma liga de ferro e carbono, onde este elemento colabora apenas 4% a 4,5%. Essa pequena proporção é a responsável, nesse processo industrial arcaico, pelo negócio do carvão ilegal, que vem talando, há décadas, a caatinga e o cerrado.

É fácil perceber, em Riacho, que são os responsáveis por esquema que garante a siderúrgicas irresponsáveis a cota de carbono, com a qual faz a prosperidade dos industriais. Desse rol não escapam as autoridades locais. Todos, de cabo a rabo, envolvidos, direta ou indiretamente, neste crime contra o meio ambiente, portanto contra a sociedade. Para minha tristeza até parentes e amigos meus pelo meio…

O argumento é o mais sínico que existe: “se parar com o negócio do carvão muita gente passará fome!” Aí, seguindo essa lógica ridícula, “prospera” meia dúzia de espertos, gente sem nenhum escrúpulo moral, acostumada com o erro e com corrupção, que facilmente recruta, na camada social mais carente, a sua mão-de-obra, para derrubar a mata subsistente, queimá-la e ensacar seu produto…

Entrementes, no escritório da cabeça, manipula-se a ATPF (cotada, segundo matéria  dA Tarde, a R$ 1.000,00), num processo intricado pelo envolvimento de numerosos segmentos de interesse: prepostos das siderúrgicas, agentes do IBAMA, da Secretaria de Meio Ambiente, Policia Rodoviária, espias e gerentes de desvios etc. Uma frota de caminhões, de diversos proprietários, está à disposição do negócio, por fretamento. O sistema criminoso se conclui com a sonegação fiscal.

Há, em Riacho, toda a sociedade o sabe, vários fornecedores dessas ATPF falsificadas. Pessoas há, sem possuir um metro quadrado de mata, que as fornecem, como se fornece qualquer artigo de fácil produção.

Na sexta-feira, 22, uma grande operação policial, denominada Corcel Negro II, por alusão ao negrume do carvão, chegou a Riacho de Santana e executou alguns mandados de prisão e de busca e apreensão. Numa ação conjunta entre IBAMA, Ministério Público, Secretaria de Fazenda, Polícia Rodoviária Federal, Polícias Militar e Civil, e Secretaria de Meio Ambiente a cadeia produtiva do carvão ilegal oriundo dos biomas caatinga e cerrado, na Bahia e Minas Gerais, sofreu um golpe certeiro, que poderá colocá-la por terra, se as autoridades não afrouxarem a vigilância. Em Riacho, parte dos implicados nesse negócio não foi atingida e continua traficando o produto na calada da noite.

Segundo as investigações realizadas pelos agentes da operação, a produção ilegal de carvão no norte de Minas Gerais e oeste da Bahia é sustentada pelo comércio de créditos fictícios de carbono gerados em outros estados e destinados a fabricação de parte do ferro-gusa produzido por siderúrgicas em Minas Gerais. Essas siderúrgicas participam ativamente desse processo, recebendo carvão retirado da natureza com documentação fraudada por empresas fantasmas e transportados por caminhoneiros cúmplices.

O esquema criminoso, revelou a operação, é constituído de várias células, espalhados por vários estados, que simulam, no papel, a produção de carvão vegetal com resíduos de serrarias. Em vez disto, o produz queimando criminosamente a mata subsistente do cerrado e da caatinga. A quadrilha completa sua ação criminosa com a comercialização de créditos fictícios de carbono, a partir de planos de manejo autorizados de forma fraudulenta pelos órgãos estaduais de meio ambiente, contando com a interferência política de deputados que ajudaram eleger.

Impressionam os números desse nojento esquema… O monitoramento do sistema de controle de Documento de Origem Florestal (DOF) mostrou, diz o IBAMA, “cerca de 8 mil viagens de caminhões transportando carvão extraídos ilegalmente da caatinga e do cerrado, o que representa pouco mais de meio milhão de metros de carvão, ou seja, cerca de 19 mil hectares de vegetação nativa desmatados sem autorização”! O resultado disso, além da devastação de biomas sensíveis, são os sinais exteriores da riqueza fácil, dos integrantes dessa gangue, cujo patrimônio não encontra, no Imposto de Renda, nenhuma justificativa. Isto será facilmente verificado!

Os integrantes e o mecanismo de ação da quadrilha foram revelados… O que resta será esclarecido com a perícia do material criminoso apreendido e com o depoimento de testemunhas. A quebra dos sigilos bancário e fiscal revelará o tamanho da sonegação fiscal cometida pelos criminosos…

Isto nada tem a ver com produção legal e sustentável de carvão vegetal, a partir de áreas de reflorestamento, para a indústria siderúrgica. Nada! O que acontece é que o negócio legal implica investimentos e o lucro não é imediato, como o do negócio ilegal, que não reclama grandes investimentos, porque da matéria prima cuidou a natureza. Espera-se, agora, que essa atividade ilegal seja definitivamente interrompida.

 

 

Fernando Guedes

25/7/2011

 

maio 24, 2011 - Riacho de Santana    3 Comments

Devolvi; Devolva-me; Devolve…

… A Primavera, que arrebata as asas…

Levou-lhe os passarinhos e os amantes!…

Castro Alves – Aves de Arribação

 

Não será, já o advirto, um serão gramatical, uma lição de conjugação verbal, que deve caber a gramático, que não sou… São três músicas, entre tantas que marcaram a minha juventude, cujas letras e melodias estão aqui, na memória de minha lembrança, guardadas…

Houve em Riacho de Santana, esse querido pedacinho de Pátria, um cidadão por tudo exemplar: Dalcy Fraga! Filho de outro, desse sertão, empreendedor: Virgílio Fraga, de quem falarei oportunamente. Dalcy, que todos conhecíamos pelo apelido afetuoso de Sisí, manteve, à custa de seus próprios recursos, por muitas décadas, um serviço de alto-falante, com o qual educou musicalmente várias gerações. Atento às paradas de sucesso, como se dizia na linguagem do Rádio, adquiria as gravações dos grandes artistas, em discos de 78 rotações por minutos (rpm)… No final da década de 40, do século passado, surgiu a inovação do Long-Playing, mais flexível, com maior capacidade de gravação, 12 ou 14 músicas, em 33 rpm. Sisí, que aprendera eletrônica com o seu autodidatismo, adaptou sua vitrola com dois braços, para executar uns e outros.

Sisí envelheceu… A decadência do homem que envelhece está representada por uma regressão sistemática da intelectualidade. No princípio, a velhice torna medíocre todo homem superior. Depois, a decrepitude inferioriza o velho já medíocre (JOSÉ INGENIEROS).  Emudeceu o alto-falante, num prenúncio dessa decadência humana, com suas conseqüências sociais irreparáveis! A difusão musical em Riacho acabou-se… O poder público municipal, na sua suma incompetência cultural, em todas as épocas, nuca com isso se importou, e Riacho, hoje, é esse “deserto de homens e de idéias” que aí se vê: carvão, “laranjas”, nepotismo, relaxação… incultura!

A casa dos Fragas, que ficou conhecida como a “Casa da Lua”, seja pelo semicírculo da sua platibanda, evocando a lua em crescente, ou ser o ponto de onde se desponta a lua-cheia, para os habitantes da Praça Monsenhor Tobias, é hoje apenas um monumento sem vida. Há muito o alto-falante emudeceu e vivas ali, ao pé da escada que conduz à porta de entrada, na área ajardinada, somente as murtas que ainda teimam em florar… A brisa, que daí soprava, perfumada pelo aroma dessas murtas em flor, trazia aos habitantes da baixa, onde está a minha casa, a voz nítida de Núbia, Anísio e Carlos Galhardo… Como me são cara essas reminiscências!

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida…”

Portanto, falarei agora de saudade… Devolvi, música de Adelino Moreira, gravada em 1961, foi o sucesso inaugural de Núbia Lafayette, pseudônimo da açuense Idenilde Araújo Alves da Costa. O poema é somente saudade, do princípio ao fim:

Devolvi
O cordão e a medalha de ouro
E tudo que ele me presenteou.
Devolvi suas cartas amorosas
E as juras mentirosas,
Com que ele me enganou
.

A desditosa devolução, movida pelas mágoas de um amor que se esfumou, começa assim: pelas coisas, até chegar ao que não se pode devolver: as juras. Essas somente o esquecimento, quando o coração se acalma, poderá recolher…

Devolvi
A aliança e também seu retrato,
Para não ver seu sorriso
No silêncio
Do meu quarto.

Aquela fotografia, antes companheira na solidão de noites insones, é agora um incômodo, que lhe traz a lembrança doida de que ele está, nesse instante, em outros braços; que outros lábios a sua boca beija… Devolver, para esquecer, é ilusão!

Nada quis guardar como lembrança,
Pra não aumentar meu padecer.
Devolvi tudo,
Só não pude devolver
A saudade cruciante,
Que amargura meu viver.

Tudo se devolveu, nada ficou como lembrança… Só a saudade, como seu laivo de remorso, teima em ficar viva, como as murtas, testemunhas de um passado feliz… A saudade, melancólica ou prazerosa, sendo grande, não cabe no envelope da devolução…

Devolva-me, samba-canção de Evaldo Braga e Jair Amorim, de 1959, grande êxito de Anísio Silva, sertanejo de Caculé, também fala de saudade…

Devolva-me

Os dias felizes, que tive na vida

E contigo perdi.

Devolva-me

A grande esperança, suprema aliança

Que eu possuí.

Agora é o infeliz amante que solicita a devolução dos dias felizes, que o fracasso amoroso lhe arrebatou, deixando-o até sem a esperança, que pretende recuperar…

Devolva-me

O tempo exigido

Contigo perdido

Que em vão eu vivi.

A decepção, que o desamor produziu, traz-lhe a dura certeza do tempo perdido, que ela, noutros braços embalada, não lhe pode devolver…

Devolva-me

Os doces beijinhos

E outros carinhos, que te ofereci.

Até os beijos… e outros carinhos, essas íntimas loucuras cometidas na febre da paixão, pede que lhe devolva,  na expectativa de ver recuperada a felicidade perdida. Felicidade que foi apenas ilusão…

Devolveste cartinhas, bilhetes

Que afinal te enviei com prazer,

Porém o que mais me interessa

Isto jamais poderá devolver.

Isto, que já não se pode devolver, são os anelos daqueles dias felizes, vividos quando o amor parecia não ter fim, mas que o tempo e o desamor se incumbiram de deixar na saudade… Sempre na saudade!

Enfim, Devolve… Valsa de Mário Lago, do início da década de 40, que Carlos Galhardo, argentino de nascimento, italiano de ascendência, brasileiro de coração, intitulado O Rei da Valsa, imortalizou…

Mandaste as velhas cartas comovidas,

Que na febre do amor

Te enviei.

As cartas de amor – Love letters straight from your heart – são as primeiras a serem sacrificadas nessa devolução desamorosa…  Teria Mariana Alconforado pedido a devolução das suas (Lettres d’amour d’une religieuse)? Quanto sacrifício, muitas vezes, para enviá-las? Cheguei a enviar a dois remetentes simultaneamente: o primeiro envelope destinava-se a uma intermediária, que fazia a gentileza de entregar o segundo nas mãos da verdadeira destinatária… Poupou-me o amor dessa agonia devolutiva!

Mandaste tudo, porém,

Falta o melhor que te dei.

É o imaterial, que o coração, na ingenuidade do amor, oferece…

Devolve

Toda a tranqüilidade,

Toda a felicidade

Que eu te dei e que perdi.

Do amor ainda descrente, exige a devolução da tranqüilidade e da felicidade… como se esses estados d’alma, íntimos e intransferíveis, pudessem ser remetidos num pacote pelo correio. Se a felicidade é “o gozo contínuo de mil pequeninas comodidades oportunas”, que cada indivíduo deve arbitrar, sem a interferência de outrem, será possível devolver tão íntimas preferências? Há aqui uma confusão, própria do apaixonado, que perde o senso da inteligência do sentimento, a compreensão afetiva, que é o encanto moral do amor, e ama para o seu próprio bem…

Devolve todos os sonhos loucos

Que eu construí aos poucos

E te ofereci.

Devolve,

Eu peço por favor,

Aquele imenso amor

Que nos teus braços esqueci.

Só a paixão, que é alma em tumulto, faz sonhar sonhos loucos… Quando o desamor chega e a depõe, esta, ao ir-se, não se lembra de recolher, daqueles braços, a ilusão do amor…

Devolve,

E eu te devolvo ainda,

Esta saudade infinda

Que tenho de ti.

Essa devolução em mão dupla, em que se quer mandar de volta a saudade, é a suprema ilusão, que agora nutre o apaixonado que o desamor criou… Matar o amor, para vivê-lo noutro plano, nesse inefável mundo onde ele reina soberano, como fizeram os sublimes amantes de Verona, é obra divina. Matar o que restou de um grande amor, com essas devoluções ridículas, é obra bem humana, do egoísmo desamoroso.

Ter saudades é minha vida, disse Castro Alves à sua dileta irmã Adelaide, em 1870, na carta que lhe enviou Aves de Arribação… Assim é a minha, cheia de saudades… Caras saudades que me fizeram desaprender a conjugação do verbo devolver…

Fernando Guedes

16/5/2011

maio 4, 2011 - Poligrafia    6 Comments

Reflexão sobre o assassinado de Osama bin Laden

É uma doença a revolução, como o crime. Não é revolucionário nem criminoso quem quer: é quem assim nasceu e não pode modificar as taras que tem.

Afrânio Peixoto

 

 

No domingo próximo passado, depois de um fraternal encontro, com amigos, que me descontraiu o espírito, fui surpreendido, à meia-noite, com um insólito pronunciamento do presidente dos Estados Unidos da América, anunciando ao mundo o assassinato de Osama bin Laden, e atribuindo a esse ato a consumação da justiça. Disse: “today justice was done”.

Para que me não interpretem mal, digo logo o que penso: Terrorismo é a guerra de poucos; guerra é o terrorismo de muitos. Guerra e terrorismo são, a meu juízo, a mais imbecil das dualidades. Como este não tem nem País nem Estado, penso ser impossível declarar guerra a ele sem ferir de morte o direito internacional.

Adianto, também, a minha opinião sobre o atentado ao World Trade Center, que implicou a morte de 2.819 pessoas (pela informação que disponho): foi uma manifestação terrível dessa imbecilidade.

Assim, esclarecido o que a minha pupila vê dessa realidade absurda, posso, com mais tranqüilidade, dissertar sobre essas manifestações igualmente estúpidas com que a grande mídia explora o pensamento de incautos e atiça os surtos de contágio por imitação, dessa histeria coletiva, que termina sendo, na sua desinteligência, um fundamentalismo ao contrário.

Assistir, pela televisão, à juventude americana, nas ruas, festejar um assassinato como um ato de justiça, pareceu-me que Estados Unidos sepultaram, para sempre, toda a doutrina do seu notável Robert Jackson: “Nosso povo tem aguardado esses julgamentos no espírito de Woodrow Wilson, que esperava dar ao Direito Internacional o tipo de vitalidade que ele somente pode ter se for a real expressão de nosso julgamento moral”. Robert Jackson, em Nuremberg, foi incisivo acusador, formou culpa, demonstrou provas, porém não permitiu a transformação daquele Tribunal numa instância sumária de execuções. Houve mortes, sim, porque a pena capital era legal e muitos foram condenados a ela (Goering, Ribbentrop, Keitel, Kaltenbruner, Rosemberg, Frank, Frick, Streicher, Sanckel, Jodl, Borman, Seyss-Ingurart).

Ao ouvir, igualmente pela televisão, líderes mundiais pronunciarem congratulações aos Estados Unidos, pelo assassinato de Osama bin Laden, percebi que eles reviveram as idéias favoráveis às execuções sumárias dos criminosos nazistas, com as quais os Estados Unidos não concordaram e, malgrado as dificuldades do momento histórico, defenderam o julgamento dos réus. Constatando a que ponto os Estados Unidos chegaram, nesse lamentável episódio, isto me soa como uma trágica ironia. Presumo o que Wilson, se pudesse falar, diria, agora, a Obama…

Dizem que essa caçada se fez em nome da paz… Que paz? A paz! Não a vejo. Não há, como não pode existir, senão uma, é a que assenta na lei, na punição dos crimes, na responsabilidade dos culpados, na guarda rigorosa das instituições livres. Outra espécie de paz não é senão a paz da servidão, a paz indigna e aviltante dos países oprimidos, a paz abjeta que a nossa índole, o nosso regime essencialmente repelem, a paz que humilha todos os homens honestos, a paz que nenhuma criatura humana pode tolerar sem abaixar a cabeça envergonhada (RUI BARBOSA).

Ordenar a um comando especializado invadir o espaço aéreo de outra nação soberana (Republica Islâmica do Paquistão, independente desde 14 de agosto de 1947), sem o seu conhecimento, como se pode deduzir da entrevista que o chefe da CIA, Leon Panetta, deu à revista Time, nesta terça-feira (“it was decided that any effort to work with the Pakistanis could jeopardize the mission. They might alert the targets.”), e aí matar um desafeto criminoso, não pode ser, como realmente não é, uma operação legal. Longe, muito longe, de algo parecido com justiça. A verdade, disse o clássico Vieira, é como a túnica de Cristo, não tem costuras. É a lei de Caim!

A lei de Caim é a do fratricídio. A lei do fratricídio é a lei da guerra. A lei da guerra é a lei da força. A lei da força é a lei da insídia, a lei do assalto, a lei da pilhagem, a lei da bestialidade. Lei que nega a noção de todas as leis, lei de inconsciência, que autoria a perfídia, consagra a brutalidade, agaloa a insolência, eterniza o ódio, premeia o roubo, coroa a matança, organiza a devastação, semeia barbaria, assenta do direito, a sociedade, o Estado no princípio da opressão, na onipotência do mal. Lei de anarquia, que se opõe à essência de toda a legalidade substituindo a regra pelo arbítrio, a ordem pela violência, a autoridade pela tirania, o título jurídico pela extorsão armada. Lei animal, que se insurge contra a existência de toda a humanidade, ensinando o homicídio, propagando a crueza, destruído lares, bombardeando templos, envolvendo na chacina universal velhos, mulheres e crianças. Lei de torpeza, que proscreve o coração, a moral, e a honra, misturando a morte com o estupro, a viuvez com prostituição, a ignomínia com a orfandade. Lei da mentira, na falsa história que escreve, nos falsos pretextos que invoca, na falsa ciência que explora, na falsa dignidade que ostenta, na falsa bravura que assoalha, nas falsas liberdades que reivindica (RUI BARBOSA).

Evidente que soberania dessa nação foi violada, até o seu antigo presidente o admite, ao falar da operação militar que resultou no assassinato de Osama Bin Laden: “politicamente é muito sensível para o Paquistão no que respeita à violação da soberania” (PERVEZ MUSHARRAF). Violação da soberania, ato insólito, imposto pela força, às vezes com o consentimento da fraqueza moral de nações que a penhoram por ajudas materiais.

Osama bin Laden recebeu apoio dos Estados Unidos, para combater as forças soviéticas que invadiram, em 1979, o Afeganistão. Armaram-no, treinaram-no, utilizaram-no, até que a criatura voltou-se contra o seu criador… A Lei de Caim, neste consórcio estúpido, só soube produzir mais ódio. Os Estados Unidos se tornaram no grande satã, que devia ser combatido a todo custo, pela visão fundamentalista de grupos terroristas. De mim, não creio que isto tenha nada a ver com o Islã nem com a Jirad pregada por Maomé, seja na forma individual, em que o crente deve travar uma luta consigo mesmo, pelo o domínio da alma, ou aquela coletiva em ele deve levar a mensagem islâmica aos que a não conhecem. Como crentes de outras religiões, que muitas vezes interpretam mal seus próprios conceitos e dogmas, o fenômeno também incide no Islã, e é a causa dessas desinteligências.

As nações ditas civilizadas, do Ocidente, deviam tem mais juízo nas suas ações, porque o radicalismo e a força não possuindo o gérmen da paz a não pode fecundar. Quando as leis cessam de proteger os nossos adversários, virtualmente cessam de proteger-nos (RUI BARBOSA). Os dias que se seguirão, disse-me um amigo jurista, serão de apreensões e perigos.

Fernando Guedes

3/5/2011

 

abr 11, 2011 - Médicos    4 Comments

Reflexão sobre a tragédia de Realengo…

“Em pessoas como Petrov o juízo só impera enquanto não chega uma tentação, pois, quando esta surje, não há obstáculo que interrompa sua força”.

Fiódor Dostoievski

Recordação da Casa dos Mortos


“Existe, por exemplo, um tipo de criminoso que é até freqüentemente: aquele homem que vive em paz com todos, aceitando seu destino com paciência. Mas algo inesperado acontece, algo dentro dele se perturba, e ele, subitamente, mata um inimigo ou opressor. É quando esse homem destrambelha de vez.”

Fiódor Dostoievski

Recordação da Casa dos Mortos

 

Uma perturbação qualquer, dos sentidos ou da inteligência, deve existir na grande maioria dos delinqüentes no momento de cometer o crime.

José Igenieros

 

 

Os brasileiros somos, sem nenhuma dúvida, uma nacionalidade ufanista: nosso céu tem mais estrelas, nossos bosques têm mais flores, nossa vida mais amores e até os nossos loucos  têm mais juízo… Seria de se esperar, como esperam os incautos, que aqui, neste paraíso abençoado por Deus, nada de ruim viesse acontecer. Até que, como o raio que cai em tarde de verão, fulminado o que encontra na sua trajetória errática, abate-se-lhe, de quando em quando, uma tragédia… Colhendo-os na imprevidência do comportamento, no lapso de sua curta memória, deixa-os embasbacados: como pôde isto acontecer? Simplesmente acontecendo, uma após outra, já esquecida a passada…

Nos últimos dias tive que ouvir os mais disparatados juízos sobre a tragédia de Realengo… Nunca vi, reunidas, tantas besteiras, tantas imposturas, tantas opiniões contraditórias, tanta exploração política, tanta hipocrisia, suscitadas por um fato lamentável, que não passa de um sintoma claríssimo de avariose psicossocial.

Não sendo alienista, com que base emitiria a minha opinião? Relendo a introdução que Dr. Augusto Costa Conceição escreveu para a edição de 2008 de Paranóia, de Afrânio Peixoto, encontrei o meu roteiro… Disse o eminente psiquiatra: Talvez, da mesma forma que Ana Maria Machado sugere a leitura em voz alta de Guimarães Rosa, devêssemos propor a leitura de Paranóia em voz alta e em audiência pública. Substituirei essa leitura pela transcrição de segmentos da obra, para que sejam lidos e assimilados pelos que, como eu, imbuídos de bons propósitos, desejam opinar com acerto.

Creio que ao autor da tragédia de Realengo não fizeram, em vida, o correto diagnóstico. Não será possível, na morte, fazê-lo jamais. Tudo o que se disser serão apenas ilações, suposições aproximadas, que não desvendarão a natureza do seu transtorno mental. Ao contrário das patologias orgânicas, cujos sinais sobrevivem à morte, podendo ser revelados pela necropsia com exatidão, as patologias do espírito morrem definitivamente com a morte do corpo. Não há como se fazer o diagnóstico no cadáver, se ele não foi, em vida, feito.

Agora, nesse tumulto induzido pelas luzes da mídia sensacionalista, será “um verdadeiro estado de Babel ou confusão psiquiátrica, em que a gente se arrisca, no fim, a não sair à luz com uma idéia definida”. Esquizofrenia paranóide ou simplesmente Paranóia (Transtorno delirante)? Louco criminoso ou criminoso louco? Que diferença faz agora? Alguns positivistas radicais quererão, inutilmente, saber… Será indiferente.

“A humanidade foi a mesma e a mesma seria, se a vida mesológica – física e civil – nos não viesse deformando, alterando, adaptando ao ambiente do mundo. Cada criança que nasce é socialmente comparável ao primeiro homem; o Eu lhe vem hipertrofiado, e a julgar pela ampliação possível, sem as restrições modificadoras, cada uma seria comparável a um louco ou a um criminoso; é a educação, a disciplina, a cultura, que as submetem, modificam, adaptam, dando-lhes por fim essa identidade ética que é apenas o aspecto moral daquela identidade social, de que fala TARDE”. Neste passo, o mestre baiano foi lapidar, colocando por terra a quimérica presunção de Rousseau: o homem naturalmente bom. Numa entrevista, totalmente transtornado pela emoção, o governador do Rio qualificou o autor de “animal”. Sim, animal como todos nós, inclusive nas animalescas atitudes, quando a civilização e a educação não cumprem o seu dever de corrigir o animal que há em todos nós.

“O altruísmo não é uma aquisição definida e já somática: é apenas uma espécie de contrato a que nos submetemos tacitamente ao partilhar a vida social, que nos impõem; e não serão raras as infrações do pacto”. Como vemos, na atualidade, amiúde, o rompimento unilateral desse contrato…

“No paranóico houve apenas a persistência desse originário modo de ser, por deficiência de educação, de treinamento, de cultura…; o subjetivismo primitivo cresceu com o indivíduo, vive com ele e é a seu través que ele julga o mundo exterior. Nós também o julgamos, mas nós somos como as lentes, corrigidas das aberrações; eles não, não têm correção alguma, e eram, e crescem, e ficam vendo, pois, tudo diferente. O mundo não se adapta a nós, porque nós bem podemos ver que esta adaptação não é possível: conformamo-nos e nos adaptamos a ele; o paranóico não pode ver assim: o mundo não se adapta a ele, porque o mundo está errado, e tenta corrigir, isto é, adaptar tudo à sua vontade, porque jamais pode pensar em si para o mundo, mas no mundo para si”. Se o diagnóstico, do autor da tragédia de Realengo, era ou não Paranóia, aqui não importa; o que importa, aqui, é a perfeição com que o mestre baiano, carioca adotivo como Francisco de Castro, Barata Ribeiro, Bonifácio de Abreu, Monteiro Caminhoá, Pedro Severiano Magalhães, Clementino Fraga etc., fixou o clássico conceito dessa inadaptação às circunstâncias, decorrente da perturbação mental. O homem é o que é e suas circunstâncias (ORTEGA Y GASSET). Circunstâncias: todo o conjunto mesológico que o rodeia, que o influencia, que o determina… Assim, considerar apenas o homem alienado de suas circunstâncias é entendê-lo pela metade, ou mesmo não entendê-lo de forma alguma. Será que indivíduo que delinqüiu em Realengo foi alguma vez, na infância, na adolescência, na vida adulta, observado, considerado em face de suas circunstâncias? Certamente não!

E vai adiante, nas suas lúcidas considerações: “o fato é que, com eles (com esses doentes mentais) nos encontramos freqüentemente, dos casos frustos àqueles ainda equilibrados que são chamados de excêntricos, vaidosos, originais” e eu acrescento estranhos, calados, tímidos etc., que se fossem cuidadosamente observados, tratados tempestivamente, certamente não chegariam a estágios tão degenerados da função mental, que os impulsionam, não raramente, para a completa perda da ração, com que praticam essas tragédias que a mim não me causam surpresa nenhuma.

Alias, não sei por elas tardam tanto em acontecer, dada ignorância e irreposnabilidade com que a saúde mental vem sendo conduzida há muito tempo neste País. Cabe aqui, como uma luva em mão certa, este outro passo: “Roto o equilíbrio, a vida do paranóico é esta eterna luta de ação e reação incessantes, que o transformam no mais incômodo e mais perigoso dos insanos. Numa faina irrequieta, falando, movendo-se, escrevendo, argumentando, ou concentrado, remoendo pensamentos, criando e rebatendo objeções, sempre preso nas malhas de uma oposição a tudo e a todos, porque tudo lhe é hostil, é verdadeiramente surpreendente como atravessam anos e anos sem considerável depauperamento da inteligência”. Talvez aqui, quem sabe, não seja assim apenas ufanismo que os nossos loucos tenham mais juízo…

“De sorte, se a reação não vem imediata, eles procuram um abrigo mais seguro; por isto, não podem ficar parados em lugar nenhum, são andarilhos; quando não podem mudar de terra, mudam de bairro, mudam de casa, mudam de quarto, mudam de hábitos”, até quando “uma motivação explícita, sua idéia contrariada e tornada fixa, promove e instala definitivamente a perseguição com todo o seu cortejo de circunstâncias agravantes, endógenas e exógenas, de alucinações e falsas interpretações, – rebatida na suposta agressão, promovida na desforra correlata, num ciclo vicioso eterno. Nesse caminho nem mesmo carece, mais adiante, de quem lhe sirva de oponente: o Eu paranóico, desequilibrado, se basta; vive numa ruminação continua: é um longo diálogo em que há um interlocutor silencioso, que opõe dúvidas e restrições débeis, e o doente propriamente, que fala às vezes alto, imperativamente, rebatendo com vantagem as dúvidas auto-sugeridas.”

Ignorada, desdenhada, não atalhada, a doença segue seu curso natural até ao fim, com a reação contra o meio (circunstâncias): “Início das perturbações aparentes. Perseguição ativa ou passiva, ou ativa e passiva, mais comumente.” Daqui, penso, não há volta, diga-o Realengo.

Se não foram capazes de observar isto antes (entendo todas as dificuldades) e não são capazes de entender agora, é preciso dizer besteiras ao povo: atentado terrorista; conluio com grupo fundamentalista, obsessão religiosa; comércio legal de armas, tráfico de armas etc. etc. Pequices de políticos irresponsáveis e de irresponsáveis (de todas as classes) “politicamente corretos”. Um doente mental, que devia estar submetido a tratamento, sob observação médica, estava, no seu desvario, sem nenhum controle, ruminando sua atroz vingança. Executou-a disparando a esmo contra aqueles “temíveis adversários” (pobres crianças indefesas) engendrados por sua mente doentia. Cumpria executá-la e a executou, sob meticuloso planejamento próprio. Como as autoridades não têm o que dizer, na ausência de um culpado mais convincente, culpam as armas, pouco importando o estado mental que põe em ação do dedo que puxa o gatilho.

 

Fernando Guedes

11/4/2011

 

abr 6, 2011 - Poligrafia    4 Comments

Quando os bons não fazem o bem

O respeito que sociedade deve à profissão médica só continuará justificado, se, além de a sentir capaz, a souber responsável.

Afrânio Peixoto

 

O título não é original, adaptei-o do IX Ensaio Cético de Bertrand Russell, cujos ensinamentos absorvidos na juventude levaram-me a uma reflexão sobre a convocação que recebi, através de email de 17/3/2011, do Conselho Regional de Medicina da Bahia, para participar e apoiar a paralisação de  7 de abril…

Venho acompanhando, há algum tempo, com certa intranqüilidade, a participação dos Conselhos de Medicina, em movimentos reivindicatórios da classe médica que, por suscitar suspeição, parece-me preocupante.

A sociedade tem visto, com esse olhar cético, em face de erros médicos divulgados pela mídia, o julgamento de médicos pelos Conselhos de Medicina. Não faz muito tempo, um desses apresentadores de TV, argüindo essa desconfiança, disse: “Médico não condena médico”, com aquela malícia de quem dissemina, nos espíritos incautos, a dúvida. Como a dúvida sempre foi o alimento predileto da suspeita, compreende-se porque iguais julgando iguais, no recesso de seções fechadas, cria-se esse ambiente nebuloso, que resulta na descrença da sociedade e na fixação de uma imagem corporativista da classe.

Os Conselhos de Medicina são, na forma da Lei, uma autarquia (“serviço autônomo criado por lei, com personalidade jurídica de direito público, patrimônio e receita próprios, para executar atividades típicas da Administração Pública, que requeiram para seu melhor funcionamento gestão administrativa e financeira descentralizada.”) da República, disciplinadora e julgadora da classe médica, que deve, ipso facto, estar acima de qualquer interesse material dessa mesma classe, para desempenhar, com independência, sua função judicante, que não se confunde com a função de defesa dos seus interesses materiais, que incumbe ao Sindicato e Associações.

“A leitura e a análise destes dois artigos – Art. 5º. e Art. 15, da Lei 3.268, de 30 de setembro de 1957, que definem as atribuições dos Conselhos – deixa claro que os interesses materiais da classe não são protegidos, nem defendidos pelos Conselhos. Outros órgãos devem assumir esta função. Perante a lei e os tribunais, são os Sindicatos, pois a eles compete a defesa e a coordenação dos interesses econômicos ou profissionais das várias categorias de trabalhadores e os médicos constituem, sem dúvida, uma categoria de trabalhadores assalariados” (Jairo Ramos).

Não observar isto “é um grave erro, pelas conseqüências prejudiciais que acarretará de futuro, fazer dos Conselhos de Medicina um prolongamento de Sociedades Médicas, ou um executor das decisões destas, ou colocá-los nas lutas profissionais. Cabendo aos Conselhos disciplinar e julgar, é indispensável que sejam imparciais e, para o serem, é imprescindível que estejam eqüidistantes de grupos médicos a fim de merecerem a confiança de todos; necessitam afastar-se de lutas profissionais, a fim de terem autoridade de dizer quanto essa luta assume caracteres antiéticos. Para julgar com justiça, é indispensável que tenham compreensão exata dos fatos e para tanto é necessário que na sua composição tomem parte representantes de todas as tendências para uma mesma questão seja examinada sob múltiplos aspectos” (Ministro Costa Manso).

Além da “carta aos médicos”, li, na página do Conselho Regional de Medicina, esta mensagem:

“No dia 7 de abril, estão suspensos todas as consultas e procedimentos eletivos de pacientes conveniados a planos e seguros de saúde, com novo agendamento das consultas e dos demais atendimentos, mantida a assistência nos casos de urgência e emergência.”

Para ilustrar o reclamo, figura de um médico de braços cruzados dá o tom: uma legítima reivindicação da classe médica, que devia competir exclusivamente aos seus membros, aos seus sindicatos e às suas associações. Inserir neste contexto teleológico os Conselhos de Medicina, mesmo que seus componentes estejam imbuídos dos mais altos propósitos, que visam ao prestígio dos médicos, afigura-se-me um equívoco, por ser incompatível com o dever legal de instâncias judicantes. Judicantes especialíssimos, exclusivos, de uma classe específica. Poder-se-ia imaginar isento um tribunal que julga a quem defende? É uma dualidade estranhíssima, que não encontra, a meu juízo, paradigma em nenhum sistema deontológico.

Não me compete, nesta simples manifestação de opinião, criticar a divergência, por não duvidar dos propósitos que inspiram os colegas que vêem no Conselho uma espécie de sindicato protetor, e o querem engajado nessa luta reivindicatória. Porém, como ainda me restam cumprir alguns anos de exercício profissional, temo essas bem intencionados interpretações teleológicas de princípios deontológicos.

O STF, não é demais lembrar, enfrentou, com composição par, por duas vezes, o julgamento da “Ficha Limpa”, e amargou o constrangedor empate, que o deixou imobilizado. Isto vem à baila apenas para dizer: o que não está isento de acontecer, pode, no mundo dos fatos, acontecer. Portanto, dessa paralisação poderá emergir algum questionamento sobre o comportamento ético de algum médico, que o Conselho Regional respectivo terá que julgar. E aí? Como será dirimido esse conflito de interesses, já que o próprio Conselho corroborou a paralisação do atendimento?

Penso que as associações e os sindicatos devem lutar tenazmente pela dignidade da classe médica, defender, como todas as armas éticas, melhor instrução para seus membros, melhores condições de trabalho e a economia profissional; precisam lutar pela implantação da Medicatura Pública, sistema no qual o médico trabalharia em regime de tempo integral e dedicação exclusiva, com salário digno, plano de carreira e estabilidade. Neste contexto não há lugar para os Conselhos de Medicinas, que têm outra função, de tribunal, “foco de fomento da moral médica, entidade normativa e consultiva para as dúvidas comportamentais da classe, o Conselho será, sobretudo, o guardião do seu Código de Ética, que é a sua grandeza e a sua força, conceito do qual jamais nos devemos afastar” (Heitor Péres).

Afastar-se desse conceito, colocando os Conselhos, que são uma autarquia estatal, no centro desse conflito de interesses, transformando-os numa extensão dos órgãos da classe médica, não trará nenhum benefício aos médicos. Servirá apenas para se chegar à conclusão de que os bons nem sempre fazem o bem…

 

Fernando Guedes

4/4/2011

 

mar 29, 2011 - Poligrafia    6 Comments

Por morrer uma andorinha não acaba a primavera…

Diz o Fado, com acerto. É o que me ocorreu assistindo aos pronunciamentos dos senadores sobre José de Alencar, que morreu hoje…

Pessoa de origem humilde triunfar na vida, prosperar no mundo dos negócios, atuar no mudo político, não é nada incomum, aqui nem alhures. De pequeno negociante a empresário, é a jornada de incontáveis brasileiros e de tantos imigrantes que aqui triunfaram.

De uma pequena vila do sul italiana, no final do século XIX, pousou aqui uma dessas andorinhas… Francisco Matarazzo. Perdida a carga de banha que trazia, se estabelece em Sorocaba, com pouco dinheiro, e começa sua senda, que chegaria à fundação do maior complexo industrial da America Latina do início do século XX: Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, de quem meu pai, negociante de tecidos, comprava os melhores produtos…

José de Alencar foi isto: trabalhou, lutou, empresariou, produziu capital, que bem investido reproduziu… Não conseguiu ser governador do seu Estado, que o elegeu, depois, para o Senado. Sua obra parlamentar é o contrario da sua obra empresarial. Aderiu a Lula e se tornou vice-presidente da república. Em oito anos de mandato se declarou contrário à política dos juros altos, abertamente pela imprensa, mas não cuidou de determinar a baixa deles em nenhuma das ocasiões que assumiu a presidência, quando podia, portanto, praticar o que pregava. Por fidelidade, preferiu a ética do resultado (teleológica) à do princípio (deontológica).

Sua luta contra a doença é algo que precisa ser contada sem o véu heroísmo tupiniquim, com que a imprensa sensacionalista orna seus semideuses. José de Alencar possuía todos os recursos que o permitiam enfrentar o mal, com as mais avançadas técnicas disponíveis nos melhores centros médicos do Brasil e do exterior, seja por sua posição social de cidadão rico ou pelo cargo que exercia. Se o paciente em questão tivesse que enfrentar o que enfrenta, todos os dias, o cidadão comum, que tem que amanhecer nas filas dos hospitais públicos para conseguir um atendimento, que pena para fazer uma ressonância magnética, malgrado seu contagiante otimismo, não teria resistido o quanto resistiu. Não teria sobrevivido o quanto sobreviveu. Herói é o José anônimo que nuca chegará à posição do notável Alencar.

José de Alencar, honrado cidadão, exemplo de que é possível vencer pela honestidade das atitudes e da ação empreendedora, esta longe de ser herói. Foi uma andorinha que morreu… Por morrer uma andorinha não acaba a primavera.

Fernando Guedes

29/3/2011

 

mar 24, 2011 - Poligrafia    1 Comment

Voto que salvou a Constituição

Medo, venalidade, paixão partidária, respeito pessoal, subserviência, espírito conservador, interpretação restritiva, razão de estado, interesse supremo, como quer te chames, prevaricação judiciária, não escaparás ao ferrete de Pilatos! O bom ladrão salvou-se. Mas não há salvação para o juiz cobarde.

Rui Barbosa, in O justo e a justiça política

 

 

á opinei antes sobre a “lei da ficha limpa”, o que poderia me dispensar de tornar ao assunto, se não fosse o fato novo trazido pelo voto do ministro Luiz Fux, que merece, da minha precária pena, algumas palavras…

Caberia nesta minha pretensão o artigo Gol de Fux, que Eliane Cantanhêde publicou na edição de hoje da Folha de São Paulo. Com a precisão que faltou a certos juristas midiáticos e a juízes covardes, a conceituada jornalista sentenciou: “doeria mais se Fux jogasse às favas os escrúpulos de consciência e a letra da lei em favor de aplausos e dos elogios”. De mim, acho que o ministro lera, antes de redigir seu voto, O justo e a justiça política, de Ruy Barbosa…

Assisti ontem à seção do Supremo Tribunal Federal, com grande expectativa no voto do ministro Fux, no julgamento do Recurso Extraordinário 633703. Nunca o tinha visto falar, nunca passara pelas minhas mãos um texto de sua autoria, o que aguçou no meu espírito certo ar de incerteza. Como pode um Juiz de Tribunal Constitucional, na vigência do Estado Democrático de Direito, votar à revelia da Constituição, para atender ao apelo popular? Daria Dr. Fux voto a serviço desse desatino jurídico? Eis a minha dúvida, que logo se dissipou ao perceber que Sua Excelência não estava ali senão para garantir a aplicação da Constituição, e sua conduta de juiz imparcial se revelou, para mim, nesta frase, que proferiu com convicta segurança: “Nem o melhor dos direitos pode ser aplicado contra a Constituição”, senha para uma Senadora, beneficiária colateral da insegurança jurídica criada pela aplicação extemporânea dessa lei, deixar o recinto do STF…

O voto do ministro relator, Gilmar Mendes, malgrado as criticas que se lhe façam, foi uma peça jurídica que merecerá publicação em separado, para os pósteros, pelo denso conteúdo jurídico apresentado, pela apurada análise jusfilosófica que fez, pela sua profunda visão de direito comparado, enfim uma peça tecnicamente irrefutável. Seguiu-se, ao voto do relator, o do ministro Fux, que leu um texto conciso, focado no objetivo da causa, sem aquelas digressões pedantes, direto no alvo constitucional: a anualidade e a segurança jurídica. Não era preciso dizer mais nada!

Manda a Constituição que “a lei que alterar o processo eleitoral entrará em vigor na data de sua publicação, não se aplicando à eleição que ocorra até um ano da data de sua vigência”, norma que cinco ministros ignoraram, votando pela aplicação da “lei da ficha limpa”, editada em 7 de junho de 2010, às eleições de outubro de 2010. Estranhas, para ficar com um adjetivo maneiro, foram suas argumentações, a fazer jus a essa justiça invadida pela política, joguete da multidão, escrava de César, como disse Ruy no artigo citado.

Desapontados com a atuação independente do novato, os cinco não conseguiram disfarçar sua frustração, captada pela indiscrição das lentes da bendita TV Justiça. Constrangidas eram as fácies…

Estes meus olhos uns viram coisas que jamais imaginei ver numa seção de julgamento de um Tribunal Constitucional. Discursos moralizadores, apologia da ética política, defesa da probidade administrativa, inquietação com as centenas emails de pessoas preocupadas com o resultado do julgamento, afirmação de que aquele julgamento era uma opção entre anualidade e a probidade administrativa, como se julgar fosse preferir uma norma à outra; num reducionismo catastrófico, afirmar-se que os que julgavam pela observância da Constituição estivessem optando pela improbidade administrativa. Fitos nessas superficialidades dispensáveis, não deram a mínima atenção à Constituição, cujo descumprimento parecia não os incomodar. Aliás, as replicas ásperas denunciavam a causa do seu incômodo: a possibilidade do cumprimento artigo dezesseis da Constituição, trazida pelo voto de ministro novato.

Repetindo-se, o ministro César Peluso reafirmou: “um tribunal constitucional que atende aos anseios legítimos do povo, à revelia da Constituição, é um tribunal no qual nem o povo deve confiar”. Além de sustentar, com clareza, o princípio da anualidade e da segurança jurídica, abordou, com precisão jurídica, seu repúdio pela retroatividade prejudicial, que nem o regime de exceção ousou cometer. Lei que retroage para alcançar ato consumado no passado, para atribuir-lhe conseqüência jurídica no presente, não deve merecer sequer qualificativo de lei, disse, mutatis mutandis, Sua Excelência.

Evidente que nenhum ministro do STF é contra a moralização dos costumes políticos; nenhum nega a conveniência da probidade dos candidatos; nenhum é contra a inelegibilidade de criminosos, porém moralidade, probidade ou inelegibilidade não deve ser justificativa para a aplicação de lei que contraria a Constituição. Foi como votou o ministro Fux, o voto que salvou a Constituição.

Fernando Guedes

24/3/2011

 

fev 24, 2011 - Poligrafia    4 Comments

Mínimas e máximas, do Mínimo…

Si no se tiene clara noción de los problemas, mal se puede proceder a resolverlos.

Ortega y Gasset

Encontro-me, atualmente, num estranhíssimo processo de adaptação em face do Senado Federal… Não é fácil, depois de acostumado, por longuíssimos anos, às figuras de Mão Santa, Heráclito Fortes, César Borges, Efraim Moraes, Marco Maciel, me deparar com outras novas, mais estranhas ainda, na estréia do mínimo…

Sarney, que anda a tirar sarro pelo twitter, como um velho camaleão, que se adapta com aquele mimetismo singular, às hostilidades do meio, conseguiu logo manter-se, sem muita discussão, na presidência. E, sorrateiramente, elegeu Marta Suplicy, com a sua coleção de botox, a Mão Santa desta legislatura…

Passando com toda a facilidade pela Câmara dos Deputados, como queria o governo, o projeto que fixa o valor do salário mínimo e estabelece sua política de recuperação monetária em médio prazo foi ontem debatido e votado no Senado. O Governo sustentava que o valor de R$ 545,00 era compatível com os controles das contas públicas e do déficit da Previdência. Justificou-se, como sempre alega quando não quer fazer, com a “responsabilidade fiscal”…

Essa coisa que aqui se chama de “oposição”, poucos gatos pingados insatisfeitos por não estarem no poder, apresentaram duas propostas: uma de R$ 600,00 e outra e R$ 560,00, que foram, como aconteceu na Câmara, rejeitadas sumariamente. O interessante foram as abstenções, que dizem o suficiente dessas personalidades omissoras.

Houve de um tudo… Os costumeiros, reiterados e abusivos descumprimentos do Regimento Interno. Favorecimentos de uns em detrimento de outros. Tolerância para com uns e intolerância para com outros. Desrespeitos mútuos, conversas paralelas, até insultos… Nas galerias, interessados em ganharem R$ 15,00 ou R$ 55,00 a mais, eram contidos pela campaninha e pela voz dissonante da Mão Santa desta legislatura: – É proibida a manifestação!

Como a moral que os orientam, governistas e “oposicionistas”, é utilitária, compreende-se, com sensível clareza, que a sua ética jamais será a dos princípios. Se ex-presidentes da “república” (adrede, como diria Euclides da Cunha, entre aspas e com erre minúsculo) decidem ir para o Senado não é, aqui, por desprendimento, nem para servirem à Pátria. É, simplesmente, para atanazar o governo, se for “oposicionista”, ou para manipular segmento de poder, se governista.

Por isto essa antinomia de, no governo, defender, com veemência, a responsabilidade fiscal, para não conceder R$ 15,00 ou R$ 55,00 de aumento; na “oposição”, utilizar os mesmos números, os mesmos dados, a mesma desfaçatez, para propor o reles aumento… Os petistas de ontem são os peessedebistas de hoje. O fel, que essa gente destilava, em passado próximo, para defender o que hoje condena, é o mesmo que hoje os outros destilam, em sentido inverso. Coisas da política? Não, coisas de uma civilização incapaz, capaz atirar pérolas aos porcos.

Essa mesma que se gaba de seu chefe ignorante, que se refere ao outro como “doutor” por escárnio à cultura… Essa que acha que o Brasil é criação desse petismo sectário. Que não é capaz de compreender, minimamente, o desastre dessa política assistencialista, que aprofunda ainda mais a vagabundagem que estiola, nos grotões somente visitados em campanhas eleitorais, o sentido sociológico do trabalho.

Essa a quem tudo o que é de cultura, de pensamento, de raciocínio, de visão positiva, de análise de realidades, não passa, para sua medíocre política, de literatura inútil. Essa que confunde cultura com erudição; pensamento com literatura; política com politicagem; governo com administração; estadista com técnico especializado; inteligência com esperteza; coerência doutrinária com coerência partidária; fidelidade de princípios com fidelidade de pessoas; e nenhuma atitude é compreendida sem que se origine de algum interesse pessoal.

Não sendo diferentes os outros, os dessa “oposição” igualmente incapaz, é inútil insistir na crítica… Torno ao mínimo.

Eu, que o pago como fruto do meu honesto e sacrificante trabalho, a dois empregados, sei que pesa pagá-lo, por isto é-me fácil entender a hipocrisia daquelas figuras que ontem defenderam, da tribuna do Senado, tese contrária à do governo. Assistir aos governistas de hoje defenderem a responsabilidade fiscal, visando à aprovação de sua tese, é mais coerente obras dessa estranha arquitetura política: hoje eu, amanhã você, ou o utilitarismo elevado ao egoísmo ético.

Fernando Guedes

24/2/2011

dez 9, 2010 - Fragmentos    4 Comments

“O que querem as mulheres?”

Em 2000, pelo dia da Mulher, pediram-me, na Petrobrás, para escrever uma mensagem, tomando como tema a pergunta: “O que querem as mulheres?”, que Freud teria feito deixando-a sem resposta. Como vejo na mulher, ao contrário do senso comum, um ser previsível, escrevi o meu parecer…

Como, agora, a TV Globo, está anunciando uma série com esse título, achei que devia publicar o que escrevi em 8/3/2000:

Dizem que Freud fez essa pergunta a si mesmo, e nunca a respondeu. Ignoro o contexto dessa pergunta e as razões que o levaram a deixá-la sem resposta…

Certamente não foi por lhe faltar imaginação, mas acredito que não o faria sem penetrar no seu estranho mundo dos complexos.

De mim, acho que não é difícil acudir a esta indagação, se entender a mulher como uma criatura comum, que pensa como pensam os homens. Não será, portanto, necessário recorrer ao nebuloso mundo da psicanálise, para lhe destrinçar os complexos; nem à fisiologia, para lhe apontar diferenças orgânicas. A mulher pensa, e é o bastante para se saber o que ela quer.

De um modo geral, acho que a mulher busca, consciente ou não, a afirmação de sua individualidade, isto é: ser tratada e entendida como indivíduo, porque o resto são acessórios culturais, que, no fluir das civilizações, se ajuntam ao processo da existência. Aí varia, de lugar para lugar, de época para época, das circunstâncias, do momento histórico, porque essas condicionantes suscitam, nos indivíduos, desejos vários.

Que queria Maria ao assistir a seu filho marchar sob o peso do próprio cadafalso? Apenas poder para diminuir-lhe o sofrimento. Bem diferente de Cleópatra, tomada pelo desejo de conquistas mil, inclusive amorosas.  Que queria Agar, para dar a Ismael? Apenas o leite do pranto, para matar-lhe a fome. Que quer Xuxa, para dar a Sasha? O ouro do mundo, quem sabe… Que queria Salomé, na sua louca luxúria? Na bandeja, a cabeça do Batista. Que queria Florence Nightingale, sendo rica, ao ir servir espontaneamente na Criméia? Com a lâmpada da sua extrema bondade, salvar vidas. Que queria Pompéia Paulina diante da sentença de morte de Sêneca? Apenas não lhe negar, na hora extrema, a sua companhia, e morrer com ele, como prova de um extremo amor. E Imelda Marcos, que queria? Milhares de pares de sapatos, para calçarem os pés de sua extrema vaidade. E a pobre Angolana, que deseja? Apenas liberdade, para poder pisar, descalça, o seu amado solo, sem que minas lhe ceifem a vida. Como vêem, os desejos são diversos, porque as mulheres são indivíduos, e o que elas querem é apenas QUERER.

Fernando Guedes

Homenagem à Mulher, no seu dia.

8/3/2000

dez 1, 2010 - Fragmentos    15 Comments

Mensagem de Natal

Registra a tradição que três magos, do Oriente, seguiram uma estrela, até Belém, na Judéia, para a adoração do Messias… A lenda, que é a história imaginária, os tornou “reis magos”. Eram apenas astrólogos. Depois, quiseram fossem eles representantes das raças: Melchior descendente de Cham, africano, negro. Baltazar de Sem, asiático, amarelo, e Gaspar descendente Jafet, europeu, branco. E a América? Porque desconhecida dos homens de então, não adorou o menino-Deus… É assim, são os homens que fazem a história, ou criam as lendas…

Para a reverência, cada um levou o seu presente: Gaspar, o branco, deu-lhe incenso, reconhecimento à sua divindade. Baltazar, o amarelo, ofertou-lhe ouro, a realeza, a soberania, o interesse do mundo, Melchior, o preto, trouxe-lhe mirra, o atributo humano, que embalsama, na morte…

Depois, já temendo represália de Herodes, partiram… A humanidade seguiria o seu itinerário, rejeitando a simbologia daquele acontecimento, para encontrar-se com a cruz… Com as suas cruzes… O incenso e a mirra não suplantariam o ouro, pelo o qual o homem se perdeu…

Neste Natal, espero que comemoremos – posto que comemorar é trazer novamente à memória – o verdadeiro espírito daquele nascimento e as circunstâncias que o envolveram. Que nas nossas “adorações” tenhamos a exata dimensão dos atributos, para que o ouro não continue suplantando o incenso e a mirra, porque só assim a humanidade conseguirá aliviar o peso das cruzes, que tanto a oprimem.

Feliz Natal!

Dezembro, 2010

Fernando Guedes

dez 1, 2010 - Poligrafia    2 Comments

Rescaldo soturno…

Finalmente, compreenderam que não subiriam o morro sem o apoio de força militar… Depois de longas décadas, em que a política e o crime se uniram num consócio nefasto, para subjugar o Rio, e que essa subjugação levou a uma decadência moral devastadora, de uma elite fútil que disfarça, na orgia do samba e no vício da droga, sua própria indiferença, como numa crise aguda de abstinência, parece ter acordado de seu sono maldito de escravidão!

Depois do horror dos atentados terroristas, perpetrados nas barbas das autoridades, com cenas somente vistas em terra conflagrada, autoridades pusilânimes não tiveram outra saída: aceitou a força militar! Sempre tergiversaram, com a desculpa de que as forças armadas não foram treinadas senão para a guerra e, por isto, não teriam aplicação na conflagração do Rio. Como Haiti desmente fragorosamente essa absurda tese, porque são nossos soldados militares que patrulham favelas dominadas pelo crime organizado naquela desgraçada nação, mandaram vir os blindados… Estes, equipados com recursos para vencer as barricadas, essas mesmas construídas pelos marginais nas vias públicas, conduziram as tropas ao núcleo do conflito, na Vila Cruzeiro, com grande facilidade…

Como sempre negligenciam na estratégia, a retaguarda dos bandidos estava livre, para a fuga. Fugiram, sem dificuldade, para o Complexo do Alemão (conjunto de favelas cujo núcleo inicial existe há mais de 90 anos!). Um helicóptero de rede de TV, em vôo rasante, mostrou a horda fugindo apressadamente. É elementar: se fugiu é porque não houve interceptação eficaz, para deter-lhe a marcha. Deram um ultimato aos bandidos para a rendição, que não foi atendido. Decidiram avançar, no dia seguinte, para ocupar o Complexo do Alemão, e deu-se inicio à operação de captura: 33 toneladas de maconha; 235 quilos de cocaína; 27 quilos de crack; 1 metralhadora .50; 10 metralhadoras .30; 38 fuzis; 178 granadas e 55 bandidos presos, é o balanço até agora publicado.

Não tardaram as acusações de abuso de poder e agressões à população daquele caos urbano, por parte de policiais: casas saqueadas; utensílios domésticos destruídos; humilhação etc. As autoridades prometeram apuração e expulsão dos agressores…

A operação de ocupação das favelas Vila Cruzeiro e Morro do Alemão foi considerada pelas autoridades e pela mídia um sucesso, e há até quem ouse a extravagância de reputá-la a restauração da hegemonia do Estado. Pelo que estão dizendo, parece que os traficantes que não foram mortos ou presos se regeneraram com os estampidos das metralhadoras. O suprimento de armas pesadas sufocado, pelo controle rigoroso das fronteiras, com repressão eficaz do contrabando. Todos os usuários de drogas, esses que habitam o asfalto, no luxo da Vieira Souto e toda a badalada zona sul, num piscar de olhos, recuperados e abstêmios. Não colaborarão mais com tráfico, não comprando drogas…

Para além do ufanismo e da hipocrisia, há, dessa enganosa operação, um rescaldo soturno… Movida pelo sensacionalismo inconseqüente, a mídia publicou manchetes reveladoras, como aquela que diz: “As crianças voltaram a brincar na rua, e a policia continuou as buscas.” A ilustração dessa manchete é a fotografia de um menino descalço, no meio da rua, empinando uma raia e, ao lado, um policial de arma em punho. Que argumentação estúpida! Essa criança, que devia estar na escola, convenientemente vestida, e sendo instruída, estava sendo exibida, na rua, como um troféu da tranqüilidade conquistada pela favela. Seu futuro é discernível, pela sibila da cruel realidade que a rodeia…

Noutra página: “Alegria, Alegria – No tríplex do traficante Polegar a criançada aproveitou mais um dia de sol. E com um segurança particular de respeito desta vez”. A fotografia ilustrativa desta é da piscina do traficante, onde duas moças e um menino tomam banho, com efusiva satisfação, sendo observados por um policial armado de fuzil.

Outra: “Moradores fazem a festa com pertences dos traficantes”, noticia o saque de eletrodomésticos e outras utilidades. A iconografia mostra duas mulheres disputando a posse de uma TV Plasma de 50 polegadas. Aparelho de ar condicionado, geladeira, fogão e sofás também foram disputados, numa incivilizada vingança, por “honestos” favelados.

O imóvel em questão pertence, segundo afirmação da imprensa, a um chefe do tráfico, portanto devia, mediante ordem judicial, ter seu recheio inventariado e lacrado, para o confisco na forma da lei. Permitir sua invasão e o saque dos seus pertences, com o apoio policial, é moralmente tão grave quanto a ação com a qual os bandidos os amealhou, mas isto é exibido como se fosse a lícita vingança de uma população que ao próprio mal se habituou.

Eis o troféu dessa insólita conquista… Um rescaldo soturno sobrou dessa operação enganosa: sobre os escombros da miséria e da desorganização urbana medra uma moral utilitarista e uma honestidade relativa. Dominado por essa violência subliminar, que não dispara tiros, com ou sem bandidos, o Rio, para a minha tristeza, não tem mais solução.

Fernando Guedes

30/11/2010

nov 24, 2010 - Poligrafia    4 Comments

Como sempre…

Em agosto próximo passado a sociedade soteropolitana tomou conhecimento, pela mídia, de mais um episódio dessa nossa anárquica saúde pública… Uma criança de oitos anos fora levada do hospital São Jorge ao hospital Roberto Santos, pelo SAMU, para submeter-se a uma tomografia computadorizada do crânio. Feito o exame, este apontou grave hemorragia cerebral, fato que teria levado o médico transportador obter que a criança aí fosse atendida, por um neurocirurgião. Como a burocracia, nesses casos, sobrepõe-se ao socorro, quando se trata de pobre, aquela criança, que fora para fazer apenas uma tomografia, deveria tornar à unidade de origem, que não dispõe de neurocirurgião, para não tumultuar a organização da outra emergência, onde era um estorvo. O médico interveio e começou um ridículo episódio de agressões e desrespeito…

Reportagens dos jornais e uma carta publicada pelo médico na internet dão conta de atitudes que fazem corar o mais bárbaro senso de civilidade. Não sou quem busca a culpa sem me importar com o dolo, e sei quem deliberadamente assume, há muitas décadas, esse risco… Não acho que a imputação de culpa às pediatras, citadas nas reportagens, resolveria o caso. Também, não conhecendo a versão da outra parte, não sei até onde, com culpa, se houve o médico transportador. Essas culpas, contudo, seriam apenas culpas e, a meu juízo, subsidiárias, razão pela qual não revelariam os verdadeiros responsáveis.

Às autoridades, que permitem esse caos que se apossou da saúde publica há longas décadas, imputo toda a responsabilidade. Às faculdades, igualmente, por formarem médicos sem nenhuma visão humanística. À própria classe médica, também, por fingir não ver o que está diante dos seus próprios olhos há muito tempo. Estes são os verdadeiros responsáveis, por assumirem o rico deliberadamente da omissão de socorro.

Sabem como tudo isto principia? Ah! Não sabem? Eu posso lhe dizer um resumo… O acadêmico de medicina da atualidade, esse jovem voluntarioso e educado em regime de nenhum controle, com todas as regalias do conforto, que se embriaga até ao coma nas chopadas da turma, chega, por volta do quinto ano, a um pronto-socorro público para um estágio curricular em emergência médica (qualificado de internato), através de acordo entre Secretaria de Saúde (estadual ou municipal) e a Faculdade, que não envia preceptor (professor universitário) para acompanhar e instruir o aluno…  Este, depois de uma conversa com chefe de plantão, é distribuído para um dos setores do hospital, como mão-de-obra barata, e começa a trabalhar orientado por plantonista, que devia aí exercer regularmente a medicina, mas se extrapola para o exercício ilegal do magistério. Como a medicina é uma técnica, malgrado a pedagogia precária, aprende o que lhe ensina, e o toma como doutrina. Decora, na ponta da língua, consensos e protocolos. Aprende manejar aparelhos; absorve as regras do Advanced Trauma Life Support, com invejável proficiência. Instrui-se, com esmero, na arte dos “esquemas”, isto é: a técnica de desfalcar a equipe fingindo completude. Pergunta-lhe, a esse futuro “especialista”, qual é a diferença entre Ética e Moral, que difere uma norma Deontológica de uma Teleológica, qual a diferença entre a obrigação moral e a social, e se deparará com as duas vítimas desse horroroso contexto: vitima o paciente, porque ludibriada na sua confiança; vitima o estudante, porque ludibriado na sua formação. Alienado completamente das humanidades, segue esse presunçoso futuro “especialista” seu conturbado itinerário…

Tudo isto é sabido, de todos… Tudo isto é consentido, por todos! Antes da colação do grau, em que repete, sem nenhuma convicção, apenas para cumprimento de uma formalidade démodé, uma súmula ridícula do juramento hipocrático, a chopada final, uma espécie de confraternização iconoclasta antes de iniciar a vida profissional assentada sobre nenhuma deontologia. Eis o médico da atualidade: sobre uma riqueza de informações técnicas, uma pobreza humanística!

Não tarda muito, inserido num anárquico mercado de trabalho, onde a terceirização é a regra, com salários ordinários, ei-lo plantonista, contratado pelo REDA ou por uma Cooperativa (médicos explorando o trabalho de médicos), na mesma emergência, que o instruiu. Ali mesmo aprendera uma série de pressupostos, e logo, garboso, com o título Dr. bordado na algibeira  do jaleco, estetoscópio ao pescoço, os coloca em prática: “esta emergência é apenas para tiro e facada” (a cultura hegemônica do sangue!); “este hospital é referência  somente para trauma”; “apendicite é urgência e não emergência”, que pode ficar agudando a peritonite se generalizar, enquanto a regulação não opera a transferência para outra unidade; “fratura fechada, nem falar… nunca foi prioridade”; criança de 12 anos e 1 mês não é com a pediatria (o critério é o tamanho do leito); triagem pode ser feita sem o exame do paciente, que não precisa ser registrado no hospital, para facilitar o processo e não tumultuar o plantão; prontuário incompleto, sem as informações necessárias, sempre foi a regra. Tudo isto induzido e deduzido por médico! Mas, culpá-lo, somente a ele, por estado de coisas, seria o mesmo que culpar as árvores pelo incêndio na floresta. As árvores, que alimentam o incêndio, não o casam…

Os verdadeiros responsáveis pela precária assistência dispensada à criança, que fora declarada morta na terceira emergência (de sua trágica peregrinação), que o coma poupou de cenas estúpidas, jamais serão alcançados na sua responsabilidade. Eles não se mostram; não se vestem em branco; não penduram estetoscópio no pescoço. Estão escondidos nos palácios, nos luxuosos gabinetes, nas diretorias, nas gerências, nas reitorias, nas congregações. Com o jarro e a bacia sempre à sua disposição… E nunca se constrangem em lavar as mãos, como reiteradamente têm feito, em face do sofrimento alheio.

Os jornais noticiaram que o Conselho Regional de Medicina e o Ministério Público abriram sindicância para investir o ocorrido. Não sei se já chegaram a uma conclusão, só sei que nenhuma intimação chegará aos verdadeiros responsáveis, como sempre…

Fernando Guedes

24/11/2010

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