ago 9, 2011 - Poligrafia    3 Comments

Rumo ao subsolo…

Sir Willie Arbuthnot Lane, do Hospital Guy´s, em Londres, tornou-se o gênio redentor dos intestinos, como o professor Sigmund Freud, de Viena, foi deliciosamente o redentor do sexo.

Richard Gordon, in A Assustadora História da Medicina

 

 

Acabo de ler, na Revista ABM, na seção Farol das Estrelas, um intrigante relato. Fê-lo Dr. Izio Kowes, notável cirurgião, sob o título “Onde chegamos e para onde iremos?

Fora ele chamado, posto que de sobreaviso, num sábado à noite, para assistir uma doente, em situação de emergência (ao médico apraz fazer a distinção entre urgência e emergência, o que é somenos, porque está obrigado a socorrer sempre). Atendeu-a, executando procedimento para desobstrução do intestino, que durou cerca de três horas. Receberá pela prestação do serviço profissional R$ 42,00.

No dia seguinte, domingo, “por um golpe do destino”, disse ele, foi compelido a procurar um encanador para lhe desobstruir a privada (emergência evidentemente). O profissional não o atendeu no domingo. Nunca aos domingos… Resolveu-lhe o problema, na segunda-feira, em trinta minutos, pelo que recebeu R$ 150,00.

Fez o notável cirurgião, pelo que pude deduzir da leitura, uma comparação, para justificar o título do seu relato: “Onde chegamos e para onde iremos?

Não há negar, os médicos chegamos, pelas nossas próprias pernas, ao mais baixo degrau da dignidade profissional. Chegaremos, com a nossa persistência cínica, ao subsolo dessa dignidade, porque não há como, nesse estado de degradação que nos estiola, deter a descida. Não podemos, com os meios utilizados, alçar a um patamar mais elevado.

Permita-me, preclaro doutor, dizer-lhe, com toda a humildade de um velho clínico, já em retirada, amargando os sentimentos dolorosos de ver tão distante as profissões de fé numa profissão liberal, que as obstruções do seu relato, a do intestino e a da privada, são incomparáveis.  Assim como os casos não se prestam para a argumentação das mazelas de uma classe incapaz. Primeiro porque o cirurgião não é, no caso em tela, um profissional liberal, é prestador de serviço, por isto não recebe honorário. O honorário está na poeira de um passado muito distante, quando o médico cobrava em face da condição econômica do seu paciente, sem se submeter ao absurdo dessas tabelas, que desonram tão sagrado mister. O encanador, no caso, é que é o profissional liberal, que sabe e pode valorizar o seu trabalho. Não precisa implorar por reajuste em ridículas tabelas, decreta, ele mesmo, o aumento dos seus valores. Manda em si mesmo, ao contrário do médico, que se avilta, nos “esquemas” tão corriqueiros (evidentemente não é o caso do cirurgião), para obter, por essa via transversa, a ilusória valorização do seu trabalho.

O aspecto mais significativo desse caso, entretanto, não é o econômico, é o moral. O cirurgião cumpriu uma obrigação moral, o encanador uma obrigação social. Que difere uma da outra? A obrigação moral, contraída em face do dever, é inescusável. Deixar de atender um paciente estando obrigado a fazê-lo, pela condição do sobreaviso, ônus contraído livremente, suscita sanção ética e jurídica. O médico, nessa situação, estará sempre obrigado.

A obrigação social, contraída em face da conveniência, sem nenhuma relação com o dever, é escusável. O encanador não está obrigado a desobstruir nenhuma privada, porque não o  impele nenhuma norma deontológica ou jurídica. Atende se quiser.

O médico, obrigado, veja o paradoxo, na atualidade, não tem a faculdade de cobrar o que julga merecer, porque presta serviço a plano de saúde, que obedece a ridícula tabela aceita pelas chamadas entidades médicas. Foi-se o profissional liberal que era: já não o é! O encanador, desobrigado, cobra o que acha que merece, porque não permite que intermediário nenhum comercialize o seu trabalho. Vende-o ele mesmo. Explora-o. Não é, como o médico, explorado. Eis a diferença! Assim, continuaremos descendo, rumo ao subsolo…

 

Fernando Guedes

8/8/2011

 

 

3 Comments

  • Caro amigo Fernando,
    bom dia.

    Mais uma vez, eu e Rita nos deliciamos com sua inteligência ao narrar fatos da vida cotidiana e nos conduzir a sérias reflexões.

    Para novas reflexões, permito-me acrescentar:

    – de fato, o encanador não está ganhando mal, quando atende e soluciona uma emergência que o médico não seria capaz de resolver;

    – pode cobrar o quanto vale o seu trabalho pois não está credenciado por nenhum Plano de Manutenção de Privadas ou Similares;

    – além do mais, não necessita pagar anuidades para que alguma instituição defenda os interesses da sua categoria.

    Quanto à remuneração (???) do médico, nos mais diversos procedimentos, recuso-me a comentar.

    Daqui de Natal, com retorno, hoje, para Salvador.

    Com um abraço fraterno.

    Glauco

  • Caro amigo e colega Dr. Fernando Guedes,
    Estou de pleno acordo com tudo que disse com muita propriedade. Eu estou cansado de falar com os colegas que todos deveriam se descredenciar dos planos de Saúde, tenho certeza que as coisas melhorariam.
    Abraços,
    Camilo.

  • Fernando,
    mais claro, impossível !

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